segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Auto descoberta como mulher

Capa de "O tempo, Camila- mini contos", de Elias José (1971)


Estranho,mas esses mini contos de Elias José, que achei certa vez na biblioteca da FFLCH, juntamente com outros  autores (as) como Hilda Hilst, Manuel Bandeira e Clarice Lispector, ajudaram a  formar a Camila mulher ali na passagem do século XX para o XXI!  E outras narrativas que já não me servem mais, naquele momento foram fundamentais, como algumas canções "femininas" de Chico Buarque,
  a paixão de Maria Bethânia, a solidão poética do livro  A Ostra e Vento de Moacir C. Lopes, tal qual sua adaptação para o cinema de Walter Lima Junior. E sobretudo Almodóvar e a solidão crônica de seu Fale com ela, a quem devo a honra de soltar meus cachos sempre, doa a quem doer

A respeito dessas coisas todas, nesse meu momento atual, só me lembro do fim de  Elogio da Sombra, de Jorge Luis Borges :"Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro"

Mas antes, vamos ao mini conto de Elias José:


Camilamor
Camila, mande à merda a tristeza. Me possua, me destricha, faça de meu corpo sala e quarto, onde se entra e sai quando quer. E, no ato da posse, esqueça tudo. Vamos resumir o mundo em nossos corpo se em cada movimento nosso o mundo se movimentará; em cada sorriso teremos a certeza de que a vida ficou mais bonita. Vamos singularizar nossos sonhos e você verá como cabem aqui. Não mais distâncias. Seremos gêmeos, nascidos num só corpo. E os homens, vendo nossos corpos unidos, pensarão em fantasmas, bichos anormais, metade peludo, metade sem pelo. Nós vamos rir dos homens. Um riso grande de duas bocas fundidas numa só.Camila? Por que Camila? Porque se for mulher é Camila. Se não for Camila nem é mulher.Os russos vão a Marte. Os americanos voltam à Lua. Eu me desliguei do mundo e faço, calmo, a eterna viagem no que no corpo de Camila.

Elias José 

...Lua, lua, lua,por um momento Meu canto contigo compactua...

...Lua, lua, lua, lua 
Por um momento 
Meu canto contigo compactua
E mesmo o vento canta-se
Compacto no tempo 
Estanca
Branca, branca, branca, branca
A minha, nossa voz a tua sendo silêncio
Meu canto não tem nada a ver com a lua
Lua, lua, lua, lua ...
Caetano Veloso



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sobre A Arca de Noé de Vinicius de Moraes


Estou ouvindo a versão de 2013 de A Arca de Noé, e que emoção!
Pelo que se sabe, "foi em 1950 que Vinicius de Moraes "Começou a escrever, sem a preocupação reuni-los  em livro, poemas infantis inspirados na Biblia. Salvo um ou outro, como o dedicado a São Francisco de Assis, os poemas tinham como base a história de  Noé  e sua arca ... "  Sendo seu último projeto em vida o de transformar estes poemas em  música, que virou disco postumamente, sei de uma canção que foi gravava  em 1956 por Paulo Soledade, mas que acabou ficando de fora do disco, mas talvez tenha sido o primeiro registro de que aqueles poemas foram compostos para serem canções (a cara do Vinicius isso!)

Com isso, reparem, estamos pensando cerca de trista anos  para a realização do projeto!  Quem, como Vinicius, "perderia" tanto tempo na produção de um objeto cultural para crianças, sabendo que a infância  é tão transitôria, quando se vê, já passou ... 

São referências assim que eu quero na minha tese :  só me interessam os adultos que respeitam as crianças, que não desconsideram sua sabedoria e perspectiva de vida! 
Quem quer saber mais sobre a história de A Arca de Noé, ouça este programa maravilhoso, um dos episódios em homenagem ao centenário do poetinha, que está disponível neste link da rádio Cultura AM: