domingo, 2 de setembro de 2012
domingo, 26 de agosto de 2012
Mais de Le Clézio
“Ujine imagina que, em toda
aquela cidade, talvez exista alguém que pense nela. Samuel, do tamanho de uma
ameba, do tamanho de uma cabeça de alfinete. Se ela o chamasse, se gritasse seu
nome, será que ele escutaria? Se pensasse nele intensamente , comprimindo as
têmporas nas mãos, será que ele se mexeria na cama, durante o sono, e olharia
na direção do horizonte? Ele a veria nos seus sonhos?
De repente, a uma pontada no
epigástrico, ela se dobra ao meio. Não
contava com isso agora, a lembrança chega com violência, domina-a, sufoca-a.
Gemendo um pouco, ela sente lágrimas subindo de todo o seu corpo para
transbordar em suas pálpebras e escorrer para a boca. Com Samuel, ela está
naquela estrada que serpenteia na bruma ao longo do mar do Norte, atravessando
as colinas de eulálias. Lembra que nem sabia esse nome, chamava aquilo de
capim, e Samuel tinha explicado, dando até mesmo o nome latino , que era planta
do Japão ou da China. Um nome tão delicado, eulália, ela achou lindo. Samuel
parou o carro numa clareira, no final da estradinha de terra. Juntos, através
do para-brisa crivado de gotinhas, os dois espiam os retalhos de bruma a
rodopiar entre as plantas. A luz do dia que amanhece pincela o céu de um brilho
intenso, multiplicado pelas gotas de orvalho.Os talos altos, leves, flexíveis,
estão imóveis e exultam. Não há barulho ao redor. Ujine, ouvindo a vibração do
coração, encosta o ouvido no peito de Samuel para escutar o ritmo que está na
mesma cadência, uma batida breve, outra mais longa... É um momento de felicidade
que ela acredita jamais ter acontecido antes. Pensa em tantos anos de solidão,
na morte da mãe no hospital, na angústia de te de trabalhar, ter de encontrar
um lugar no mundo. Ela não fala nada, ele também fica calado, ela sabe que o
ama e que é amada por ele, está certa disso, quele instante, fora do mundo,
fora do tempo, nada jamais poderá apagar.”
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SOLIDÃO
sábado, 25 de agosto de 2012
O amor a partir do pé, por J.M.G. Le Clézio
UM TRECHINHO QUE EU EU GOSTEI :
"Impossível raciocinar a respeito. Tornado elástico, o próprio chão se levantava, milhões de molinhas, milhões de bolhas, as articulações quentes, a corrente elétrica que atravessava seu corpo, que passava por suas pernas, pelos braços, e ao andar ela ia abrindo e fechando as falanges para melhor sentir sua liberdade, sorria para as pessoas que a tomavam por louca.
Ela se espantava. Então o amor era isso? Uma espécie de auréola sobre sua cabeça, uma espécie de carapaça invisível, sentia-se muito abrigada, no âmago, ela se sentia invencível. Um fluido, ela dançava."
História do pé. J.M.G. Le Clézio. iN: História do pé e outras fantasias. p.20
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segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Uma antologia dos bilhetes que as crianças italianas mandavam ao Menino Jesus
No Natal de 2008 Elias Thomé Saliba publicou esta resenha de um livro interessantíssimo, especialmente para historiadores que se dedicam a infância e história, como eu:
''Quero seu autógrafo, eu faço coleção''
Editora
italiana reúne em antologia bilhetes enviados por crianças a Jesus
Elias
Thomé Saliba
E, na Itália, Jesus desbancou o Papai Noel como patrono de tantos
pedidos, sonhos e esperanças infantis. É o que se conclui depois que a Editora
Sonzogno anunciou a publicação da terceira antologia que reúne as melhores
cartas que as crianças italianas, de até 11 anos, escreveram, no final de 2007,
ao menino Jesus - Querido Jesus, Poderia Tirar o Gosto de Alho do Aspargo? (Caro Gesu,
Potresti Cambiare il Sapore Agli Asparagi?, Sonzogno, R$32). Cartas de crianças nos levam
sempre a desconfiar: será que os pais não "ajudaram" na tarefa? A
reprodução fiel dos manuscritos, sem nenhuma intervenção gráfica, elimina tais
dúvidas. Seguindo o mesmo formato adotado em todos os volumes, os editores
reproduziram os cem melhores bilhetinhos, mantendo fielmente os erros e a
hesitante caligrafia original, incluindo os desenhos rabiscados pelas crianças.
