sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

"Tecnomacumba: 15 anos de um canto de resistência contra a intolerância religiosa"



2."Tecnomacumba: 15 anos de um canto de resistência contra a intolerância religiosa" - 19 de junho de 2018
Camila Rodrigues (publicado originalmente em 19 de junho de 2018)
“A música é minha religião, acredito que através dela aconteça a comunhão
 sagrada entre as pessoas de todas as raças e crenças na celebração da vida.”
 Rita Ribeiro, encarte de Tecnomacumba, 2006

            No ano de 2003 a cantora maranhense Rita Ribeiro, que atualmente assina Rita Benneditto, começou a aglutinar músicos, artistas e produtores no sentido de pensar em um projeto musical mesclando  sons eletrônicos, a sonoridades da MPB e cantigas das religiões afro-brasileiras, num belo louvor à multiplicidade da cultura e religiosidade brasileira. Somente em 2006 foi lançado o seu Tecnomacumba, com quatorze faixas e esse é o seu quarto disco, mas até hoje ainda é o mais conhecido disco de sua carreira. Como lemos na matéria do portal O Imparcial, no ano de 2018 celebram-se os seus  quinze anos, contatando que ele tornou Rita conhecida no país e no exterior, sendo apresentado em um megafestival na cidade de Dakar (Senegal, África). No Brasil, até hoje, continua fazendo sucesso e a própria Rita comenta, no encarte, que o disco é como uma “grande gira”, que começa chamando as várias divindades pertencentes aos panteões das religiões afro brasileiras, logo na primeira faixa “Saudação/Abertura”. Como a introdução desta canção tem forte inspiração no material oral extraído das festas de terreiro, esta parte da letra não consta no encarte do disco, como se não fosse a intenção de ali  transcrever,  traduzir ou explicar  os múltiplos significados expressos e recriados a cada entoação verbal. Mesmo nesse contexto de indefinições, encontramos esta transcrição no site Vagalume:

Balorê êxu é Mojubá
Ogunhé Patacuri
Ogum é Orixá!
Kao Cabicile Xangô
Kao meu pai!
Okê Arô
Oxossi é Caçador!
Ewá Sossanha
Ewá sá
Arroboboia Oxumaré
Roboboia!
Atoto Ajuberô
Atoto Obaluaie!
É tempo, é tempo
sará tempo
Eparrei
Ora ieie o mamãe Oxum
Ora ieie o
Ô docyaba Yemanja
Ôdoia mamãe
Saluma Nanã Saluba!
Erê mim
Ibeji
Jurema
Adorei as almas
As almas adorei
Shiuépa babá Oxalá
Shiuépa!

 A partir de então são entoadas adaptações de Rita e de Jongui para algumas cantigas de Umbanda, louvando pomba giras como a Cigana  e qualidades de Exu como Meia Noite e Tranca Rua, em uma espécie de iniciação aos “trabalhos” . Então, na primeira parte do disco, cada faixa passa a abordar especificamente um orixá masculino ou  feminino.

Dentre os masculinos, o primeiro homenageado é Ogum, através da canção Domingo 23, de Jorge Ben, que no encarte é chamado Benjor, que trata do santo guerreiro São Jorge, cujo dia é 23 de abril e que, em alguns lugares do Brasil é sincretizado com Ogum, o qual também é um “cavaleiro, guerreiro, justiceiro, assim é Jorge, salve Jorge”. No arranjo adaptado de Tecnomacuba, é introduzida uma cantiga para Ogum : “a Ogum ê/Ogum é tata que malembê”, e que segundo o Dicionário de Cultos Afro-Brasileiros , quer dizer algo como “suplico ao pai Ogum”, mas que também pode significar “Ogum, pai da misericórdia”. A próxima divindade homenageada, com a canção Cavaleiro de Aruanda, de Tony Osnah, é Oxossi, que é  cantando como sendo “o filho do verde, o filho da mata, saravá nossa senhora, a sua flecha mata”. Ao final, novamente, é introduzindo uma cantiga de despedida da divindade em festa de terreiro:

”Galo canto, tá chegando a hora.
Oxalá tá me chamando, caçador já vai embora”

