sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

“A Cidade Ilhada”: o rio de histórias de Milton Hatoum

 

 


 Se para o escritor o melhor prêmio é o leitor, como sugeriu o premiado Milton Hatoum numa live no Instagram nesta semana, eu sou um prêmio agridoce para ele, porque eu leio tudo o que chega até mim, sou leitora assídua e voraz, mas uma leitora bem chata, fico brigando com os livros, vendo cabelo em ovo, aprofundando a relação... Mas sempre leio, porque eu adoro a escrita dele, até por isso mesmo que eu olho tão criticamente. Logo no começo eu reclamei que a edição não trazia informações sobre quando os contos foram escritos, mal sabia eu que o próprio autor explica em detalhes num posfácio que eu mal tinha reparado! A chata!

                Leitura do segundo semestre de 2020, “A cidade ilhada” foi um livro difícil de ler, primeiro porque demorou um pouco para chegar, coisas da pandemia, depois me pegou  bastante  ocupada  em meados de setembro, eu tendo que preparar aulas, textos, acompanhar a Mostra de Cinemas, mil coisas e acabou que eu poucas vezes me sentei para ler o livro, como gosto sempre de fazer. Fui lendo os contos bem aos poucos, quando dava, porque não gosto de ler superficialmente, isso nunca. Não com Hatoum.

                Aqui farei um breve ou brevíssimo comentário sobre cada um dos contos do volume.

Varandas  da  Eva –Abre o volume e é o conto mais comentado por todo mundo, conta uma história envolvendo  iniciação sexual junto a profissionais em Manaus,  daquele jeitinho hatuano de escrever. Não me chamou a atenção, exceto pelo aparecimento do Tio Ranulfo, personagem de “Cinzas do Norte”, romance muito citado na contracapa do livro.
Uma estrangeira na nossa rua -  Continho bem pueril, agradável . Até demais? Me lembrou muito alguma coisa de W. G. Sebald, coisas soterradas pelo tempo podem emergir, não importa o tempo que passe.
Uma carta de  Bancroft -  O conto fala sobre um narrador  que se dirige a biblioteca de Berkeley para ler uma carta inédita de Euclides da Cunha que nunca foi encontrada na correspondência de Euclides. Seria real, ou não? Logo no início uma personagem sinoamericana chega a comentar que para seus antepassados (sua cultura) “a realidade não tinha a menor obrigação de ser interessante” (p.23). A ficção sim, ou também não? Não vou falar mais detalhes, mas o conto aprofunda esse jogo de forma excelente, na minha opinião. Adorei!

Um oriental na vastidão Aqui temos uma narradora, como em “Relato de um certo oriente” e o centro da trama está em um pesquisador japonês que viaja a Manaus para viajar pelo Rio Negro por um motivo que só lendo pra saber. É um dos textos mais bonitos do livro, muito bem escrito, com trechos de tirar o fôlego, para contemplarmos aquelas palavras como o japonês contempla o Rio manuara  como por exemplo : "logo depois, o céu silenciou. E o silêncio subtraiu a noção de tempo. (...) Não havia mais claridade, e a superfície escura do remanso alcançava o céu." (p. 34-5)

Dois poetas da provínciaUm conto de culto à memória intelectual de certas gerações manauaras  através de dois poetas, um jovem e um velho e suas relações reais ou rememoradas  com Paris. Me lembrou o tom, o cilma de alguns momentos do romance  “Dois irmãos” e, claro, de “Cinzas do Norte”, como se fosse mais um exercício num possível laboratório de composição ficcional do universo do autor. Eu viajo.

O adeus ao comandanteAh, um conto muito do jeito que eu gosto, mais uma história um tanto fantástica (apenas o suficiente) que se passa em Manaus, uma história oral, uma narrativa propriamente dita. É importante destacar isso, pois ela se apresenta exatamente assim, quando o velho caixeiro viajante Moamede  chega de mais uma viagem, encontra os jovens reunidos a espera da transmissão da TV e propõe contar uma história incrível, envolvendo o barco Princesa Anaíra,do seu amigo comandante  Dalberto, dos rios, e um caixão, etc. Que conto fabuloso! Me lembrou de muito aquelas narrativas sensacionais da literatura universal presente em antologias de contos universais como nos volumes de  “Mar de histórias.” Palmas para esse conto, escrito por um grande escritor e a procura de um bom leitor.  

