terça-feira, 30 de junho de 2015

Cantando a nossa história, por Ivan Vilela

Já faz tempo que eu baixei a tese do Ivan Vilela,  mas ainda não tinha dado tempo de ler direito. Hoje, visitando a livraria da Brasiliana lá estava o livro, até com um CD da viola mágica de Vilela. Só de pensar eu choro : é a história dos meus pais, paulistas do interior, que ouviam "música caipira"logo cedo , bem baixinho, num radinho de pilha, toda a vida. Na minha memória sonora, aquilo não ficou registrado, propriamente, como música, era um som distante, distante, como a canção da estória de Sorôco:
 "uma chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois."
Muita emoção.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Clube da Esquina, um disco que você precisa ouvir antes de morrer ...

Do perfil do Clube da Esquina no Facebook:
O disco "CLUBE DA ESQUINA", de MILTON NASCIMENTO & LÔ BORGES, está incluído no livro "1001 Albums You Must Hear Before You Die" (em português: 1001 Álbuns Para Ouvir Antes de Morrer), que é é um livro de referência musical lançado em 2006, que reúne 90 jornalistas e críticos musicais de todo o mundo. Sua concepção original é de Robert Dimery, co-fundador da Revista Rolling Stone.
O livro consiste de uma lista de álbuns lançados entre os anos de 1955 e 2005. Embora existam os mais diversos estilos musicais como jazz, blues, heavy metal, soul e música experimental, o rock e o pop ocupam posição destacada.
A publicação contém mais de 900 imagens. Quando o álbum é indicado, aborda-se também o momento histórico, além de relatar curiosidades da gravação.
A publicação contém mais de 900 imagens. Quando o álbum é indicado, aborda-se também o momento histórico, além de relatar curiosidades da gravação.
Por Gustavo Oliveira:

"O que está escrito no livro (O verbete, que está no livro, traduzido), AQUI:"Se Clube da Esquina fosse meramente uma resposta brasileira ao ‘Sgt. Peppers‘… já teria um lugar como uma grande contribuição à música pop internacional. Mas essa magnífica coleção de canções, originalmente lançada como um LP duplo, também transformou Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e Toninho Horta em artistas de sucesso por seus próprios méritos. Embora Milton Nascimento - um cantor carismático, com um falsete puro e cheio de espiritualidade - seja o centro da gravidade do álbum, ele ainda não era uma grande estrela e Clube da Esquina é bem um trabalho de grupo, co-creditado a Lô Borges. O disco mistura paisagens sonoras de sonho, letras surreais e uma notável variedade de influências sul-americanas. Clube da Esquina foi um marco na música popular, que abriu portas criativas para outros artistas. O Clube da Esquina consistia num grupo de amigos de Belo Horizonte, uma cidade no interior do estado de Minas Gerais. Em 1971, eles passaram 6 meses em uma casa alugada na praia de Piratininga, norte do Rio, compondo e compartilhando seu amor pelos Beatles. No estúdio, a música adquiriu rica grandiosidade, com orquestrações de Eumir Deodato e Wagner Tiso. O disco produziu uma série de sucessos, entre eles "Cravo e Canela' e "Nada será como Antes". A influência dos Beatles é particularmente forte nas canções estilo "rock mineiro" primorosamente compostas por Lô Borges, como "O Trem Azul" e "Nuvem Cigana", reluzentes melodias cheias de maravilhas e caprichos”, escrevem Robert Dimery e Michael Lydon (um dos fundadores da revista “Rolling Stone”) no livro “1001 Discos que Você Precisa Ouvir Antes de Morrer”

Nada contra - Marcos Piangers

Colo aqui mais uma das deliciosas contribuições de Marcos Piangers sobre crianças no Facebook. 


