terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Páramo, Guimarães Rosa


"Não me surpreenderia, com efeito, fosse verdade o que disse Eurípides: 'Quem sabe a vida é uma morte, e a morte uma vida?'" PLATÃO, "GÓRGIAS"

"Sei, irmãos, que todos já existimos, antes ou em diferentes lugares, e que o que cumprimos agora, entre o primeiro choro e o último suspiro, não seia o equivalente de um dia comum, senão que ainda menos, ponto e instante efêmeros na cadeia movente: todo homem é um ressuscita no primeiro dia.
Contudo, às vezes sucede que morramos, de algum modo, espécie diversa de morte, imperfeita e temporária, no próprio decurso desta vida. Morremos, morre-se, outra palavra não haverá que defina tal estado, essa estação crucial. É um obscuro finar-se, continuando, um trespassamento que não põe termo natural à existência, mas em que a gente se sente o campo de operação profunda e demandadora, de íntima transmutação precedida de certa parada; sempre com uma destruição prévia, um dolorido esvaziamento; nós mesmos, então, nos estranhamos. Cada criatura é um rascunho, a ser retocado sem cessar, até a hora da libertação pelo arcano, a além do Lathes, o rio sem memória. Porém, todo verdadeiro grande passo adiante, no crescimento do espírito, exige o baque inteiro do ser, o apalpar imenso de perigos, um falecer no meio de trevas; a passagem. Mas o que vem depois, é o renascido, um homem mais real e novo, segundo refém os antigos grimórios. Irmãos, acreditem-me.”

GUIMARÃES ROSA, ‘’Páramo”. In: Estas estórias, p. 261/2

Guimarães Rosa Diplomata


Vamos ler uma carta escrita por Guimarães Rosa?Tem gente que fala que esta carta foi enviada por Rosa a João Cabral de Melo Neto, mas na verdade - como está no livro "Guimarães Rosa diplomata" p. 160-1 - ela foi escrita em resposta ao ao diplomata Jorge Kirchhofer Cabral, trata-se de uma correspondência profissional! De qualquer forma acho primorosa a carta.

"Consul caro colega Cabral,
.
Compareço, confirmando chegada cordial carta.

Contestando, concordo, contente, com cambiamento comunicações conjunto colegas, conforme citada consolidação confraria camaradagem co...nsular.
Conte comigo: comprometo-me cumprir cabalmente, cabralmente condições compendiadas cláusulas contexto clássico código. (Contristado, cumpre-me consolidação coligar cordialmente conjunto colegas?...crês?...crédulo!...considera:...”cobra come cobra!...” coletividade cônsules compatrícios contém, corroendo cerne, contubérnios cubiçosos, clãs, críticos, camarilhas colitigantes... contrastando, contam-se, claro, corretos contratipos, capazes, camaradas completos.) Concluindo: contentemo-nos com correspondermo-nos, caro Cabral, como coirmãos compreensivos, colaborando com colegas camaradas, combatendo corja contumaz!...

Contudo, com comedida cólera, coloco-me contra certos conceitos contidos carta caro colega, cujas conclusões, crassamente cominatórias, combato, classificando-as como corolários cavilosos, causados conturbação critério, comparável consequências copiosa congestão cerebral. Caso concordes cancelá-los , confraternizaremos completamente, com compreenção calorosa, cuja comemoração celebrarei consumindo cinco chopes (cerveja composta, contendo coisas capiciosas: corantes complicados, copiando cevada, causando cólicas cruéis...)

Céus! Convém cobrar compostura. Cesso contumélias, começando contar coisas cabíveis, crônica comtemporânea:
Como comprovo, continuo coexistindo concerto conviventes coevos, contradizendo crença conterrâneos cariocas, certamente contando com completa combustão, cremação, calcinação corpos cônsules caipiras cisatlânticos...

Calma completa? Contrário! Cessado crepúsculo, céu continuamente crepitante. Convergem cimo curvos clarões catanúvens, cobrindo campinas celestes, crivadas constelações.