A tradição de enviar pedidos escritos para o menino Jesus é, entretanto, bem
mais disseminada do que parece - pelo menos em países de tradição cristã. Desde
1950, em várias cidades da Áustria, o sistema de correios chegou a criar até
uma seção especial - o "Correio do Menininho Jesus" (Christkindl
Postamt) - aberta apenas nos três últimos meses do ano, que recebe milhares de
cartas de crianças. Mas até agora, ninguém tinha realizado um trabalho
editorial tão apurado, transcrevendo e coligindo, com paciência, tato e delicadeza,
os bilhetinhos espontâneos escritos pelas crianças.
Revelando uma lógica pertinaz e inusitada, a grande maioria dos bilhetes não se
limita às costumeiras solicitações de brindes e presentes - embora comecem
quase sempre com pedidos diretos e imediatos, como: "Querido Jesus, por
favor, me mande o seu autógrafo. Faço coleção. (Cristina)". Ou então,
aproveitam a deixa para incluir também um pedido de presente: "Querido
Jesus, quero pedir-lhe apenas uma coisa: mais paz no mundo! E, aproveitando o
embalo, um par de tênis novos no Natal. Beijos. (Edoardo)". Já o menino
Carlo, de 10 anos, imaginando Jesus como seu parceiro de futebol, em vez de
pedir, apenas oferece o que tem nas mãos: "Querido menino Jesus, posso
mandar-te a nova tabela no campeonato italiano?".
Nos limites de sua linguagem - de uma honestidade quase chocante, pois ignoram
malícias veladas ou desvios metafóricos -, muitas crianças preocupam-se, à sua
maneira, até mesmo com os mistérios da onisciência divina. Como Aleksandra, que
pergunta: "Querido Jesus, você comparece em todos os casamentos ou só em
alguns?". Ou Manu, de 10 anos, que interroga: "Querido menino Jesus,
você vê tudo mesmo, como na televisão? Há um canal só para Roma, onde eu
moro?". Já Eleonora, livrando-se, por antecipação, de ser tachada de
enredeira, escreve: "Caro Jesus, o que você faz com aqueles que não vão à
missa? A família de um amigo meu não vai mais. Mas não te digo o nome dele de
jeito nenhum". E por fim, uma menina de Milão, Débora, incapaz de esconder
um certo exibicionismo, desafia: "Querido Jesus, você era poderoso quando
caminhava sobre a água, mas devia mesmo ver-me quando estou esquiando!".
Muitas cartinhas expressam o desejo de que Jesus intervenha apenas como um
simples mediador. Como Martina, que escreve: "Querido menino Jesus, minha
avó morreu ano passado, e meu pai disse que este assunto é contigo. Por favor,
poderia entregar-lhe esta carta?"; e emenda logo com um outro bilhete, que
diz: "Querida Vovó, a escola é boa e tenho muitos amigos. Portanto, tudo
vai bem. Um beijão". Longe das trivialidades consumistas, as frases
curtas, cerradas, incisivas, revelam uma renitente intensidade afetiva, quando
não uma lógica que beira ao implacável: "Querido menino Jesus, diga-me: os
santos ainda existem ou já foram extintos, como os dinossauros?".
"Meu jesuscristinho, com que cara ficamos quando você faz um milagre? Não
te dá vontade de cair na risada?". Mas há também aquelas que dispensam
quaisquer mediações e pedem apenas um gesto de boa vontade, como Carlotta, que
relata seus sonhos: "Querido Jesus, sonho sempre contigo. Te reconheço
porque está sempre com a sua auréola e sempre pescando. Da próxima vez que
apareceres, será que poderia me acenar?".
É bem possível que teólogos sisudos venham a torcer o nariz diante de tantas
puerilidades. É possível também - a um leitor com pendores voltairianos -
ironizar, assegurando que tudo isto não passa de uma "correspondência
passiva" de Jesus, que permanece em silêncio diante de tantas perguntas e
nos deixa na dúvida e na resignação. Já um leitor de Pascal provavelmente
argumentaria que as próprias perguntas das crianças já trazem, em si mesmas, a
insondável presença divina. Seja como for, suas frases simples e tocantes
produzem um duro contraste com a tortuosa retórica dos adultos, garantindo um
humor lúdico, espontâneo, sem ferrugem - cheio de leveza e graça. Graça divina
ou humana, à escolha do leitor.