 Manaus, Bombaim, Palo Alto  – Um escritor residente em Manaus (alter ego de Hatoum?) recebe o comunicado de que um almirante da marinha indiana (mais um oriental) decidiu conhecer seu escritório, todo deteriorado, sem condições de receber uma visita. Mas acaba recebendo e eles então cotejam as realidades de relação com a linguagem das inúmeras línguas faladas na Índia que foram trocadas pelo inglês colonizador e  as várias línguas amazônicas  que deram lugar ao português. Tem trechos notáveis como “muitos indianos de Madras e outras cidades do Sul se sentem mais à vontade falando inglês do que em urdu. De todo modo, com ou sem computador, todo o subconsciente se comunica com os deuses. Até os navios da nossa marinha são batizados com nomes das divindades.”(p. 58) A questão da “aculturação” é muito mais complexa do que pode parecer, sempre há alguma resistência.

 Dois tempos– Novamente uma história do sobrinho do tio Ranulfo, o tio Ran, que volta à Manaus já adulto e se surpreende em encontrar a casa do tio fechada, pois ele estaria viajando, mas o garoto aproveita para relembrar suas vivências naquela cidade.  Com o retorno do tio, o sobrinho começa a fazer aulas de canto com a professora Aiana e essa relação domina o enredo.

A casa ilhada – Um conto muito misterioso, cheio de suspense e, novamente, uma personagem de fora, um estrangeiro, chega a Manaus buscando encontrar algo ou alguém. No caso é o pesquisador de peixes de água doce suíço Lavedan, que vem de Zurique, querendo conhecer a “casa ilhada”, de um postal que teria recebido, anos atrás. O conto é muito bem articulado, acho que o eixo para decifrá-lo (não que eu tenha decifrado, claro) esteja na imagem do peixe tralhoto,que  " com seus olhos divididos, vê ao mesmo tempo o nosso mundo e o outro: o aquático, o submerso", e com o qual, em um dos mais belos trechos do conto, o estrangeiro  vive um momento de plena cumplicidade :”os  olhos de Lavedan encontraram os do tralhoto, e ambos permaneceram assim: o peixe e o homem, quietos, encantados pelo magnetismo de tantos olhos voltados para dentro e para fora. Isso durou o tempo de um olhar demorado.”(p.70)

Bárbara no inverno – Digo de antemão: É certamente o conto que menos gostei do livro todo. Embora seja bem anterior, posso até situá-lo no universo de criação literária de Hatoum ali nos primeiros volumes da trilogia “O Lugar mais sombrio”: personagens brasileiros exilados em Paris e que, certa hora, retornam ao Brasil com suas questões afetivas, políticas ou existenciais à flor da pele. Inclusive no primeiro volume da trilogia temos um personagem chamado Lázaro, altamente politizado, como o namorado da Bárbara.  O tema não me agrada em nada e até canção do Chico Buarque tem, poxa vida (na trilogia as canções são menos obvias). Podemos passar para o próximo?

A  ninfa do teatro Amazonas  – Texto muito fantasioso que aborda a história do idoso segurança Álvaro e uma parturiente  que teria entrado no teatro e levado o senhor a rememorar a soprano Angiolina Zanuchi. Certamente precisaria reler com mais tempo, mas a sensação constante é a de que tudo se passa (ou não se passa) numa grande alucinação de Álvaro, algo bastante interessante para um conto.

 A natureza ri da cultura  – Esse conto eu situo perto do meu romance favorito, “Relato de certo oriente”,  especialmente  por ser narrado por uma mulher  (sem nome) e pela sua avó, a  matriarca Emilie que tem origem libanesa mas se interessa pela cultura francesa  e indica a sua neta aprender francês os nome de Amand Verne, um estudioso das línguas indígenas  e acreditava que a língua podia “preservar e promover” sua cultura, e o de Felix Delatour, que acreditava no contrário “não se pode dominar totalmente  um idioma estrangeiro, porque ninguém pode ser totalmente o outro. Um deslize no sotaque ou na entonação já marca uma distância entre os idiomas, essa distância é fundamental para manter o mistério da língua nativa . ”(p.97) A questão do deslocamento é abordada em várias frentes, tomando a língua como filtro  em frases como “A viagem, além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o olhar”(p. 100). ”Novamente, como no conto sobre o idiano em Manaus, a grande questão se apresenta em torno das línguas e da identidade. Gostei muito, como sempre,  senti saudade de  Relato de certo oriente”.

Encontros na penísula  – Esse conto é divertido e um mergulho literário envolvendo Machado de Assis e Eça de Queiroz que acabam mudando e dando rumo às ações das personagens do conto, a espanhola Victoria, seu professor de português (alter ego de Hatoum?)que narra a história e o namorado português de Victória o Soares, o fanático por Eça de Queiroz. Uma história cheia de camadas, um conto fantástico!

