segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Ebook Cinemas Africanos Contemporâneos (LINK)

 


CINEMAS AFRICANOS 2021 

O E-book gratuito  sobre a mostra de cinemas africanos 2020. A live de lançamento foi sábado (com as organizadores comentando cada texto), mas só consegui assistir agora e é incrível como eu "garrei amor" em cada um desses filmes, como ter assistido tantos, tantos (de forma inimaginável para mim, nunca tinha acontecido antes) e esse mergulho foi mesmo uma entrada na África mais concreta (embora a partir de filmes), depois dessa experiência comecei a ver tudo africano de outra forma, sejam pessoas, sejam livros, sejam filmes, foi uma experiência antropológica radical e esse livro é a cereja do bolo. Na medida em que as organizadoras  foram comentando cada texto e eu fui reconhecendo mais ou menos do que elas estavam falando, eu fui ficando de coração quente: Quero ler todos os textos! Super recomento! Obrigada Mostra de Cinemas Africanos, obrigada CineSesc!

O link da live de lançamento está aqui 

O link para baixar o livro está aqui ou aqui 


"Omo-Oba Histórias de Princesas", de Kiusam de Oliveira:Venceu a luta contra o Index no século XXI

Como prometido, agora eu vou tratar desse livro DESLUMBRANTE! Para resumir do que se trata, peço permissão para citar sua sinopse na Amazon:

"Omo-Oba: Histórias de Princesas é um livro que privilegia o recontar de mitos africanos, muito divulgados nas comunidades de tradição ketu, pouco conhecidos pelo público em geral e que reforçam os diferentes modos de ser femininos. Os seis mitos apresentados têm o objetivo de fortalecer a personalidade de meninas de todos os tempos."  

Como tinha falado antes, as histórias de reinos e principados são muito importantes para crianças, isso tem relação com a construção da identidade e quer coisa mais linda do que "se ver" representado (a) nas ricas ilustrações de Josias Marinho? Visualmente o livro enche os olhos, é grande e colorido, com algumas das mais belas representações de crianças negras e de cabelos crespos que eu já vi, trançados ou não, que vontade que dá de fazer um cafuné nas princesinhas!

A autora, Kiusam de Oliveira é uma educadora  paulista negra, engajada na valorização da sua afrodescendência para encontrar caminhos plenos, ainda que diferentes.

Como eu tinha postado aqui outro dia, a dedicatória do livro começa emocionando 

Mas o livro chamou a atenção do país porque me lembro desse episódio envolvendo a obra :  em 19 de março de 2018 (período de censura, de apelação pela "Escola Sem Partido", época do mergulho no pensamento fascista, algumas obras destinadas ao público infantil  chegaram a ser censuradas, incluvise esta:

 "FIRJAN informava que a obra “Omo-Oba: histórias de princesas” de Kiusam de Oliveira, publicado pela Mazza Edições, seria substituída por outra obra, atendendo às reclamações de alguns pais de alunos que frequenta a Escola SESI unidade Volta Redonda. "

A sorte foi que Kiusam denunciou nas redes sociais e devido a tanta pressão, a obra pôde circular.

Suponho que o incômodo dos pais tenha sido pelo texto de apresentação, onde Kiusam afirma que o livro tem o objetivo de "empoderar as meninas".Piiiii: "ideologia de gênero": vamos censurar! Ainda bem que não deu certo, porque o livro é lindo, contando seis mitos iorubanos sobre meninas que eram forças da natureza, depois princesas, e depois se tornaram dividades. 
Se eu, criança, tivesse lido esse livro, não posso nem imaginar o tamanho do meu encantamento. 
Vou colocar uma representação de cada princesa como aperitivo (no livro tem mais e muito lindas)e se tiverem como, leiam essa obra deslumbrante:

Oiá e o búfalo interior
Oxum e seu mistério
Iemanjá  e o poder da criação do mundo 
Olocum e o segredo do funo do oceano