Nada contra
Quando uma criança nos brinda com sua visão de mundo é uma delícia tão grande que devemos ficar bem quie- tos. É como olhar unicórnios se alimentando. Você quer ficar vendo aquilo sem espantar a magia do ambiente. Estávamos no carro, eu dirigindo, minha mulher no banco do carona e minha pequena no banco de trás, sentada no meio. Lá fora as pessoas desrespeitavam outras pessoas no trânsito. O que podemos chamar de um dia normal.

“O que eu não entendo é que uma mulher pode se vestir com cal- ça jeans e até com camisas masculinas. Isso é aceito pela sociedade,” ela tem oito anos e está falando sobre a sociedade. “E um homem não pode se vestir com roupas de mulheres que todo mundo fala mal. Não que eu tenha alguma coisa contra travestis.” Eu explodi em risos. “O quê, pai?!”, protestou a Anita. A Anita sempre diz que não tem nada contra determinada minoria, sempre que fala delas.

“Por que as pessoas tratam os pobres mal, pai? Não que eu tenha alguma coisa contra os pobres.” Ela sempre parece preocupada com a possibilidade de ser considerada racista, elitista, sexista, machista ou preconceituosa. Deve ser uma preocupação muito atual entre as crianças. Porque o mundo está politicamente cor- reto. E imagino que isso seja uma coisa boa. Mas quando eu tinha oito anos, nossa principal preocupação era conseguir a maior quantidade de doces entre a hora de acordar e a hora de dormir.
“Eu só acho que os homens deveriam poder se vestir com saia e salto alto se quisessem. As mulheres podem fazer isso. Os homens não, porque são considerados gays. Nada contra os gays,” ela diz novamente, antes que seja mal interpretada.
Estávamos no carro ouvindo a Anita falar sobre a sociedade. Lá fora as pessoas desrespeitavam outras pessoas no trânsito. O que podemos chamar de um dia normal.

Nos conta Piangers que, aos seus  8 anos, suas preocupações não eram tão "politicamente corretas" quanto as da filha de Anitta aos 8 anos, que respira o oxigênio mental do início do século XXI. Esse texto é muito interessante para demonstrar porque devemos pensar em uma História da criança, pois nem sempre elas foram do mesmo jeito...

segunda-feira, 22 de junho de 2015

"Ver: amor", novamente

Não disseram que clássico é um livro que a gente sempre volta a ler novamenter?  Novamente volto ao meu clássico contemporâneo, de todo o coração:  "Ver: Amor" , de David Grossman:
"...Ele, o dito Zalmanson, começou a rir um riso tal que melhor seria não o tivesse ouvido! Uma especie de estertor e riso e choro junto, e de repente morreu. Morreu antes de todos! E é importante que você saiba, Shleimale: o judeu Shimeon Zalmanson, meu único amigo, editor da revista infantil 'Luzinhas', morreu de rir numa câmara de gás, e estou certo de que não há morte mais adequada para um homem como ele, que acreditava que Deus só se revela às pessoas através do humor. " 

David Grossman, 'Ver:Amor', p. 235 "

sábado, 20 de junho de 2015

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Mil Tom ... versões modernas de músicas de Milton Nascimento



Muito legais os discos , emocionantes mesmo ... embora as originai sejam insuperáveis!
Cada vez mais os jovens se interessam por nossas pérolas: Clube da Esquina, Tom Zé ... amo demais!
Vejam o cardápio:

DISCO 1
01) Vanguart - Clube da Esquina Nº 2
02) Aline Calixto - Vera Cruz
03) Banda Tereza - Maria Maria
04) Aláfia - Saudade Dos Aviões da Panair (Conversando No Bar)
05) Fernando Temporão - Para Lennon e McCartney
06) Karol Conka - O Rouxinol (part. Boss In Drama)
07) Pedro Morais - Travessia
08) Filarmônica de Pasárgada - Canoa Canoa
09) Tono - Lágrima do Sul
10) Pélico & Bárbara Eugênia - Paula e Bebeto
11) Rashid - Tudo Que Você Podia Ser
12) Bruno Souto - San Vicente (part. banda Chá de Pólvora)
13) Phill Veras - Paixão e Fé
14) Letuce - Sereia
15) Simonami - Caçador de Mim