Para louvar Xangô o álbum apresenta a belíssima canção de Gilberto Gil chamada Babá alapalá: “pai Xangô Aganju vira egum babá alapalá, espírito elevado ao céu, machado astral ancestral do metal do ferro natural do corpo embalsamado preservado em bálsamo sagrado corpo eterno e nobre de um rei nagô: Xangô”, remetendo ao culto dos Egunguns, que seriam os ancestrais masculinos, comandados por Zazi. No Brasil, as divindades que antes eram  cultuadas em tradições diferentes em África, se mesclaram e com isso, em muitos casos, Zazi foi relacionado diretamente a Xangô, ainda que, originalmente,  tais divindades pertençam a panteões diferentes, no imaginário brasileiro ainda existe uma relação entre elas. Outro caso de sincretismo é o culto a Tempo, que na Umbanda e nas casas de Candomblé corresponde a uma divindade, mais especificamente, um Orixá ligado à ancestralidade e para reverenciá-lo, consta  no Tecnomacumba  a canção Oração ao Tempo, de Caetano Veloso:

Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Por seres tão inventivo e pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo és um dos deuses mais lindos

Lembrando sempre que, apesar do nome, Tempo não é somente tempo, é também uma  corruptela de Kitembo, Kitempo, Ndembewa. Em algumas tradições brasileiras Tempo é sincretizado a Irôko, porém lembramos, novamente, que essas divindades  vieram de cultos diferentes e como, no disco de Rita, o Tempo destacado é o Orixá, para ele cita-se uma cantiga que elenca diversos nomes dados à divindade: “Ê Tempo Macura Dilê. Ê Tempo Macura Tatá. Da Muraxó é Macuriá”.

Adentrando o grupo de cantos destinado às divindades femininas, temos a canção A Deusa dos Orixás, que Toninho e Romildo compuseram a partir de uma cantiga de terreiro que conta casos da mitologia de Iansã, e que ficou muito popular na gravação de uma das cantoras que mais representou a tradição afro-brasileira, que foi Clara Nunes:

mas Yansã, cadê Ogum? foi pro mar
na terra dos orixás, o amor se dividia
entre um deus que era de paz
e outro deus que combatia
como a luta só termina
quando existe um vencedor
Yansã virou rainha da coroa de Xangô

Ainda sobre a divindade que é a senhora dos ventos e das chuvas fortes, valente, forte e independente, ouvimos uma canção que cita vários nomes de Iansã usados nos rituais afro-brasileiros: “E damburê/ E damburê/Mavanjú/E damburê bela Oiá” e depois a canção Iansã, de Caetano Veloso e Gilberto Gil :

Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim
Eu sou o céu para as tuas tempestades
Um céu partido ao meio no meio da tarde
Eu sou um céu para as tuas tempestades
Deusa pagã dos relâmpagos
Das chuvas de todo ano
Dentro de mim, dentro de mim

Para Iemanjá,  ouvimos a adaptação de um canto para ela : “Eu tava na beira da praia/Vendo o balanço do mar/Quando vi uma linda sereia/Aí eu comecei a cantar”, que introduz a canção Rainha do Mar, de Dorival Caymmi:

Minha sereia é rainha do mar
Minha sereia é rainha do mar
O canto dela faz admirar
O canto dela faz admirar
Minha sereia é a moça bonita
Minha sereia é a moça bonita
Nas ondas do mar aonde ela habita
Nas ondas do mar aonde ela habita
Ai, tem dó de ver o meu penar
Ai, tem dó de ver o meu penar

 Encerrando a homenagem às Iabás (Orixás femininos), ouvimos o canto para a rainha das águas doces: “Moro mima iô/ abadô Ia ye yeu ô/”, que segundo é transmitido pela tradição significa algo como “senhora dona das águas sem sal, mãe do rio”, para então começarmos a ouvir a canção  É D’Oxum, de Gerônimo e Vevé Calazans :

Nessa Cidade Todo Mundo É d’Oxum
Homem, Menino, Menina, Mulher
Toda Essa Gente Irradia Magia
Presente Na Água Doce
Presente n’água Salgada
E Toda Cidade Brilha

A partir da metade do álbum, temos faixas tratando de tradições e modos de pensar das religiões afro-brasileiras, como a lembrança dos tempos da escravidão em  Coisa da antiga,  de Wilson Moreira e Nei Lopes, também difundida na voz de Clara Nunes:

