sábado, 17 de fevereiro de 2024

Upile Chisala na diáspora

 


DESTILO MELANINA : Essa mulher Linda é Upile Chisala, é uma contadora de histórias do Malawi, que se formou pela Universidade de Oxford e vive em Johanesburgo, África do Sul. Upile é autora do livro de breves poemas  "Eu destilo  melanina e mel", que emprestei da biblioteca do Sesc Pompéia. Infelizmente eu não posso dizer que gostei do livro de textos curtíssimos, pelo menos não da forma como ele me apareceu. Suponho que a tradução brasileira de Izabel Aleixo, possa ter  carregado o texto de uma africana de questões  pertinentes para a diáspora. Por exemplo,o título original do livro é "Soft Magic", muito diferente de "eu destilo melanina e mel" , que é quase uma palavra de ordem com termos chaves para a militância da mulher negra na diáspora. Eu estudei um pouco os cinemas africanos, sei bem como eles não discutem necessariamente questões importantes para a diáspora, ou pelo menos não da mesmo forma que nós.Em outros momentos do livro percebo essa tendência de pôr nas palavras da  africana questões nossas  e desconfio da tradução, mas como não tenho acesso ao conteúdo original, infelizmente, prefiro dizer que eu li mais ou menos esse livro. 

Me despedindo do livrinho 


(CHISALA, Upile. Eu destilo melanina e mel. Trad. Izabel Aleixo. Capa e iluminações Tita Nigrí.São Paulo: LeYa, 2020.)
Q

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Várias camadas de amizade

 
A foto e o verso 

CAMADAS DE AMIZADE: Achei essa fotografia de crianças dentro do livro "Felicidade Clandestina" da Clarice Lispector , que foi um cartão/ presente de aniversário atrasado que ganhei do meu velho amigo Fernando Costa em dezembro de 2018, quando eu  tinha acabado de terminar o pós-doc sobre Humor Infantil e ainda só falava de crianças. Meu amigo  gostava de me ouvir falar de crianças e como isso me fazia bem, então lembrou de mim ao ver essa chapa  na feira de antiguidades em Pinheiros, marcando  não só que aquelas pessoas desconhecidas existiram em algum lugar e tempo indefinido, como também que, na hora do registro, eram crianças e a gente pode vê-las não como uma massa amorfa, mas nas suas particularidades, ainda  que ,com aquele gesto de amizade, elas passaram a representar para mim todas as crianças de todos os tempos, a própria infância , que meu amigo me dava de presente.Achei tão bonito relembrar: várias camadas de histórias contidas numa foto de crianças desconhecidas na feirinha da Praça Benedito Calixto. Obrigada por toda essa amizade e por mais essa lembrança, amigo!

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Matita Perê: obra prima de Tom Jobim



 Só porque descobri o Canal do Hamilton de Holanda no YouTube,onde ele faz interpretações de canções populares brasileiras,  assisti a esse video 



Então fui me lembrar de quando ouvi esse álbum na vida.

Lançado em 1973, Matita Perê  é  considerado por alguns o álbum mais sofisticado de Tom Jobim, o auge da sua versão "ecologista", o disco dedicado a Guimarães Rosa (que parece na ambientação de faixas como "Águas de março" e é citado nominalmente em "Matita Pere", um 'chamado João') , ouvi muito, muito,muito durante minha pesquisa de cerca de uma década sobre as estórias rosianas. Gosto muito. 😍

Quando eu falo de ambientação ao modo Guimarães Rosa quero dizer uma observação mais apurada do que se ouve e do que se vê, em Rosa de "ouve" os sons dos pássaros, Tom Jobim se "vê"  flashs da natureza tipo "é um resto de mato, é um pouco sozinho...) Amo muito 💕

Viva o Brasil, viva a música brasileira ❤️

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Meu encontro com a "Menina sentada"(1943), de Portinari



Eu criança e adulta com Menina sentada

Encerrando janeiro de 2024 eu acabei tendo,ocasionalmente, um encontro muito emocionante com "Menina sentada", de Cândido Portinari na estação Higienópolis Mackenzie do Metrô.

Eu já amava esse quandro, já vi representada nele a menina de amarelinho que eu fui, como mostro nessa postagem de 2020

 Mas eu nunca tinha visto uma reprodução maior dele, nunca reparado nos detalhes, no lacinho de fita, nas perninhas cheias de dobrinhas!

Narrei nas redes:

"Cheguei em Higienópolis, sai do metrô e subi a escada rolante em direção a rua da Consolação quando dei de cara com ela, a “Menina sentada”. Tinha outras obras antes dela, pois era uma exposição,  mas ela estava no centro e eu só via ela. Sabia que estava vivendo um encontro mágico.Quis tirar uma foto junto, mas como foi um momento mágico e só meu, não tinha ninguém ao redor para ajudar, e a foto não ficou tão boa, mas não importa, afinal nunca tinha visto uma reprodução dela: cada detalhe! Não é que é mesmo a minha cara?"