DISCO 2
01) Thaís Gulin – Amor de Índio
02) Dani Black – Paisagem na Janela
03) Baleia – E Daí?
04) Orquestra Contemporânea de Olinda – Caxangá
05) Gisele De Santi – Nos Bailes da Vida
06) Selvagens à Procura de Lei – Nuvem Cigana
07) A Banda Mais Bonita da Cidade – Ponta de Areia
08) Blubell – Beijo Partido
09) Felipe Cordeiro – Cravo e Canela
10) Verônica Ferriani – Canção do Sal
11) The Outs – O Trem Azul
12) Ana Larousse – Cais
13) Tibério Azul – Canção Amiga
14) Dom Pepo – Credo
15) Los Porongas – Nada Será Como Antes

Acesse, ouça e  baixe gratuitamente  aqui

2009, O ANO QUE NÃO DEVIA EXISTIR...

Se 1958 foi o ano que não devia ter terminado...

1968 o ano que não terminou...

2008 o ano Rock's (de Caetano Veloso)


Receio que 2009 seja o ano que não deveria estar existindo... ô aninho ziquezira!

Nada está funcionando como eu esperava esse ano... nem currículos, nem encontros, nem shows do Tom Zé (!),nem reecontros, nem provas, nem vestidos ou perfumes, nem Gabriel Garcia Màrquez, nem Guimarães Rosa(!)...ou o mundo parou de girar e permaneceu de cabeça pra baixo esses quase seis meses, ou sou eu que já tive melhores humores...

Pode ser, também, uma soma de tudo isso...

Pé de pato, mangalô, três vezes!

Andar com pé eu vou que o pé acostuma a dançar, diz a canção de Tom Zé, meu lindoooo

Das Rosas (com letra)

Das Rosas, de Dorival Caymmi é a música que eu mais gosto, mas eu prefiro a versão  do violão de Baden Powell... só que ela também tem letra e eu achei essa  versão bacana dela, cantada:

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Morre Fernando Brant, que pena ...



Acaba de falecer o  Fernando Brant. Ele é um dos membros da nata do Clube da Esquina! Afora isso, chegou a me ajudar no mestrado, me enviando um material sensacional pelo correio. Como as músicas todas são a trilha sonora da minha vida desde sempre, vão continuar sendo, porém não estou aceitando muito bem essa morte ainda.

No jornal O Tempo foi divulgado assim:
"DA REDAÇÃO do Jornal o Tempo
Morreu na noite desta sexta-feira (12), aos 68 anos, no Hospital das Clínicas, o jornalista, escritor e compositor mineiro Fernando Brant, depois de complicações no fígado. O velório e o enterro do músico mineiro devem ocorrer nesse sábado (13), no cemitério do Bonfim.
Ele estava internado no Hospital das Clínicas da UFMG desde segunda-feira, quando se submeteu a uma cirurgia para transplante de fígado. Brant já havia se submetido a outra cirurgia, há dois anos, para a retirada de um tumor no órgão.
Seu envolvimento com música e literatura aumentou quando cursava a faculdade de Direito. Nessa época, conseguiu seu primeiro emprego, como escrivão do Juizado de Menores.
Clube da Esquina:No início dos anos 60, conheceu o amigo Milton Nascimento. Em 1967, Milton conseguiu convencer o então hesitante Brant a escrever sua primeira letra. Era “Travessia”, composição que, no mesmo ano, ganhou o segundo lugar no II Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, funcionando como o estopim da carreira de sucesso de Milton. Em 1969, conseguiu trabalho como jornalista na revista “O Cruzeiro”.
Nesse mesmo ano, em Belo Horizonte, Brant e os amigos começaram a articular o projeto que se tornaria o Clube da Esquina. A parceria com Milton, Lô Borges, Tavinho Moura e outros membros do Clube mostrou-se muito produtiva, gerando mais de 200 canções, entre as quais há clássicos como “San Vicente”, “Saudade dos Aviões da Panair (Conversando no Bar)”, “Ponta de Areia”, “Maria, Maria”, “Para Lennon e McCartney”, “Canção da América” e “Nos Bailes da Vida”, entre muitas outras.
Fernando Brant gravou um depoimento para o Museu do Clube da esquina contando sobre seu envolvimento com o grupo:Complicações clínicas:Fernando Brant foi diagnosticado com câncer no fígado há três anos, e foi submetido a uma cirurgia para retirada do tumor. No entanto, novos tumores foram descobertos este ano. Os médicos aconselharam o transplante.
A cirurgia ocorreu na segunda-feira quando ele recebeu um novo órgão, vindo de um doador de 15 anos.
Já na terça-feira, uma das artérias do fígado entupiu, necrosando o órgão e liberando toxinas no organismo.  Os médicos então decidiram submete-lo a um novo transplante, após a localização de um outro doador. No entanto, o músico não resistiu ao novo procedimento e morreu na noite dessa sexta-feira.
Fonte: Jornal O tempo"kkkkk