Dançarinos na última noite  – A história desse conto segue ao redor do casal de dançarinos Miralvo e Porfíria que antes viviam em Manaus, mas tiveram que se mudar, o que os deixou sempre saudosos da terra natal. Não consegui alcançar o sentido desse conto, não o  achei lírico, nem fantástico, não entendi muito,mas...

 

Em geral gostei mais do livro nesse balanço rápido do que na própria leitura, em muitos momentos, foi muito bom revisitar esses textos de Hatoum que, tantas vezes, registram  de processos de composição do autor, algo que eu adoro perceber. Muitos contos são grandiosos, poderiam estar em uma grande antologia de contos universais só que  e como foi escrito por um manauara, minha ideia é ligs-los um  rio amazonense.

Parabéns e oxbrigada Hatoum, você me distraiu, me fez pensar e sentir várias coisas! Até uma próxima leitura.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Faces Camila 2020

 Certamente foi um ano atípico. O meu tradicional painel com fotos mês a mês em dezembro demorou bastante para sair, teve meses que eu nem encontrava fotos, mas no fim deu certo. Excetuando as primeiras três, todas as fotos foram em casa, no meu quarto ou quintal, onde a luz nem sempre é tão favorável, mas eu tentei dar um up mesmo assim. Embora eu ache que o meu cabelo veio melhorando pouco a pouco, nunca ficou do jeito que eu gosto, isso só quando aquele maldito corte sair de vez, o que  ainda deve demorar. Mas para um ano "em casa" até não em saí mal, não acham?

 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

MELHORES 2020 (teve até tricampeonato!)

 


Sim, o ano foi (ainda está sendo)  uma porcaria, mas a gente tem que tirar leite pedra, né? Passamos de 15 de dezembro e já dá para contar as melhores coisas, porque não é porque foi tudo mais para o ruim que não vivemos umas coisas melhores do que outras, então lá vai  a listinha tradicional  de 10 quesitos, às vezes adaptada, mas  só para não deixar a tradição morrer e teve até  tricampeonato!

1 – ROLÊ : PRÉ CARNAVAL BLOCO LUA VAI NAS CALDEIRAS É TRICAMPEÃO

Melhor rolê do ano

A concorrência foi pouca porque os rolês foram só até março, fui nas festas nas Caldeiras em janeiro (com banho de espuma e tudo) e no samba no Maria Zélia em 01 de março e no Samba do Sol dia da mulher no Mural da Casa de Cultura (meu último rolê) ; em fevereiro  e teve o carnaval , pré e pós, que não conta como rolê, esse rolê ainda era uma festinha de aquecimento e que aquecimento:  pelo terceiro ano seguido a melhor festa do ano  foi o baile pré carnaval na Casa das Caldeiras com o Bloco Lua Vai. Pagode 90 é vida e esse  é sempre melhor rolê, valeu por um ano inteiro sem festas! (queria por vídeos, mas os sons ficaram ruins)
















2- MÚSICA: SE A FILA ANDAR

Podia dar para “Amor de Quenga”, que é o hino do ano, mas para ser mais honesta, com a proposta do quesito, leva esse prêmio a música que eu mais ouvi o ano todo e com isso não posso deixar de dar o prêmio para “Se a fila andar”, que é uma música digna, tipo "não seja FDP e respeita nossa história" e que eu ouço nas caminhadas na rua sempre  e em casa, até o Youtube sabia que eu gosto e todo dia rodava sozinho uma playlist com todas as versões possíveis, eu AMO! Minha favorita é a versão do Panela Preta

3- LIVRO : A Noite da Espera de Milton Hatoum e "Torto Arado" de Itamar Vieira Junior