Ajê Xalungá e o seu brilho intenso
Oduduá e a briga pelos sete anéis




domingo, 7 de fevereiro de 2021

Igbo e as princesas, de Marcos Cajé, ilustrações de Iara F. Lindback

Capa de Igbo 


Estou imersa nas culturas africanas há algum tempo, bem antes da confirmação de que meu DNA misturado é 36%  vindo de vários lugares de África. Conhecer gente preta, conviver com elas, frequentar seus lugares, ouvir suas músicas, assistir seus cinemas e ler suas literaturas vem me mostrando a riqueza construída pelos meus ancestrais que vem ficando cada vez mais intenso!

Pois bem, como pesquisadora de História da Infância e juventude minhas pesquisas sempre se voltaram para as meninas, seu universo e representações. Para falar de meninas africanas, não pude deixar de pensar que elas, no imaginário de grande parte da cultura tribal africana, eram primeiro elementos da natureza, depois nobres rainhas e princesas! Se a história de reinados é atraente para as crianças, lembrar que além dos “contos de fadas”, a África também tem muitas histórias de princesas. Conhecer essas peculiaridades é fundamental até para a História do Brasil, pois se agora sabemos, graças  à pesquisas recentes,  que quando africanos vieram para serem escravizados aqui, também vieram nobres. Está na canção de Zumbi de Jorge Ben:

Aqui onde estão os homens

Há um grande leilão
Dizem que nele há uma princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados em carros de bois

O destaque para as princesas negras é, penso eu, muito importante para as crianças  afro-brasileiras, reforçando sua identidade e abrindo o leque de percepções para a diversidade.   

Por isso eu comprei o lindo livro infantil “Omo-oba história de princesas”, escrita pela educadora paulista e afrodescendente Kiussam Regina de Oliveira. Depois vou escrever um post só para ele, mas por hora devo explicar que comprei pela Estante Virtual e, quando chegou, fui abrir e não era o livro que comprei! Era essa belezinha aqui. O vendedor se confundiu com o lance das princesas e acabou me enviando o livro errado, depois trocou, mas me deu a  oportunidade de ler essa bela historinha.

Marcos Cajé segurando seu lindo livro 

Falando a  partir de tradições da etnia Igbo da Nigéria, o livro conta a história de um rei que queria muito ter filhos mas sua rainha não conseguia engravidar. Embora em seu reinado ele mantivesse um “ministro místico”, o rei não era uma pessoa de fé, mas sua rainha o aconselha a consultar o IFÁ  (oráculo africano) para saber o que poderiam fazer e, com a ajuda dele acaba tendo duas lindas filhas, princesas africanas que ele protege muito. O nome delas ninguém sabe, pois o “ministro mítico” já tinha avisado que as palavras pronunciadas eram poderosas e esse poder poderia se voltar contra as princesas.

Na medida em que elas vão crescendo, o rei começa a pensar em quem vai confiar para permitir que se case com suas princesas, chegando a formular um desafio: só se casa com uma das princesas aquele que tiver sabedoria o suficiente para descobrir o nome delas.

Não vou explicar como (deixo para sua leitura futura uma das partes mais legais da história), mas o jovem Adjo consegue resolver esse mistério, se casa com uma delas e aceita a outra como irmã.

Uma história linda, ricamente ilustrada, para encher os olhos vivos das crianças afro-brasileiras que podem, sim, se sentirem representadas pelas princesinhas nigerianas, tanto quanto (ou até mais) nos sentimos pela Cinderela, Branca de Neve e (no meu caso ) Bela Adormecida.
       