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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Lista de imagens da tese RODRIGUES, Camila. "Escrevendo a lápis de cor: Infância e história na escritura de Guimarães Rosa" (2014)

Na tese  RODRIGUES, Camila."Escrevendo a lápis de cor :  Infância e história na escritura de Guimarães Rosa" que defendi  em 2014, uso mais de sessenta figuras ... como aperitivo para a tese, colo aqui a lista delas:

IMAGENS

No capítulo 1
1.1 Desenhos de escritura p.32
No capítulo 2
2.1 Desenhos do nome da rua p. 45
2.2  Estranhamento das letras p. 46
2.3 Sebastian Brant p.49
2.4 Carta Enigma p.57
2.5 Brinquedos de sabugo p.67
2.6  Dez palavras bonitas Vicente Guimarães p.71
2.7 Dez palavras bonitas Guimarães Rosa p. 72
2.8 Última aventura do Sete-de Ouros p. 76
2.9 Autorização para Vicente adaptar conto às crianças p.77
2.10 João Bolinha p. 78
2.11 Ooó do vovô p. 82
2.12 Cartão Verinha p. 87
2.13 Envelopes p. 89
2.14 Postal de Guadalajara p. 93
2.15 Postal Ditado Exato p. 94
2.16 Dia da mamãe p. 97
2.17 Teresinha de Jesus p. 100
2.18 Atinho/ratinho p.101
2.19 Rabiscos p. 102
2.20 Cartão inédito p. 105
2.21 Promessa de contar estórias p. 107
2.22 Apelidos de Vera Tess p.115
2.23 Michéu Bambéu p. 116
2.24 Pezinho p.117
2.25 Sempre neném no coração do Vovô p.119
No capítulo 3
3.1 Primeiro Caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade p.132
3.2 Crônica de Oswald de Andrade p.133
3.3 Exemplos de Capas das séries comerciais dos Cadernos de Rosa p.139
3.4 Caixinha de armazenamento dos Cadernos de Rosa p.140
3.5 Capas infantis dos Cadernos de Rosa p. 141
3.6 Poema sobre alegria p.145
3.7 Símbolos místicos nos Cadernos de Rosa p.149
3.8 Símbolos místicos na capa das Primeiras Estórias p. 150
3.9 Pedido do autor para Luiz Jardim ilustrar Primeiras Estórias p.151
3.10 Rosa dos ventos p.153
3.11 Teoria das cores nos Cadernos de Rosa p.155
3.12 Anedota da cruz que chamava DIA p.157
3.13 Verinha fala futebol p. 159
3.14 Verinha fala devagarinho p.159
3.15 Verinha fala guardanapo p. 159
3.16 Verinha fala pipoca p. 159
3.17 Verinha fala q’ingatidão p.160
3.18  Universo infantil de Verinha p.160
3.19 Tirinha de Marvin p. 161
3.20 Definição da palavra Infante p. 162
3.21 Cadernos junto ao material da Sra. Aracy Guimarães p.170
3.22  Piadas nos Cadernos de Rosa p. 172
3.23a  A poesia do não senso de Vinicius de Moraes p.174
