quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Como um simples mortal atige a perfeição?

Está claro que para se tornar perfeito só é preciso morrer. Se isso acontecer com impressionanes 104 anos, a pessoa vira mesmo quase um santo. Estive procurando, desde que recebi a notívia da morte de  Oscar Niemeyer, um comentário crítico sequer sobre seus feitos. Quase não há. Mas achei este texo da  Renata Falzoni  no site da ESPN , com o qual concordo ...
 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Literatura

"A literatura é hoje a fonte a partir da qual os mitos se fertilizam, brotam, da qual fluem e invadem as almas. Ela é a Grande Lira do homem moderno, tal qual Orfeu. Enquanto ela tocar, teremos conforto para o frio, o escuro, a solidão e a insônia dos tempos hostis. Ela nos conduzirá sempre para a vitalidade pujante dos inícios, lá onde o poeta proclama, a cada nova vez e sempre." ♥ N. Sevcenko. Dicionário de Mitos Literários . Org, Pierre Brunel, 1998.

domingo, 2 de dezembro de 2012

cantigas do norte de Minas

Ainda sobre Steven Pinker



Para escrever meu projeto de doutorado em 2009 meu orientador me recomendou  a  leitura deste livro. Sobre ele  escrevi este post, destacando que tantas vezes lembrava dele nas aulas de Semiótica de Luiz Tatit. Mas agora,    apesar do nome sedutor e da intenção  de parecer descontraído, o que me  lembro é que esta  foi uma das leituras mais árduas do doutorado todo! (rs) Não só porque o livro é enorme (ele para  de pé sozinho na estante), mas também porque estranhei sair  do ambiente mental das ciências humanas, pareceu mais  pesado. Apenas depois de   algum tempo  que fui ler Oliver Sacks  e outros que resgataram a graça da reflexão sobre o cérebro humano, fazendo tudo parecer realmente delicioso.
Agora, já na fase final, resgatei algum suco no livro de Pinker (pouquíssimo em meio a um livro de 560 páginas), como quando ele aborda a  língua dos bebês (foi o primeiro autor que li tratando deste tema, mas não foi o melhor). Para ele, criança ao falar faz escolhas dentro do que foi experimentado, pois não pode repetir todas as frases que ouviu, precisando 
“extrair um conjunto de regras que lhe permitirá compreender e expressar novos pensamentos." (Pinker, 2008. p. 44-5) 
Você, adulto, pode dizer que isso é um dos postulados mais básicos da linguística,  né? Mas não chama a atenção que bebês, que nem entraram ainda no mundo oral, o exercitem ? Ainda citando Pinker:

(Pinker, 2008. p. 43-5)


Realmente uma questão para se pensar, porque nós adultos tendemos a achar (e às vezes até a exigir) que as crianças possuam a mesma percepção e condição que nós temos, o que é uma violência! As crianças são livres do comprometimento com a gramática dos adultos, e talvez seja por isso que elas conseguem desenvolver a linguagem tão rapidamente. Vejamos uma tirinha usada por Pinker:

(Pinker, 2008. p. 54)


Acho que comecei a torcer um pouco menos o nariz para este livro, o que pensam?

sábado, 1 de dezembro de 2012

Abraçaço (do e no) Caetano Veloso!

A capa do mais novo  álbum de Caetano Veloso, assinada por FernandO Young
(não confundir com Fernanda Young, please), que representa o título do disco: um abraçaço!
 
Divulgando a capa tão significativa e carinhosa e a lista de faixas :
 
1. A Bossa Nova É Foda
2. Um Abraçaço
3. Estou Triste
4. Império da Lei
5. Quero Ser Justo
6. Um Comunista
7. Funk Melódico
8. Vinco
9. Quando O Galo Cantou
10. Parabéns
11. Gayana
 
Caetano Veloso, aquele lindo, comemora agora seus 70 anos, recheado de homenagens merecidíssimas e lançando seu último álbum intulado Abraçaço, termo que ele mesmo explica  lindamente assim:
 
"— Abraçaço é uma palavra muito bonita e tem essa reverberação, parece um eco, mais ainda quando escrito, esse a-ce-cedilha duas vezes. É como se fossem círculos concêntricos de abraços, que vão se expandindo. Não é apenas grande ou maravilhoso como é um golaço, por exemplo. É expansivo. No disco, o abraçaço abarca desde cena íntimas até o fato que "o império da lei há de chegar ao coração do Pará". Caetano Veloso, entrevista ao Globo em novembro 2012.

