domingo, 1 de novembro de 2026

Literatura e autonomia, desde infância



Ruth Rocha e Ana Maria Machado são minhas autoras favoritas desde a infância, na década de 1980. Tive a sorte de ser criança na geração delas, no fim da ditadura militar (1964-1985), quando a literatura infantil reforçava seu caráter libertário e deixava de considerar o infante como um ser que deveria apenas RECEBER ensinamentos, passando a reconhecê-lo como SUJEITO capaz de pensar criticamente, questionar, interpretar o mundo, as linguagens e até perceber mecanismos de poder (só depois soube da pedagogia da autonomia de Paulo Freire). Esses livros trazem anseios que o Brasil vivia na época:

REIZINHO MANDÃO: Cala boca já morreu!
Ilustração Walter Ono

1. O Reizinho Mandão (1973/1978), de Ruth Rocha

Conta a história de um reizinho que governa IMPONDO sua vontade, impondo um "cala a boca" e levando todos a temer falar, até acabar falando sozinho! Eis que uma menina traz um papagaio que, imitando o reizinho, grita: "Cala a boca! Cala a boca!". Até que a menina reage:

— CALA A BOCA JÁ MORREU! QUEM MANDA NA MINHA BOCA SOU EU!

Assim, as vozes de todo o reino são libertadas e o reizinho foge!

ERA UMA VEZ UM TIRANO 
Ilustração Gabor Geszti

2. Era uma vez um tirano (1982), de Ana Maria Machado

Vai por uma trilha parecida. Fala de um país submetido a um tal TIRANO, que só sabia proibir tudo: de ter ideias e conversar a brincar e, especialmente, fazer música. Então, as pessoas passam a se organizar para afastar o tirano e recuperar a liberdade perdida.

Que alegria experimentar, desde a infância, o poder da literatura em reforçar minha autonomia e minha busca pela liberdade! Amo!