“Hoje o olhar de mamãe marejou só marejou
Quando se lembrou do velho, o meu bisavô
Disse que ele foi escravo mas não se entregou à escravidão
Sempre vivia fugindo e arrumando confusão

Disse pra mim que essa história do meu bisavô, negro fujão
Devia servir de exemplo a “esses nego pai João”
Disse afinal que o que é de verdade

Ninguém mais hoje liga
Isso é coisa da antiga

Na regravação do divertido samba de coco Cocada, de Antonio Vieira, antigo sucesso da própria Rita Ribeiro, ela é introduzida por uma cantiga  para os santos católicos Cosme e Damião, que nas representações, sempre estão acompanhados de um menino vestido como eles, chamado Doum, sobre quem se acredita ter sido uma criança salva por eles. Em alguns lugares,  Cosme e Damião são sincretizados com outras divindades cultuadas nas regiões afro-brasileiras, os irmãos Ibeji, que são gêmeos crianças. Na faixa de Tenomacumba, o trio  aparece brincando em meio aos orixás:

Cosme e Damião
Damião cadê Doum?
Doum tá passeando é no cavalo de Ogum

Uma entidade cultuada na Umbanda e que ganha uma faixa só para si, adaptada diretamente de uma cantiga de terreiro, é Jurema:

ô Juremê, juremá
é uma cabocla de pena
filha de tupinambá
rainha das águas e areias
nunca atirou para errar.

Encerrando a “gira tecno” temos a faixa Tambor de Crioula, de Junior e Oberdan Oliveira,  sobre uma dança do Maranhão, terra de Rita, e nesse momento  começa a despedida, sublinhando a miscigenação religiosa:

ô dá licença minha gente eu vou m´embora
eu vou m´embora já está chegando a hora
eu vou m´embora mas um dia eu volto aqui
se deus quiser Jesus e Nossa Senhora

Mas, se para irem embora, nas giras, as entidades e orixás incorporados sobem da terra para alto porque estariam sendo chamadas por Oxalá, então  é significativo que o disco termine mesmo com o  Canto para Oxalá, em Iorubá , encerrando os “trabalhos”.

Comemorar a permanência do sucesso desse trabalho por mais de uma década, em uma época que já não valoriza a longevidade das produções musicais,   é não apenas reconhecer a viva e  forte presença do imaginário e das práticas das religiões afro na canção popular brasileira, através de faixas de compositores populares e também de grandes nomes, mas é também necessário e até fundamental,  porque pontua o disco como um grito de resistência contra o preconceito e a intolerância religiosa que, infelizmente, ainda é ativa no Brasil.


Referências 

RIBEIRO, Rita (Benneditto) . Tecnomacumba. Rio de Janeiro: Manaxica produções.  Biscoito Fino distribuição, 2006.   (CD).
Baba alapalá – Gilberto Gil
Coisa da Antiga – Clara Nunes
Domingo 23- Jorge Ben
Egungun – Wikipédia
Iansã – Caetano Veloso e Gilberto Gil
Iansã – Clara Nunes
Letra de “Abertura” e “Saudação”- Vagalume
O projeto Tecnomacumba – Rita Benneditto
Oração ao tempo – Caetano Veloso
Rainha do Mar – Dorival Caymmi
Tecnomacumba – Rita Benneditto – Wikipédia
CACCIATORE, Olga Gudolle. Dicionário de Cultos Afro-Brasileiros. São Paulo: Ed. Forense Universitária, 1977.
RIBEIRO, Rita (Benneditto) . Tecnomacumba. Rio de Janeiro: Manaxica produções.  Biscoito Fino distribuição, 2006.   (CD).
RITA BENNEDITTO CELEBRA 15 ANOS DE TECNOMACUMBA. In: O Imparcial.  
Antonio Vieira, Caetano Veloso, Candomblé, Clara Nunes, Dicionário de Cultos Afro-brasileiros, Dorival Caymmi, Gerônimo, Gilberto Gil, Jongui, Jorge Benjor, Junior, Nei Lopes, O Imparcial, Oberdan Oliveira, Rita Bennedittto, Rita Ribeiro, Romildo, Tambor de Crioula, Tecnomacumba, Toninho, Tony Osnah, Umbanda, Vevé Calazans, Wilson Moreira



O simbolismo afro-brasileiro no cancioneiro de Jorge Ben e um apêndice sobre sua origem etíope