Arte, vida e representação 


Foi tão emocionante que fiz até um reel


Presentes de 2024!


sábado, 27 de janeiro de 2024

"A dançarina de Izu", de Kawabata: terceiro livro de janeiro 2024


                                   

Capa deslumbrante da Editora Estação Liberdade:
obra de Midori Hatanaka para está edição, acrílico s/ folha de ouro 


Á esquerda de alcinha, quando comecei a ler.
À direita de gola alta, quando terminei de ler.
Coincidência: sempre de azul petróleo, cor de 2024!

 


Terminei essa manhã meu terceiro livro de janeiro 2024. Eu escolhi ler o Prêmio Nobel de Literatura 1968, Yasunari Kawabata (1999-1972),  porque sabia que seria um texto esteticamente atraente e queria ainda aliviar o peso de Becos da Memória, da Conceição Evaristo.

Emprestei esse volume da Biblioteca do Sesc Pompéia sem saber mais do que se tratava, além do autor, e foi surpreendente. Não é um romance, é uma novela. Mais precisamente um recorte de uma narrativa de viagem de férias do narrador,  de um jovem que não é nunca nomeado, de então 19 anos, em 1926,  que guarda alguns traços em comum com a biografia de Kawabata - um homem solitário que muito jovem se despediu de familiares, especialmente as mulheres -  e que nessa travessia percorre belos locais ao redor de Kioto  até Izu.
 
Quando o livro começa o narrador já estava em viagem e já tinha encontrado antes a trupe de artistas mambembe que, durante o tempo em que se desenvolve a narrativa, passam a ser seus companheiros de viagem. 

Entre os artistas está a tal dançarina que toca tambor, de nome  Kaoru, então com  treze anos, mas que de início lhe parecia mais velha, por quem ele se encanta, numa admiração que sutilmente varia entre o erótico e o contemplativo.

Aliás, ouso dizer que esse livro, típico do estilo de Kawabata,  é a narrativa da contemplação, pois vemos o mundo através dos olhos do narrador, que tem um interesse estético não assumido, mas demonstrado em suas descrições poéticas: ele narra como quem desenha o cenário por onde as personagens vão passando, afinal ele é alguém que contempla a beleza da natureza e das pessoas, especialmente da pequena dançarina, que o desconcerta.
 
Por ser alguém que tem prazer estético em adentrar o outro tempo do "ver e não pensar", que é o da contemplação, faz sentido  que ele  tenha se ligado ao grupo de artistas, ainda que em todos os lugares veja placas alertando que é proibida a entrada de mendigos e artistas, mostrando como era mal vistos.

Por se tratar de um texto de Kawabata, onde  sempre existem muita ambiguidade, nesse livro isso está concentrado na própria dançarina, Kaoru, a figura feminina fugidia, que ele sabe ser sempre impossível, mas que ele não resiste a contemplar sempre que possível.

Mais um livro de Kawabata que cumpre o que eu esperava, me trouxe um texto poético e delicado, destacando as belezas da vida.

DURANTE A LEITURA POSTEI NAS REDES:

"DANÇARINA : Imersa e já quase na  metade  da novela "A dançarina de Izu", de Kawabata eu fico naquela ambivalência que a escrita dele nos coloca, um estranhamento, você lê, não sabe porque está lendo aquilo, mas não consegue parar de ler. O que se apresenta é uma viagem (ainda não sei bem o motivo) feita por um japonês de 19 anos até Izu, que pode ter fundo autobiográfico. No caminho ele encontra uma trupe de artistas de rua que se tornam seus companheiros de viagem. Nesse grupo está a delicadíssima bailarina que o encanta. O livro é escrito em primeira pessoa e você vai vendo o que o jovem vê: um texto cheio de contemplação , mais  ou menos  como em "A casa das belas adormecidas". Até agora o destaque da narrativa está na beleza e delicadeza das descrições , seja  das paisagens, ou das pessoas. Orientais, detalhistas... Outro mundo! Por enquanto ainda não apareceu a chave literária (em "a Casa das belas...", me veio quando surge Buda -o desperto- nas memórias do velho protagonista, no momento em que ele está em meio às jovens adormecidas: velhice/juventude, desperto/adormecidas), talvez nem venha nessa novela ,vamos ver..."

ALGUNS TRECHOS BONITOS 

"Fiquei ansioso e deixei a porta aberta. Permaneci sentado e imóvel. Cada vez que ouvia o som do tambor, meu coração batia mais forte, como a tentar acompanhar o instrumento.'Ah, a dançarina ainda está no banquete, e continua tocando o tambor.'
Toda vez que o som cessava, o silêncio se tornava insuportável. Mergulhei de corpo e alma no ruído aquoso da chuva. (...) Fechei a porta e fui dormir, mas meu coração recusava o descanso. O que estaria fazendo a pequena dançarina? Alguém a acompanhava pelo resto da noite? Mais uma vez entrei no banho. Esfreguei-me com força.
A chuva parou e a lua surgiu. Lavada pela chuva, a noite de outono olhava intensamente. Pensei em sair descalço para vê-la, mas já passava das duas horas da manhã."(p.25-6)