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Live "Tempo de Érico" com Itamar Viera Junior e Paulo Scott, no site do IMS



Mais um presente que a quarentena me deu! Quando que eu ia ouvir os meus novos autores queridos falando ao mesmo tempo e poder até conversar com eles por pergunta e resposta no site. Momentos únicos!
Registro do evento 

Para ambos os atores, os mais  comentados da leitura contemporânea, foi lindo saber o quanto Érico Veríssimo (cujo acervo está aos cuidados do IMS) foi forte referência, para Itamar pela questão da lavoura e para Scott, por serem dois autores gaúchos.
*
ITAMAR : Obra de Érico traz questões que não se esgotam, fala de Cruz Alta, de Porto Alegre, mas para tratar de questões humanas: Sul era personagem, não apenas cenário.
O tempo e o vento é obra mosaico, começa tratando da fundação nos 1700, história do desbravamento e pois debate político: o importante é o conjunto da imensa saga.
*
SCOTT:  Quando era adolescente  sentiu que a vida não fazia mais sentido, e que talvez isso se resolvesse se ele fosse um escritor, mas ele sabia que não tinha talento para tando, então uma amiga recomendou que ele imaginasse estar tendo um diálogo com um autor importante para o RS e ele pensou logo numa conversa com Érico, uma grande referência.
*
Scott trouxe a questão de como alguns autores muito lidos, como o Érico ou o Jorge Amado, são praticamente ignorados pelos críticos acadêmicos, e como até mesmo os estudantes de letras são levados a abandonar a leitura de autores muito populares e, com isso, perdem muito.
Eu lembrei, e cheguei a comentar  no chat, que ao contrário do curso de letras,  dentre os historiadores já se tentava fazer leituras históricas da oba de Érico, até coloquei a referência de um livro que eu vou querer ler, assim que eu reler o Tempo e o Vento :

ÉRICO VERÍSSIMO: O ROMANCE DA HISTÓRIA.
De: Sandra Jatahy Pesavento, Jacques Leenhardt, Lígia Chiappini, Flávio Aguiar.
 Editora: Nova Alexandria.

ÉRICO VERÍSSIMO: O ROMANCE DA HISTÓRIA. De: Sandra Jatahy Pesavento, Jacques Leenhardt, Lígia Chiappini, Flávio Aguiar. Editora: Nova Alexandria.

Ficou a dica! Amo!

                                                *

Mas o melhor momento mesmo foi esse :


Não é uma resposta linda? Melhor do que eu esperava.

Disse também que personagens de O tempo e o vento fazem parte do seu imaginário de escritor e quando quis escrever um personagem neutro, chamou de "A. Terra", referência a Ana Terra. Ele também disse que em sua casa na chapada, no fim da tarde, parece que ouve os sons dos ventos, da roca dos Terra Cambará.

Agora estou escrevendo aqui, fico tão feliz com esses diálogos, vocês nem sabem. Eu achei linda a resposta e fiquei tão feliz de dialogar com os autores, mesmo na enlouquecedora  quarentena, obrigada vida! 

                                            *

Ao final Paulo Scott, com aquele delicioso sotaque gaúcho, nos deu uma dica para a vida:

"SOBREVIVER DEMORA" Paulo Scott  



 

sábado, 30 de janeiro de 2021

"Mil Nações moldaram minha cara" : Resultado do meu teste de ancestralidade


 Quem me conhece um pouco mais sabe que a questão da minha origem é meio que um assunto tabu para mim, sobre ele não falo, não procuro, muito ao contrário, por muito tempo até cheguei a fugir dele, quando ele se apresentava em minha frente.

Daí que sempre achei que essa fosse a grande busca de minha vida, minha missão e eu a rejeitava rejeitei toda a vida.

 

É um caso muito delicado, é mexer naquele primeiro abandono, que é uma ferida que nunca cicatriza, nem casca protetora cresce nela, está sempre à flor da pele. Pouca gente entende quando eu digo, por isso eu parei de me justificar, porque eu sei que é um assunto que eu tenho que resolver comigo mesma. Por isso :

“Não escrevo, não falo! – para assim não ser: não foi,não é, não fica sendo!" Guimarães Rosa,  GS:V

 

Mas a verdade tem sua própria força e, eventualmente, alguns fragmentos chegaram até mim, fiquei sempre muito assustada, em pânico mesmo. Mas um dia a gente tem que dar um passo em direção a essa origem. Não estava nos meus planos, claro, mas ganhei um dinheiro de presente de Natal, nada demais, mas com um pouquinho mais que eu tinha  guardado pois  quase não gasto nada na quarentena, então  dava para eu comprar um teste de DNA Global no Genera.