3.23b  A poesia do não senso de Vinicius de Moraes continuação p.174
3.24 Coisas de Victor Hugo Rubem Braga p.176
3.25 Crônica de Fernando Sabino p. 177
3.26 Verinha canta Teesinha de Jesus p.178
3.27 Verinha pede : vovô “contila” Teesinha de Jesus p.178
3.28 Verinha ameaça tirar os “ócus” do Vovô p. 179
3.29 Verinha fala “sumi” querendo  dizer “esqueci” p.179
3.30  Capa do caderno das últimas horas de vida de Rosa p.181
3.31 Último bilhete do vovô a Verinha p.182
3.32 Capa de Caderno com desenho de menina p. 184
No capítulo 4
4.1  Caracterização de Nhinhinha na capa das Primeiras Estórias p.195
4.2  A Menina de lá no Sumário das Primeiras Estórias p.196
4.3 Partida do audaz navegante na capa das Primeiras Estórias  p. 215
4.4 Partida do audaz navegante no sumário das Primeiras Estórias p. 216
4.5 Detalhe da capa de Universo num caixa de fósforos de Alexandre Rampazo p. 225
4.6 Capa de Fita Verde no cabelo 231
4.7 Ilustração de Fita Verde no cabelo p. 232
4.8 Crianças se ouvindo cantar no disco Canções do Brasil p. 257
4.9 Anjo do Senhor na ilustração da Lenda do Arroz  p. 261
4.10 Recomendação de Rosa para representação de Dito e Miguilim p. 266
No capítulo 5
5.1 Perfis de Rosa nos jornais na década de 1960 p. 271
5.2 Manchete : “Guimarães Rosa conta:” p. 271
5.3 Poema Motivo, de Guimarães Rosa em o Globo p.274
5.4 Poema A Espantada Estória, de Guimarães Rosa em o Globo p.276
5.5 Crustáceo nas páginas de Tutaméia p. 277
5.6 Tirinha da Mafalda e o caranguejo p. 278
5.7 Capas das Primeiras Estórias p.296
5.8 Sumário das Primeiras Estórias p. 298
5.9 Cartão com andorinha  p. 306
5.10 Capa de Tutaméia: Terceiras Estórias p. 327
No Último giro do caleidoscópio

6.1 A Arca de Noé p. 332

terça-feira, 2 de junho de 2015

Os últimos cangaceiros - Wolney Oliveira



Assisti ontem ao filme e gostei muito .  Especialmente  da trilha sonora e de reparar como as cangaceiras andavam arrumadas de forma típica na década da 1930: cabelinhos cortados e penteados lindamente  Minha amiga gostou muito do  figurino da Maria Bonita (que era realmente bonita) e nós duas concordamos:o Moreno é tudo (como personagem, inclusive), mas inesquecivelmente bonito mesmo era o Virgilio ... rsrs 
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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Walter Benjamin e a infância rememorada


