terça-feira, 2 de outubro de 2012

A Última Ciência Herberto Helder


Não cortem o cordão que liga o corpo á criança do sonho.
O cordão astral à criança aldebarã,
não cortem o sangue, o ouro.
A raiz da floração coalhada com o laço
no centro das madeiras negras.
A criança do retrato revelada lenta
às luzes de quando se dorme.
Como já pensa, como tem unhas de mármore.
Não talhem a placenta por onde o fôlego
do mundo lhe ascende à cabeça.
A veia que a à morte.
Não lhe arranquem o bloco de água abraçada
aonde chega braço a braço.
Sufoca.
Não limpem o sal na boca.
Esse objecto asteróide,
Não o removam.
A árvore de alabastro que as ribeiras
Frisam, deixem-na rasgar-se:
Das entranhas, entre duas crianças, a que era viva
E a criança do sopro, suba
Tanta opulência.
O trabalho confuso:
Que seja brilhante a púrpura
Fieiras de enxofre, ramais de quartzo,
flúor agreste nas bolsas pulmonares.
Deixem que se espalhem as redes da respiração
desde o caos materno ao sonho da criança.
Exacerbada.
Única!!!
Arranca-se o nervo ao espelho.
arranca-se a veia à palavra: não fica
o rosto, a criança não fica no abismo sonoro.

Herberto Helder. Última Ciência. 1996

Boneco e Boneca : consultando o dicionário


Eu conhecia a palavra Boneco com o significado de rascunho, minuta. Porém, no dicionário não foi isso que eu achei sobre as palavras Boneco e Boneca:

BONECA s.f. 1) Figura de louça, papelão, pano, plástico, etc., que representa mulher ou garota, e que serve de brinquedo para crianças, de enfeite, de peça de coleção, de propaganda, etc.2) Mulher muito enfeitada. 3) MODELO DE LIVRO QUE VAI SER ENCADERNADO. 4) Espécie de rolha que se põe na boca das armas;Bras. Indivíduo efeminado.

BONECO s.m. 1) Figura de louça, borracha, cartão, etc, que representa homem ou criança, e que serve como brinquedo infantil, enfeite, peça de coleção, etc. 2) Manequim. 3) Janota, almofadinha. 4) BROCHURA NÃO COZIDA, BONECA. 5) Gir. Indivíduo camarada, cara. 6) Bonifrate, títere, fantoche. 7) Desenho, estampa, gravura

Então, mais próximo da definição que eu conhecia está Boneca, não Boneco? Interessante!

domingo, 30 de setembro de 2012

O Palácio Convento de Mafra




 O PALÁCIO/ CONVENTO DE MAFRA -Como século XVIII foi de grande prosperidade econômica para Portugal em virtude da descoberta de ouro na colônia em Minas Gerais. A construção se estendeu de 1717 até 1730 .Ao todo são 37790 metros quadrados. O edifício tem 880 salas e quartos, 300 celas, 4500 portas e janelas, 154 escadarias e 29 pátios; os sinos da basílica pesam cerca de 217 toneladas; a biblioteca possui mais de 40.000 livros. Para concluir a edificação foram reunidos cerca de 45000 operários, além de 7000 soldados. A história oficial deste convento é conhecida dos portugueses e geral, mas foi entre 1980 e 1982 quando José Saramago teria estado em Mafra por várias vezes, para pesquisar e imaginar como seria contá-la de outra forma, assim como apresentará em seu romance Memorial do Convento (1982). (CALBUCCI, Eduardo. Saramago- Um roteiro para romances. Cotia: Ateliê Editorial. 1999.p. 25-6)



sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Como e porque Guimarães Rosa criou a palavra Sozinhozinho, segundo Eduardo F. Coutinho

"A afixação consiste no acréscimo, feito ao "significante" de um vocábulo, de um ou mais afixos que venham a alterar o seu significado, sugerindo novas conotações. É o que ocorre, por exemplo, com a palavra "sozinhozinho", empregada por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. A palavra "só", exclusivamente conceitual em português, não contém em si mesma nenhuma conotação emocional. O poeta anônimo, ao sentir certa vez que o vocábulo era insuficiente para expressar a sua solidão, decidiu, então, acrescentar-lhe um sufixo diminutivo - inho,izinho, bastante usado na língua com o sentido de intensidade (cf."cedinho", muito cedo, "devagarinho", muito devagar). E o resultado foi a palavra "sozinho", significando "muito só". Entretanto, com o desenvolvimento da língua, "sozinho" veio a perder seu significado poético e passou a ser usado como um simples sinônimo de "só". E Guimarães Rosa, percebendo a inexpressividade do vocábulo "sozinho", procurou reavivar o seu significado originário, servindo-se do mesmo processo que acreditava tivesse sido utilizado um dia. Assim, repetiu o sufixo diminutivo no final do vocébulo e criou a forma "sozinhozinho". Eduardo F. Coutinho 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Parabelo: ritmo para nos manter de pé!