Elias Thomé Saliba é historiador, professor da USP e autor, entre outros, de Raízes do Riso
SALIBA, Elias Thomé. Quero seu autógrafo, eu faço coleção.Caderno 2 de O Estado de S.Paulo, São Paulo, p. D-8, 24 dez. 2008.
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domingo, 19 de agosto de 2012
‘Lixo lógico’ - CAETANO VELOSO (O Globo)
16/08/2012
‘Lixo lógico’ - CAETANO VELOSO (O Globo)
‘Lixo lógico’ - CAETANO VELOSO
NOVO ÁLBUM DE TOM ZÉ É O MELHOR DISCO DESDE SEU RENASCIMENTO
O GLOBO – 5/8/2012
“Tropicália, lixo lógico” é o melhor disco de Tom Zé desde que ele renasceu artisticamente, convidado a sair do esconderijo para onde nós o empurráramos nada menos do que por David Byrne, o mais elegante de todos os roqueiros. (Num documentário, Byrne diz que, além de tudo, Tom Zé era quem estava, dentre os artistas brasileiros de que ele teve notícia, propriamente identificado com a vanguarda do sul de Manhattan.) David é o homem a quem devemos “Fear of music”. Felizmente é também impagável a dívida que temos com ele pela revelação de Tom Zé ao mundo. Os discos que este fez desde então confirmam a impressão provocada no americano. Mas neste “Lixo lógico” temos mais concentrado do que nos outros o efeito cômico-sério extraído da abordagem simultaneamente eruditíssima e pop que ele consegue, de que a análise espetacular de “Tô ficando atoladinha” é um exemplo perfeito. Qualquer um pode ver no YouTube. Referindo-se a seu disco “Danç-Eh-Sá” (e também aos círculos concêntricos de influência da bossa nova), Tom Zé demonstra por que “tô ficando atoladinha” é um “metarrefrão microtonal e polissemiótico”.
Como ali, na tese do “lixo lógico” surge a informação séria que se sabe cômica em seu deslocamento. Como pedir cachaça no avião (em 1968: hoje, cachaça, confirmando o profeta Tom Zé, é assunto de presidente dos Estados Unidos). E o tom com que os aspectos sensatos e os aspectos histriônicos são alternada ou concomitantemente revelados é a força artística de Tom Zé. Aqui mostrando-se rica como nunca, nas menções meio ocultas a nomes, timbres e cadências da época. E de agora. Talvez a intensidade com que isso acontece se deva ao tema ser a Tropicália. Diferentemente da bossa nova, a Tropicália é coisa de Tom Zé. Não só ele fez parte do movimento: ele realizou as obras mais ambiciosas no sentido de caracterizá-lo. É como se Gil, eu, Sérgio Dias e Rita Lee tivéssemos cada um partido para algo livre do projeto inicial: Tom Zé ficou com as questões centrais. E a biografia da Tropicália que ele apresenta nessa nova obra tem muito de autobiografia. Em Santo Amaro, eu vivia na periferia do Rio de Janeiro. Santo Amaro era urbana até a medula. Essa versão radical da Tropicália como o choque entre uma mente pré-aristotélica e a terceira revolução industrial é fascinante. Não me ocorreria tal versão. Mas a Tropicália fica belíssima assim tratada nas canções, sons e intenções do CD de Tom Zé. A minha própria pergunta íntima sobre o tema muda de tom: o modalismo de “De manhã” me aparece mais entranhado do que eu supunha. E eu o encontro mais próximo da Tropicália do que sempre cri. Uma vez falei com Tom Zé no telefone sobre isso. Mas o disco me convenceu mais. Veja o que é a força do estilo.
