sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Ponciá Vicêncio de Conceição Evaristo, meu livro de fevereiro 2024

Antes de começar a ler, sai com as cores da edição.



Eu nem devia estar sorrindo assim, o livro é bem pesado (Conceição Evaristo), mas é que quando tirei a foto ontem e  ainda nem tinha começado a ler, tirei brincando porque estava vestida na estética dessa edição ...

*


Quarta feira de cinzas e concluo a leitura do livro de fevereiro. Terceiro livro da Conceição que eu leio.  Um dos  primeiros que ela teria escrito. 

Conceição é uma autora difícil para mim, embora eu a considere uma excelente escritora, não  reajo bem aos seus escritos. Muitas vezes eles são violentos demais para mim, quase que uma tortura, por isso leio no aguardo do final. Isso não é uma critica negativa, acredito mesmo que Literatura, como boa arte,  não tem que acalentar, tem que incomodar mesmo, mas o grau de violência de uma Conceição talvez seja um pouco crú demais para mim. Eu não sou a melhor leitura de Conceição Evaristo, tenho que admitir. 

Ler esse livro sobre a trajetória de Ponciá Vicêncio, negra descendente de direta de escravos, foi mais uma travessia dolorida, porém concluída e a consequência se sensação de falta de futuro, de esperança. É  uma sensação de morte. Um desejo de morte.

Quando terminei, como que nunca reação desesperada para sobreviver, mergulhei no Kawabata, que é alta literatura e também me incomoda e me toca, mas ele me instiga a pensar,  refletir e quiçá reagir na vida.

 Vamos ver os comentários que fui fazendo durante a leitura:



Em seguida, em 31 de janeiro, um trecho sobre leitura:

"PONCIÁ: “O pai de Ponciá Vicêncio sabia ler todas as letras do alfabeto. Sabia de cor e salteado. Em qualquer lugar que visse as letras, as reconhecia. Não conseguia, porém, formar as sílabas e muito menos as palavras. Aprendera a ler as letras numa brincadeira com o sinhô-moço. Filho de ex-escravos,crescera na fazenda levando a mesma vida dos pais. Era pajem do sinhô-moço. Tinha a obrigação de brincar com ele. Era o cavalo  em que o mocinho galopava sonhando conhecer todas as terras do pai. Tinham a mesma idade. Um dia o coronelzinho exigiu que ele abrisse a boca, pois queria mijar dentro. O pajem abriu. A urina do outro caía escorrendo quente por sua goela e pelo canto de sua boca. Sinhô moço ria, ria. Ele chorava e não sabia o que mais lhe salgava a boca, se o gosto da urina ou se o sabor de suas lágrimas.Naquela noite teve mais ódio ainda do pai. Se era livres por que continuavam ali? Por que, então, tantos e tantas negras na senzala? Por que todos não se arribavam à procura de outros lugares e trabalhos? Um dia perguntou isto ao pai, com jeito, muito jeito. Tinha medo dos ataques dele. O braço cotoco do homem ao bater pesava como se fosse de ferro. Era certeiro na pancada. Atingia-lhe sempre na cabeça, provocando um gosto de sangue na boca. Perguntou e a resposta foi uma gargalhada rouca de meio riso e de meio pranto. O homem não encarou o menino. Olhou o tempo como se buscasse no passado, no presente e no futuro uma resposta precisa, mas que estava a lhe fugir sempre.
Pajem do sinhô-moço, escravo do sinhô-moço, tudo do sinhô-moço, nada do sinhô-moço. Um dia o coronelzinho, que já sabia ler, ficou curioso para ver se negro aprendia os sinais, as letras de branco, e começou a ensinar o pai de Ponciá. O menino respondeu logo ao ensinamento do distraído mestre. Em pouco tempo reconhecia todas as letras. Quando sinhô moço certificou-se de que negro aprendia, parou a brincadeira.Negro aprendia sim! Mas o que negro ia fazer com o saber de branco? O pai de Ponciá Vicêncio, em matéria de livros e letras, nunca foi além daquele saber.” EVARISTO, Conceição. “Ponciá Vicêncio”. 3ª. Ed. Rio de Janeiro:Pallas, 2017, p.16-8)"

Em 4 de fevereiro eu já identificava minha dificuldade em ler Conceição:


Mas persisti e, em 6 de fevereiro retomei a leitura após fim de semana : 

PONCIÁ - Depois da pausa no fim de semana, retornei a leitura: 
"Tempos e tempos atrás, quando os negros ganharam aquelas terras, pensaram que estivessem ganhando a verdadeira alforria. Engano. Em muita pouca coisa a situação de antes diferia da do momento. As terras tinham sido ofertadas dos antigos donos que alegavam ser presente de libertação. E,como tal, podiam ficar por ali,levantar moradias e plantar seus sustentos. Uma condição havia, entretanto, a de que continuassem todos a trabalhar nas terras do Coronel Vicêncio. O coração de muitos regozijava, iam ser livres, ter moradia fora da fazenda, ter as suas terras e os seus plantões. Para alguns, Coronel Vicêncio parecia um pai, um senhor Deus. O tempo passava e ali estavam os antigos escravos, agora libertos pela "Lei Áurea", os seus filhos, nascidos do "Ventre Livre" e os seus netos, que nunca seriam escravos. Sonhando todos sob os efeitos de uma liberdade assinada por uma princesa, fada-madrinha, que  do antigo chicote fez uma varinha de condão. Todos, ainda, sob o julgo de um poder que, como Deus, se fazia eterno." (Ponciá Vicêncio, Conceição Evaristo, p. 42)

No dia 9 cheguei na metade, me encaminhando para o final da leitura🙏🏾:

PONCIÁ: Cheguei na metade do romance 😓, mas dessa vez não posso dizer que logo termino, porque mesmo já habituada com a  linguagem de Conceição, não posso fazer uma leitura rasa desses poucas páginas sobre temas tão difíceis, que tanto me ferem. Eu já sei que, muito dificilmente, ela vai inserir algum oxigênio para arejar a leitura do  depoimento forte, mas mesmo assim espero concluir o breve  livro ainda esse mês!

