quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Brincar de tempo-será

Tempo Será

A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo
E a palma da minha mão).

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
(Manuel Bandeira)

Mas que brincadeira é essa de 'tempo-será'?
Segundo
este site, é um jogo de pique que quando o pegador é escolhido, as outras crianças repetem o seguinte diálogo cantado:

— Tempo será.
— De cericecó.
— Laranja da China.
— Pimenta em pó.
— Pinto que pia?
— Pi-pi-ri-pi.
— Galo que canta.
— Cocorocó
— Quem é o durão?
— Só eu só.
— Olha que lhe pego.
— Não é capaz.
— Olha que lhe pego.
— Se for capaz...


Quando acaba todos se põem a fugir do pegador. O primeiro que for pego será o pegador da rodada seguinte. Brincadeira bem brasilira, não? O interessante é pensar nos "tempos outros" das crianças, que no máximo obedecem às temporalidades dos jogos e brincadeiras, estes sempre à parte do tempo cronológico linear dos adultos!

domingo, 18 de dezembro de 2011

(UM) CRIME DELICADO

Estou lendo o romance "Um Crime delicado", de Sérgio Sant'Anna e estou adorando!
Eu não esperava muito, confesso, mas estou me surpreendendo em cada vez maisudo bem que estou ainda no começo porque (para minha grande surpresa até) é bem densa (nunca chata!)...
Séparei 3 trechinhos logo do começo que eu amei, um sobre narrativa e seu poder; um sobre percepção do amor . Sobre a construção narrativa:

"Não tenho a pretensão de rastrear, reproduzir, aqui, a consciência, a memória em seu fluxo veloz e descontínuo, pois tal procedimento se encontra muito além de minhas potencialidades narrativas, talvez além do alcance das palavras, porque a maior parte desses pensamentos, lembranças e projeções se fazia por meio de sensações e imagens superpostas (AQUI A PERSONAGEM ELENCA IMAGENS DAS QUAIS SE LEMBRA QUE NÃO COLOCO AQUI PRA NÃO ESTRAGAR POSSÍVEIS LEITURAS DE VOCÊS QUE ME LÊEM). Então é preciso organizar esse fluxo, como o tenho feito, para que eu próprio possa segui-lo, dominá-lo ao menos nestas páginas, estas frases que se encadeiam, como se elas, sim, criassem a verdadeira realidade." P. 29-30"
As duas outras passagens sobre percepção da espécie de amor são:
"Minhas emoções, tenho certeza, se atropelavam, mas eu podia resumi-las nesse dia seguinte como sentimento de profunda cumplicidade com Inês e o seu destino, desde quando fora traçado com aquele estigma, muito antes de eu conhecê-la, até o momento mágico em que passara a incluir-me e, a partir dele, até onde esse destino fosse conduzir-nos. Nâo seria amor, ou mais?" P. 31
"...mais importante do que o fato de ser Inês uma pintora, medíocre ou não, havia o fato maior de sermos dignos um do outro, pois os espelhos que nos ligavam, inclusive na ausência, refletiam, para além dos corpos - para além, até, daquilo meio secreto em seu corpo -, uma imagem, digamos, do espírito." P.32

Este romance foi filmado, recebeu o nome de Crime delicado:
Não vou assistir antes de terminar de me deliciar com a sua leitura porque só de saber que está no eleco do filme já perdeu a graça de imaginar as personagens... que droga! De qualquer forma, fica aqui as duas indicações...

sábado, 17 de dezembro de 2011

Cronologia da infância

"A cronologia da infância não segue uma linha reta, mas é feita de sobressaltos. A memória é um espelho opaco e estilhaçado, ou melhor, é feita de conchas intemporais de lembranças espalhadas numa praia de esquecimento. Sei que aconteceram muitas coisas naqueles anos, mas tentar recordá-las é tão desesperador como tentar lembrar um sonho, um sonho que deixou em nós uma sensação, mas nenhuma imagem, uma história sem história, vazia, da qual resta apenas um vago estado de espírito. As imagens se perderam. Os anos, as palavras, as brincadeiras, as carícias se apagaram, e no entanto, de repente, rememorando o passado, alguma coisa volta a se iluminar na sombria região do esquecimento"
- A Ausência que Seremos, Hector Abad

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Crianças. Nomes. Falas

VI
As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.
VII
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para o som.
Então a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que voz de poeta, que é voz de fazer
nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.
(Manuel de Barros. Obras Completas. Pp. 300-01)
"nomear algo significa convocar, criar realidade da coisa, ou antes, reconhecer essa realidade. Trata-se do valor mágico da palavra, do poder da palavra, da palavra eficaz."
(Adélia Bezerra de Menezes. Cores de Rosa.P. 233)

A persistência da memória - Salvador Dali

"Em 1934, Salvador Dali, pintor catalão radicado em Paris e uma das figuras líderes
do grupo surrealista, expõe numa galeria de Nova Iorque, o quadro "A
persistência da memória", o que se tornaria num dos momentos fundamentais
da sua carreira artística, responsável pelo incremento da sua notoriedade
pública. De facto, os relógios moles - designação muitas vezes atribuída a este
quadro - transformaram-se de imediato num dos ícones mais fortes e
característicos da sua obra.Na tela encontram-se representados três relógios
que marcam diferentes horas tendo como fundo a paisagem de Porto Lligat,
localizado no norte de Espanha, (memória de infância de Dali). Segundo o
próprio autor, a solução formal dos relógios derivam de um queijo camembert que
Dali se encontrava a observar enquanto pintava. As suas formas sensuais têm uma
evidente conotação sexual, nomeadamente o que se encontra no centro do quadro,
estendido sobre uma pedra que simula o retrato do artista.
Dali via os relógios como instrumentos normalizados e exatos que traduziam de
forma objetiva a passagem do tempo. O facto de os dotar de formas orgânicas
remete-os para o universo de prazer, recordando a dimensão fugidía do tempo e o
sentido de ambiguidade que a evolução temporal introduz pelo cruzamento da
perceção da realidade com a casualidade e inexplicabilidade da memória.
Esta pintura traduz o interesse do pintor pelas conquistas da ciência moderna,
cruzando teorias mais abstratas de física, nomeadamente a relatividade de
Einstein, que colocou em causa a ideia de espaço e tempo fixos, com as
pesquisas de Freud relativamente ao inconsciente e à importância dos fenómenos
dos sonhos. A duplicidade de sentido das imagens e as inúmeras interpretações
que promovem assim como a tendência para a criação de cenas absurdas repletas
de signos indecifráveis, levaram a Dali a designar esta forma de arte de
crítica paranoica, em tudo oposta a uma visão racional do mundo. De um ponto de
vista técnico, esta pintura, assim como grande parte das criações de Dali,
perseguem um enorme virtuosismo e meticulosidade no desenho das formas e na
representação dos pormenores, com objetivo de obter atmosferas dotadas de
grande realismo, daí o frequente alinhamento desta fase criativa com o grupo
dos surrealistas ilusionistas ou veristas.
Contém uma grande quantidade de referências de carácter historicista,
particularmente as referentes à pintura maneirista ou à enigmática e fantástica
obra do flamengo Jerónimo Bosch. O quadro Persistência da Memória
(também conhecida por Relógios Moles), foi pintado a óleo, aplicado sobre tela
com 24,1 por 33 cm. Encontra-se exposto no Museu de Arte Moderna de Nova
Iorque."(
http://www.infopedia.pt/$persistencia-da-memoria-(pintura)
Neste texto enciclopédico sobre o quadro "A persistência da memória" (1934) , de Salvador Dali aqui na internetvi coisas que quase acontecem nos meus textos: não são inverdades que se coloca, mas são restrições, é como se só Dali tivesse se preocupado com o direcionamento do tempo ou o questionamento da linearidade no século XX. De qualquer forma, para quem (como eu) pretende se voltar a infância, imagens como esta são um prato cheio de questionamentos...

domingo, 11 de dezembro de 2011

Filho é pra quem pode?

Muito bom para refletir e tentar me consolar (eu que não fui filha, nem serei mãe e, confesso, não 'engoli' direito isso e me pergunto diariamente 'por que?'Textos como este tentam alguma resposta...mesmo que seja apenas racional...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

XVII SEMINÁRIO DE TESES EM ANDAMENTO (SETA) DO IEL -UNICAMP: EU FUI!