Como sabem e eu já tinha postado aqui, eu adoro as traduções de Benjamin de João Barrento, publicadas no Brasil pela editora Autêntica em volumes como este. Abaixo apresento um  aperitivo delicioso, onde adentramos aquele espaço cambiante das rememorações de infância de Benjamin e provamos o gosto agridoce, porém finalmente feliz, da lógica infantil :   
"BLUMESHOF 12
(95)"Não havia campainha com som mais agradável. Passado o limiar daquela casa, sentia-me mais protegido e aconchegado do que na dos meus pais. Aliás, o nome da rua não era “Blumes Hof”, mas Blume-zof’[1], /(96) e a casa era gigantesca flor de pelúcia que assim se abria como se saísse de um invólucro amarrotado. No seu interior estava sentada a avó, a mãe da minha mãe. Era viúva. Quem visitasse a velha senhora, na sua janela de sacada, atapetada, guarnecida de uma pequena balaustrada e dando para o pátio, dificilmente  poderia imaginá-la nas grande viagens marítimas ou mesmo em excursões ao deserto, que de tempos em tempos fazia,  através da agência de viagens “Stangens Reisendisi,”. De todas as casas de luxo que eu visitava, essa era a única com um  toque de grande mundo. Madonna di Campiglio e Brindisi, Westrland e Atenas e todos os outros  lugares de onde mandava postais  ilustrados – em todos eles a base das imagens ou se acastelava em nuvens no céu  mostrava-os de de tal maneira habitado por minha avó que ele se transformavam em colônias de Blumeshof. Quando , depois, a terra natal a a recebia de novo, eu pisava as tábuas do seu assoalho com tanto respeito que parecia que elas tinham dançado com sua dona nas ondas do Bósforo, e que  nos tapetes persa se escondia ainda a poeira de Samarcanda.
Que palavras poderão descrever o sentimento imemorial de segurança burguesa que irradiava dessa casa? O recheio dos meus muitos quartos não honraria hoje um ferro-velho. É que, embora os produtos dos anos setenta fossem muito mais sólidos do que os que vieram depois com a Arte-Nova[2], o seu toque  inconfundível estava na complacência com que abandonava as coisas ao correr do tempo e, quanto ao seu futuro, no modo como apenas confiavam na resistência do material e nunca em princípio de funcionalidade. Aqui, dominava  um tipo de móveis que, devido à persistência com qua acumulavam ornamentos de muitos séculos, respiravam confiança e durabilidade. A miséria não podia ter lugar nessas salas, por onde nem sequer a morte passava. Nelas , a morte não estava prevista. Por isso pareciam tão confortáveis de dia, e à noite transformavam-se em cenários de maus sonhos. A caixa da escada, quando entrava nela, surgia-me como lugar de um pesadelo que me fazia ficar de pernas pesadas e sem força, para finalmente me dominar por completo quando apenas alguns passos me separavam da almejada soleira. Tais sonhos eram o preço que  eu tinha de pagar pelo aconchego./
(97) A avó não morreu em Blumeshof. Na casa em frente morou durante muito tempo a mãe de meu pai, que era mais velha. Também ela não morreu ai. Assim a rua se me tornou uma espécie de Elísio,um reino de sombras de avós imortais, mas afinal desaparecidas. E como a fantasia, uma vez lançado o seu véu sobre a região, gosta que as suas margens se deixem enredar em estranhos caprichos, ela fez de uma mercearia próxima um monumento ao meu avô, que era comerciante, só porque o dono se chamava também Georg. O retrato de meio-corpo desse homem precocemente falecido cobria, em tamanho natural e fazendo par com o da mulher, a parede do corredor que levava às zonas mais recatadas da casa. As ocasiões mais diversas serviam para animá-las. A visita de uma filha casada fazia abrir uma sala com guarda-roupas há muito fora de uso; um outro quarto dos fundos recebia-me quando os adultos dormiam a sesta; de um terceiro vinha o matraquear da máquina de costura nos dias em que a modista ia na casa. A mais importante dessas divisões das traseiras era para mim a loggia, ou porque, por estar mais modestamente mobiliada, não era muito apreciada pelos adultos, ou porque aí chegava, abafado, o ruído da rua, ou então porque ela me permitia  ver os outros pátios, com os seus porteiros, as crianças e os homens do realejo. Aliás, eram mais vozes que figuras o que se distinguia dessa varanda.  