quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Contar a história de um Tirano?

Maria Machado nos escreveu sobre :
"Uns dizem que esta história aconteceu há muitos e muitos anos, num país muito longe daqui. Outros garantem que não, que aconteceu há poucos e poucos dias, bem pertinho. Tem também quem jure que está acontecendo ainda, em algum lugar. E há até quem ache que ainda vai acontecer.É que quando a História tem documento, papel escrito na época, coisas que deixam pista, dá para a gente ter mais ou menos certeza decomo tudo se passou. É só ler os jornais daquele tempo, ou as cartas das pessoas, ou as ordens do rei, ou os tratados. Mas numa história como a nossa...não sei não... fica muito difícil saber.Porque ninguém escreveu nada. A história só passou da boca de um para o ouvido do outro, daí saiu pela boca para outra cabeça. E às vezes quem conta também muda um pouquinho. Se um dia vocês ouvirem este caso de outro jeito, já podem ir sabendo que a culpa não é minha.É do tal Tirano. Desde que ele proibiu tudo, não se podia ter mais papel escrito,nem desenho, nem cantiga, nem música, nem dança que contasse nada. Por isso,uns se esqueceram de tudo. Outros confundiram tudo. E, se não fosse pelas três crianças, nem sei o que aconteceria...
Mas já estou falando de coisas lá do meio da história, antesde começar pelo começo. É porque não podia começar assim: ‘Há muitos e muitos anos, num reino muito longe daqui...’Então vou começar de outro jeito. Com ‘Era uma vez’. Lá vai.”

MACHADO, Ana Maria.Era uma vez um tirano. 12ª. Ed. Rio de Janeiro: Salamandra. 1982

Canções do Brasil - Palavra Cantada : CD e DVD

Gente, eu comprei de presente para mim mesma os CD/DVD " Canções do Brasil" do Palavra Cantada . É muito emocionante de ver, juro! É lindo ver as carinhas delas, caras de brasileirinhos, nada parecido com a imagem da criança brasileira "vendida" na TV... neste projeto eles dão voz as crianças de todo o Brasil, cantando e falando com suas prosódias e sotaques caracteríticos. A ideia não é passar nada compacto e pronto para as crianças, mas que se perceba que os brasileirinhos são de muitas formas, assim como o próprio Brasil! Para minha pesquisa eu transcrevi as falas de uma entrevista com Paulo Tatit e Sandra Peres que fala sobre o projeto de conhecer as canções que as crianças cantam Brasil a fora. Eis a transcrição:


PAULO TATIT- O CD "Canções do Brasil" ele surgiu de uma pergunta que nos interessava que era saber "O que as crianças brasileras estão cantando?"

SANDRA PERES-Levamos dois anos para realizar do começo ao fim,onde nós percorríamos os vinte e seis Estados brasileiros, sempre gravando uma música por Estado, cantada por crianças.

PAULO TATIT-E fizemos essa pergunta "Pô, será que as crianças ainda cantam
coisas que, né, que vêm da tradição dela?

SANDRA PERES -Nosso objetivo era poder gravar crianças que estão expostas a televisão, ou seja, que assistem televisão todo dia, que ouvem rádio, mas que mesmo assim procuram cantar músicas dos seus pais, dos seus avós, ou até mesmo músicas de domínio público.
É que quando a gente ia gravar a gente falava "qual a música que você mais gosta de cantar?" E por causa disso esta canção vinha impregnada de um outro sentimento, né, de um carinho especial, de uma espontaneidade generosa até.

PAULO TATIT- Foi feita essa pesquisa, orientada pelo Paulo Dias, o Marinho Ruas entrou em contato com muita gente pelo Brasil, fez um mapeamento das crianças quem cantam pelo Brasil, fazia uma seleção de três ou quatro e lá íamos nós - eu e a Sandra, com um gravador portátil- a gente escolheu canções em que a gente achava que as outras crianças dos outros lugares poderiam gostar também, ou seja, as canções mais lúdicas, as que agradassem mais a primeira ouvida, porque a gente queria muito que as outras crianças... uma criança de Pernambuco gostasse muito da música de uma criança do Ceará; a do Ceará gostasse da canção de Mato Grosso do Sul; de Mato Grosso do Sul... e foi super legal porque eles adoraram se escutar!