Este ano eu participei do "XVII Seminário de teses em andamento (Seta)", desenvolvido pelo IEL da UNICAMP entre 30 de novembro e 2 de dezembro de 2011. Ainda estou tentando "realizar" o fato de ter mostrado um pedacinho da minha pesquisa a uma das mais conceituadas pesquisadora de Rosa, a Susi Sperber, e ter recebido dela comentários e um dos os autógrafos mais bonitos que já recebi:
Como acontece sempre em todos os debates,foi muito legal discutir as idéias nas quais você acredita, quando isto acontece com interessados e conhecedores, é fantástico! Na mesa que eu participei e que tinha a Susi como debatedora, tínhamos plateia e me deixaram mostrar TUDO que eu tinha preparado, todas as imagens, li todas as citações. Acho que porque eu era a voz da alteridade ali (não era nem da UNICAMP, nem das letras), para mim foi bacana ver que era mesmo algo inovador fazer leituras dos cadernos de Rosa, ainda mais com a perspectiva que estou usando, Susi Sperber disse que quando ela estudou a biblioteca de Rosa não havia cadernos, mas que ela pensava que eles eram mais uma questão de praticidade, para não usar folhas avulsas, mas eu não entrei na discussão na hora porque ainda estou pesquisando e não conclui nada ainda, mas sempre questiono ser só uma questão de praticidade, até porque no arquivo também existem muitass folhas avulsas de Rosa.No debate final, conversei com Erich Soares Nogueira (um outro doutorando em Rosa), que já trabalhou com infância no mestrado e que achou muito "delicada" a minha apresentação. Trocamos figurinhas muitas sobre figurações da voz, sobre vocalidade, Zumthor e Meschonnic, silêncio, "paisagem sonora", demais!Outra coisa muito legal foi que eu pude falar aos espeialistas sobre minha oficina com as crianças, sobre minhas hipóteses a respeito das mudanças de recepção e discutimos um pouco sobre isso fiquei bem satisfeita. Para além dos resultados científicos, conheci a galeria do IEL (amigos do meu namorado), gente muito bacana! Resumindo, foi muito legal minha passagem pela UNICAMP esse ano!Às vezes é tão bom pesquisar o que se ama e momentos assim fazem tudo valer à pena!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Não é muito feio um mundo que esvazia de sentido uma de suas maiores escritoras, como esse ano os brasileiros fizeram com Clarice Lispector? Porque para mim ela ainda é repleta de significados eu insisto em colar esta crônica que considero um dos seus melhores textos...se alguém ai ainda tiver coragem: ouça!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Série Encontros : Entrevista com Eduardo Viveiros de Castro



Renato Sztutman : Você acredita que sua obra possa contribuir para uma antropologia da sociedade brasileira?

Eduardo Viveiros de Castro : Não estou excessivamente familiarizado com a antropologia da sociedade brasileira. Fui fazer etnologia para fugir da sociedade brasileira, esse objeto pretensamente compulsório de todo cientista social do Brasil. Como cidadão, sou brasileiro e não tenho objeção a sê-lo. Ou melhor, para dizer a verdade, frequentemente me vejo sentindo grande vergonha de sê-lo; não faltam motivos, passados como resentes, históricos como cotidianos, para isso. Mas sempre lembro que se fosse natural de qualquer outro país, teria motivos tão bons ou melhores para sentir vergonha, e é isso que me faz não ter realmente objeções ao fato de ser brasileiro. Porque, em última análise, tanto faz. Ser humano, perante os demais viventes, já é complicado o bastante. O que não quer dizer que a consciência de ser brasileiro não me mobilize eticamente, não me interpele politicamente, nem me faça experimentar a mistura ambivalente de sentimentos e de disposições associadas a qualquer pertença objetiva.
Fico aliás pensando que talvez seja nisso que consiste realmente o sentimento de pertencer a uma nação: ter motivos todos próprios para se envergonhar, tão próprios quanto (senão mais que) os sempre lembrados motivos de se orgulhar. Isso quando os ditos ‘motivos’ não são, como suspeito que quase sempre são, os mesmos motivos. Todo orgulho confessa uma vergonha. E toda vergonha clama por (a) pagamento.
Enfim, sou brasileiro e coisa e tal. Raras são as vezes em que penso nisso; e quando o faço, em algumas delas acho até bom. Como disse bem Tom Jobim,ao retornar ao Rio de Janeiro depois de anos morando nos Estados Unidos: ‘lá fora é legal,mas é uma merda; aqui é uma merda, mas é legal...’Grande verdade. De qualquer modo, como pesquisador não acho que seja obrigado a ter como objeto a chamada ‘realidade brasileira’, essa curiosa e intraduzível noção. Não se exige isso dos matemáticos ou dos físicos. Os físicos brasileiros não estão estudando a ‘realidade brasileira’. Estão estudando, salvo engano (meu ou deles), apenas a realidade. Por que um cientista social brasileiro não pode fazer a mesma coisa? O Brasil é uma circustância para mim, não é objeto; entendo, sobretudo, que o Brasil é uma circunstânci para os povos que eu estudo, e não sua condição fundante.” P. 48)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O avanço do conservadorismo desinformado

COLO AQUI UM TEXTO DISPONÍVEL EM "EU VI O MUNDO", QUE SÓ PODE SER LIDO POR QUEM TEM CORAGEM :

Maurício Caleiro: O avanço do conservadorismo desinformado
terça-feira, 8 de novembro de 2011

Reações a doença de Lula e à PM na USP evidenciam crise ideológica e cultural

por Maurício Caleiro, em seu blog, sugerido pela Maria Frô


As reações, na internet, a dois eventos recentes – o anúncio de que o ex-presidente Lula está com câncer e a atuação da PM na USP – têm causado perplexidade e repulsa pelo modo agressivo com que se expressam e pelo que evidenciam de falta de educação, preconceito e inadaptabilidade ao debate democrático. Mas, como veremos, há mais pontos em comum entre essas duas manifestações de intolerância do que à primeira vista sugerem.

Agressões ao doente

Receber a notícia de que alguém está com câncer – ou com outra doença tida como grave – costuma despertar compaixão no ser humano. Alguns atribuem tal reação a uma suposta bondade inerente à nossa espécie, acreditando que por baixo das máscaras que adotamos para a vida em sociedade vicejam corações plenos de boa intenção; os não-rousseaunianos, mais reticentes, afirmam tratar-se de uma reação ditada pelo instinto de preservação: o temor de que venhamos a padecer da mesma enfermidade faz com que nos identifiquemos com a dor alheia como forma de esconjurá-la.

Seja como for, considera-se que festejar e regojizar-se com o anúncio da doença alheia é reação que ultrapassa todos os limites do bom senso e da convivência em sociedade. É por isso que o que se viu, na internet mas também nas redações, logo após o anúncio de que Lula está acometido de um câncer na laringe, marca um dos pontos mais baixos do debate público no Brasil. No momento de maior fragilidade do ex-mandatário, deu-se vazão a todo o ódio e preconceito de classe acumulado nos anos em que ele esteve no poder.

O texto definitivo sobre o caso veio da pena cada vez mais afiada de Maria Inês Nassif, que entre outros pontos relevantes apontou que não é de hoje que o respeito mínimo devido a todo presidente eleito não tem lugar quando se trata de Lula da Silva – e que entre os que através de tal procedimento desrespeitam a própria instituição da Presidência está a própria mídia, que deveria dar o exemplo.

Insultos aos estudantes

Pois nem bem as forças democráticas se recuperavam de tais excessos agressivos – que levaram até jornalistas notadamente conservadores a reclamar – e o país já se via diante de um novo efeito-manada, uma onda de insultos contra estudantes da USP que, em reação contrária à decisão (tomada em assembleia própria) de desocupar o prédio administrativo da FFLCH (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) decidiram ocupar a Reitoria para continuar protestando contra a ação da PM no campus, com revistas constantes, que culminaram na prisão de três alunos de Filosofia flagrados com um cigarro de maconha.

Daí em diante o que se viu, mesmo entre autointitulados esquerdistas, foi uma onda de protestos contra o que chamam de “os maconheiros da USP”. Mesmo deixando de lado a generalização descabida, há, em pleno século XXI – quando as principais democracias reconhecem que o uso de maconha é questão de foro pessoal e do âmbito da saúde, não da segurança pública – algo de intrinsecamente anacrônico no uso do ajetivo “maconheiro” como forma de promover estigmatização e desqualificação. Além disso, assim como ocorreu com a doença do ex-presidente, o que o fenômeno da reação virulenta à invasão da Reitoria da USP nos traz é, uma vez mais, o ódio de classe e os recalques de fundo psicológico, vindos à tona de forma agressiva e com vocabulário tosco. A internet enquanto catarse.

A herança do desmanche

A realidade, porém, é bem mais complexa do que os histéricos querem fazer crer. Como explica de forma detalhada o professor da USO Pablo Ortallado, em ótimo artigo, a violência na instituição está diretamente ligada a um processo de restrição cada vez maior do exercício da democracia interna. Por meio deste, a USP é, hoje, uma das universidades públicas brasileiras em que professores, servidores e alunos têm o menor peso nas decisões importantes, a cargo de colegiados de membros de estâncias burocráticas superiores que se transformaram em verdadeiros feudos, onde o poder se perpetua nas mãos de poucos.

