domingo, 25 de janeiro de 2015

Conto: A despedideira - Mia Couto

"Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.
Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém. Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.
Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeirissímo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comercia palavra, em negoceio de sentimento. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra e me divinizei. Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada
Lembro desse encontro, dessa primogénita primeira vez. Como se aquele momento fosse, afinal toda minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma tarde boa para gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por a parava. A brisa sem voar, quase nidificava. Vez voz, os olhos e os olhares. Ele, em minha frente todo chegado como se a sua única viagem tivesse sido para a minha vida.
No entanto, algo nele aparentava distância. O último escapava entre os seus dedos. Não levava o cigarro à boca. Em seu parado gesto, o tabaco aí mesmo se consumia.
Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha àquela cinza. Desabei inteira sob o corpo dele Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas.
Nesse mesmo pátio em que se estreava me coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara. Sem mais nada, nem outra mulher havendo Só isso: a murchidão do que, antes, florescia. Eu insisti, louca de tristeza. Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar. Ele se chegou me beijou a testa. Como se faz a um filho, um beijo longe da boca. Meu peito era um rio lavado, escoado no estuário do choro.
Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.
Deixem-me agora evocar, aos goles de lembrança. Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.
Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que surja assim, agora, distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado.
Pedi-lhe que viesse uma vez mais. Para que, de novo, se despeça de mim. E passados os anos, tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda choro como se fosse a primeira despedida. Porque esse adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu. Um adeus à medida de meu amor.
Assim, ele virá para renovar despedidas. Quando a lágrima escorrer no meu rosto eu a sorverei, como quem bebe o tempo. Essa água é, agora, meu único alimento. Meu último alento. Já não tenho mais desse amor que a sua própria conclusão. Como quem tem um corpo apenas pela ferida de o perder. Por isso, refaço a despedida. Seja esse o modo de o meu amor se fazer eternamente nosso.
Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada, Ninguém no plural.
Ninguéns."

Mia Couto, In O Fio das Missangas

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Escrevendo a lápis de cor : Infância e história na escritura de Guimarães Rosa


Acaba de se tornar disponível para download a minha tese de doutoramento "Escrevendo a lápis de cor: Infância e história na escritura de Guimarães Rosa.
Para acessá-la, clique AQUI.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A importância da História

Quando foi publicado o último livro do historiador Darnton no Brasil até agora, se não me engano no final de 2013, como sempre eu li com muito prazer, até citei na tese que estava terminando de escrever. Lembro-me de ter estranhado o contexto do livro, achei que só mesmo em uma sociedade bem diferente da nossa (como era a da Europa na época moderna, como Darnton sempre afirma) , que a polícia iria investigar, buscar e prender, cantores de rua que haviam composto CANTIGAS SATÍRICAS CONTRA O REI, isso me pareceu algo tão estranho, na sociedade da Liberdade de Expressão. Mas infelizmente, segundo os últimos acontecimentos com o Charlie Hebdo, minhas impressões estavam um pouco equivocadas.
História é fundamental, entendem?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Reações ao ataque ao Charlie Hebdo

Salman Hushdie sobre o atentado ao Charlie Hebdo:

"A sátira sempre significou uma força para a obtenção de liberdade, contra a tirania, a desonestidade e a estupidez. O totalitarismo religioso causou uma mutação mortal no coração do Islã e hoje vemos em Paris as trágicas consequências deste fenômeno. 'Respeito por religião' se tornou uma frase em código significando 'medo da religião'. Religiões, como outras ideias, merecem crítica, sátira e, sim, nosso desrespeito destemido. Religião, uma forma moderna para a ausência de razão, quando combinada com armamentos modernos, torna-se uma verdadeira ameaça a nossas liberdades. Estou com o Charlie Hebdo, como todos devemos estar, pela defesa da arte da sátira, que sempre significou uma força de libertação."






sábado, 3 de janeiro de 2015

2015 e um ACALANTO PARA ACORDAR!

Para sobreviver em 2014 eu precisei ficar guardada, adormecida como Dornröschen...

Em 2015 eu descobri o que eu realmente precisava : Um acalanto para acordar! 
 Vamos lá Bela Adormecida :  "já pode vir, os olhos abrir ...


Era disso que eu estava precisando em 2015!!!!!!!!!!!!
Vamos lá Dornröschen, "...já pode vir, os olhos abrir ..."

ACALANTO PARA ACORDAR
Arnaldo Antunes
Venha
Que está tudo bem
Pode acordar
Pode voltar
Pra cá
Deixa
O sonho descansar
Pode sair
Pode pousar
Aqui
Venha pra onde está
Deixa o corpo se entregar
O que sentir
Incorporar
Em ti
Não precisa se esconder
Já pode vir
Os olhos abrir
E ver
Para o sol poder nascer

domingo, 21 de dezembro de 2014

O Baile da Betinha

"O Baile da Betinha é o símbolo da liberdade feminista endossada pela voz de Erasto Vasconcelos. O clip utiliza a boneca de Mestre Saúba." (legenda do Youtube)

sábado, 20 de dezembro de 2014

Adeus ao Carlos Vilaró, o dono da "casa que não era"

Lendo a lista de mortes de 2014 soube que em fevereiro o artista plástico uruguaio Carlos Vilaró morreu aos 94 anos. Vocês sabem que a músca "A Casa" foi originalmente composta pelo Vinicius e as filhas do artista na casa dele, que depois virou um hotel. 
A história da música é contada no livro Histórias de canções: Vinicius de Moraes., de Wagner  Homem e & Bruno De La Rosa:

Tudo começou durante o período em que Vinícius de Moraes trabalhou na embaixada brasileira em Montevidéu e tornou-se amigo do artista uruguaio Carlos Vilaró, que, em 1958, havia começado uma construção pouco convencional. Inicialmente era apenas uma casa de lata. Com o tempo foi acrescentando novas partes, todas com formas arredondas e pintadas de branco para contrastar com o azul do céu. O espaço, conhecido como Casapueblo, tornou-se um hotel com mais de setenta quartos, que levam os nomes de seus hóspedes mais ilustres. [....] Nas suas estadias na Casapueblo, Vinícius brincava com as filhas do anfitrião dizendo, “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto não tinha nada” e terminava com os versos “Mas era feita com pororó [termo indígena que significa palavras ocas; lega-lega]/ Era a casa di Vilaró”. Os versos finais da letra foram substituídos na gravação por “Mas era feita com muito esmero/ na rua dos bobos, número zero”. (HOMEM; ROSA, 2013, p. 172-3)

Está um pouco atrasado, mas deixo meus agradecimentos ao Vilaró por tudo e,em especial, por ter inspirado a melhor definição de infância que eu já ouvi: "não tinha teto, não tinha nada ..".mas era tudo!