Livro mais significativo do ano
Ano passado até escolhi “Dois irmãos”,mas queria ter dado o prêmio pro Milton Hatoum como autor do ano, em 2020 eu  li menos do que gostaria, ele continuou presente,  comecei lendo “A noite da espera” e “Pontos de fuga”,  os dois primeiros volumes da trilogia “O Lugar mais sombrio”, com os quais briguei muito o ano todo, pois o tema me desagrada (geração bicho grilo), as circunstâncias da leitura (plena pandemia), mas no final do “Pontos”, enfim, criei  empatia pelo protagonista  Martim, me emocionei demais, fui até às lágrimas ouvindo a canção “Mãe” ,do Zeca Veloso. Quando começou a quarentena comecei lendo filosofia, o livro “10 liçoes sobre Sloterdijk”, do professor Paulo Ghiraldelli, que achei sensacional para pensar esta pandemia num contexto mesmo da História Natural, como  vínhamos nos comportando para que chegássemos ao extremo de precisar viver isolados uns dos outros por causa do Corona Vírus? De literatura, peguei um livro que eu tinha abandonado há anos  e terminei de ler “Jorge Amado Dona  Flor e seus dois maridos”, de Jorge Amado, foi muito divertido. Fora isso eu li mais Hatoum, os contos de “A cidade ilhada” agora no fim do ano, que como sempre me agradou e desagradou na mesma proporção,  mas ainda espero pelos romances e por ouvir Hatoum falar na intenet, que é uma delicia. Fora isso, li muita coisa pra trabalho: Livros de ou sobre Janusz Korczak como "O direito da criança ao respeito", "A República de crianças" e "Coletânea de pensamentos"; livros para montar as aulas do minicurso sobre Guimarães Rosa como "Noites circenses - Espetáculos de Circo e teatro em MG do Século XIX", da Regina Horta Duarte  e "Metamorfoses" de Ovídio; livros para ajudar nos artigos que ainda pretendo escrever na quarentena como
"O  Planeta Cultural" de Gilbrto Mazzoleni "Manifestos", de Oswald de Andrade. Essa semana mesmo  Hatoum disse em uma live que participou no Instagram, que melhor prêmio é mesmo o leitor, e esse eu já  dei a ele faz tempo. Só que como tenho que escolher um livro que marcou meu ano, escolho “A noite da Espera”, não porque eu tenha sido o que mais gostei (longe disso), mas o ano também não foi bom, e esse livro ainda teve uma coisa de Minas Gerais, das relações entre
Foto do prêmio Jabuti  de melhor romance 

Literatura e História e como Hatoum escreve muito bem, foi o que mais recomendei, o que mais me acompanhou nos lugares, livro companheirinho, foi um livro importante e a capa é LINDA. 
Eu já tinha publicado essa lista quando terminei de ler o "Torto Arado" de Itamar Vieira Junior,que foi efetivamente o melhor livro do ano. Que tiro foi esse?
Ainda não tive tempo de escrever sobre ele, mas que eu gostei mais do que tudo! Salvou meu morno ano literário em 2020.

4- FILME : "A vida invisível", de Karim Aïnouz e"Mostra de Cinemas Africanos 2020" 

Único filme em cinema de 2020

Nesse ano nunca tive uma relação tão estreita com os filmes como em 2020, muito  por causa da Mostra de Cinemas Africanos 2020,em suas duas temporadas online, a melhor coisa para a quarentena. Não tenho condições de escolher um filme da mostra,  nem acho justo colocar aqueles no mesmo saco dos cinemas ocidentais porque gostei de todos, todos em conjunto, acabei até fazendo uma apresentação sobre eles ele dezembro.

Melhores cinemas do ano

 O prêmio deveria ser para os Cinemas Africanos, tão importantes para mim, mas se tiver que escolher um filme só agora, escolho o único que eu vi no cinema em janeiro esse ano e me emocionou muito, que foi “A Vida invisível” de Karim Aïnouz, sobre o qual escrevi essas palavras emocionadas.  

5 – FOTO: No Jornal Nacional

Virei Global

2020 não foi um ano de fotos, mas se tiver que escolher uma escolho a do carnaval  que eu e a Patricia aparecemos vários minutos no Jornal Nacional, porque não é todo dia que a gente vira global! Detalhe: Novamente algo envolvendo o Bloco Lua Vai, eu nem curto pagode 90!

6- Bebidas/comidas: Pipocas



Em casa, na quarentena com a pipoqueira, adquiri o hábito de comer pipocas todos os dias.
Amo!

7- Show / Lives: Caetano Veloso 78 anos

Primeira Live do Cae


Não vou contar os shows do carnaval, então show não teve esse ano de quarentena. Mas tivemos Lives e eu confesso que me diverti muito. Amei todas que vi e vou tentar lembrar todas. Desde as mais calminhas “Renato Teixeira” (lembrei do meu pai) , do “João Bosco”, as que assisti com minha mãe “Roberto Carlos” e “Fabio Junior”, nas duas nós cantamos muito junto com eles, foram grande momentos da quarentena! As agitadas  do “Samba do Sol”, do “Quintal dos Prettos”, passando pelas duas do "Zeca Pagodinho" (melhores cenários e banda) , do "Dudu Nobre" (enorme, o cara tem fôlego),  dancei e cantei muito junto com a do “Raça Negra”, as lives maravilhosas da diva “Alcione”, as do "Péricles", na falta do "Art Popular" (que foi cancelada) a do "Márcio Art", as do “Molejão” (a gente morre de rir ), sambar mesmo sambei e até gravei o samba na live do "Bloco Lua Vai", mas essa não conta porque já ganharam melhor rolê. Teve a live da Virada Cultural “Elza Soares e Flávio Renegado no Teatro Municipal”, muita coisa boa, mas a melhor live do ano foi a dos 78 anos do Caetano Veloso em 7 de agosto, a primeira live dele, com os filhos, no pior momento da pandemia, parecia que era uma questão de tempo e todo mundo ia acabar morrendo, mas deu para reunir tanta gente online, para cantar a trilha sonora das nossas vidas, chorei muito! Obrigada painho.