SANDRA PERES - É interessante que inclusive no "Canções do Brasil", nas fotografias que eu fiz, tem um plano de foto que a gente faz que é as crianças se ouvindo logo depois que elas acabam de gravar e noventa e cinco por cento das crianças nunca se ouviram, então quando elas - nas fotos antes do disco ficar pronto e
depois quando elas estão se ouvindo na casa delas quando a gente vai entregar- é muito bonito de ver, porque elas... é uma outra linguagem, pra elas é uma coisa muito interessante, muito engraçada, muitos deles começam a dar risada.

PAULO TATIT- E depois tivemos a oportunidade... estamos tendo a oportunidade de entregar esses CD’s nas mãos das crianças que participaram dele. E a gente fez esse show de lançamento do CD “Canções do
Brasil” onde a gente pode convidar algumas dessas crianças e a nossa ideia é ir
fazendo esse show “Canções do Brasil” em
vários Estados brasileiros, sempre convidando as crianças que participaram,
então foi muito legal porque daí elas se conheceram, ficaram amigas nos
bastidores aquela folia de um monte de criança junto(...) Depois que fizemos
esse lançamento em São Paulo, nós fomos covidados pelo Ministério da Educação
para repetir esse show em Brasília. O educador pra gente é nosso público mais
querido dentro do público adulto.

SANDRA PERES-Eu acho que a arte tem esse poder de colocar todo mundo numa sintonia onde não importa nada, o que importa é que cada um faça a sua parte no momento apropriado e eu acredito profundamente que isso ajuda muito as crianças a se desenvolverem, os adultos também,principalmente na relação humana, porque uma criança para tocar com outra ela tem que ouvir, ela tem que esperar a hora dela, ela tem que respeitar o colega e isso já é um exercício de cidadania maravilhoso.

Para ouvir o CD  completo com as canções, clique aqui.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Tatiana Belinky : para escrever, use seus olhos de ver!



Quando eu tinha meus 12 ou 13 anos era voluntária da Sala de Leitura da Escola municipal onde eu estudava. Lembro de ter falado com a orientadora da sala que umas das autoras mais procuradas pelas crianças era a Tatiana Belinky, que falava de bruxas e escrevia livros muito cheios de movimentos... eu não sei bem o que eu queria dizer com isso, mas me lembro da resposta que obtive: não são só os seus livros que são assim, mas ela, pessoalmente, também é desta mesma forma: para escrever, use seus olhos de ver!
E não é mesmo? Adoro!!!!!



Ando "dialongando" muito com os livros da Ruth Rocha. Que encantamento me desperta!
Isso que ela disse nesta estrevista, de que no fundo os desejos reais das crianças continuam os mesmos é muito verdade. Maurício de Souza disse algo neste sentido em uma palestra em 2009.
Porque penso mais ou menos nesta direção que gosto demais da antropologia da criança...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Geraldo Vandré fala do período que ficou na casa de Guimarães Rosa

Começa mais ou menos nos 35 minutos e meio.
Eu achei tudo muito estranho. O que acharam?

Trechos das Cartas de Vicente Van Gogh ao seu irmão Theo

"...As cores se sucedem como que sozinhas e ao tomar uma cor como ponto de partida me vem claramente a cabeça o que deduzir, e como chegar a dar-lhe vida. Não posso entender, por isso, a grosso modo, que um pintor faz bem quando parte das cores de sua palheta em vez de partir das cores da natureza. Interessa-me menos que minha cor seja precisamente idêntica, ao pé da letra, a partir do momento em que minha tela ela fique tão bela quanto na vida. A cor, por si só, exprime alguma coisa, não se pode prescidir disso, é preciso tomar partido. O que produz beleza, beleza verdadeira, também é verdadeiro e isso realmente é pintura e é mais belo que a imitação exata das próprias coisas." Vicent Van Gogh


Sobre cores! É por isso que entendo as palavras de Renè Schèrer quando ele escreveu que a cor é proprimante a linguagem das crianças, pois através da cor (da "encorporação" da cor) que justifica a existência da ficção (um mundo além do nosso mundo, como escreveu Antonio Candido). Se é além do nosso mundo, por que precisamos copiá-lo tal e qual os percebemos através de nossos limitados 5 sentidos ?
A criança sabe disso, mesmo sem saber que sabe! Genial !

domingo, 15 de janeiro de 2012


"Muitas vezes tenho me perguntado por que os teóricos da literatura ainda não perceberam que tudo o que dizem quando falam de fenomenologia, estruturalismo, desconstrução ou qualquer outra abordagem crítica pode ser mais claro e facilmente demonstrado na literatura infantil. O inverso disso é imaginar por que muitos de nós que nos ocupamos da literatura infantil temos sido tão lentos para reunir as duas."
Aidan Chambers