O bairro era fino, e nos seus pátios nunca havia muita alfazema; alguma coisa da serenidade dos ricos, para quem o trabalho aí era feito, tinha passado para eles, e em toda semana havia alguma coisa de domingo. Por isso o domingo era o dia da loggia . O domingo de que os outros quartos, que eram como que defeituosos, nunca se apercebiam, porque ele passava por eles e escoava-se- só a  loggia, que dava para o pátio com as armações de bater os tapetes e as outras varandas, o apreendia, e nenhuma das vibrações do repicar dos sinos vindas das igrejas dos Doze Apóstolos de S. Mateus dela se desprendia, ficando, pelo contrário, aí acumuladas até a noite.   
Os quartos dessa casa não eram apenas muitos, alguns deles eram também muito espaçosos. Para dar um bom-dia à avó na sua varanda, onde, ao lado da caixa de costura, ela tinha sempre ou fruta ou chocolates, eu tinha de atravessar  a enorme sala de jantar e a sala que dava para a varanda. Só no dia de Natal se via para que serviam aquelas salas. As longas mesas onde eram colocados os presentes estavam repletas, porque eram muitos os que os iam receber.[cr1]  Os lugares estavam muito (98) apertados, e não havia a garantia  de não  perder o lugar  quando à tarde, depois de terminada a refeição principal, era preciso pôr mais um lugar para um velho criado ou para o filho do porteiro.Mas essa ainda não era a grande dificuldade do dia;  essa chegava no princípio, quando  se abria a porta  de  dois batentes . Ao fundo da grande sala refulgia a árvore. Nas grandes  mesas  não havia um espaço livre, sem ter pelo menos um prato colorido com marzipã e ramos de abeto a chamar por nós; e  muitos deles acenavam brinquedos e livros. O melhor era não lhes dar demasiada atenção.  Eu poderia ter estragado o meu dia se me fixasse  precipitadamente  em  presentes que depois teriam noutros seu legítimo proprietário. Para fugir a isso, ficava especado na soleira, com um sorriso nos lábios; e ninguém seria capaz de dizer se ele era suscitado  pelo brilho da árvore ou pelo dos presentes que me estavam destinados e dos quais eu, completamente fascinado, não ousava aproximar-me. Mas por fim acabava  por ser uma  terceira coisa que determinava meu comportamento, mais profunda do que minhas pretensas ou autênticas razões. De fato,  por enquanto os presentes pertenciam ainda mais a quem os dava do que a mim.  Eram frágeis e eu tinha medo  de lhes tocar desajeitadamente à vista de todos. Só lá fora, no vestíbulo, onde a criada as embrulhava e fazia  desaparecer  em trouxas e caixas, deixando-nos o seu peso como caução, nós estávamos seguros das nossas novas posses.
Isso só acontecia muitas horas depois. Quando então, com as coisas bem embrulhadas e atadas debaixo do braço, saímos para o lusco-fusco, a tipoia nos esperava à porta da casa e a neve repousava intacta sobre as cornijas e vedações, mais suja no pavimento, se ouvia o tilintar de um trenó do lado da Lützowufer, e os candeeiros a gás, acendendo-se um após o outro, denunciavam o caminho do funcionário que os ascendia e que até nessa noite  dos doces tinha de pôr  a vara ao ombro – então, a cidade ficava tão mergulhada em si  mesma quanto um saco cheio de mim e da minha felicidade.  "
 BENJAMIN, Walter. "BLUMESHOF 12". In: Rua de mão única e Infância berlinense:1900. Trad. João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, p. 95-8. (Notas da edição brasileira e grifos meus)
[1] A primeira leitura, Blumes-hof, significaria “Pátio de Flores”, e corresponde ao verdadeiro nome da rua; a segunda, Blume-Zof(e), é uma corruptela com o significado de “Dama da Flor”, mais condizente coma imagem da avó que é dada a seguir.
[2] Jugendstill, verso alemão do estilo Art Nouveau.