segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

2015 e já show do Tom Zé !!!


O show do Tom Zé que assisti esse fevereiro , ao contrário daquele de novembro de 2014, foi um clássico show do Tom! Com muitas piadas, muitas gracinhas (usou até uma calcinha!), músicas clássicas do repertório dele e terminou com Xique xique... que saudade! Depois de tanto tempo ele tocou até Ogodô, que era meio que uma vinheta dos seus shows ... 
Como eu amo Tom Zé Emoticon heart

Bob Marley e uma perceptiva mais calma na vida ...


ANDO OUVINDO MUITO BOB MARLEY (só isso, ok?) porque acho o som muito bom e me lembro desse trecho do romance de Schertenleib, mas acho que não sou (ou não estou) tão sensível a ponto de me "mover de maneira mais mole e leve" (rs), mas que é um alívio sonoro, isso é ... e ai, nada é tão sério assim, sacam? 

"Por reggae eu nunca tinha me interessado, nem mesmo durante meus anos de haxixe; naquele tempo, eu ouvia um complicado jazz rock, que andava no encalço de meus pensamentos como o cão faz com o gato. O riso sardônico que se escancarou em meu rosto quando toquei o CD de Marley pela primeira vez me mostrou que eu havia encontrado o que tanto tempo estivera procurando: sossego, serenidade. Não ouvia mais nada diferente, apenas reggae; comecei a  me mover de uma maneira mais mole, leve, enquanto meus ossos pareciam mais pesados, mais arredondados. Tornei-me o flâneur sereno a vaguear dentro da própria casa. Deixava o telefone tocar, desliguei a secretária eletrônica e acompanhava com o ouvido as batidas desaceleradas do meu coração.
Será que todos os papagaios odeiam reggae? O  papagaio Vian em todo caso se punha a dar gritos estridentes e pulava para cima e para baixo batendo as asas assim que começava a tocar Bob Marley. Como  isso, no caso, acontecia praticamente dia e noite, o pássaro levava uma vida difícil  : o que mais lhe agradava era estar no alpendre ao lado da porta de entrada, lá ele se via a salvo de Marley. E eu de seus berros. Comecei a usar a porta dos fundos para evitar o pássaro magoado e seu olhar triste. A mim a música fazia bem. Eu sorria, zombava. Sem razão? Isso é coisa para os outros quebrarem a cabeça, dizia a mim mesmo e, com minha alegria, deixava perplexos vizinhos incapazes de desfrutar da sua."
Hansjörg Schertenleib "A orquestra da chuva", p. 73-4 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Que todas as crianças tenham alguém para cantar uma canção de ninar ...

https://www.youtube.com/watch?v=duDYz9L5JTA
"O Acalanto, esta canção, é uma canção nascida de uma velha cantiga de ninar que eu aprendi na minha Bahia, desde criança. Talvez os meus avós, os meus pais certamente foram ninados com esta canção, com este acalanto, então eu fiz, aproveitando este acalanto do Boi da cara Preta , fiz o acalanto, isto ninando a minha filha Nana, a minha primeira filha, e numa noite feliz, porque saiu uma canção doce, bonita, como um canto de ninar, uma canção de ninar. Então o Acalanto é uma canção muito terna pra mim e que não só lembra a minha filha pequena, como meus outros filhos, meus amigos, meus netos, filhos dos meus amigos e todas as crianças da minha Terra QUE EU DESEJO QUE SEMPRE TENHAM ALGUÉM PARA CANTAR UMA CANÇÃO DE NINAR." Dorival Caymmi