Em decorrência disso, cerceia-se ao máximo o raio de ação política dentro das regras do jogo por parte de alunos, professores e funcionários. Ora, quem já pássou por uma ditadura sabe: quando as regras reprimem o exercício da democracia, é dever do democrata desobedecer e lutar pela modificação delas. Achar que a brutal repressão institucional a que a USP vem sendo submetida nos últimos 20 anos iria ser aceita passivamente é subestimar a inteligência dos uspianos.

Agrava essa situação o modelo urbanístico adotado pela universidade paulista, que é criticado, entre outros, pela arquiteta e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP) Raquel Ronik, o qual colaboraria para a segregação social no campus e entre moradores da cidade e uspianos, como apontam os alunos de Relações Internacionais Leonardo Calderoni e Pedro Charbel, em artigo que denuncia a forma manipuladora como o conceito de autonomia é instrumentalizado pela mídia e pelas autoridades universitárias.

O PSDB tem um papel preponderante nesse estado de coisas, não só porque, à frente do governo de São Paulo há 17 anos, é co-responsável pelo estágio urbanístico-social-institucional da USP, mas porque José Serra – que não nomeou o candidato a reitor que ocupava o primeiro lugar na lista tríplice, preferindo o polêmico Rodas – e Geraldo Alckmin estavam a cargo do governo nas duas vezes em que a Tropa de Choque da PM, num ato inimaginável numa verdadeira democracia, invadiu o campus – a mais recente na manhã de hoje -, utilizando de violência desmedida contra estudantes desarmados.

PM no campus

A reação de apoio à ação da polícia, mesmo nas raras vezes em que é expressada de forma polida e educada, evidencia o profundo conservadorismo que marca a sociedade brasileira atual. Trata-se de um paradoxo: no momento mesmo em que 28 milhões deixaram de ser miseráveis e 40 milhões ascenderam à classe média, e que o Brasil tornara-se efetivamente um player na política internacional, o debate sobre questões internas involui não apenas na forma (a difamação e os ataques pessoais substituindo o diálogo civilizado e a argumentação), mas também no conteúdo (com pressupostos que há pouco eram exclusivos de fanáticos de direita tornando-se de uso corrente entre os estratos médios e altos).

Seria preciso uma alta dose de auto-engano para não se aperceber que o país, tanto em termos culturais quanto ideológicos, claramente retrocedeu, se comparado àquele de 40, 50 anos atrás. Não há como comparar o nível das discussões públicas hoje, no Brasil, àquele que se deu, por exemplo, no bojo do processo de redemocratização do país.

Regredimos?

Antes que as palavras aqui ditas sejam distorcidas, cabe assinalar que não se quer com isso, de forma alguma, sugerir que o ambiente da ditadura era mais profícuo em termos culturais e ideológicos do que os atuais. Ainda que isso seja verdade em alguns períodos – notadamente entre 1964 e 1967, hiato que o crítico literário Roberto Shwarz qualificou como os “anos de hegemonia cultural da esquerda” -, isso se deve mormente ao ímpeto antiditatorial de artistas da coragem e do talento de um Chico Buarque ou de um Vianinha – e à necessidade de unir-se no combate a um inimigo em comum.

Na verdade, a crise ideológica e cultural que hoje uma vez mais se agrava tem como origem justamente a ação sistemática da ditadura contra as formas culturais mais autênticas e mais revolucionárias, em prol do investimento vultoso na constituição de uma sociedade televisiva de massas – uma herança que os civis de direita que marcaram o longo período de transição para a democracia só açularam, muitos com proveito eleitoral.

O preço da desideologização

Há uma década, a centro-esquerda tem sido eleita, é verdade, mas, como as eleições que culminaram com a vitória de Dilma Rousseff evidenciaram de forma inconteste, não foi através de uma proposta programática de perfil ideológico – muito pelo contrário: tal como o “Lulinha Paz e Amor” de oito anos antes, a hoje presidenta submeteu-se ao regime padrão de marquetagem, chegando, ao final da campanha, ante as baixarias desmedidas de José Serra, a retroceder em questões de suma importância, como o aborto.

É precisamente quando se evidencializou de forma mais clara, àqueles que não se recusaram a ver, que a crise ideológica transcendia as questões colocadas pelo neoliberalismo, as quais dominaram o período imediatamente anterior (e, muitas delas, continuam na ordem do dia), e que a crise cultural, como qualquer crise estética, era também uma crise ética.

“Mas o importante é que eles venceram” – dirá o esquerdista pragmático. Sim, venceram, mas o preço que a sociedade brasileira como um todo vem pagando por essa recusa em um debate ideológico é uma despolitização da política, uma desideologização da esfera pública que ao final só beneficia os grandes grupos de mídia corporativa, os quais têm como interesse precípuo obter pontos no Ibope, e não levar cultura e educação ao público espectador, como “exige” a Constituição.

Dieta indigesta

A sobreposição do marketing à política e a naturalização das telecomunicações como meio de entretenimento – seja através das narrativas ficcionais das novelas ou das narrativas protojormalísticas dos telejornais – certamente desempenham um papel fundamental nesse processo de alavancagem do conservadorismo desinformado, pois não há como evoluir ética e ideologicamente com uma dieta de Datenas, Lucianos Huck, CQCs e coisas do gênero. Um país que, há 11 anos, quase para durante meses para assistir a Big Brother Brasil está profundamente enfermo em termos de ideologia, ética e estética – e negar isso em nome de uma suposta pluralidade democrática de escolhas é tapar o sol com a peneira.

E a relação entre política e mídia está diretamente imbricada na questão: cada vez que o governo Dilma demite um ministro após um factoide da Veja, não só estimula um jornalismo-denúncia – forte em escândalo mas fraco em evidências -, mas, ao fortalecer a posição da revista ante o público, está, na prática, incentivando a difusão de um ideário conservador (inerente à publicação) que transcende a política e se torna moeda corrente em questões comportamentais e culturais.

É pelas razões acima expostas que já passa da hora dos governos ditos de centro-esquerda renunciarem à ferrugem neoliberal que emperra o protagonismo do Estado na área cultural e tomarem as rédeas de um projeto de elevação do nível educacional e cultural do povo brasileiro, sob a pena não apenas de serem derrotados eleitoralmente, mas de legarem ao futuro um país ainda mais conservador, ignorante e truculento do que o que herdaram.

PS do Viomundo: Em Century of the Self, Adam Curtis trata com brilhantismo da rendição dos democratas (sob Clinton) e dos trabalhistas (sob Blair) à marquetagem e trata das consequências políticas. Quem não viu, veja. Vale a pena.

sábado, 12 de novembro de 2011

O rancor contra a USP






O rancor contra a USP - Marcelo Rubens Paiva








“"Além de maconheiro, você deve ser viado.”
Curiosa associação.
Esta é uma das muitas reações de carinho que recebi ao falar do conflito entre alunos da USP e a PM.
Dos mais de 400 comentários abaixo, o índice de reprovação dos acontecimentos é altíssimo.
E, claro, as agressões pessoais foram a tônica dos leitores: sou maconheiro, esquerdóide, analfabeto, autor de um livro só, cujo acidente me deixou paraplégico e burro, e a quantidade de drogas que tomei queimaram meus neurônios.
Uma fofura…
Ou não se entendeu o que queriam afinal os alunos da USP, ou um rancor contra eles domina parte da sociedade.
Percebi como tem gente que acha um desperdício o investimento do orçamento estadual em uma universidade pública.
Uma, não. Três [USP, Unicamp, Unesp].
Frequentadas por “vagabundos, maconheiros, depredadores dominados por correntes da esquerda radical”.
Um desperdício de dinheiro público.
Imaginei que fosse uma unanimidade a proposta de que o Estado deva investir pesadamente em educação, se quisermos dar um passo, sim, de gigante.
Além de vendermos pedras com ferro, soja e alimentar o mundo, poderíamos nos transformar numa força industrial e tecnológica.
Imaginei que a essência de uma Universidade fosse desenvolver o livre pensar.
As mensagens que os estudantes me passaram foram:
1. Esta PM não nos serve.
2. A política de repressão à posse de entorpecentes faliu.
3. A reitoria abriu mão de resolver os seus problemas, como a violência no campus, desistiu e chamou o Estado.
Leitores reclamaram que estudantes da USP não devem ter privilégios, que esta PM é a que temos. E que eles não querem a PM lá para poderem fumar seus baseadinhos livremente.
O governador do Estado reclamou que deveriam ter aulas de democracia.
Mas continuo concordando com os estudantes.
Não é a PM que deveria voltar à escola e aprender a combater o crime?
Esta PM é falida.
Não consegue lidar com os índices alarmantes de violência urbana. A corrupção corrói da base à cúpula. O traficante NEM acaba de declarar que metade dos seus rendimentos ia para a polícia.
Em todas as cidades existe a sua cracolândia, sinal de que, como disse a revista THE ECONOMIST, perdemos a batalha para o tráfico. Como sanar tal doença?
O DCE da USP entregou à reitoria meses atrás a sua proposta para conter a violência: iluminar o campus, descatracalizá-lo, tornar a Universidade aberta e criar uma guarda universitária focada nos direitos humanos.
E reitoria desprezou. Preferiu chamar a força de repressão que fez de São Paulo uma das cidades mais violentas do mundo.
A cobertura de parte da mídia só alimentou o preconceito. Não se debateram ideias, mas a atitude de vândalos.
Prefiro uma Universidade que continue nos propondo novas ideias. Sim, gratuita. Aceito com orgulho que parte dos meus impostos vá para as universidades públicas.
Já estudei em duas e sei muito bem que elas não servem apenas à elite. Que há convênios com países africanos e latino-americanos. Que se estuda as raízes dos problemas e conflitos sociais. Que há núcleos de combate à violência. E que a força dos movimentos sociais é a alma da democracia e da justiça social.
E que numa Universidade livre, governador, repensa-se o papel do Estado.
Nem na época da DITADURA as ações dos estudantes eram unanimes.
Havia uma maioria silenciosa não engajada que não participava.
Isto não quer dizer que ela estava correta.
Muitos diziam que estudantes estavam lá para apenas estudar.
A História prova que dos estudantes veem as ideias de transformação.
É mais vantajoso escutá-los do que trancá-los ou reprimir com “borrachadas”.
No meio estudantil, longe das forças do mercado, nascem as grandes ideias.
Nasce o futuro. "