Na virada do ano essa ideia me passou pela cabeça e eu senti que era a grande oportunidade. Será que eu teria outra chance depois? Pensei muito nisso e, num rompante, como se estivesse fazendo a maior coisa da vida, fui lá e comprei já nos primeiros dias de 2021. No caderno da minha história e da minha ancestralidade, essa página em branco ia receber seus primeiros traços. Minha ideia era não falar disso nunca com ninguém, se não narro, não é.

 

Achei que ia ser fácil, que ia passar logo e que não ia ficar ansiosa. Mas não foi.Perdi o sono várias  vezes, me senti culpada por estar indo atrás dessa informação, como se fosse uma traição à minha família adotiva, chorei.

 

Não tinha muita ideia do que ia sair, mas apostava que era muita mistura e desejei muito, muito (mas jurava que era impossível) que saísse Etiópia. Imagina se não saísse a África? Como minha intuição, meu sentimento de pertencimento, meu espiritual iria ficar? Quase enlouqueci!

 

Assisti a vários vídeos no Youtube de pessoas que tinham feito em laboratórios no Brasil e no exterior, cada um tinha um motivo: conseguir visto europeu ; curiosidade, no caso dos asiáticos ; no caso dos negros aproveitar a oportunidade para saber um pouco mais da história dos antepassados, coisa que  a maioria não teve, não tem. Para esses últimos o caso parecia mais sério, todos relataram estresse e uma vontade de relatar aos outros a sensação de ter, enfim, parte de de seu passado desvendado e com isso me identifiquei demais: Na hora da coleta da saliva, achava que eu tinha feito errado que não iam conseguir fazer  o exame. Como demorou exatas três semanas (tinha visto gente relatar que saiu bem antes), tinha certeza que tinha dado erro. Mas não deu erro. 

Enfim recebi o resultado em 29 de janeiro de 2021.

Antes de falar do resultado, devo alertar para uma questão que eu vi desenvolvida no Youtube em vídeos como esse e esse  e  fiquei pensando que o laboratório faz o exame e comparam com os dados que eles têm, certamente deve haver lugares que eles podem não ter os dados. Por esse tipo de detalhe que digo que os resultados são inquestionáveis, mas a interpretação eu, como historiadora, posso fazer outra, como vou fazer aqui.  

Eu sou mestiça, sei disso, e já imaginava que a maior parte do meu DNA fosse proveniente da Europa (tinha visto muitos casos assim no Youtube, com pessoas com traços negros mais evidentes do que eu,mas com ancestralidade européia, como esse,) minha curiosidade e tensão era sobre a África mesmo.

O Lab Genera responde resumidamente  que 53% da minha ancestralidade  é proveniente da Europa e 33% da África, num total de 86% dessas regiões. Para eles essa informação está ok. Para mim não.

Ainda no geral, o resultado final foi assim(gosto de ver a marca colorida da minha linhagem no mapa mundi):


E agora com mais detalhes :


É muito lugar, né? Para o recorte do Genera, as pelo menos 5 gerações analisadas teriam passado por dezesseis regiões! Isso é que é GLOBAL! Confesso que fiquei feliz ter aparecido tanta África, quase tudo do centro para o norte, inclusive o Chifre da África, região da minha amada Etiópia! Sim, eu tenho a Etiópia do meu DNA, 3% do total, mas tenho: AMEI!