O simbolismo afro-brasileiro no cancioneiro de Jorge Bem 
Camila Rodrigues (publicado originalmente em 14/maio/2018)
Em 1963 o lançamento de Samba Esquema novo, primeiro disco de Jorge Ben, inaugurou a carreira deste que, até hoje, é um dos mais consolidados músicos negros do Brasil. Logo em sua primeira canção, Mas que nada, Ben mostrou seu estilo até então sem precedentes na canção nacional em uma mistura de samba, bossa nova e jazz e uma maneira peculiar de tocar violão onde se destaca o suingue. Em declaração que relembra sua primeira audição da canção, o crítico musical Tárik de Souza surpreendeu-se com a singularidade daquele som, inclusive supondo que nem mesmo o próprio Ben soubesse de onde teria vindo tanta originalidade. Adiante, Tárik sugere que os caminhos para desvendar aquele enigma musical já estava indicado em pormenores na letra:

Esse samba
Que é misto de maracatu
É samba de Preto Velho
Samba de preto tu

Sendo, então, a trilha que passa pela cultura e musicalidade popular do maracatu e do imaginário de matriz africana e associados ao período da escravidão, como a figura da ancestralidade representada pela entidade de umbanda Preto Velho e na figura do negro rebelde, o Preto Tu, remetendo aos pretos bantos, que seriam, para Souza, a origem da música  afro-brasileira.  Vamos procurar no conjunto de canções de Jorge Ben, o seu cancioneiro, exemplos que nos contam  muita coisa sobre o negro no Brasil e suas relações com as heranças trazidas da África e que aqui foram rearticuladas.

No cancioneiro de Jorge Ben são cantados personagens da história dos negros, e que ali aparecem como heróis e heroínas bravos, simbolizando virtudes e posicionamentos capazes  de inspirar seus descendentes a adotarem uma atitude  positiva diante da vida. O herói mais notável cantado por Ben é Zumbi dos Palmares, tema central da canção Zumbi, do disco Taboa de Esmeralda (1972) e que foi regravada com o título  África Brasil (Zumbi), no álbum África Brasil (1976). Nesta canção Ben sintetiza séculos da história da vinda dos negros para serem escravizados na América, começando por relembrar os locais de onde eles teriam vindo:

Angola Congo Benguela
Monjolo Cabinda Mina
Quiloa Rebolo

E que, na música, seriam os locais de onde vieram os homens a serem vendidos num “grande leilão” e dentre os tais estaria até uma princesa com seus súditos. A partir daí, vemos pequenas cenas da escravidão e, ao final, este processo é enfim interrompido pela incitação do retorno da figura histórica salvadora Zumbi:

o senhor das guerras
senhor das demandas
quando Zumbi chega
É Zumbi quem manda

Nesta imagem de Zumbi ele aparece como um ser mitológico que teria comandado e protegido os ancestrais cativos dos negros e cuja figura pode ser evocada através de encantamentos, já que é senhor das demandas e um dos significados atribuído à essa palavra no vocabulário das religiões afro-brasileiras, é justamente ritual de feitiço. Outra personagem cantada heroicamente por Ben é a Xica da Silva, com canção que leva o seu nome e foi composta para a trilha sonora do filme homônimo de Carlos Diegues, de 1976. Na letra desta música, que pontua frequentemente Xica como “a negra”, é reinterada a ideia da bravura mítica do afrodescendente, com a peculiaridade de que aqui temos não um herói, mas sim uma heroína, que atingiu esse papel por ter quebrado a manutenção da hierarquia social em pleno período colonial, pois passou

De escrava a amante, mulher, mulher
Do fidalgo tratador João Fernandes
e com isso tornou-se
muito rica e invejada.

Na dissertação de mestrado Eu quero ver quando Zumbi Chegar: negritude, política e relações raciais na obra de Jorge Ben 1963-1976 (UFF 2014), o historiador Alexandre Reis dos Santos comenta que ao retratar o universo afro-brasileiro nas décadas de 1960 e 1970, época em quem as políticas raciais ganhavam destaque no país e as religiões que cultuavam orixás como o Candomblé (símbolo de resistência cultural negra)  e a Umbanda (rearticulação tradição dos orixás com tradições indígenas, espiritismo e catolicismo) passavam a fazer parte do imaginário daquela sociedade. Naquele contexto o compositor Jorge Ben não apenas se reconheceu filho da miscigenação racial, mas principalmente escolhe se assumir negro e reverenciar os afro-brasileiros em suas composições, sublinhando que, apesar da realidade opressiva em que vivem até hoje, eles não se colocam como vítimas da sua biografia e seguem lutando heroicamente pela vida.

