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terça-feira, 1 de julho de 2025

Homens pretos não choram, Stefano Volp





Emprestei da Biblioteca do SESC Pompéia e  li "Homens pretos (não) choram" (2022), de Stefano Volp. São dez  contos escritos no contexto da quarentena pela pandemia de COVID 19, os textos tratam da vida de homens pretos, destacando o campo da  afetividade. Partindo desse recorte, Volp consegue abordar temas delicados ou até tabus, como racismo, masculinidade negra, masculinidade tóxica , sexismo, machismo, solidão, traumas, medos, felicidade, etc. Uma leitura excelente para homens, em especial os pretos.
Com dois prefácios,  escritos por Sérgio Motta e Jeferson Tenório, escritores expoentes da literatura negro-brasileira, os autores comentam como foi para eles,homens pretos, a leitura deste textos tão  contundentes. Mas a leitura não interessa apenas a homens pretos. Eu, uma mulher negra, durante a leitura, levava o livro nas mão enquanto esperava o metrô  na estação Trianon MASP  e me surpreendi ao encontrar outro leitor, um homem branco, lendo atentamente o mesmo livro. Ambos os volumes com a etiqueta branca nas lombadas: foram emprestados de biblioteca, esse lugar mágico que une as pessoas por interesses comuns.
Por abordar feridas abertas na sociedade brasileira no século XXI, recomendo a leitura deste livro a todos, em espécie a pretos e pretas.

No Instagram eu fiz um comentário rápido sobre os dez contos e copio aqui:




1 SECO :  Como uma boa introdução ao tema do livro, o primeiro conto ,Seco, conta a história de Heleno, um militar já avô, que sentindo próximo o final da vida e escrevendo seu testamento ao som de Tim Maia, coloca-se em luta dolorosa com a pergunta : o que foi que lhe secou por dentro e o fez incapaz de chorar por toda a vida?



2 VITRINE :  No aplicativo de encontros gay Pinder, Blackurso_31 é o nickname de um capixaba preto, gordo e tímido que trabalhava como  cozinheiro em Copacabana e visitava as vitrines em busca de um match. Quando conseguiu um, ele que era um adaptado na cidade, teve que reagir ao racismo com fúria.



3 Bilola Um poeta negro vive de ofertar poesia no metrô, esperando juntar alguns trocados para se sustentar e é constantemente rechaçado. Um dia um homem lhe faz uma oferta grande, que ele desconfia, pois sua mãe o havia ensinado a não dar pérolas aos poucos.
Um trecho :
"Não havia prazer em acumular rejeições, tampouco  em naturalizá-las.  Ele só não detinha as ferramentas cirúrgicas para sondar e elaborar sua dor. Acumulava-as no pesado saco de sua alma e prosseguia "("Bilola", Stefano Volp, in "Homens pretos (não) choram,p.69


4 DONA TAGARELA :  É um dos meus contos favoritos. Aluízio é um policial que  obrigado pelo chefe a fazer sessões de terapia com Thiago ,um  psicólogo negro,  que lhe explica :"você me paga pra te levar até onde você quiser ir, em qualquer lugar da sua mente. Ao ver as coisas com um ponto de vista treinado, posso ajudá-lo a encontrar sua cura."(P.85)
Embora tivesse medo ,pois  sabia que " armadilha de palavras é uma das coisas mais perigosas do mundo. Um homem envenenado pelas próprias palavras não tem honra alguma"(p. 84), Aluízio acaba soltando as suas palavras e entrando nos labirintos de seus traumas e medos.



5 MEIA NOITE :  Uba espera ansioso pelo dia dos pais para saber se o filho está recebendo bem todo o cuidado com que tem lhe tratado. Cinco minutos antes do grande dia, é visitado pelas dolorosas memórias da relação com seu pai.


6 BARBA : Ricardo é um homem preto casado com Lucinha e frequenta a elegante barbearia de Russo, um albino  o que tem "mãos de fada", cujos clientes fechavam os olhos e entravam em transe". (p.114) Um dia o barbeiro coloca um bilhete na mão do cliente e a trama se inicia... 

NÃO CHORAM: Mais uma vez... um trecho do conto "barba". Ricardo, um homem casado, percebe uma ligação diferente com seu barbeiro Russo, que um dia coloca em seu bolso um cartão marcando um encontro. Assustado com isso, pensa logo na esposa ciumenta, com quem tinha a melhor das relações :
"Conhecendo a esposa que tinha,precisou queimar o cartão e jogar as cinzas no bueiro da cidade. Foi ao realizar esse exercício que ele decidiu contar tudo para a esposa. Ela merecia saber. Daria um jeito de dizer que tinha algum problema psicológico. Não entraria em detalhes, nem falaria de Russo, mas, sim, diria que estava pensando em outra pessoa e que isso agora o atrapalhava. Lucinha faria um escândalo, mas ele sabia que, se fosse sincero, poderiam passar por aquilo juntos. A esposa era a pessoa mais incrível que ele já conhecera. Não poderia enganá-la daquela maneira." P.117

Não vou contar o final, só postei para destacar como tem relações amorosas incríveis. AMOR É SORTE!