Talvez Bethânia, Gal e eu sejamos os menos medievais dos tropicalistas. Isso se, contra a própria vontade dela (mas em acordo com o fato de que a canção “Baby” foi por ela sugerida, além de ela ter sido quem me levou a atentar para Roberto Carlos), considerarmos Bethânia uma tropicalista. Seja como for, há uma identificação sertaneja que Gil (em larga medida) pode partilhar com Tom Zé, mas Bethânia, Gal e eu, meninos da área da Baía de Todos os Santos, vimos de outro ambiente mental. Crescemos em cidades coloniais (Santo Amaro, Salvador), as que, na ordem inversa do que aconteceu no Velho Mundo, nasceram antes do campo (como ensina Antonio Risério em seu “A cidade no Brasil”).
São cidades já pensadas de uma perspectiva (a palavra vem bem a calhar) renascentista. É verdade, como nós sentimos desde sempre (e Risério também explica em seu livro), as cidades racionais imaginadas pelos colonizadores terminavam sempre repetindo algo das cidades reais da metrópole, as quais eram ainda labirínticas, à moda medieval, sendo que as portuguesas ainda o eram mais, por causa da influência árabe. Mas para os santamarenses e a soteropolitana as formas mentais sertanejas eram remotas. Não tínhamos o repentista, o cordelista ou o aboiador em voz de alcance. E palatalizávamos os dês e os tês antes do i. Essas sutis diferenças me vêm à cabeça ao ouvir “Tropicália, lixo lógico”, o disco novo de Tom Zé.
Quando compus “De manhã”, embora me tivesse deixado levar pelo modalismo nordestino (tão em moda sobretudo por causa de Edu Lobo), eu mais resignei-me a aceitar essa tendência do que a achei dentro de mim. Ao contrário, eu queria poder ter feito algo que mantivesse a natureza do samba de roda, nunca modal, sempre pensado em termos de tônica/dominante/subdominante. Pois bem, o que apaixona Tom Zé nessa canção é justamente o modalismo — na verdade, o uso a seu ver original de fórmulas modais.
O GLOBO
05/08/2012
Escrito por Tom Zé às 13h12
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‘Lixo lógico’ - CAETANO VELOSO (O Globo)
‘Lixo lógico’ - CAETANO VELOSO
NOVO ÁLBUM DE TOM ZÉ É O MELHOR DISCO DESDE SEU RENASCIMENTO
O GLOBO – 5/8/2012
“Tropicália, lixo lógico” é o melhor disco de Tom Zé desde que ele renasceu artisticamente, convidado a sair do esconderijo para onde nós o empurráramos nada menos do que por David Byrne, o mais elegante de todos os roqueiros. (Num documentário, Byrne diz que, além de tudo, Tom Zé era quem estava, dentre os artistas brasileiros de que ele teve notícia, propriamente identificado com a vanguarda do sul de Manhattan.) David é o homem a quem devemos “Fear of music”. Felizmente é também impagável a dívida que temos com ele pela revelação de Tom Zé ao mundo. Os discos que este fez desde então confirmam a impressão provocada no americano. Mas neste “Lixo lógico” temos mais concentrado do que nos outros o efeito cômico-sério extraído da abordagem simultaneamente eruditíssima e pop que ele consegue, de que a análise espetacular de “Tô ficando atoladinha” é um exemplo perfeito. Qualquer um pode ver no YouTube. Referindo-se a seu disco “Danç-Eh-Sá” (e também aos círculos concêntricos de influência da bossa nova), Tom Zé demonstra por que “tô ficando atoladinha” é um “metarrefrão microtonal e polissemiótico”.
Como ali, na tese do “lixo lógico” surge a informação séria que se sabe cômica em seu deslocamento. Como pedir cachaça no avião (em 1968: hoje, cachaça, confirmando o profeta Tom Zé, é assunto de presidente dos Estados Unidos). E o tom com que os aspectos sensatos e os aspectos histriônicos são alternada ou concomitantemente revelados é a força artística de Tom Zé. Aqui mostrando-se rica como nunca, nas menções meio ocultas a nomes, timbres e cadências da época. E de agora. Talvez a intensidade com que isso acontece se deva ao tema ser a Tropicália. Diferentemente da bossa nova, a Tropicália é coisa de Tom Zé. Não só ele fez parte do movimento: ele realizou as obras mais ambiciosas no sentido de caracterizá-lo. É como se Gil, eu, Sérgio Dias e Rita Lee tivéssemos cada um partido para algo livre do projeto inicial: Tom Zé ficou com as questões centrais. E a biografia da Tropicália que ele apresenta nessa nova obra tem muito de autobiografia. Em Santo Amaro, eu vivia na periferia do Rio de Janeiro. Santo Amaro era urbana até a medula. Essa versão radical da Tropicália como o choque entre uma mente pré-aristotélica e a terceira revolução industrial é fascinante. Não me ocorreria tal versão. Mas a Tropicália fica belíssima assim tratada nas canções, sons e intenções do CD de Tom Zé. A minha própria pergunta íntima sobre o tema muda de tom: o modalismo de “De manhã” me aparece mais entranhado do que eu supunha. E eu o encontro mais próximo da Tropicália do que sempre cri. Uma vez falei com Tom Zé no telefone sobre isso. Mas o disco me convenceu mais. Veja o que é a força do estilo.