No festival de música Lollapalooza Brasil 2018, a consagrada banda de rock estadunidense Red Hot Chili Peppers prestou uma homenagem ao Jorge Ben, tocando e cantando em português “Menina mulher da pele preta”, canção gravada no álbum Taboa de Esmeralda (1974). Nesta canção destaca-se outro tema importante daquele cancioneiro, o que aborda a formosura miscigenada da mulher afro-brasileira que desperta desejo. Em um país como o Brasil das décadas de 1960 e 1970 não era comum que canções destacassem abertamente a beleza da negritude feminina, mas Jorge Ben inovou também nisso, compondo verdadeiros hinos nesse sentido como Que nega é essa?, gravado no álbum Ben (1972), na qual assume que a mulher com a qual quer se casar é negra, “Prendada e caprichosa” e para ela promete que

Eternamente essa nega faceira, dengosa,dondoca e beijoqueira
Há de ser minha companheira e minha mulher.

Em Criola (1969), ele nos apresenta “uma fiel representante brasileira”, que por ser negra é “colorida por natureza” e cuja história é bastante semelhante à da sua mãe:

Filha de nobres africanos
Que pelo descuido geográfico
Nasceu do Brasil, num dia de carnaval

Ao contrário do que chegou a supor Tárik de Souza no texto comentado acima, Jorge Ben sabia muito bem de que referências poderiam ter originado a originalidade da sua música, tanto que em entrevista ao programa de TV “Roda Viva” em 18 de dezembro de 1995 chegou a falar sobre sua ancestralidade e contou que foi através de sua mãe, ainda criança, que teve acesso à cultura de seu avô africano e ouviu muita música etíope, batuques e línguas desconhecidas para ele e que no final foram se misturando. Certamente essas memórias tão antigas acabaram compondo uma espécie de base sua trajetória musical.

Como nos conta Paulo da Costa e Silva em seu livro sobre o disco A Tábua de Esmeralda,  Jorge Ben é católico e até chegou a estudar no Seminário de padres na juventude, e essa informação é importante porque se encontram em seu cancioneiro várias referências ao catolicismo, porém percebemos que frequentemente esses marcos simbólicos católicos aparecem permeados pelos princípios africanos, daí se  aproximarem tanto das religiões afro-brasileiras. Um exemplo disso é a canção que compôs ao seu santo de devoção, a chamada Jorge de Capadócia, gravada no álbum Solta o Pavão (1975), que na verdade é a oração a São Jorge musicada, pedindo que o santo torne o corpo intocável, daí esta reza ser popularmente utilizada nos rituais de “fechamento de corpo”. No show acústico MTV, gravado em 2002 Jorge, já conhecido como Jorge Ben Jor, assume claramente a relação direta entre São Jorge guerreiro  e o orixá Ogum, quando introduz na canção o seguinte refrão : “Ogã toca pra Ogum”, como que pedindo ao tocador de tambor dos rituais religiosos afro-brasileiros (Ogã) que toque em reverência a Ogum para  efetivamente fechar o seu corpo, evidenciando a força do simbolismo afro brasileiro no cancioneiro de Jorge Ben.

 Links das músicas citadas no Youtube:


APÊNDICE :Quando a Etiópia estava sendo invadida na primeira Guerra Ítalo-Etíope (em italiano: Guerra di Abissinia ou Campagna d'Africa Orientale) corresponde à invasão italiana da Etiópia ocorrida entre os anos 1895 e 1896 no séc. XIX, seu avô materno Sr. Ben Jorge (sim, era esse o nome dele kkk) saiu refugiado do Mediterrâneo num navio que por um
descuido geográfico atracou para nossa alegria aqui no Brasil. Não tenho informação sobre a vó do Benjor, mas que "D. Silvia Saint Ben Lima" nasceu na fronteira Rio-São Paulo, conheceu o Sr. Augusto Menezes (estivador, Carioca, porém descendente de austríacos) e tiveram um lindo filho que puseram o nome de Jorge, já que na sua gravidez D. Sílvia havia levado uma queda, e temendo deformidades ao feto fez uma promessa à S. Jorge que se o menino nascesse Ben
colocaria seu nome como homenagem...
Conhecida como Sílvia Lenheira, pois mesmo com o grande sucesso do Benjor ela sempre levou uma vida simples em Madureira-RJ e gostava de apanhar galhos para cozinhar num fogão à lenha, (daí o apelido) isso numa casa cor-de-rosa com chão vermelho, teto branco e na janela muitas rosas, além de um cachorro de guarda vira-latas que vivia
latindo no quintal onde havia tbm uma rede num pé de jaca...