7 SABONETE :  Wagner é um  adolescente  virgem que ,em busca das primeiras experiências, procura Yara ,a "fácil", que os mais velhos chamavam Sabonete. Com a moça consegue conversar e refletir sobre como os homens são machistas e ele pode pensar com sua própria cabeça .



8 PIO : Outro sobre paternidade e um dos que mais gostei. Conta a história da relação cheia de densidade e comunicação difícil entre o pai solteiro Leo e seu filho Renatinho.


9 SEM : Depois da partidas de futebol, Ramon procura seu pai para perguntar qual a diferença entre abuso sexual e estupro, pois um amigo teria sofrido uma investida desse tipo. Para seu espanto  o pai respondeu que a diferença estava no ato sexual,  mas que nenhum dos dois acontecia com homens.  Mais uma história sobre como a masculinidade tóxica pode oprimir os homens.


NÃO CHORAM - São onze contos no livro Homens pretos não choram, de Stefano Volp. Vou postar um comentário rápido sobre cada um deles.
10 FLORESCER : O mais belo conto do livro, conta a história de Amildo, um homem de poucas palavras, que morava com sua bicicleta Luiza. Por alguma artimanha do destino, acaba indo trabalhar na estufa do Seu Rosa, onde as flores acabarão curando suas feridas mais profundas.






quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Leituras 2025

 LEITURAS 2025 até julho

JANEIRO

1 Carlabê, Isabela Noronha 

2 Se eu fechar o olhos agora, Edney Silvestre

FEVEREIRO 

3 O Amante, Marguerite Duras

4 História social da beleza negra,Giovana Xavier

MARÇO 

5) Da morte. Odes mínimas, Hilda Hilst

ABRIL 

6) Verme, Geraldo Pedro

MAIO 

7) A insustentável leveza do ser,Milan Kundera 

JUNHO 

😎 Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector

9) Alice e Ulisses, Ana Maria Machado

10) O sono na arte,Regiane Potzsch (org)

11) Meu amor , Beatriz  Bracher

12) A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada, Gabriel Garcia Márquez 

13) Homens pretos (não) choram,Stefano Volp

JULHO 

14) O segredo e outras histórias de descobertas, Lygia Fagundes Telles

15) Após o anoitecer Murakami 

AGOSTO 

16) "Grandiosos etíopes"

17) Etiópia origem da civilização 

18) O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação 

AGOSTO

19) A mais recôndita memória dos homens, Mohamed Sarr

SETEMBRO 

OUTUBRO 

20) A metamorfose, Fafka

21) caçando carneiros , Mutakami

DEZEMBRO

22) Dança de enganos , Milton Hatoum


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Prêmio :Melhores do ano 2025 blog Pequenidades

Demorou muito e foi muito corrido, como tudo esses ano, nem vou comentar muito tópico por tópico, mas aqui vai a lista dos melhores de 2025:

 

1 Rolê: Festival Cacique de Ramos no meu aniversário 


Foi um ano onde quase não fui a rolês, mesmo sambas pouco frequentei, em comparação a outros anos. O melhor foi o festival do Cacique de Ramos no dia do meu aniversário, um grande presente!

Eu toda de vermelho e negro 
Toda gatinha de samba 




Ganhei muito carinho 

                      

700 ml de Suco de LIMÃO 
Muito calor!


2 Música : "Corpo fechado" , Academicos do Salgueiro 


Algumas músicas foram muito importantes pra  trilha sonora da história mais intensa do ano todo, registrada aqui, tivemos pelo menos dois temas musicais. No fim do ano fiz um resumo e achei que entrei nela como "Pescador de ilusões", de O Rappa. Essa música representou minha coragem de mergulhar de cabeça num mar escuro, apesar do medo, afinal via os corais mais coloridos ❤️
Pedi a IA uma imagem sobre a música 

Pescador de ilusões 

Ainda nesse clima, o músico do ano foi Djavan, que reencontrei e sua música Samurai, que eu sempre  amei, foi o grande tema dessa história. Resgatar Djavan fez parte  das quebras de couraças que aconteceram em 2025, ano em que eu vesti a camisa do Djavan, que eu dei de presente e roubei sem dó para tirar a foto mais curtida no Facebook
Djavanear o q há de bom

A música que mais ouvi o ano todo foi o samba de enredo do Salgueiro, Corpo Fechado. E não é porque sou salgueirense, mas essa música é uma reza, me protegeu em vários momentos, especialmente quando fiquei presa na enchente durante a tempestade em fevereiro! Além do que só de poder gritar essa letra não tem preço

"Macumbeiro, mandingueiro, batizado no gongá
quem tem medo de quiumba não nasceu pra demandar 
meu terreiro é a casa da mandinga
quem se mete com Salgueiro acerta as contas na curimba!"