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

FIM DE PAPO

FIM DE PAPO



É curioso, Adulto, quando acaba de ler um de meus livros com histórias de criança, nunca deixa de comentar:
- Pois é. Mas o meu Serginho diz coisas muito bacanas,também!
Que dúvida! Diz mesmo.
E, ainda com um sorriso de pai realizado, começa a tentar recordar ‘aquela’ que o menino havia soltado outro dia. Quem disse que...? Nada.
E o mais incrível é que, na hora em que o garoto tinha soltado aquela todos eram capazes de jurar que jamais esqueceriam. Todos esqueceram.
E sabem por quê?
É que o humor infantil, o que a criança diz, tem características tão próprias, tão originais, tão suas, que os referenciais do adulto não conseguem fixar com facilidade.
Essa originalidade faz com que o diálogo de adulto e criança mixe tantas vezes. Falam línguas diferentes. O grandalhão do pai quer dialogar dentro de seu próprio repertório, supondo que o do filho é muito inferior. Não é exatamente isso. É diferente. E o mais pitoresco e, por vezes, doloroso até, é que, ao deparar com a dificuldade de se comunicar, seria lógico que o adulto tentasse aprender a fala com seu filho. Sim, senhores. Aprender a falar com o filho.
É que as palavras, as mesmas palavras, significam coisas diferentes para um e para outro. A dose de imaginação não expressa, o turbilhão de fantasia não verbalizada fazem com que duas crianças pequeninas possam se comunicar bem melhor entre elas do que cada qual com seu respectivo pai.
- Que diabo de conversa sem-fim têm esses pirralhos! – explodem os pais.
É que aqueles seres pequeninos parecem ter uma infinidade de segredinhos, de particulares, de confidências e mistérios. Se compreendem mais pelo implícito do que pelo proferido. E o proferido é, quase sempre, o proferido.
Quando aquela coisinha ouviu o protesto de que o açúcar ia estragar os dentes, soltou de imediato:
-Adulto não entende nada de bala!
Quando estamos lidando com amostras de gente que é incapaz, aparentemente, de se comunicar através da palavra, é necessário, mais do que nunca, um voto de confiança e deixar que se expresse de qualquer forma, à sua maneira. E, quando se tem coração de entender criança, não é preciso ser nenhum decifrador de charadas para captar o que ela quer ou sente.
Criança é isso aí, gente! Muita vez quem não sabe falar é o pai, que fala pelos cotovelos, logorreico, verborrágico e não a criança que não abriu a boca nem pra beber água.
O melhor diálogo inicial com uma criança pode ser, simplesmente, pescar a seu lado, silenciosamente, ou passar uma bola para que ela chute em gol.
O diabo é que adulto é danado pra cometer falta máxima. É doutor em pênalti.
Não, meu caro. Acho que ninguém é culpadode cometer erros. Em tese ninguém deveria merecer um cartão vermelho. Em tese, porque a desinformação, nesta era do silicone, também é pecado. Ou não é?”
(Pedro Bloch. Criança é isso aí. Rio de Janeiro: Bloch, 1980. Pp.111-12 )

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"A NETINHA DO ROSA

A netinha do grande Guimarães Rosa é um prodígio de serenidade, simpatia e discrição. Ela quase não fala mas quando o faz é com imensa graça e encanto. Rosa me disse uma vez, analisando-a:
-Ela tem tanta coisa pra dizer que nem precisa falar.
E a respeito de um indivíduo que falava demais sem nada dizer:
- Sabe Pedro? Ele é cheio de coisas vazias, não é?"

Pedro Bloch. Essas crianças de hoje!. Rio de Janeiro: Bloch Editores. 1969/1970. P.27

Esclarecendo o caso USP (pra quem vê de fora)

Esclarecendo o caso USP (pra quem vê de fora).
por Jannerson Xavier, quarta, 9 de Novembro de 2011 às 16:04 (http://www.facebook.com/#!/notes/jannerson-xavier/esclarecendo-o-caso-usp-pra-quem-v%C3%AA-de-fora/2459499642739)

Somos alunos da ECA-USP e visto a falta de imparcialidade da mídia com referência aos últimos acontecimentos ocorridos dentro da Universidade de São Paulo, cremos ser importante divulgar o cenário real do que realmente se passa na USP. Alguns fatos importantes que gostaríamos de mostrar:



- O incidente do dia 27/10/11, quando 3 alunos foram pegos portando maconha, NÃO foi o ponto de partida das reivindicações estudantis. Aquele foi o estopim para insatisfações já existentes.



- Portanto, gostaíamos de explicitar que a legalização da maconha, seja dentro da Cidade Universitária ou em qualquer espaço público, não é uma reivindicação estudantil. Alguns grupos até estão discutindo essa questão, mas ela NÃO entra na pauta de discussões que estamos tendo na USP.



- Os alunos da USP NÃO são uma unidade. Dentro da Universidade há diversas unidades (FFLCH, FEA, Poli, etc.) e, dentro de cada unidade, grupos com diferentes opiniões. Por isso não se deve generalizar atitudes de minorias para uma universidade inteira. O que estamos fazendo, isso no geral, é sim discutir a situação atual em que se encontra a Universidade.



- O Movimento Estudantil, responsável pelos eventos recentes, NÃO é uma organização e tampouco possui membros fixos. Cada ação é deliberada em assembleia por alunos cuja presença é facultativa. O que há é uma liderança desse movimento, composta principalmente por membros do DCE (Diretório Central dos Estudantes) e dos CAs (Centros Acadêmicos) de cada unidade. Alguns são ligados a partidos políticos, outros não.



- Portanto, os meios pelos quais o Movimento Estudantil se mostra (invasões, pixações, etc.) não são decisão de maiorias e, portanto, são passíveis de reprovação. Seus fins (ou seja, os pontos reais que são discutidos), no entanto, têm adesão muito maior, com 3000 alunos na assembleia do dia 08/11.



- Apesar de reprovar os meio usados pelo Movimento Estudantil (invasões, depredação), não podemos desligitimar as reivindicações feitas por esses 3000 alunos. Os fatos não podem ser resumidos a uma atitude de uma parcela muito pequena dos universitários.



Sabendo do que esse movimento NÃO se trata, seguem suas reinvidicações:



DISCUSSÃO DO CONVÊNIO PM-USP / MODELOS DE SEGURANÇA NA USP



A reivindicação estudantil não é: PM FORA DO CAMPUS, mas antes SEGURANÇA DENTRO DO CAMPUS. Os estudantes crêem na relação dessas reivindicações por três motivos:



A PM não é o melhor instrumento para aumentar a segurança, pois a falta de segurança da Cidade Universitária se deve, entre outros fatores, a um planejamento urbanístico antiquado, gerando grandes vazios. Iluminação apropriada, política preventiva de segurança e abertura do campus à populacão (gerando maior circulação de pessoas) seriam mais efeitas. Mas, acima de tudo...



A Guarda Universitária deve ser responsável pela segurança da universidade. Essa guarda já existe, mas está completamente sucateada. Falta contingente, treinamento, equipamento e uma legislação amparando sua atuação. Seria muito mais razoável aprimorá-la a permitir a PM no campus, principalmente porque...



A PM é instrumento de poder do Estado de São Paulo sobre a USP, que é uma autarquia e, como tal, deveria ter autonomia administrativa. O conceito de Universidade pressupõe a supremacia da ciência, sem submissão a interesses políticos e econômicos. A eleição indireta para reitor, com seleção pessoal por parte do governador do Estado, ilustra essa submissão. O atual reitor João Grandino Rodas, por exemplo, era homem forte do governo Serra antes de assumir o cargo.