 
Adoro quando Cae comenta música a música como nesta entrevista (coisa que ou ele nem sempre faz, ou eu que acabo nunca tendo acesso). Eu ouvi poucas coisas do novo disco por enquanto, mas quando ouvi a música "O Império da Lei" claro que identifiquei de imediato a referência ao assassinato da missionária Dorothy Stang em 2005 e, consequentemente, isso me fez relembrar do alerta do Willi Bolle na época : esse universo sem lei, onde até Deus, se vier, que venha armado, do Grande Sertão : Veredas, não está morto no Brasil do século XXI. É o Caetano tocando o dedo na ferida novamente, colocando-se, sem querer agradar...
 
Acho ótimo, e sintomático, termos um artista como Caetano no Brasil, que tem suas opiniões e não tem medo de remodelá-las, nem de ser polêmico em alguma parte do processo de reflexão. Pensa e faz pensar. Penso que  precisamos de gente assim, por isso ele é meu "ídolo", afinal com ele não preciso concordar com tudo o que ele pensa ou faz (não é um modelo de vida), é um incentivador da reflexão ... e é um puta de um poeta! Agrada tantos  e também desagrada na mesma medida. Quem precisa de unanimidades?
 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A voz das palavras mágicas de João Guimarães Rosa

Aleluia gente, o texto completo da minha fala no III Congresso Internacio​nal de Leitura e Literatura Infanfil e Juvenil, realizado em maio 2012, na PUCRS foi publicado nos anais do evento. O nome do texto é "A voz das palavras mágicas de João Guimarães Rosa", e o link para ler na íntegra é http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/IIICILLIJ/Trabalhos/Trabalhos/S3/camilarodrigues.pdf.

Sobre as "Histórias que os camponeses contam: O significado de Mamãe Ganso", de Robert Darnton



Na velocidade dos nossos tempos (até se pensando em ciências humanas como a História), o livro O Grande Massacre de Gatos, publicado por Robert Darnton (que eu amo) em meados dos anos 1980, para nós (leitores dos anos 2000)  um pouco datado, já que aponta tantas “novidades” na época (como as trazidas pela História das Mentalidades, que à época era mesmo a nova voga e hoje, mais de vinte anos depois, já foram quase que totalmente abandonadas pela produções de historiografia, deixando atrás de si, entretanto, algumas pegadas de todo um caminho no percurso daqueles historiadores, que agora já foram incorporadas à percepção do pesquisador. Como exemplo, neste livro, tomo alguns trechos de um texto fundamental para a minha pesquisa que estou relendo com cuidado, o salutar capítulo “Histórias que os camponeses contam: O significado de Mamãe Ganso”:   