3 Livro e autor (a) do ano:  "Após o anoitecer", Haruki Murakami


Em 2025, li muita coisa, como sempre. Algumas leituras foram melhores do que outras, mas, desta vez, não consegui escolher um livro que, por si só, fosse o melhor do ano. Este foi o livro do ano  porque pontuou vários momentos importantes e é uma leitura da qual sempre vou me lembrar ao pensar em 2025.


O dia frio que chegou

Este também foi o ano em que mais li Haruki Murakami, o que o torna, naturalmente, o autor do ano. Entre seus livros, “Após o Anoitecer”, que li em julho, se destacou por trazer muitas questões atuais. São questionamentos que venho observando com frequência em produções audiovisuais no streaming, especialmente aqueles ligados a outras dimensões e a diferentes registros do audiovisual.

Assistimos Alphaville 


Emprestei o livro ao Geraldo, que adorou, e ainda tivemos a oportunidade de assistir ao filme Alphaville, citado no romance japonês, em uma sessão no CineSesc. Seguimos com planos de continuar reverberando essa leitura. Livro bom é aquele que se expande, e esse é exatamente o caso deste.


4 Filme ou peça teatral: "Senhora dos afogados"


Bom, nesse ano de áudio visual, não sei como escolher um filme ou série, afinal vi incontáveis e todos maravilhosos: Drive my car, Them, Amores expressos, Ritas, Homem com H, Contos do Loop, Anne with an E, Black Mirror, She, Alphaville, Retrato Fantasma, O filho de mim homens ... não saberia escolher. Então o prêmio vai para a sensacional Senhora dos afogados, minha primeira peça de Nelson Rodrigues, minha primeira peça do Teatro Oficina : histórico, surreal! E eu estava muito gata, cabelinho Mara



5 Fotos do ano : Todas da Baia de Guanabara a partir da Ponte Rio Niterói (que não tem fim) e nunca me canso de ver

Uma das minhas maiores paixões em 2025. A ponte Rio Niterói, que não tem fim, que não tem tempo. É só deslumbramento 



6 Bebida ou comida do ano: Carnes e sobremesas feitas COM AMOR só para mim 😍

Esse ano fui muito mimada, bem tratada, curtida: cozinharam para mim carnes e sobremesas : muito amor ! 

Algumas sobremesas

 Algumas Carnes ❤️

7  Show: Jorge Aragão no Carnaval 

Nesse ano shows não foram destaque. Ainda bem que assisti ao do Jorge Aragão ,em frente a Igreja da Consolação,no pré carnaval     Acadêmicos do Baixo Augusta. Claro até não levei celular, mas consegui umas imagens depois . Logo no começo o ano estava ganho!

8  Roupas ou acessórios: Chapéu de samba

Só tinha um, usava pouco. Esse ano usei mais. Até ganhei um Panamá de presente de natal. Quero mais!

Chapéu Panamá:
Presente de Natal do Geraldo 

Meu chapéu vovó cinza
Um banda no samba 


9 Conquista do ano : Uma possibilidade de amor (e preto)



Começo citando Caio Fernando Abreu:  
"Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus -, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro ". (In Pequenas Epifanias) .


Já sabem do que estou falando. Mas eu sei que "presente ambíguo de Deus"  não é propriamente uma conquista! Explico : o que ganhei foi uma oportunidade de amor, mas não veio pronta,  foi preciso trabalhar para transformar num amor possível. Isso foi feito e conquistei! Ficou tão possível que preencheu tanto meu cotidiano , que essa energia salpicou a retrospectiva e também os "melhores do ano", mostrando como se agregou à minha vida. Afinal, como "qualquer maneira de amor vale à pena", a nós, pescadores de ilusões, nos cabe fazer valer à pene . Nós fizemos!

10 Ícone da cultura negrado ano:  Stefano Vop


Infelizmente acompanhei a trajetória de poucos negro e negras. Mas li o livro de contos "Homens pretos (não) choram" , de Stefano Volp , um jovem  autor negro. Depoimentos de negras já temos inúmeras "escrevivências", mas é muito raro ler sobre a subjetividade do homem negro. Divulguei Falei tanto desse livro nas redes sociais, e foi com felicidade que ouvi que alguns tinham lido esse livro lindo! 

11 Menção honrosa: Rodrigo Santoro 

Não tinha quesito pra ele, então como eu sou dona desse prêmio, inventei um só esse ano ! Porque ele  estrelou dois lançamentos lindos e poético ("O último azul" e "O filho de mil homens), marcando seu amadurecimento como ator, um presente! Certamente 2026 pode ser ano que Wagner Moura concorre e possivelmente ganhe o Oscar de melhor ator por "O agente secreto", mas 2025, pra mim, foi o ano de me deleitar ao  rever Santoro nas telonas 😍



Parabéns e obrigada aos vencedores e vencedoras! Ano que vem tem mais!