POSTURA MAIS TRANSPARENTE DO REITOR RODAS / FIM DA PERSEGUIÇÃO AOS ALUNOS



Antes de tudo, independentemente de questões ideológicas, Rodas está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo por corrupção, sob acusação de envolvimento em escândalos como nomeação a cargos públicos sem concurso (inclusive do filho de Suely Vilela, reitora anterior a Rodas), criação de cargos de Pró-Reitor Adjunto sem previsão orçamentária e autorização legal, e outros.



No mais, suas decisões são contrárias à autonomia administrativa que é direito de toda universidade. Depois de declarar-se a favor da privatização da universidade pública, suspendeu salários em ocasiões de greve, anunciou a demissão em massa de 270 funcionários e, principalmente, moveu processos contra alunos e funcionários envolvidos em protestos políticos.



Rodas, em suma: foi eleito indiretamente, faz uma gestão corrupta e destrói a autonomia universitária.



Você pode estar pensando…



MAS E O ALUNO MORTO NO ESTACIONAMENTO DA FEA-USP, ENTRE OUTRAS OCORRÊNCIAS?

Sobre o caso específico, a PM fazia blitz dentro da Cidade Universitária na noite do assassinato. Ainda é bom lembrar que a presença da PM já vinha se intensificando desde sua primeira entrada na USP, em Junho/2009 (entrada permitida por Rodas, então braço-direito de Serra). Mesmo assim, ela não alterou o número de ocorrências nesse período comparado com o período anterior a 2009. Ao contrário, iniciou um policiamento ostensivo, relugarmente enquadrando alunos, mesmo das unidades nas quais mais estudantes apoiam sua presence, como Poli e FEA.



MAS E A DIMINUIÇÃO DE 60% NA CRIMINALIDADE APÓS O CONVÊNIO USP-PM?

São dados corretos. Porém a estatística mostra que esta variação não está fora da variação anual na taxa de ocorrências dentro do campus ( http://bit.ly/sXlp0U ). A PM, portanto, não causou diminuição real da criminalidade na USP antes ou depois do convênio. Lembre-se: ela já estava presente no início do ano, quando a criminalidade disparou.



MAS, AFINAL, PARA QUE SERVE A TAL AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA?

Serve para que a Universidade possa cumprir suas funções da melhor maneira possível. De maneira simplista, são elas:

- Melhorar a sociedade com pesquisas científicas, sem depender de retorno financeiro imediato.

- Formar cidadãos com um verdadeiro senso crítico, pois mera especialização profissional é papel de cursos técnicos e de tecnologia.



Importante: autonomia universitária total não existe. O dinheiro vem sim, do Governo, do contribuinte, porém a autonomia universitária não serve tirar responsabilidades da Universidade, mas sim para que ela possa cumprir essas responsabilidades melhor.



COMO ISSO ME AFETA? POR QUE EU DEVERIA APOIA-LOS?

As lutas que estão ocorrendo na USP são localizadas, mas tratam de temas GLOBAIS. São duas bandeiras: SEGURANÇA e CORRUPÇÃO, e acredito que opiniões sobre elas não sejam tão divergentes. Alguém apoia a corrupção? Alguem é contra segurança?



O que você acha mais sensato:

- Rechaçar reivindicações justas por conta de depredações e atos reprováveis de uma minoria, ou;

- Aderir a essas mesmas reivindicações, propondo ações mais efetivas?



Você tem a liberdade de escolher, contra-argumentar ou mesmo ignorar.

Mas lembre-se de que liberdade só existe com esclarecimento.

Espero ter contribuído para isso.



Se você se interessa pelo assunto, pode começar lendo este depoimento: http://on.fb.me/szJwJt



Bárbara Doro Zachi

Jannerson Xavier Borges



PS: Já que a desconfiança é com a mídia, evitamos linkar material de qualquer veículo.

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Lucas Tonicelli Falou TUDO!
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Charge: Tentando entender

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Se está escrito, é verdade!

"... com a mão firme segura a esferográfica e acrescenta uma palavra à página, uma palavra que o historiador não escreveu, que em nome da verdade histórica não poderia ter escrito nunca, a palavra NÃO, agora que o livro passou a dizer é que os cruzados Não auxiliarão os portugueses a conquistar Lisboa, assim está escrito e portanto passou a ser verdade, ainda que diferente, o que chamamos de falso prevaleceu sobre o que chamamos de verdadeiro, tomou o seu lugar, alguém teria de vir contar a história nova..." José Saramago - História do cerco de Lisboa. P. 50

domingo, 6 de novembro de 2011

"A CRIANÇA PRODUTORA DE CULTURA

Quando a cultura passa a ser entendida como um sistema simbólico, a ideia de que as crianças vão incorporando-a gradativamente ao aprender ‘coisas’ pode ser revista. A questão deixa de ser apenas como e quando a cultura é transmitida em seus artefatos (sejam eles objetos, relatos ou crenças), mas como a criança formula um sentido ao mundo que a rodeia. Portanto, a diferença entre as crianças e os adultos não é quantitativa, mas qualitativa; a criança não sabe menos, sabe outra coisa. Isso não quer dizer que a antropologia da criança recente se confunda com análises do desenvolvimento cognitivo; ao contrário, dialoga com elas. A questão, para a antropologia, não é saber em que condição cognitiva a criança elabora sentidos e significados, e sim a partir de que sistema simbólico o faz.
Os estudos mais interessantes sobre isso são os da antropóloga britânica Christine Toren. Psicóloga de formação, ela é capaz como poucos de fazer dialogar esses dois campos de conhecimento para entender o modo como as crianças figi, com quem trabalha, atribuem sentidos ao mundo. Toren utiliza-se mesmo de instrumentos da psicologia, como a confecção de desenhos temáticos pelas crianças, ao lado dos métodos antropológicos. E sua análise demonstra aquilo que dizíamos acima: que os significados elaborados pelas crianças são qualitativamente diferentes dos adultos, sem por isso serem menos elaborados ou errôneos e parciais.Elas não entendem menos, mas, como afirma, explicitam o que os adultos também sabem mas não expressam.
Tomemos um exemplo disso para entendermos melhor. Toren nos mostra que, em Fiji, há um sistema hierárquico que perpassa todas as esferas de sociabilidade, e que é expresso principalmente pela ocupação do espaço: pessoas de status mais alto sentam acima, mesmo que esse acima nem sempre seja situado em um eixo vertical, mas frequentemente simbólico. O que as crianças de Fiji fazem é inverter a formulação dos adultos: enquanto eles dizem ‘fulano senta acima porque é superior hierarquicamente’, elas dizem ‘fulano é de status superior porque senta acima. Toren nos dirá que isso é uma percepção falha ou incompleta das crianças, mas um modo diferente de falar a mesma coisa. A formulação da criança é completa, e explicita com acuidade a relação entre a ocupação do espaço físico e o status social, expressando o que os adultos não verbalizam. Toren sugere mesmo que estudar crianças é mais do que um novo ramo da antropologia – é importante não só para entendê-las, mas também fundamental para melhor entender as culturas que os antropólogos estudam.
Estudos deste tipo nos mostram, portanto, que as crianças não são apenas produzidas pelas culturas mas também produtoras de cultura. Elas elaboram sentidos para o mundo e suas experiências compartilhando plenamente de uma cultura. Esses sentidos têm uma particularidade, e não se confundem e nem podem ser reduzidos àqueles elaborados pelos adultos; as crianças têm autonomia cultural em relação ao adulto. Essa autonomia deve ser reconhecida, mas também relativizada: digamos, portanto, que elas têm uma relativa autonomia cultural. Os sentidos que elaboram partem de um sistema simbólico compartilhado com os adultos. Negá-los, seria ir de um extremo ao outro; seria afirmar a particularidade da experiência infantil sob o custo de cunhar uma nova, e dessa ver irredutível, cisão entre os mundos. Seria tornar esses mundos incomunicáveis.
Alguns estudos atuais falam de uma cultura infantil, ou de culturas infantis. Sugiro que esses termos sejam entendidos e adotados tendo em vista as ressalvas que fiz acima. Ou, mais propriamente, que reconheçamos que falar de uma cultura infantil é um retrocesso em todo o esforço de fazer uma antropologia da criança: é universalizar, negando as particularidades socioculturais. Mais ainda: é refazer a cisão entre mundo dos adultos e o das crianças, e, dessa vez, de modo mais radical. Lembremos mais uma vez a máxima da antropologia: entender os fenômenos sociais em seu contexto. Falar de culturas infantis, portanto, é mais adequado; mas devemos, ainda assim, fazê-lo com cuidado, para não incompatibilizar o que as crianças fazem e pensam com aquilo que outros, que compartilham com ela uma cultura mas não são crianças, fazem e pensam.
É verdade que muitos estudos têm mostrado a importância da transmissão cultural entre crianças. Isso acontece, por exemplo, com brincadeiras infantis, aprendidas não com adultos, mas com outras crianças. Acontece mesmo na escola, nas brincadeiras – às vezes desconhecidas dos adultos que com elas convivem – se fazem e refazem. Embora objeto interesse de observação e análise, isso também não deve ser entendido como uma área cultural exclusivamente ocupada pelas crianças, mas uma das modalidades de produção cultural empreendida por elas. Seremos menos capazes de entender o que elas fazem nessas brincadeiras se não entendermos a simbologia que as embasam, e essa simbologia extrapola o mundo das crianças."