Mas gostaria de separar um pouco mais, vejamos os lugares que “pontuaram” melhor:

25% Ibéria (Portugal Espanha)

13% Europa Ocidental (França,Áustria,Inglaterra, Alemanha, Suíça, Bélgica)

12% Oeste da África (Angola, Camarões, Gabão, Congo, Guiné Equatorial)

11% Costa da Mina (Nigéria, Gana, Togo e Benin : forte de São Jorge)

8% Itália

7% Leste da África (Tanzânia, Quenia, Malawi, Moçambique, Zimbabue, Zâmbia,parte da África do Sul)

4% Amazônia (Equador, Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela e norte do Brasil)

3% Basco(extremo da Espanha); Volga-Ural (Rússia);

     Leste Europeu(Estônia, Lituania, Polônia, Eslovaquia, Hungria, Ucrânia);

    Chifre da África (Eriteia, Etiópia, Somália)

    América Andina (Cordielheira dos Andes)

    Ásia (Japão/Coreia)

    Megrabe (Argélia, Libia, Marrocos, Tunísia, Mauritania)

2% Patagônia (extremo sul da América Latina)

Europa 5 regiões

África  5 regiões

Agora a gente volta a dividir o geral: Meu DNA é dividido a entre Europa e África, mais especificamente entre a Ibéria e Oeste da África (de onde vieram pessoas para serem escravizadas). Sim, meu DNA é um retrato da colonização no Brasil, eu vi esses dados e pensei nos tantos estupros, explorações, roubos e toda arbitrariedade que os colonizadores promoveram por aqui e que esses também fazem parte da minha ancestralidade e talvez esse passado de abuso e violência explique tanta fragmentação! Não sei!

Eu posso entrar em contato com pessoas que compartilham meu DNA, que lindo, mas no meu caso os possíveis “parentes” mais próximos seriam no máximo primos de terceiro grau. Será porque sou muito “dividida”? Será porque a maioria dos descendentes de africanos não teve ainda acesso a esse tipo de teste e, como sabemos, tiveram sua história apagada. Acho que  as duas coisas.  

O mais bacana de tudo é que agora é certeza: TENHO SANGUE AFRICANO, SIM , e não é pouco! Eu não sou paquistanesa,nem indiana, nem afegã, meu Dna é mestiço europeu/africano e essa revelação  foi um grande presente que meus orixás me deram.

Agora já sei que não vim do nada, que tenho mesmo ANCESTRALIDADE, como eu sentia desde sempre! Isso é lindo, vocês não acham?

Para concluir: carecia de ter coragem e eu tive, passei pela travessia da busca da verdade, não foi fácil, mas me deu força suficiente para narrar aqui no blog (imagina a ousadia) sobre um tema tabu! Agora superei!

Me sinto uma nova mulher, mais

CAMILA (nome que evoca a história do meu nascimento) ZAHABE (nome que eu escolhi para mim e agora foi legitimado, pois tenho um pouco de  DNA etíope sim, e por fim RODRIGUES  (herança ibérica que ganhei da minha família adotiva!)
Termino citando a dedicatória de um livro infantil sobre qual comento aqui depois e é tudo o que eu queria falar aos meus antepassados agora:

“Aos meus  ancestrais que me convocaram a

esta viagem incrível à Grande Mãe Terra,

com o propósito de divulgar seus maravilhosos feitos” (Kiussam de Oliveira)

 

 

 

 




sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Ler os clássicos: companheiros na vida e as palvras- cantiga de Rosa

 


COM LICENÇA ÍTALO CALVINO - O seu "Porque ler os clássicos" é mesmo estupendo, mas eu apostaria numa definição mais enxuta: Ler um clássico é ter com quem contar na vida. Na hora que vida se apresenta inteira pra gente, que exige que a gente se mostre como a gente é , que a gente fica "bêbado de eu" etemos que nos posicionar e nunca estamos prontos... é dele que a gente lembra, que nos ajuda. É na hora que o demo (nos crespos do Homem) não queria existir, não vem, mas a gente sente que ele nos ouviu, a hora que a gente vai passar de um rio calmo para o São Francismo e não sabe nadar, mas carece de ter coragem... é assim!