8 – Roupas e acessórios: Máscaras

Algumas máscaras


Não tinha como escolher outra coisa: Máscaras, né gente? Foi a roupa/acessório do ano!

9- Conquistas do ano : Sobreviver e produzir












A maior conquista nesse ano de pandemia é que eu e minha mãe sobrevivemos com saúde, juntinhas aqui em casa. No meu caso, conseguindo produzir mais, participei uma Live com Fernando Costa no Instagram e no dia da Consciência Negra de outra publiquei um capítulo de livro no meio do ano, organizei o "Dossiê História Cultural do Humor" na Revista Faces da História com o João Paulo Capelotti, ministrei o minicurso online sobre Guimarães Rosa "A Estória contra a História" na "Semana de História da Unesp Assis", assisti um curso online sobre Cinemas Africanos na plataforma SESC e fiz até uma apresentação online sobre cinemas africanos para o "Canal da Revista Círculo de Giz". Deu para viver bem, mesmo em quarentena.

 10- Preto do ano: Akin Omotoso



Em 2019 ninguém levou esse prêmio, pura revolta minha, mal sabia eu como ia piorar tudo. Nesse, o preto do ano mesmo, de verdade, não posso falar quem foi (sim, foi aquele melhor momento que não posso revelar onde, nem quando nem com quem, só saudade), mas para não ficar vazio esse pódio, o prêmio vai para o diretor de cinema nigeriano  Akin Omotoso.  Que preto é esse?

Acho que foi isso,se tiver atualizações volto aqui para inserir e que venha 2021!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Uma live de Milton Hatoum no Instagram

 

OUVIR MILTON HATOUM - Adoro lê-lo, mas às vezes não é o suficiente, então é preciso ouvi-lo. Na live desta noite com o psiquiatra da FMUSP de ascendência grega  Táki Cordás  a conexão e o próprio Instagram não foram tão legais, ele caiu mais de uma vez, mas mesmo assim foi maravilhoso ouvir falar  uma pessoa QUE LÊ é outro nível nesse túnel sem luz da minha quarentena cheio de sons de televisão tentando me deixar burra, muito burra demais.  E Hatoum não é só um escritor (e dos bons), é também um grande leitor. Logo no início falou de um dos autores de sua formação que é o Graciliano Ramos, acho fundamental atentar para o Graça que ele nos projeta. Ai citou  a frase fundante para o escritor,retirada de Caetés "O MAIS DIFÍCIL É ESCREVER". E não é mesmo?

Depois falou da importância dos lugares, da Manaus da sua infância que o acompanhou por todos os lugares do mundo onde ele esteve e como isso também aprece nas suas obras. 

Depois foi perguntado o quanto de sua própria experiência tinha na construção da personagem  Martim, o protagonista da trilogia, e ele disse que Martim teve, como ele, a experiência de ser o isolado nos lugares, a solidão do estrangeiro em todos os lugares, mas ele, Milton, não teve a experiência dolorosa de separação da mãe que viveu Martim, que por ela se tornou um melancólico, traumatizado, não tem paz porque acha que perdeu a mãe, mas às vezes acha que ela pode estar em silêncio em algum lugar que ele não sabe onde é. É essa a sua quase loucura. (demorei um tempão para entender esse processo, no começo, em "A Noite da Espera" me irritava muito com Martim, não tinha compaixão, mas foi com o "Pontos de Fuga" que eu "realizei" aquele trauma, até chorei cantando "todo homem precisa de uma mãe"!)

Ai ele revelou que o terceiro volume, que é menor, que é onde a MÃE DE MARTIIM CHEGA, ENFIM,  no romance e deveria ser lançado agora, mas a pandemia adiou os planos e deve sair no segundo semestre de 2021! (O que eu vou fazer até lá?)