"Ao chegar aos dezenove anos, comecei a refletir sobre minha personalidade solitária. Não suportando esta melancolia, parti para a viagem em direção a Izu. Portanto, o fato de pessoas comuns (os artistas companheiros de viagem) me verem como uma boa pessoa era para mim muito gratificante. As montanhas continuavam a emitir uma claridade. Sinal de que Shimoda e o mar estavam próximos."(p.49)

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"Em meio a escuridão, enquanto me aquecia com o calor do corpo do estudante a meu lado, meus olhos converteram-se em dois pequenos oceanos cercados por todos os lados pela minha face. Minha mente parecia estar se transformando em fonte de água pura que, como a vida, se derramava gota a gota. Por fim sobrou o doce sentimento de nada mais restar."(P.59-60)







segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Samba do sol pré carnaval 2024

 

 

Minha expectativa ainda é baixa para essas "edições especiais" do Samba do Sol na Casa das Caldeiras , porque acabam significando pouco samba, apesar do de outubro, que foi quase como antigamente. Foi um domingo chuvoso, chuvoso demais, mas o Samba do Sol sempre  promete aquecer e aquece, pois esse  foi até legal, mesmo que eu nem tenha ficado pra hora do samba novamente.

Eu seca, molhada, fantasiada

Começou que eu saí sem acessórios de Carnaval, levei tudo numa sacolinha amarrada na pochete que, obviamente, acabei esquecendo no ônibus. Aí tive que improvisar esse colar havaiano que amarrei no relógio. Foi a sorte.

Quando cheguei estava tocando o Bloco Filhos de Gil,muito cheio e o porão ainda fechado.

Depois teve DJ e o Ge de Lima tocando carnaval da Bahia, fiquei bastante lá até descer pro porão, onde vc estava rolando a Festa Catuaba ,com muito funk.

Aí fui conversar com amigos no quintal, onde tinha uma DJ maravilhosa, até Pepeu ela tocou 😍

Quando subi no principal estava o Grupo Reduto,mas eu tinha que ir embora. Assim foi mais um samba do sol.

Escrevi um bom resumo do que achei:

SAMBA DO SOL NAS CALDEIRAS: Foi legal por ter encontrado tanta gente querida pela primeira vez no ano. Mas não foi como em outubro e não consegui ficar no Samba. Triste. 
Daqui duas semanas tem Quintal dos Prettos e não vai ter essa de pouco samba , porque Maria Zélia é minha casa 😍

 Alguns registros:

Ge de Lima

Ge de Lima

coreógrafo

baile

Bloco Filhos de Gil

Bloco Filhos de Gil

Quando cheguei

Quando cheguei







Aninha, grande amiga 


Amigas: Aninha, eu, Roseli 




Outras narrativas: 

EXPLICANDO : Eu é minha amiga Roseli acabamos de tirar uma foto com um copo de Catuaba Selvagem , mas foi cenográfico, porque todo mundo sabe não bebo mais kkkkk


Ontem a noite,no quintal da Casa das Caldeiras, uma menina estava cantando com toda emoção a música da Ivete Sangalo, todo mundo parou para olhar... Ela abriu os olhos e disse para mim "desculpa,me empolguei aqui"
Eu falei : que é isso, relaxa. Eu sempre me empolgo também,a diferença é que eu filmo,posto nos stories e ainda ponho a legenda CAMILA SENDO CAMILA

sábado, 20 de janeiro de 2024

Estado de líbido ou poesia de prazer e cura, de Carmem Faustino : segundo livro de janeiro 2024


 Quando devolvi o pesado  "Becos da memória "da Conceição Evaristo na biblioteca do Sesc Pompéia, em busca de mais lirismo, emprestei um curtinho do japonês Kawabata para ser o segundo livro de janeiro. Ainda devo terminar de ler esse mês. 

Mas como não posso deixar de lado a literatura preto brasileira,também trouxe um livro de poesia escrito por uma mulher preta, a linda escritora,ativista e educadora do Campo Limpo, São Paulo, Carmem Faustino

Carmem Faustino

Em seu "Estado de líbido ou poesia de prazer e cura", Faustino mostra exatamente o que é: poeta, ativista e, sobretudo,uma mulher negra em efervescência, descobrindo a líbido e o amor próprio como arma da luta descolobizadora. Um exemplo, da página 35:


Ler esse livro, como mulher preta, me relembra porque queremos homens pretos. Eles podem nos proporcionar experiências como nesse trecho


Li o livro todo em uma tarde. Depois fui revisitando trechos que gostei mais. Devo reler mais trechos até devolver.

Como grande admiradora da poesia de Hilda Hilst, o grande nome feminino a escrever poemas eróticos no Brasil, eu tenho um filtro muito fino para julgar, mesmo assim gostei da obra. 

Editado pela editora Oralituras, com belas capa e ilustrações de Isabela Alves (Afrobela), encontramos lindas aquarelas em marrom, complementando os poemas, como pequenas joias. Um mosaico de algumas belas  ilustrações:

Detalhes de ilustrações de Flávia Rosa (Afrobela)

Muito bom ter encontrado e lido esse livro!