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

IGUAL COMO? ´Ricardo Aleixo (via Facebook)

pai.
que foi?
você é tão velho. você foi escravo?
fui não, filho. fui não. nem meu pai foi.
e sua mãe?
também não.
e a mãe dela?
foi não. nem o meu pai.
mas quem foi escravo na nossa família? alguém foi?
não sei direito. pode que o pai do pai do pai do meu pai
tenha sido. ele e a mulher dele.
eles eram meus o quê?
seus nada. pois se você nem era vivo ainda.
você conheceu alguém que já foi escravo?
tinha uns velhos lá em nova lima que andavam sempre em bando. o povo comentava que eles tinham sido escravos.
e tinham?
eles não falavam sobre isso. eles não falavam era sobre quase nada. agora eu posso ler o jornal sossegado?
pode. pai.
posso ou não posso ler meu jornal?
escravo é gente ou é bicho?
é gente. ora essa. gente igual todo mundo.
igual como?
é gente igual todo mundo. só que faz coisas que ninguém mais quer fazer.
então escravo é isso.
é. é não ter vontade própria. fazer só que o dono quer. o que o dono manda. no fundo, meu filho, todo mundo é um pouco escravo.
você também?
eu também.
então por que é que disse que não foi escravo?

domingo, 25 de janeiro de 2015

Conto: A despedideira - Mia Couto

"Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.
Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém. Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.
Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeirissímo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comercia palavra, em negoceio de sentimento. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra e me divinizei. Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada
Lembro desse encontro, dessa primogénita primeira vez. Como se aquele momento fosse, afinal toda minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma tarde boa para gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por a parava. A brisa sem voar, quase nidificava. Vez voz, os olhos e os olhares. Ele, em minha frente todo chegado como se a sua única viagem tivesse sido para a minha vida.
No entanto, algo nele aparentava distância. O último escapava entre os seus dedos. Não levava o cigarro à boca. Em seu parado gesto, o tabaco aí mesmo se consumia.
Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha àquela cinza. Desabei inteira sob o corpo dele Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas.
Nesse mesmo pátio em que se estreava me coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara. Sem mais nada, nem outra mulher havendo Só isso: a murchidão do que, antes, florescia. Eu insisti, louca de tristeza. Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar. Ele se chegou me beijou a testa. Como se faz a um filho, um beijo longe da boca. Meu peito era um rio lavado, escoado no estuário do choro.
Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.
Deixem-me agora evocar, aos goles de lembrança. Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.
Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que surja assim, agora, distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado.
Pedi-lhe que viesse uma vez mais. Para que, de novo, se despeça de mim. E passados os anos, tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda choro como se fosse a primeira despedida. Porque esse adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu. Um adeus à medida de meu amor.
Assim, ele virá para renovar despedidas. Quando a lágrima escorrer no meu rosto eu a sorverei, como quem bebe o tempo. Essa água é, agora, meu único alimento. Meu último alento. Já não tenho mais desse amor que a sua própria conclusão. Como quem tem um corpo apenas pela ferida de o perder. Por isso, refaço a despedida. Seja esse o modo de o meu amor se fazer eternamente nosso.
Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada, Ninguém no plural.
Ninguéns."

Mia Couto, In O Fio das Missangas

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Escrevendo a lápis de cor : Infância e história na escritura de Guimarães Rosa


Acaba de se tornar disponível para download a minha tese de doutoramento "Escrevendo a lápis de cor: Infância e história na escritura de Guimarães Rosa.
Para acessá-la, clique AQUI.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A importância da História

Quando foi publicado o último livro do historiador Darnton no Brasil até agora, se não me engano no final de 2013, como sempre eu li com muito prazer, até citei na tese que estava terminando de escrever. Lembro-me de ter estranhado o contexto do livro, achei que só mesmo em uma sociedade bem diferente da nossa (como era a da Europa na época moderna, como Darnton sempre afirma) , que a polícia iria investigar, buscar e prender, cantores de rua que haviam composto CANTIGAS SATÍRICAS CONTRA O REI, isso me pareceu algo tão estranho, na sociedade da Liberdade de Expressão. Mas infelizmente, segundo os últimos acontecimentos com o Charlie Hebdo, minhas impressões estavam um pouco equivocadas.
História é fundamental, entendem?