 "Dois irmãos" em  grego


Estava tudo muito bom, muito bem, mas a rede dele caia sem parar ... quando voltou falou um pouco sobre seu processo de escrita, de como é fundamental o distanciamento temporal para a construção da ficção. VOLTAR A OUVIR AS VOZES DA INFÂNCIA, de como foi ter ouvido tantas línguas de pequeno, árabe e outras, que eram  línguas que ele não entendia, mas que ficou na sua memória como uma "melodia perdida", sons da sua infância com os quais tem familiaridade e que reinventa na ficção ( se me lembro bem é  em "Relato de um Certo Oriente" que essa questão das línguas ouvidas por todos  na infância, mas que só alguns aprendem o idioma e compreendem o que é dito, é retratada)  ... Quando ele falou isso sobre infãncia ,  JURO, ele citou um  grande trecho do  Sertão perfeitamente :

" A opinião das outras pessoas vai se escorrendo delas, sorrateira, e se  mescla aos tantos, mesmo sem a gente saber, com a maneira da ideia da gente!" (Grande Sertão: Veredas") 

CARA, ISSO É SÓ, MAIS OU MENOS, UM RESUMINHO DA MINHA TESE SOBRE A INFÂNCIA NA ESCRITURA DE G. ROSA <3


Ai perguntaram se ele era assim tão fatalista, pois começa a maioria dos romances pelo seu fim trágico, como se não fosse dado aos personagens a possibilidade de mudarem seu destino. Ai ele riu, e disse que as personagens mudavam muito,  mas sempre no meio da travessia , ai lembrou o Grande Sertão de novo, claro.


Caiu a conexão de novo e quando voltou falaram sobre a política atual e ele, lúcido até demais, disse que não acredita na literatura como salvadora , o que pode melhorar a sociedade são políticas públicas capazes de promover a humanização das pessoas.

Que estamos vivendo uma exacerbação do antigo projeto de destruição da cultura global, educação, da coisa pública que está em andamento desde sempre, com poucos períodos de respiro (essa hora me angustiei de verdade).Mas ele se saiu com essa:  Está tudo horrível, MAS PODE MUDAR. Vamos chegar numa hora e quem não vai dar mais para aguentar e vamos sair às ruas. TOMARA!

Obrigada Hatoum até uma próxima

sábado, 12 de dezembro de 2020

Quarentena em casa : Mergulhando nos cinemas africanos



Convidada a falar sobre minha experiência em passar a quarentena em casa durante a Pandemia de Covid19, só pude falar na oportunidade ímpar de mergulhar nos cinemas africanos, em uma fala longa demais, mas muito apaixonada, que vocês podem ver aqui:


 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

" Vaya”, África do Sul, 2016, dir. Akin Omotoso

 

Cartaz do filme

Eu costumo começar o comentário sobre os filmes com uma curta sinopse dele, mas nesse caso tem alguém que faz isso bem melhor que eu, com a palavra Akin Omotoso :



Lançado dois anos antes do tocante  "O Fantasma e a casa da verdade", Vaya conta a história de três personagens que viajam de trem do interior da Áfrca do Sul para a capital Joanesburgo e na cidade nós vamos descobrindo que suas vidas e histórias estão entrecruzadas.  Como vemos nessa entrevista com Omotoso, Vaya é um longa metragem resultante de um trabalho junto à pessoas em situação de rua na capital e por isso as histórias nos apresentam realidades muito brutas, mas sempre pinceladas pelo olhar ficcional do diretor. Em geral Omotoso não alivia em seus filmes e com esse não foi diferente, assisti-lo me despertou uma mistura de sensações o tempo todo, na maior parte do tempo, um suspense, uma tensão, pois a impressão que se tinha era de que as personagens, sempre com a faca no pescoço, iam se perder. Mas como já adiantei,  o genial do roteiro é que, mesmo em meio ao cenário de incertezas, violência, indefinições,  as tramas se entrelaçam de forma surpreendente, mas nem sempre isso significa final feliz. Só assistindo para saber.
Como comentar esse filme incrível? Acho que a melhor forma é seguir um roteiro tradicional, falando a história das três personagens protagonistas, na ordem que Omotosoos apresentou na sinopse em vídeo acima, destacando as questões que  cada uma nos apresenta. Já faço alerta de pode ter bum leve  spoiler.

1-      A história de Nkulu e a questão da tradição 

Nkulu sabe sacrificar a vaca

Nkulu vai a capital  com a função de encontrar o corpo do pai, que há muito vivia na cidade, e levar para ser enterrado em sua terra natal. Essa função é tão primordial para sua cultura que ele é sempre monotorado por sua mãe  outras mulheres pelo telefone