COHN, Clarice. Antropologia da criança. 2ª. Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Pp.33-6

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ninguém está acima da lei. Mas, quem é ninguém? O que é a lei? Qual é a verdade?

Para deslegitimar o ato de estudantes da USP, que se postaram contra a presença da polícia militar no campus universitário, o governador Geraldo Alckmin sentenciou: “Ninguém está acima da lei”, sugerindo que o ato dos estudantes seria fruto de uma tentativa de obter uma situação especial perante outros cidadãos pelo fato de serem estudantes. Aliás, na sequência, os debates na mídia se voltaram para este aspecto, sendo os estudantes acusados de estarem pretendendo se alijar do império da lei, que a todos atingem.

Muito precisa ser dito a respeito, no entanto.

Em primeiro lugar, a expressão, “Ninguém está acima da lei”, traduz um preceito republicano, pelo qual, historicamente, se fixou a conquista de que o poder pertence ao povo e que, portanto, o governante não detém o poder por si, mas em nome do povo, exercendo-o nos limites por leis, democraticamente, estatuídas. O “Ninguém está acima da lei” é uma conquista do povo em face dos governos autoritários. O “ninguém” da expressão, por conseguinte, é o governante, jamais o povo. Claro que nenhum do povo está acima da lei, mas a expressão não se destina a essa obviedade e sim a consignar algo mais relevante, advindo da luta republicana, isto é, do povo, para evitar a deturpação do poder.

Nesse sentido, não é dado ao governante usar o preceito contra atos de manifestação popular, pois é desses atos que se constroem, democraticamente, os valores que vão se expressar nas leis que limitarão, na sequencia, os atos dos governantes.

Dito de forma mais clara, a utilização do argumento da lei contra os atos populares é um ato anti-republicano, que favorece o disfarce do império da lei, ao desmonte da contestação popular aos valores que estejam abarcados em determinadas leis.

Foi isso, aliás, que se viu recentemente em torno do direito das pessoas se manifestarem, de forma organizada e pacífica, contra a lei que criminaliza o uso da maconha. Todos estão sob o império da lei, mas não pode haver obstáculos institucionalizados para a discussão pública da necessidade ou não de sua alteração.

A lei, portanto, não é ato de poder, não pertence ao governante. A lei deve ser fruto da vontade popular, fixada a partir de experiências democráticas, que tanto se estabelecem pelo meio institucionalizado da representação parlamentar quanto pelo livre pensar e pelas manifestações públicas espontâneas.

E, ademais, qual é a verdade da situação? A grande verdade é que os alunos da USP não estão querendo um tratamento especial diante da lei. Não estão pretendendo uma espécie da vácuo legal, para benefício pessoal. Para ser completamente, claro, não estão querendo fumar maconha no Campus sem serem incomodados pela lei. Querem, isto sim, manifestar, democraticamente, sua contrariedade à presença da PM no Campus universitário, não pelo fato de que a presença da polícia lhes obsta a prática de atos ilícitos, mas porque o ambiente es colar não é, por si, um caso de polícia.

Querem pôr em discussão, ademais, a legitimidade da autorização, dada pela atual Direção da Universidade, em permitir essa presença.

A questão da legitimidade trata-se de outro preceito relevante do Estado de Direito, pois a norma legal, para ser eficaz, precisa ser fixada por quem, efetivamente, tem o poder institucionalizado, pela própria ordem jurídica, para poder fazê-lo e, ainda, exercer esse poder em nome dos preceitos maiores da razão democrática.

Vejamos, alguém pode estar questionando o direito dos alunos de estarem ocupando o prédio da Administração da FFLCH, sob o argumento de que não estão, pela lei, autorizados a tanto. Imaginemos, no entanto, que a Direção da Unidade, tivesse concedido essa autorização. A questão, então, seria saber se quem deu autorização tinha a legitimidade para tanto e mais se os propósitos da autorização estavam, ou não, em conformidade com os preceitos jurídicos voltados à Administração Pública.

Pois bem, o que os alunos querem é discutir se a autorização para a Polícia Militar ocupar os espaços da Universidade foi legítima e quais os propósitos dessa autorização. Diz-se que a presença da Polícia Militar se deu para impedir furtos e, até, assassinatos, o que, infelizmente, foi refletido em fatos recentes no local. Mas, para bem além disso, a presença da Polícia Militar tem servido para inibir os atos democráticos de manifestação, que, ademais, são comuns em ambientes acadêmicos, envoltos em debates políticos e reivindicações estudantis e trabalhistas. Uma Universidade é, antes, um local experimental de manifestações livres de ideias, instrumentalizadas por atos políticos, para que as leis, que servirão à limitação dos atos dos nossos governantes, possam ser analisadas criticamente e aprimoradas por intermédio de práticas verdadeiramente democráticas.

A presença ostensiva da Polícia Militar causa constrangimentos a essas práticas, como, aliás, se verificou, recentemente, com a condução de vários servidores da Universidade à Delegacia de Polícia, em razão da realização de um ato de paralisação de natureza reivindicatória, o que lhes gerou, dentro da lógica de terror instaurada, a abertura de um Inquérito Administrativo que tem por propósito impingir-lhes a pena da perda do emprego por justa causa.

Dir-se-á que no evento que deu origem à manifestação dos alunos houve, de fato, a constatação da prática de um ilícito e que isso justificaria o ato policial. Mas, quantas não foram as abordagens que não geraram a mesma constatação? De todo modo, a questão é que os fins não justificam os meios ainda mais quando os fins vão muito além do que, simplesmente, evitar a prática de furtos, roubos, assassinatos e consumo de drogas no âmbito da Universidade, como se tem verificado em concreto.

Há um enorme “déficit” democrático na Universidade de São Paulo que de um tempo pra cá a comunidade acadêmica, integrada por professores, alunos e servidores, tem pretendido pôr em debate e foi, exatamente, esse avanço dessa experiência reivindicatória que motivou, em ato de represália, patrocinado pelo atual reitor, o advento da polícia militar no campus, sob a falácia da proteção da ordem jurídica.

A ocupação da Administração da FFLCH pelos alunos, ocorrida desde a última quinta-feira, não é um ato isolado, advindo de um fato determinado, fruto da busca frívola de se “fumar maconha” impunemente no campus. Fosse somente isso, o fato não merecia tanta repercussão. Trata-se, isso sim, do fruto da acumulação de experiências democráticas que se vêm intensificando no âmbito da Universidade desde 2005, embora convivendo, é verdade, com o trágico efeito do aumento das estratégias repressoras. Neste instante, o que deve impulsionar a todos, portanto, é a defesa da preservação dos mecanismos de diálogo e das práticas democráticas. Os alunos, ademais, ainda que o ato tenha tido um estopim, estão sendo objetivos em suas reivindicações: contra a precarização dos direitos dos trabalhadores; contra a privatização do ensino público; contra as estruturas de poder arcaicas e autoritárias da Universidade, regrada, ainda, por preceitos fixados na época da ditadura militar; pela realização de uma estatuinte; e contra a presença da Polícia Militar no Campus, que representa uma forma de opressão ao debate.

O ato dos alunos, portanto, é legítimo porque seus objetivos estão em perfeita harmonia com os objetivos traçados pela Constituição da República Federativa do Brasil, que institucionalizou um Estado Democrático de Direito Social e o fato de estarem ocupando um espaço público para tanto serve como demonstração da própria origem do conflito: a falta de espaços institucionalizados para o debate que querem travar.

A ocupação não é ato de delinquência, trata-se, meramente, da forma encontrada pelos alunos para expressar publicamente o conflito que existe entre os que querem democratizar a Universidade e os que se opõem a isso em nome de interesses que não precisam revelar quando se ancoram na cômoda defesa da “lei”.

São Paulo, 30 de outubro de 2011.