Convidados comparecem, como corujas corajosas, contra cidade camuflada. Coruscam célebres coriscos coloridos. Côncavo celeste converte-se cintilante caverna caótica, como casa comadre camarada. Crebro, cavernoso, colérico, clama colossal canhonêio. Canhões cospem cometas com cauda carmesim. Caem coisas cilindro-cônicas, calibrosas, compactas, com carga centrífuga, conteúdo capaz converter casas cascalho, corpos compota, crâneos canjica. Cavam-se ciclópicas crateras (cultura couve-colosso...). Cacos cápsulas contraaéreas completam carnificina. Correndo, (canta, canta calcanhar!...) conjurando Churchil, conjeturando Coventry, campeio competente cobertura, convidativo cantinho, coso-me com chão, cautelosamente. Credo! (como conseguir colocar-me chão carioca Confeitaria Colombo, C.C., Copacabana, Catumbi???)
Cubiço, como creme capitoso, consulados Calcutá, Cobija!... Calma, calma; conseguiremos conservar carcaças.

Contestando, comunico cá conseguimos comboiar cobre captado (colheita consular comum), creditando-o cofres consignatário competente, calculo consegui-lo-ás, contanto caves corajosamente.

Conforme contas, consideras cós curtos como cômoda conjuntura, configuradora cinematográficoa contornos carnes cubicáveis. Curioso! Caso curtificação continue, conseguiremos conhecer coxas, calças?...Cáspite
Continuarei contando. Com comoção consentânea com cogitações contemporâneas, costumo compor canções. Convém conhêças:


CANTADA


Caso contigo, Carmela
Caso cumpras condição
Cobrarei casa, comida,
Cama, cavalo, canção
Carinho, cobres, cachaça,
Carnaval camaradão
Cassino (com conta certa)
Cerveja, coleira e cão,
Chevrole cinco cilindros
Canja e consideração,
Calista, cabelereiro
Cinema, calefação,
Chá, café, confeitaria,
Chocolate, chimarrão
Casemira – cinco cortes
Cada compra, comissão,
Conforto, comodidades,
Cachimbo, calma,... caixão,
Convem-te, cara Carmela?
Cherubim!...Consolação!...
(caso contrário, cabaças!
Casarei com Conceição.)
Caso contigo, Carmela,
Correndo com coração!...

Chega. Caceteei? Consola-te: concluí.

Com cordial, comovido: colega constante camarada,

Consul, capitão, clínico conceituado.

Confirme chegada carta, comunicando-me com cartão.


João Guimarães Rosa"

Guimarães Rosa : Definição


sábado, 5 de janeiro de 2013

Viver é...



Essa está em "João Porém, o criador de Perus", de Tutaméia...

Borges e Guimarães (trecho)


Por vários motivos (que conheço e também que desconheço), ainda não tornei leitora de Borges. Talvez por isso, embora conhecesse de tempos a referência, nunca tinha procurado ler o livro "Borges e Guimarães". Também tem que eu não gosto muito da ideia de literarura comparada. Não me toca, sei lá... é que eu gosto de 'encorporar' os textos, dai não olho com bons olhos um terceiro elemento em uma releção tão íntima (imaturidade? ou será porque não sou da letras?) Mas tem momentos que precisamos fazer coisas, mesmo carregando mil apesares. Dei uma olhada no livro e achei bem interessante. Leiamos um aperitivo:

"interessa o processo de elaboração da escrita de Borges e de Rosa, que se faz por meio da ' tatuagem' dos elementos da língua falada no corpo da escritura, seja do ponto de vista do encadeamento sintagmático, seja no de seletividade dos significantes. Não se trata, porém, do puro e simples uso da expressão falada na clausura da escrita; nos dois autores, o caráter assistemático da fala apõe-se ao sistemático da língua, criando-se uma re-codificação que aproveita o aspecto dialético para colocar-se entre duas linhas de força: uma variante popular, falada, da qual se extraem os efeitos estilísticos, criados à revelia das normas da língua, mas  que se encaixam no sistema; e outra, variante culta, literária, que implica o uso voluntário, consciente da linguagem.
O estudo comparativo baseia-se no princípio de que se devem opor elementos difereteremetem para que, da proximidade, surjam as semelhanças. As obras de Borges e de Rosa remetem a regiões opostas, geograficamente : os sertões das gerais e as orillas. Consequentemente, os traços regionais devem diferir. A maneira de produção é diversa. Em Borges, organiza-se histórias em camadas 'perolíficas', superpostas, em parco espaço, girando em torno dos mesmos motivos; em Guimarães Rosa, há sede  de espaço, a narrativa flui prolífica, poderoso fluxo verbal. " 
Vera Mascarenha de Campos. Borges & Guimarães. p. 22.