A mãe ao telefone e a comunidade ao redor esperam respostas

E Nkulu, na cidade, descobre que o pai tinha dinheiro e  outra família em Joanesburgo, que já o tinha sepultado. Nukulu descobre um irmão que precisava cortar uma vaca em sacrifício para sua mãe, mas não sabia fazer isso. Mas pai havia ensinado o pequeno  Nukulu que, para a surpresa de todos,  executa a função com maestria, sem muito sangue ou muito sofrimento no animal, mostrando sua profunda relação com a tradição. Mas o impasse do corpo não se resolve, então o rapaz encontra um tio que vivia na cidade e ouve dele que não haveria mais o que fazer se não o certo: dar um jeito e levar o corpo do pai para ser enterrado em sua terra natal, junto aos seus ancestrais, ou então sua mãe e sua família cairiam em desgraça e os antigos não os poderiam mais protegê-los.  Nukulu fica sem saída e seu fim não foi muito reconfortante. Essa inserção de assuntos relacionados à cultura tradicional, com muito peso e reverência,  no meio de enredos que se passam em ambiente urbanos é uma das coisas que eu gosto mais nos filmes de Omotoso. Talvez esse tipo de coisa seja, para mim, um marcador de que estou vendo um filme africano.

2 -A história de Zanele e a questão das mulheres 

       

Zanele, a bela dançarina

Se em "O Fantasma..." (2018) o papel das mulheres é central com duas protagonistas, neste filme anterior a personagem central divide seu protagonismo com mais dois rapazes, no entanto é a partir da história dela que vamos vendo ser desenvolvida uma trama complexa que expõe uma realidade dura para as mulheres na África do Sul.  Zanele é uma adolescente que dança e viaja com a prima menor para levá-la até sua mãe, que é uma famosa cantora em Joanesburgo. Elas não têm dinheiro algum e a sua única saída é esperar até que a prima as receba na cidade e lhes pague comida e outras necessidades. O problema é que Patrícia, a mãe cantora, não as recebe na hora e local combinado, fazendo com que as duas tenham que pedir abrigo na casa de um comerciante. Nessa noite temos umas das cenas mais tensas do filme, pois tememos pela menina e especialmente por Zanele, que é vistas como propriedade do comerciante, os outros homens, amigos de jogatina, que chagam a propor comprá-la, o que não é aceito pelo comerciante, mas nos dá uma ideia do que de pode pensar sobre mulheres naquele ambiente

Comprar a moça 

E quando Patricia (Phuthi Nakene), a mãe da menina chega no dia seguinte, conhecemos o seu bar e ficamos sabendo que ela não foi buscar a filha porque, alcoólatra, acabou dormindo embriagada. Mas é com ela que temos uma das mais belas,apesar de triste, cenas do filme, quando ela conta sua dolorida história a Zanele, de que foi patrocinada pelo vilarejo todo para viajar à cidade e ficar rica, já que todos diziam que tinha voz angelical e realmente tinha, mas não era a única, e na cidade não ficou rica, mas os moradores vieram lhes cobrar a conta, como ela não tinha dinheiro, pagou com seu próprio corpo e agora já não devia nada a ninguém. Então canta um blues
“Olá Damini... onde você esteve Damini? Eu acabei de chegar da cidade.”

A sofrida Patricia

E ela,linda, então aconselha a jovem Zanele a ficar na cidade, onde ela pode ser o que quiser, porque no vilarejo ela só seria a mulher de alguém e Zanele parece ter entendido o conselho, mas pede ajuda ao namorado de Patricia, que ela não sabe, mas é um comerciante de mulheres, para tentar um emprego de dançarina na TV, deixando Patricia muito enciumada, pois tem a impressão de que  Zanele quer lhe roubar o homem e a filha, e a manda embora de sua casa, mas o garoto que vive nos fundos acolhe a adolescente e eles conseguem ver a cena matinal em que Patricia tem que acordar um bêbado que foi dormir na porta da sua casa e a mulher chora de desespero

Desespero de Patricia

Falso teste para TV

Mas Zanele vai aprendendo a lidar com as dificuldades e, sempre com a ajuda do amiguinho e da priminha, vai redescobrindo sua própria beleza, que é cada vez mais valorizada. As cenas protagonizadas por sua beleza e juventude são muito impactantes

Arrumando-se










E a mais bela cena do filme é a de seu abraço no seu jovem amiguinho , dois sobreviventes

Abraço dos sobreviventes

3-      A história Nhlanhla e a inocência perdida


Nhlanhla saindo do trem

O jovem Nhlanhla é talvez a personagem mais inocente do filme, bastante simples o interiorano chega atraído por uma proposta de emprego de um primo, mas não sabe que tipo de trabalho vai ter que fazer. É recebido por dois homens que dizem estar à serviço do primo, mas eles o prendem e batem muito no menino, em cenas fortes de dor e desespero, e como o pobre Nhlanhla não sabe porque estão fazendo aquilo e só lhe resta implorar por socorro
Nhlanhla é torturado

Quando o primo chega, enfim, fica sabendo que o trabalho que tem que fazer é matar um homem, o que ele diz que não consegue fazer, mas o primo e os seus comparsas o ensinarão. Como o rapaz é resistente a ideia de assassinar, o primo o leva até um lixão, mostra pessoas miseráveis e alerta que, caso ele não faça o serviço, aquele será o seu destino 
Ou você mata, ou vira morador de lixão

Não vou contar o final de Nhlanhla,  só que o que acontece com ele encerra a narrativa e dele e dos outros personagens. Um excelente filme, amei!