(Nascimento Silva, do canal Benjor Cifrado, no Youtube)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O dia que o METEORO BRASIL falou #OMelhorDoBrasilÈJorgeBen

Comecei a ver e fui chorando copiosamente até o fim, porque, como vocês sabem.  eu acho que
#OMelhorDoBrasilÉJorgeBen
Quanto amor! Ai meu coração!
Nem sou fã, né?
Obrigada Meteoro



terça-feira, 17 de dezembro de 2019

RELEMBRANDO 2019: Retrospectiva do blog (2o. semestre)


Continuando a retrospectiva 2019, agora vamos para os seis meses finais.

JULHO – Em julho eu já estava louca de saudades dos rolês na Casa das Caldeiras, ai fui procurar festas domingueiras em outros lugares e nesse período o samba, que pipoca pela cidade, surgiu como ótima opção. Comecei assistindo uma prévia do Samba do Bule no Sesc Bom Retiro

o bule
eu no samba


Reiterando meu flerte com o cinema no mês passado, vi também o histórico documentário de Nanni Moretti Santiago, Itália, comentado aqui. Mas julho teve a Mostra de cinemas africanos no Cinesec
cartaz da mostra

Assisti 8 curta metragens e foi uma experiência ímpar, na qual eu mergulhei de cabeça para tentar me aproximar mais naquele mundo e suas sensações. Sobre os filmes que assisti escrevi este  post e também este. Foi um divisor de águas na minha visão do negro,da negritude e da ANCESTRALIDADE. Julho foi o mês que nos deixou o gênio João Gilberto, descanse em paz.

AGOSTO – Agosto comecei a fazer aulas de Hip Hop no Tendal da Lapa, muito difícil, mas também gostoso por estar com uma juventude bacaninha. Em agosto foi publicado o artigo sobre o meu pós-doc na Revista de História da USP, disponível neste link aqui. Foi muito importante, pois é um dos trabalhos que mais me orgulho de ter feito. Foi o mês de rever Quentin Tarantino, o cineasta da minha geração,  em  Era Uma Vez Em... Hollywood . Muito divertido, 
ótima trilha sonora como sempre e alegria participar dessa geração. 
Também foi o mês de começar a ler Milton Hatoum, o autor do ano, com seu melhor romance, Dois irmãos.Foi uma delícia que comentei aqui.

SETEMBRO –Começou com a perda de uma amiga muito amada, uma grande referência na vida, um luto que ainda estou tentando digerir, desde o momento que soube, lembrei do Grande Sertão “Não foi, não é, não fica sendo”, mas acontece que foi. Desde então eu passei a chorar muito, toda hora, por mais alegre que eu parecesse estar, porque é preciso levar a vida, eu estava sempre com os olhos rasos d'água. Dureza. A vida seguia e na entrada da primavera, as Caldeiras abriram para uma festa deliciosa, só que agora paga, mas a saudade era tanta, que nem ligamos. Eu sai na foto oficial, ao lado do DJ, no lado oposto ao balão vermelho 

Festa da Primavera

Também aproveitei bem o Espaço Cultural Rio Verde na Vila Madalena, que é um lugar por onde tenho muito carinho. Lá conheci o DJ Sankofa, que falou tanto sobre a musicalidade da África, foi maravilhoso, novamente o ponto da ancestralidade em minha vida.
DJ Sankofa

Além das festas, continuei indo ao Cinesec, lá assisti
ao premiado filme Sócrates, que me fez pensar na questão dos jovens, negros e homossexuais. Também assisti ao famoso Bacurau, a um filme bem arrastado, mas necessário, uma catarse, tudo o que precisávamos nesse ano pesado.  