Faz tempo que eu tenho a trilha sonora desta coreografia e queria MUITO MUITO ter assistido esse espetáculo ... ainda mais depois que li o que o Tom Zé falou sobre ele em seu livro "Tropicalista lenta luta":
 
"(...)Então eu fiz a pergunta-espelho : como é que o nordestino se mantém de pé, naquela penúria, naquela miséria, naquela subalimentação de 400 anos? Concluí : devem ser os ritmos musicais nordestinos.
Os três principais  alimentos do Nordeste são desidratados: farinha de mandioca, carne-seca e ritmo.
Mas é o ritmo que nos mantém de pé, verticais, que faz o papel dos ossos. Quando ficamos insulados e pobres, no sertão do Brasil, defrontamos um paradoxo : amávamos a herança cultural de nossos avós portugueses - civilizados pelos árabes na Idade Média, ao contrário do restante da Europa, educados pelos bárbaros cristãos, godos, visigodos, bretões...
Assim, amando a cultura moçárabe daqueles avós, mas analfabetizados pela penúria, nosso artifício vital foi falar cultura, conversar cultura, dançar cultura. Passamos a plantar leituras de concepções metafísicas em acontecimentos do cotidiano; a fazer pentimento, sobrepondo à paisagem da caatinga chaves visuais do conhecimento esotérico; a montar eixos de filosofia na sintaxe de uma língua têxtil, de um falar que compõe cosmogonias (ver isso também nos Gerais de Guimarães Rosa).
Ah-pois, meu senhor , essa ossatura que nos mantém de pé, a espinha dorsal que nos sustenta a verticalidade e nos confere uma postura semelhante à de outros humanos, enfim, as consoantes de nossa língua, ou melhor, de nossa vida, é o ritmo. Os ritmos musicais do Nordeste.
Ele é o núcleo mais concentrado : a cápsula da mais densa potenciação cultural nordestina. É para nós como uma face do Sagrado. No Nordeste, o ritmo é Deus desidratado. (...)
Zé Miguel Wisnik compôs, comigo, um edifício sobre tais alicerces e troxemos esses ritmos ao Parobelo.
 
Tom Zé Tropicalista lenta luta. P. 99-100.
 
Um exemplo de ritmo do nordeste:
 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

domingo, 23 de setembro de 2012

Pequenos contos para começar o dia, Leonardo Sakamoto

Adoro ler os textos do jornalista Leonardo Sakamoto no UOL. Ele é  inteligente, costuma ser lúcido e escreve muito bem. Por conta deste meu interesse eu também acabei começando a acompanhá-lo no Facebook e foi nesta rede social que experimentei outra face (ainda mais interessante!) do Sakamoto: o escritor!
Na semana passada ele postou no face um texto literário muito belo:

"Apesar de ser o último do salão, não era alvo da impaciência de fim de noite, recebendo a patética simpatia despendida aos solitários. Olhava atentamente para a xícara de chá vazia, girando a colher em sentido anti-horário, num esforço de fazer o tempo voltar atrás. Não entendia como ela havia ficado assim de repente... Afinal, o gosto doce dos momentos felizes e o aroma cítrico das risadas ainda 
estavam por lá. Talvez tivesse bebido tudo muito rápido e a vida não fora capaz de repor ou, quem sabe, aquela era a cota a que tinha direito. Não importa. Sabia que a culpa era sua. O desejo por um último gole era tamanho que suas lágrimas transbordaram a xícara. Bebeu, então, a saudade de uma só vez. Por fim, verificou se a foto dela ainda estava no bolso do paletó, olhou para a reprodução de Toulouse-Lautrec na parede descascada e, sob a aba do chapéu panamá, partiu. O atendente, curioso, tomou a xícara com cuidado entre as mãos e, num sorriso, confirmou o que pensava: saudade tem cheiro de hortelã." Leonardo Sakamoto

Pela manhã de hoje, domingo 23, eis que ele posta uma previsão: Em breve nas livrarias seus contos:

Claro que, imediatamente,  me deu uma grande vontade de ler, ler e ler porque essa cia (a da leitura), até hoje em minha vida, nunca me deixou nas mãos da solidão. Vide o livro História do Pé (sobre o qual falei à exaustão neste blog desde agosto), que tem me permitido sobreviver aos últimos amargos meses. Um livro de contos do Sakamoto bem que pode seguir por ai (mesmo sem o Nobel do Le Clézio).

Fica aqui a dica, assim que ele estiver nas livrarias, eu comprarei. E você?