Obrigada pela vida toda Guimarães Rosa



"PALAVRAS-CANTIGAS"- Em geral, minha leitura de Guimarães Rosa (seja das obras, seja dos manuscritos), tudo está centrado no lúdico , no ouvir e no cantar, ou como diz um personagem de "Cara de Bronze"(novela toda rendada de  cantigas sertanejas), a viagem da obra rosiana é para "buscar palavras-cantigas" . Desde sempre Rosa foi para mim como uma cantiga de ninar, até mais que o escritor eruditismo por quem me apaixonei depois, ainda muito nova ele já  era Joãozito, que "cantava" comigo. Pesquiso, independentemente, a escrita de Rosa desde 2001, quando assisti meu primeiro curso sobre na USP, por isso ainda antes de entrar no mestrado em 2005, eu já tinha ministrado uma oficina sobre ele para crianças na Escola Lumiar, na qual a ideia era justamente a de "brincar" com Rosa. Ideia que aquelas crianças (iletradas ou em fase de alfabetização) aceitaram de cara. Quando eu mostrei o Léxico de Guimarães Rosa uma delas perguntou : "Como ele pôde criar tantas  palavras? Deixaram ele fazer isso?"  rs
Eu espero mesmo que, depois, quando Rosa aparecer como obrigação em suas vidas escolares, elas pelo menos se lembrem que brincávamos com ele nas tardes de quarta feira entre 2004 e 2005.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

O livro certo: Expectativas pré leitura

 Tinha comprado dois livros na Estante Virtual, ambos chegaram entre ontem e hoje. Um deles veio errado 😔

Esperava uma capa com as princesas Iabás, que viraram divindades
 e recebi essa aldeia de filme de Sembéne. Nada é por acaso!

Comprei o infantil  "Omo-oba:histórias de princesas" de Kiussam Oliveira, mas recebi "Igbo e as princesas" de Marcos Caje! Achei que tinha comprado errado, mas foi o vendedor se enganou. Disse a ele que  gostei de "Igbo" também, mas queria mesmo o "Omo-oba", que comprei.  Aí ele disse que enviará um motorista com o meu livro e que levará o que veio errado. A ver. Antes dele vir vou ler esse livrinho Igbo e se achar interessante, em tempo, comento ele aqui. 😉


Mas ontem recebi outro livro, esse o romance da vez: A linda edição de "Hibisco Roxo", da nigeriana  Chimamanda Ngizi Afichie. Escolhi ler esse livro mas sem muita expectativa. Queria ler algo diferente, pensei num autor coreano, japonês... Fiz até pesquisa e tudo (adoro os canais literários no YouTube), mas me dei conta que, apesar do mergulho nos cinemas, ainda não leio literatura africana, por enquanto. Outro ponto que me levou a essa escolha foi o básico: nem tanto por querer, mas quase nunca animo de ler autoras. Tenho  que mudar isso. Então quis ler não apenas um autor africano. Eu poderia ter escolhido um romance de Sembéne, ou o próprio José Luandino Vieira -queria ler o romance que inspirou o filme Sambizanga, que tanto amo - , mas ai seriam vozes masculinas, só que africanas. E as mulheres?

Chimamanda Ngozi Adichie  

Então, para começar, escolhi ler a bela Chimamanda, nessa edição lindíssima, que conheci pelos discursos "O perigo de uma história única", que assisti no curso sobre cinemas africanos ano passado ou mesmo o "Nós deveríamos ser todos feministas", que é muito comentado e até inspirou a canção Flawless, da cantora Beyoncé (que não me atrai musicalmente, enfim). Eu conheço, inclusive, a crítica de alguns africanos sobre tantas colocações dos afro americanos, não é qualquer coisa que passa na minha garganta, mas Chimamada é africana, não afro americana, e isso deve fazer muita diferença (espero). Então até sei quem é a autora, sei que ela é engajada e tal, mas antes de começar a ler o livro, destaco que minha expectativa é literária, então eu ESPERO QUE ELA ME CONTE UMA HISTÓRIA, que seu livro não seja mais uma Palestrinha. A ver...