Mesmo não etendendo nada de Borges, eu concordo com as colocações de Vera; só problematizaria melhor  todas as justificativas... de qualquer forma, cá está registrada minha leitura deste  texto.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Donzela Guerreira


Tudo começou quando eu vi uma caixinha vermelha intitulada Donzela Guerreira na loja SESC. Tratava-se de
 
Resultado de um projeto cultural do grupo Anima, inspirado no livro "Donzela Guerreira: Um estudo de gênero", de Walnice Nogueira Galvão. Só de olhar a caixinha, imediatamente eu entendi porque aquilo serviria a mim - tem Diadorim, que é a própria Donzela Guerreira. N a página 80 do  livreto achei logo aquilo que eu procurava:



 
Olha ai Diadorim, em um dos momentos mais belos do romance Grande Sertão: Veredas (Ainda mais bonito só o trechinho logo em seguida, quando, depois da desoberta, Riobaldo diz algo como "não sabendo como chamar, disse apenas MEU AMOR") e o agradecimento a D. Aracy - outra donzela guerreira- que emociona muito. Mas, para além disso tudo,  não fazia ideia de quanta riqueza traria este material: 

 
 
Lá estava eu no centro do meu repertório cultural: uma sonoridade muito medieval, que  me lembrou tanto algumas interpretações de canções deo Elomar, não? Será que, mesmo sem querer, neste doutorado eu não estou, de alguma forma, realizando aquele meu desejo de ser medievalista? (rs) Possibilidades abertas pela longuíssima duração da História Cultural...

Tom Zé = Máquina de criatividade

Começando 2013 com muita criatividade,  tem Tom Zé no Sesc Consolação:

"INSTRUMENTAL SESC BRASIL 
Na universidade, com a orientação teórica de Koellreuter, Tom Zé incorporou à sua música conceitos modernistas. Uniu elementos de música erudita e de vanguarda ao folclore e às canções de trabalho de sua cidade, do povo de sua região. Em seus arranjos e orquestrações, acrescentou liquidificadores, rádios, máquinas de escrever, enceradeiras, gravadores, teclados e garrafas. Juntou-os a instrumentos convencionais, a par de um complexo sistema de som construído por ele próprio. Inventou, em 78, o sampler brasileiro. As letras de Tom Zé, influenciadas pela poesia concreta, privilegiam o essencial e, algumas, a síntese. Seus arranjos originais e a riqueza rítmica de suas composições o transformaram num dos mais irônicos e irreverentes criadores do Brasil. Ampliando os limites da canção popular, expressa a um só tempo rudimentaridade e alta tecnologia, realidade virtual e sonoridade naif. Une o pop à música experimental. Na década de 90 foi convidado pelo multiartista David Byrne, líder do Talking Heads, para ser o primeiro contratado pela gravadora Luaka Bop, que ele acabara de fundar. Os lançamentos dos CDs do brasileiro foram um sucesso planetário, com resenhas entusiásticas em toda a imprensa mundial. Recentemente lançou o CD “Tropicália Lixo Lógico”, elaboração musical e poética do movimento tropicalista. Para o Instrumental Sesc Brasil Tom Zé apresentará show inédito. Com Tom Zé - Triângulo e Instrumentos especiais; Daniel Maia – Guitarra e Instrumentos especiais; Cristina Carneiro – Teclados e Instrumentos especiais; Jarbas Mariz - Viola 12 Cordas, Bandolim e Instrumentos especiais; Felipe Alves – Baixo; Rogério Bastos – Bateria. Teatro Anchieta. "


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