Talvez Bethânia, Gal e eu sejamos os menos medievais dos tropicalistas. Isso se, contra a própria vontade dela (mas em acordo com o fato de que a canção “Baby” foi por ela sugerida, além de ela ter sido quem me levou a atentar para Roberto Carlos), considerarmos Bethânia uma tropicalista. Seja como for, há uma identificação sertaneja que Gil (em larga medida) pode partilhar com Tom Zé, mas Bethânia, Gal e eu, meninos da área da Baía de Todos os Santos, vimos de outro ambiente mental. Crescemos em cidades coloniais (Santo Amaro, Salvador), as que, na ordem inversa do que aconteceu no Velho Mundo, nasceram antes do campo (como ensina Antonio Risério em seu “A cidade no Brasil”).
São cidades já pensadas de uma perspectiva (a palavra vem bem a calhar) renascentista. É verdade, como nós sentimos desde sempre (e Risério também explica em seu livro), as cidades racionais imaginadas pelos colonizadores terminavam sempre repetindo algo das cidades reais da metrópole, as quais eram ainda labirínticas, à moda medieval, sendo que as portuguesas ainda o eram mais, por causa da influência árabe. Mas para os santamarenses e a soteropolitana as formas mentais sertanejas eram remotas. Não tínhamos o repentista, o cordelista ou o aboiador em voz de alcance. E palatalizávamos os dês e os tês antes do i. Essas sutis diferenças me vêm à cabeça ao ouvir “Tropicália, lixo lógico”, o disco novo de Tom Zé.
Quando compus “De manhã”, embora me tivesse deixado levar pelo modalismo nordestino (tão em moda sobretudo por causa de Edu Lobo), eu mais resignei-me a aceitar essa tendência do que a achei dentro de mim. Ao contrário, eu queria poder ter feito algo que mantivesse a natureza do samba de roda, nunca modal, sempre pensado em termos de tônica/dominante/subdominante. Pois bem, o que apaixona Tom Zé nessa canção é justamente o modalismo — na verdade, o uso a seu ver original de fórmulas modais.
O GLOBO
05/08/2012
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Linguagem e mente, Noam Chomsky
Vocês podem dizer que estou atrasada, mas só agora que eu estou PIRANDO COM CHOMSKY. Olha que interessante as coisas que ele escreveu:
"Um exame atento da interpretação das expressões logo revela que desde os primeiros estágios a criança conhece imensamente mais do que a experiência provê. Isso é verdadeiro mesmo para simples palavras. As crianças pequenas adquirem palavras numa proporção de cerca de uma para cada hora acordada, com exposição extremamente limitada e em condições altamente ambíguas. As palavras são compreendidas de modos sutis e intricados que vão além do alcance de qualquer dicionário e estão somente começando a ser investigados. Quando se vai além das palavras isoladas, a conclusão se torna ainda mais dramática. A aquisição da língua s parece muito com o crescimento dos órgãos em geral;é algo que acontece com a criança e não algo que a criança faz. E, embora o meio ambiente importe claramente, o curso geral do desenvolvimento e os traços báscios do que emerge são pré-determinados pelo estado inicial. Mas o estado inicial é uma posse comum dos homens. Tem de ser então que, em suas propriedades essenciais , as línguas são moldadas na mesma forma. O cientista marciano poderia concluir sensatamente que há uma única língua humana, com diferenças somente nas margens."
Noam Chomsky. Primeira Palestra. In : linguagem e mente. Editora UNB.1998. P. 23
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