“As grandes coletâneas de contos populares, organizadas nos séculos XIX  e início do século XX, oferecem uma rara oportunidade de se tomar contato com as massas analfabetas  que desapareceram no passado, sem deixar vestígios. Rejeitar os contos populares porque não podem ser datados nem situados com precisão, como outros documentos históricos, é virar as costas a um dos poucos pontos de entrada no universo mental dos camponeses (...)
O maior obstáculo é a impossibilidade de escutar as narrativas, como era feitas pelos contadores de histórias. Por mais exatas que sejam , as versões escritas dos contos não podem transmitir os efeitos que devem ter dado vida às histórias do século XVIII: as pausas dramáticas, as miradas maliciosas, o uso dos gestos para criar cenas – uma Branca de Neve com uma roda de fiar, uma Cinderela catando piolhos de uma irmã postiça – e o emprego de sons para pontuar as ações – uma batida à porta (muitas vezes obtida com pancadas nas testas de um ouvinte) ou uma cacetada, um peido. Todos estes dispositivos configuravam o significado dos contos e todos eles escapam ao historiador. Ele não pode ter certeza de que o texto inerte e sem vida que ele segura, entre as capas de um livro,  fornece um relato exato da interpretação que ocorreu no século XVIII.(...) Anotações da mesma epopeia, narrada pelo mesmo cantor, demonstram que cada interpretação é única. No entanto, (...) em cada caso, o cantor procede como se caminhasse por uma estrada bem conhecida. Pode desviar aqui, para fazer uma pausa, ou ali para apreciar uma vista, mas sempre permanece em terreno familiar, tão familiar, na verdade, que seria capaz de dizer que repetiu exatamente os mesmos passos dados antes. Não concebe a repetição da mesma maneira que a pessoa alfabetizada, porque não tem noção de palavras, linhas, versos. Os textos, para ele, não são rigorosamente fixos, como são para leitores da página impressa. Cria-se um novo texto ao narrá-lo, escolhendo novos caminhos através  dos velhos temas. Até pode trabalhar com material tirado de fontes impressas, porque a epopeia, no todo, é tão maior que a soma de suas partes a ponto de as modificações de detalhes mal perturbarem sua configuração geral.”(DARNTON, Robert. Histórias que os camponeses contam: O significado de Mamãe Ganso. In: O Grande Massacre de Gatos,2006. p.32-4)

  “... Um longo espaço de tempo pode parecer desagradavelmente vago a qualquer pessoa que exija que a História seja precisa. Mas a precisão pode ser inadequada, ou mesmo impossível, na História das mentalidades, um gênero que requer métodos diferentes dos empregados nos gêneros convencionais, como a História política. Visões de mundo não podem ser descritas da mesma maneira que acontecimentos políticos, mas não menos ‘reais’. A política não poderia ocorrer sem que existisse uma disposição mental prévia, implícita na noção que o senso comum tem do mundo real. O próprio senso comum é uma elaboração social da realidade, que varia de cultura para cultura. Longe de ser a invenção arbitrária de uma imaginação coletiva, expressa a base comum de uma determinada ordem social.” (DARNTON, Robert. Histórias que os camponeses contam: O significado de Mamãe Ganso. In: O Grande Massacre de Gatos,2006.p.34-9)

Além de tudo isso, me chama a atenção a diferença que o texto sutilmente  apresenta entre as histórias contadas oralmente  e suas versões escritas.   Darnton acerta quando destaca que os símbolos alegóricos (como o relação direta entre o vermelho do chapeuzinho e a conotação sexual, ou o frágil pote de vidro alegorizando a virgindade da menina no  conto) não existiam nos contos populares, mas  foram crianções literárias de alguns compiladores, como Perrault ou os irmãos Grimm. Só que, ainda assim, é com base na interpretação destes símbolos que se sustentam muitas interpretações, como a dos psicanalistas e estes a estendem para o tempo longo das lendas e  não apresentam muitos pudores em anular a visão histórica das expressões. É  como se, desde sempre e em todas as culturas, o vermelho, o vidro tivessem significado a mesma coisa  e por isto esses contos seriam  quase que "Histórias Primordiais" (DARNTON,, 2006. P.37). Quando, na verdade,  estes símbolos e seus significados  foram criação dos próprio psicanalistas intérprete.
Porém, se a interpretação psicanalítica parece não servir muito para a História antropológica de Darnton, já que  não seria possível dizer nada sobre o que pensam os populares sobre símbolos que não aparecerem em suas expressões orais; penso que é muito significativo para o historiador que se debruça sobre as narrativas literárias destes contos, que também possuem sua História e isso não deve ser anulado. É preciso pensar mais ainda sobre.  Conforme eu for achando mais momentos ímpares para a reflexão de uma historiadora da História Cultural / do Livro e da Literatura  como eu volto a postar aqui, certo?