*Jorge Luiz Souto Maior é professor livre docente da Faculdade de Direito da USP

sábado, 29 de outubro de 2011

kkkk eu e o Caio achamos muito engraçado esse depoimento sobre o Rosa:

"Estou tonto. De tontear novamente. Escrever igual a esse Rosa, nunca jamais. Não é só nosso maior escritor de todos os tempos. É o próprio tempo - vida mineira presente, passada, vida mais do que narrada, vida vivida posta em letra de forma. Ainda hoje sua leitura me tonteia e quando o leio, sinto, de novo..., aquela vontade de esbravejar em cima de tudo. Esqueço de mim mesmo. Eu mesmo me pergunto, já complexado: por que ainda escrever depois dele?
Escrevo, porque necessito, sabendo que meus são outros caminhos, pobres recursos. A literatura de um país não pode ser só feita de gênios. Assim ninguém aguentava. Precisamos ter os talentos menores, os talentos esfoçados. Esbravejo de novo: o gênio demais, assim à toneladas, como Rosa, acaba mesmo tudo esmagando. Esse homem existe? Só se for por encanto, coisas das mil-e-uma noites, Aladino da lâmpada maravilhosa dos verbos acesos, como fachos..."
Paulo Dantas In Sagarana emotiva

NÃO É BOLINHO, NÃO! PORÉM EU SEI QUE AQUILO NÃO É COISA DE GÊNIO SÓ, É TAMBÉM DE UM TRABALHO INITERRUPTO, ATÉ CANSA SÓ DE PENSAR

Charles Baudelaire "O Estrangeiro"

O estrangeiro

- Diga, homem enigmático, de quem gosta mais? De seu pai, de sua mãe, de sua irmã ou de seu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Amigos?
- Você usa de palavras cujo sentido até aqui desconheço.
- Pátria?
- Ignoro a que latitude se situa.
- Beleza?
- Deusa e imortal, de bom grado a amaria.
- O ouro?
- Odeio-o como você odeia a Deus.
- Mas que gosta então, estrangeiro extraordinário?
- Das nuvens… as nuvens que passam… lá longe… lá longe… as maravilhosas nuvens!

Charles Baudelaire in “Pequenos poemas em prosa”

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A Estória contra a história?

Guimarães Rosa começa seu Tutaméia (1967) assim: “a estória não quer ser história.A estória, em rigor, deve ser contra a História” (Rosa, 1967. P.3).

Esta colocação rosiana foi lida por intérpretes como uma simples negação da história expressa claramente (Rodrigues,2009.Pp.16-7) e que colocaria Guimarães Rosa no grupo dos alienados ou conservadores definitivamente. Em outubro de 1967, no dia seguinte a uma acalorada discussão com Franklin de Oliveira sobre uma possível alienação em suas duas últimas obras, Rosa teria enviado a Oliveira um bilhete "poético" comentando sua colocação :

“E, pois, mudando de prosa
o A estória contra a História
você,perjuro de Glória,
acho que não entendeu.
A História, ali, é o fato passado
em reles concatenação;
não se refere ao avanço da dialética, em futuro,
na vastidão da amplidão.
Traço e abraço. João”.



Considerando esta “explicação” rosiana, percebemos a colocação de Rosa de forma mais complexa, não como uma negação completa da história, mas como se a estória fosse o reflexo da história no espelho da construção ficcional ...

domingo, 16 de outubro de 2011

ESSÊNCIA DA HISTÓRIA E GUIMARÃES ROSA

Na minha defesa de mestrado ouvi sobre um dos membros da minha banca (que não era historiador) o seguinte comentário: "Apesar de você abrir para novos vislumbres em relação ao texto de Rosa, lendo-o a partir da fotografia, da música... eu senti falta de ler em seu texto o que eu sempre espero axhar em um texto historiográfico, senti falta da HISTÓRIA DE VERDADE, DA ESCRAVIDÃO, ESSAS COISAS..."Term...inando agora meu texto de qualificação eu me lembro disso e penso que, agora mais do que nunca, não vão achar a tal "HISTÓRIA DE VERDADE" na minha tese, exatamente porque minha intenção sempre foi fugir de idéias já prontas de antemão (não é à toa que estudo Guimarães Rosa), mas recontruí-las sempre, o que considero um respeito a única VERDADE cristalizada que enxergo na História: Seu alto grau de mutação e transformação no tempo, ESTA É A ESSÊNCIA DA HISTÓRIA... se eu quisesse produzir um discurso pronto sobre uma verdade imutável, não só não seria historiadora, como também não a abordaria a partir da literatura. Para mim está bem claro...

sábado, 15 de outubro de 2011

SE TUDO COMEÇOU NO BIG BANG, TINHA QUE ACABAR NO BIG MAC

NÃO PARO DE OUVIR ESTE CD, PENSANDO EM POR QUE PENSAR TANTO EM ORIGENS SEM PROBLEMATIZAR QUE ESSA BUSCA SIGNIFICA UMA GRANDE DISPUTA DE PODER: se tudo começou no BIG BANG, tinha que acabar no BIG MAC...
LEIAMOS O QUE ESTÁ ESCRITO NO SITE DO GRUPO CORPO:


ONQOTÔ
(2005)

coreografia RODRIGO PEDERNEIRAS
música CAETANO VELOSO E JOSÉ MIGUEL WISNIK
figurino FREUSA ZECHMEISTER
cenografia e iluminação PAULO PEDERNEIRAS


A perplexidade e a inexorável pequeneza do Homem diante da vastidão do Universo é o tema central de Onqotô, balé que, em 2005, marcou as comemorações dos 30 anos de atividade do Grupo Corpo. Assinada por Caetano Veloso e José Miguel Wisnik, a trilha sonora tem como ponto de partida uma bem-humorada discussão sobre a "paternidade" do Universo. De um lado, estaria a teoria do Big-Bang, a grande explosão primordial, cuja expressão consagrada pela comunidade científica mundial parece atribuir à cultura anglo-saxônica dominante a criação do Universo; e, de outro, uma máxima espirituosa formulada pelo genial dramaturgo (e comentarista esportivo) Nelson Rodrigues sobre o clássico maior do futebol carioca, segundo a qual se poderia inferir que o Cosmos teria sido "concebido" sob o signo indelével da brasilidade: "O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada".

Instrumentais ou com letra, os nove temas que compõem os 42 minutos de trilha estabelecem uma sucessão de diálogos rítmicos, melódicos e poéticos em torno das "cenas de origem" eleitas por seus criadores e do sentimento de desamparo inerente à condição humana.

Na coreografia criada por Rodrigo Pederneiras, verticalidade e horizontalidade, caos e ordenação, brusquidez e brandura, volume e escassez se contrapõem e se superpõem, em consonância (e, eventualmente, em dissonância) com a trilha musical, desvelando significados, melodias e ritmos que subjazem ao estímulo sonoro.

Urdida com tiras de borracha cor de grafite, a cenografia de Paulo Pederneiras funda um espaço cênico côncavo que sugere tanto um recorte do globo terrestre com seus meridianos quanto um oco, um buraco negro, o nada ou a anterioridade de tudo. Com todos os refletores fixados na estrutura metálica que sustenta a fileira de tiras, a luz projetada por Paulo Pederneiras imprime na cena uma iluminação que remete à dos estádios de futebol.

A figurinista Freusa Zechmeister transforma os bailarinos em uma massa anônima que se funde (e se confunde) com o espaço cênico, permitindo deste modo que coreografia e cenário exerçam plenamente sua tridimensionalidade.


terça-feira, 11 de outubro de 2011

"Guimarães é um dos grandes intérpretes do Brasil, da realidade brasileira, e faz isso a partir justamente da literatura, a partir de uma discussão da história ideologicamente orientada, faz isso a partir de uma construção ficcional, então a história se constrói e se exprime através da ficção e isso é o grande experimento e o grande merecimento de Guimarães Rosa : ter encontrado um modo par...a falar não historicamente da história, talvez se escondendo através da imagem da anedota... escondendo não é a palavra certa, mas utilizando a anedota como via de acesso a uma verdade história que não é "A História", é já uma interpretação da história, esse é um grande achado de Guimarães Rosa no sentido de que a história pode ser lida não de forma direta, mas nas entrelinhas..."
Ettore Finazzi Agrò no debate posterior a palestra em 10/10/2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

LINGUAGEM ROSIANA, MAIS UMA VEZ...

"Guimarães Rosa dá as costas a objetividade das estruturas 'tradicionais' da língua porque a objetividade nem representa o mundo nem representa o ser e sua essência. Procura uma forma de 'significá-lo', o mundo, o ser, o estar-no-mundo foi uma das obsessões de JGR, através da invenção de uma nova linguagem literária." (Assis Brasil. Guimarães Rosa.P.96)

QUAL SER QUE TAMBÉM PROCURA CONSTANTEMENTE POR SIGNIFICAÇÕES NO MUNDO?
A CRIANÇA, NÃO?

domingo, 18 de setembro de 2011



A cara do Tom Zé : Ali Sim Alice ôÔÔôôÔôÔ ... dá pra perceber que eu nem gosto do Tom Zé, né gente?kkkkkkk

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

NO DIA QUE COMEMORAMOS UM ANO JUNTOS E FELIZES :)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

UM PAVÃO!