Um trecho de quando Ponciá sai da cidade e revisita sua vila de negros de origem em busca da família que sumiu no mundo ,pra degustar a bela escrita de Conceição:

"As crianças, os jovens, as mulheres, os homens, as velhas e os velhos, imagens de um passado, se presentificavam aos olhos de Ponciá Venâncio, à medida que a moça caminhava. Ela não tinha percebido que já vinha padecendo de uma saudade, que era de muito e muito tempo. Ponciá gostava das pessoas velhas, mas as temos. A cabeça branca, a voz rouca,o olhar embaçado contemplando a vida refeita pelo movimento das lembranças. Ela os olhava com distância. E, depois de longa ausência pela cidade, durante o tempo de seu regresso, Ponciá encontrou Nêngua Kainda. (...) A velha pousou a mão sobre a cabeça de Ponciá Vicêncio dizendo-lhe, que, embora ela não tivesse encontrado a mãe e nem o irmão, ela não estava sozinha. Que fizesse o que seu coração pedisse.birbou ficar? Só ela mesma que sabia, mas, para qualquer lugar que ela fosse, da herança deixada por Vô Vivêncio ela não fugiria. Mais cedo ou mais tarde, o fato se daria, a lei se cumpriria. Ponciá nada indagou. Nada respondeu. Pediu benção a Nêngua Kainda e se dispôs a continuar a vida." ("Ponciá Vicêncio".  Conceição Evaristo, p.52-3)


Um trecho bonito, que na narrativa, depois, até ganha outros significados:

PONCIÁ: "(o irmão) Luandi recordou de algumas conversas que tivera com  o pai. Ele dizia que as mulheres pareciam estrelas. Eram bonitas,iluminavam a noite que existia no peito dos homens. Moravam em outras terras,tinha outros modos, outros sonhos." ("Ponciá Vicêncio", Conceição Evaristo, p. 77)
 
Vejamos um último trecho:

PONCIÁ: " Um dia Luandi José Vivêncio voltaria ao povoado e tentaria recolher alguns trabalhos na argila da irmã Ponciá e da mãe. Eram trabalhos que contavam parte de uma história. A história dos negros talvez. A irmã Ponciá tinha os traços e modos  do Vô Vivêncio. Não estranhou a semelhança que se fazia cada vez maior. Bom que ela se fizesse reveladora, se fizesse herdeira de uma história tão sofrida,porque enquanto os sofrimentos estivessem vivos na memória de todos, quem sabe não procurariam, nem que fosse pela força do desejo, a criação de um outro destino. E ele que queria tanto ser soldado,mandar, bater,prender, de repente descobriria de que nada valia a realização de seus desejos, se fossem aqueles os sentidos de sua ação, de sua vida. Soldado Nestor era tão fraco e tão sem mando como ele. Apenas cumpria ordens, mesmo quando mandava, mesmo quando prendia. Foi preciso que a herança de Vô Vicêncio se realizasse, se cumprisse na irmã para que ele entendessse tudo. Só agora ativava também que o riso e as palavras de Nêngua Kainda. Ele que levara tanto tempo desejando  a condição de ser soldado,nem poucos minutos escolhia desfazer-se dela. Soldado Nestor não ia concordar com ele. Como explicar para o amigo o que ele acabara de descobrir?  Assim como antes acreditava que ser soldado era a única e melhor maneira de ser, tinha feito agora uma nova descoberta. Compreenderá que sua vida, um grão de areia lá no fundo do rio, só engrandeceria, se se tornasse matéria argamassa de outras vidas. Descobria também que não bastava saber ler e assinar o nome. Da leitura era preciso tirar outra sabedoria. Era preciso autorizar o texto da própria vida, assim como era preciso ajudar construir a história dos seus  e que era preciso continuar decifrando nos vestígios do tempo os sentidos de tudo que ficará para trás. E perceber que por baixo da assinatura do próprio punho, outras letras e marcas havia. A vida era um tempo misturado do antes-agora-depois-e-do-depois-ainda. A vida era mistura de todos e de tudo. Dos que foram,  dos que estavam sendo e dos que viriam a ser.".( P. 109-10)

E meu último comentário em 23 de fevereiro

EU LEITORA : De que sou uma boa leitora de literatura não tenho dúvidas, ela me ajuda sempre a ver e viver no mundo. Porém eu sei que não sou boa para qualquer autor. Tem excelentes autores que, infelizmente, não são para mim, que ou nada de excepcional me despertam, ou são quase uma tortura . Isso acontece com a Conceição Evaristo, grande mulher e escritora, mas me faz sofrer tanto, termino as obras pensando em morte. Não é fácil. Não acho que literatura tenha que me agradar, mas sim incentivar a reflexão, a reagir, a ação no mundo, algo assim...mas o forte texto da Conceição, na maioria das vezes, pra mim, só me leva a pensar "existirmos, a que será que se destina?"
😪
Estou publicando isso porque estou tentando escrever um comentário sobre Ponciá Vicêncio, mas como dói...