OUTUBRO –Era o mês do meu aniversário de 40 anos, consequentemente o mês do meu inferno astral. Eu estava tão péssima, tão exausta, tão desconsolada pelo luto da amiga que uma tarde de sábado, mais ou menos do nada, sai e cortei meus cabelos. Foi horrível. Ficou horrível. Quando me dei conta, só queria  chorar, e chorei dias e dias, saudade do cabelão, da minha cara de cabelão, me achando uma monstrinha... sei que aquele mês mal tive forças para escrever no blog. Mas fiz um esforço para sair de casa e aproveitei as presenças VIPs que me dei de presente por causa do meu aniversário, mas sempre me achando horrível...  foi assim que eu conheci a Sociedade do Samba Maria Zélia, no seu mensal Quintal dos Prettos, que comentei aqui. Teve também o Rio Verde
quarentando
e, especialmente, a Casa das Caldeiras, que é sempre especial,
  mesmo eu estando verdadeiramente feia aquele dia. Mas tirei fotos com pessoas muito amadas
Sheila e Carol 

Jade
Gabi

Vitor
Mas no dia mesmo do aniversário, uma surpresa me esperava e as amigas Ana Matos e Karen me levaram para comemorar, com bolo de vela piscando 40 anos e tudo. Como soube na última hora, mal deu para avisar amigos, mas tive a preciosa presença da Aninha e da Helô, foi mágico!
Ana Matos, Karen, Amiga, Aninha e Helo

NOVEMBRO – Foi mais leve que outubro, senti que meus cabelos começaram a crescer um pouco, senti mais confiança de que logo eu ia gostar mais deles. Em uma noite de insônia, talvez pensando no filme Sócrates, assisti ao filme Moonlight sob a luz do luar (2016), de Barry Jenkins, e foi uma forte experiência estética que  comentei aqui. Voltei à Maria Zelia, primeiro no Quintal dos Prettos de Novembro, que estava ainda melhor, eu vestida à  caráter
pessoal da N'thighs

 E depois no aniversário de 12 anos do MZ  e foi muito divertido, senti tão bem o chamado do samba que até sambar, sambei!  


feliz, no samba
 Mas tivemos outros rolês em novembro, um churrasco na casa da Ana Mattos, sempre muito gostoso
No dia seguinte encontrei vários deles no Rio Verde, onde me diverti muito e beijei o boy mais bonito do rolê, viva mamãe Oxum 
Evidentemente, Novembro é o mês da Consciência Negra e eu fui no show do Jorge Ben na praça da República. Não levei celular, mas registrei o look ao sair 
partiu show

foto divulgação 

DEZEMBRO – Começamos com o Quintal dos Prettos, que comentei aqui. Estava toda poderosa, com todo meu meu tecido adiposo
Fiz muito sucesso naquele samba, acho que ainda vou colher o que plantei em 2020.
Afora isso, teve a Feira Preta, a primeira vez que eu fui, mas só passei depressa

pulseira da Feira Preta

E teve o dia que eu usei a roupa da magnifica Iza e divei de vestido de moletom "amarelo yellow" na cidade chuvosa, quando fui assistir a Rosane falar de fotografia no IMS
A realidade
A inspiração 



Em dezembro, assisti ao pesado documentárui Sai branco, preto fica, de 
Adirley Queirós  (2015), mostrando que não é fácil ser negro. Também nesse mês, a bela sulafricana  Zozibini Tunzi foi escolhida miss universo 2019: um reconhecimento da beleza negra muito significativo. 
Dia 23 de dezembro, depois até de eu publicar essa retrospectiva, ganhei de presente um show do Art Popular no largo São Bento .
divulgação do show
Eu , pronta pra chuva


Foi mara! Além das músicas deles que a gente  ama como Bombocado, Pimpolho, Agamamou, etc, tocaram muito pagode 90, como Lá Vem o Negão. Gritei todos pagodes da vida, desde menina. Fiquei na grade, bem na frente e  no fim peguei até na mão do Leandro de Pimpolho   ( em homenagem a Camila de 13 anos q amava ouvir enquanto jogava Alex Kid no Video game ). Presentão de Natal! E como era presente pra mim, eles tocaram Jorge Ben: Mas que nada!
Acho que é isso, agora teremos as festas e 2020 vi ai e que as enrgias se renovem!