Quero mais Akin Omotoso em minha vida <3









quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

"Supa Modo”, Quênia/Alemanha, 2018, dir. Likarion Wainaina

 

cartaz


Depois de perder na Mostra de Cinemas Africanos de 2019,  quando ele foi um dos filmes mais aclamados,de perder quando foi exibido no curso sobre cinemas africanos porque  não tive tempo de assistir naquela semana, enfim vi Supa Modo, o filme que fechou a segunda temporada oficial da mostra 2020
Supa Modo na Mostra de Cinemas africanos 2019

Sobre ele todos alertam: FAZ TODO MUNDO CHORAR. Eu sabia disso, talvez por por isso, até inconscientemente,  adiei tanto assistir.
E quando assisti chorei e bastante mesmo, mas não pelos motivos que eu imaginei que choraria. Me lembrei tanto das crianças personagens
Jo e seus super poderes
O desejo de Jo modifica a realidade

do Guimarães Rosa (minha especialidade), o poder da  Menina de Lá ou da inventividade da turma de Pirlimpsiquice;   me lembrei de O Menino e o mundo, que é um filme desenhado e animado, que convida às crianças a fazerem o mesmo e produzirem um filme de sonho, como é o filme de Jo e por fim  me lembrei das crianças do Bloch, que o tempo todo mostravam verdades  que os adultos desconhecem. No filme a inventiva  menina Jo (Stycie Waweru), fã de filmes de heróis e de Kung Fu, tem uma doença terminal e sai do hospital para passar seus últimos momentos em casa. Sua família e amigos fazem de tudo para realizar seu sonho de ser uma grande heroína e poder voar,transformar a vida numa coisa melhor .

O roteiro é simples , mas cativante, enquanto a mãe começa não querendo que ela fique no hospital, mas a trata com mimos como se ela ainda estivesse lá, a  irmã tem mais sensibilidade para os desejos infantis da menina e percebe  que ela necessita de outra coisa : ela  precisa brincar, imaginar, ser feliz e então ela,  os amigos, muita gente, faz de tudo para realizar o seu sonho de ser Supa Modo.



O bonito é que ela realmente tem poderes mágicos: faz todo mundo tão mais feliz, ao entrar no eu faz de conta, que se torna uma realmente uma heroína. É muito emocionante .



ALERTA DE SPOILER

Quando todo mundo está envolvido no plano de fazer com que Jo se torne mesmo uma heroína, mas  tudo às escondidas da mãe dela, também nós expectadores entramos no jogo e acreditamos nos super poderes da Supa Modo, que evidentemente pode voar. 

Mas ai a mãe descobre o plano e começa uma briga, até que é a própria Jo que interfere e diz algo mais ou menos assim: “eu sei que nada disso é verdade, eu só estava me divertindo, fazendo as pessoas felizes". 

Essa fala me remeteu ao começo do filme, quando Jo ainda estava no hospital e chegou a comentar com um dos seus amigos, a respeito dos seus pôsteres de heróis e lutares de kung fu “eles (os adultos) não sabem de nada do que a gente sabe. E nesse momento ela demonstrou sua sabedoria infantil, que opera nos territórios onde as crianças (e os artistas) dominam os seres humanos lógicos: o da imaginação. No caso de Jo, esse território vem muito a partir do cinema, do filme que foi todo produzido para celebrar a vida dessa menina especial, pois foi o cinema o  que mais alimentou seu imaginário na vida.



Eu sou Supa Modo!


No final não temos mais a presença física da nossa menina, mas temos o filme e principalmente, temos Supa Modo , a garota que voou, que venceu a batalha da tristeza e da doença  que agora é heroína das crianças, tanto quanto o Batman, Bruce Lee  ou  Jackie Chan foram os ídolos dela.

Somos todos Supa Modo !


Não tive tempo de assistir a entrevista com o diretor antes que saísse da plataforma do Cinesesc, mas espero que ela ainda esteja disponível em algum lugar na internet, se conseguir ver, volto aqui para comentar, por hora termino com uma linda foto do elenco na fase de divulgação do filme e um trailer fofo