Eu adorava esta música quando era criança, mas só hoje, no Parque da Água Branca, em meio às galinhas, eu - que nada entendo de bichos - vi um estranho, era muito grande para ser galináceo :

- "Caio, quem bicho é esse?"...
Ele então respondeu que era um pavão fêmea, porque o macho estava ali ao lado, com sua CALDA ABERTA EM LEQUE:
Nossa, achei fantástico, eu parecia o menino de "As margens da Alegria" quando ele viu o peru! :)
Interessante que justo hoje, aniversário de um ano do nosso namoro, aconteceu de novo algo que às vezes acontece quando estou com o Caio: vejo bichos inusitados, poéticos, fantásticos: é o trabalho do poema que permanentemente continua...

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Miss Universo: Duas vezes lamentável

Desabafei no facebook sobre esta reportagem, que achei ser duas vezes lamentável!
Sinceramente, eu lamento que em 2011 ainda exista uma coisa deprimente como concurso de miss universo, que coloca as mulheres como bonecas disputando pra saber qual é a mais "bonita", sendo que todos sabemos que as mulheres ocupam (e muito be
m) outros papéis na sociedade real : muitas sustentam família, exercem profissões que até há pouco eram só domínio masculino, ocupam cargos importantes...aqui no Brasi,nas últimas eleições, como eu li em um excelente artigo escrito na época pela minha amiga Lidiane, vimos aflorar tão claramente o preconceito contra a mulher como nunca pois tivemos duas mulheres candidatas a presidência! Uma delas ganhou a disputa (que não era por beleza, não) mas até hoje sofre com comentários insinuando que ela não possui atributos que caracterizariam uma mulher (como beleza, delicadeza, etc). Como esquecer que a mulher mais comentada na posse de Dilma foi a esposa do Michel Temer ( aquela que o Zé Simão chamou de Paquita)... que mundo machista nós vivemos, né? Eu, como mulher negra, infelizmente, também não me surpreendi nada com os ataques racistas, afinal parece tratar-se de uma africana, não é isso?E é o seu corpo negro (como os corpos dos afro descendentes em todos lugares) que é tomado como a única coisa a ser levada em consideração, afinal ela é negra, o que mais ela tem para oferecer?! Infeliizmente eu aposto que o UNIVERSO do qual esta moça é "miss" não a aceitará assim tão facilmente neste lugar, e muito menos permitirá que ela venha a ocupar um outro papel. É uma pena!

sábado, 10 de setembro de 2011

Pablo - Milton Nascimento


"Káritas ficou grávida. Bituca se comportou como o protótipo do cara que vai ser pai. Apalpava a barriga da mulher e fazia planos para o nascituro. Moravam sepaados; ela, em São Paulo; ele, no Rio. Decorrido o prazo regulamentar, como diria um cronista esportivo, Pablo nasceu. Ganhou de presente uma música de Bituca com letra de Ronaldo, uma cantiga de aparência infantil mas de melodia intricada e sutil, carregada de emoções complexas. A letra não fazia muito sentido, mas soava muito bem, combinação esta que pode ser perfeitamente uma caracteística das grandes letras de música popular:

'Meu nome é pablo
como um trator é vermelho
incêndio nos cabelos
pó de nuvem nos sapatos
meu nome é pablo
nasci num rio qualquer
meu nome é rio
e rio é meu corpo
meu nome é vento
e vento é meu corpo
incêndio nos cabelos
pó de nuvem nos sapatos
como um trator é vermelho
pablo é meu nome
meu nome é pedra
e pedra é meu corpo'

'Meu bem, meu amor' todo mundo já escreveu. Trator vermelho, nuvem nos sapatos, incêndio nos cabelos, aquilo sim, era puro Salvador Dali."
Márcio Borges. Os sonhos não envelhecem - histórias do clube da esquina. P. 306-7

Salvador Dali? Talvez seja mais simples ou ainda mais complexo do que que isso, talvez esta lógica cheia de estranhamento seja mesmo aquela da infância, pois a criança habita outra temporalidade, enxerga outras cores no mundo, que percebe tudo pelo corpo, que querem e podem voar ...criança é como Márcio Borges descreveu a melodia desta canção: " intricada e sutil, carregada de emoções complexas"... muito genial esta canção!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Ainda sobre A VOZ...

Continuando o tema do texto abaixo, volto a pensar na VOZ...
Tem a voz mais perfeitamente hamônica de Milton Nascimento, mas essa é rara, raríssima de tão maviosa... também me interessam as vozes que me causam certo estranhamento e que nem por isso deixam de serem muito belas, como a da Bjork:

Interessante ver ler os comentários de brasileiros sobre este vídeo, ficam incomodados com a PRONÚNCIA DO PORTUGUÊS DA BJORK! Me lembrei daquele filme "Fabricando Tom Zé", quando ele foi vaiado na França porque tentou falar algumas palavras em francês e os franceses se ofenderam com a pronunca... é ridículo que isso tenha acontecido lá na Europa, que ainda tenta manter certa tradição, mas aqui é o cúmulto do ridículo porque parece que nós brasileiros temos total conhecimento da língua portuguesa e nossa pronúncia seja exatamente a mesma do Oiapoque ao Chuí! Sobre o vídeo, adorei (curto muito estranhonhamentos...). O que acharam?

sábado, 3 de setembro de 2011

POESIA ORAL


Quando eu contei na terapia que tinha entrado no doutorado e ia estudar infância na escritura de Guimarães Rosa minha terapeuta disse mais uma das suas colocações assustdoras (daquele tipo que eu prefiro nem pedir explicação na hora, sabe?)... ela disse apenas:
"-Meus parabéns Camila! Aliás penso que esse seu doutorado vai ser mais um motivo para você rever algumas coisas que ainda estão em aberto sobre sua infância, e isso não é só com você, porque na verdade o que todo mundo passa a vida procurando por algo que ocupe a sensação da mãe na fase intra uterina..."

Na hora eu fiquei com medo desta fala, achei que ela estivesse atropelando um pouco os assuntos, mas acabei me esquecendo, até que esta semana eu li um texto que me fez pensar que talvez ela tivesse razão:

“Indefinível, senão em termos de afastamento, articulação entre sujeito e objeto, entre Um e Outro, a voz permanece inobjetável, enigmática, não especular”. Ela interpela o sujeito, o constitui e nele imprime a cifra de uma alteridade. Para aquele que produz o som, ela rompe uma clausura, libera de um limite que por aí revela, instauradora de uma ordem própria: desde que é vocalizado, todo objeto ganha para um sujeito, ao menos parcialmente, estatuto de símbolo. O ouvinte escuta, no silêncio de si mesmo, esta voz que vem de outra parte, El a deixa ressoar em ondas, recolhe suas modificações, toda ‘argumentação’ suspensa. Esta atenção se torna, no tempo de uma escuta, seu lugar, fora da língua, fora do corpo.
Jogo, ritmo vocálico anterior à instauração de um espaço e tempo mensuráveis, e que só é ‘sentido’ na medida em que esta palavra designa direção e processo: a voz se encontra simbolicamente ‘colocada’ no indivíduo desde o nascimento, significando (por oposição, segundo D. Vasse, ao fechamento do umbigo) abertura e saída. Mais tarde, entrada em conjunção histórica, a criança assimilará a percepção auditiva ao calor e à liberdade anunciados pela voz materna – ou à austeridade protetora da lei, significada pela voz do pai. Experiência equívoca: à imagem em que pesa a presença do significado materno se opõe o iconoclasma da ordem e da razão, mas o equívoco vem de mais longe: no útero a criança, já se banhava da Palavra viva, percebia as vozes e, como se diz, melhor os graves do que os agudos: vantagem acústica a favor do pai, mas a voz materna se ouvia no íntimo contato dos corpos, calor comum, sensações musculares apaziguadoras. Assim se esboçavam os ritmos da palavra futura, numa comunicação feita de afetividade modulada, de uma música uterina que, reproduzida artificialmente ao lado de um recém nascido, provoca imediatamente o sono e, ao lado de uma criança autista (na terapêutica de A. Tomatis), deflagra uma regressão salvadora.
À medida que se afaste o doce ‘não lugar’ pré natal e que tome consistência a sensação de um corpo-instrumento, a voz, por sua vez, se ajustará à linguagem, em vista de uma liberdade. O símbolo vai invadir o imaginário.Pelo menos, subsiste a memória de um engodo fundamental, a marca de um antes, puro efeito de ausência sensorial, que cada grito, cada palavra pronunciada, parece ilusoriamente poder preencher. Tocamos aqui, como penso, nas nascentes da poesia oral.”


(ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Belo Horizonte : ufmg.Pp.15-6)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

CRÔNICA : MEU PRIMEIRO MAR DE PALAVRAS


Achei aqui uma crônica que eu escrevi para um curso que assisti em 2002, com então 22 anos de idade. Tem quase 10 anos, mas muitas temporalidades nela, vejam: 


MEU PRIMEIRO MAR DE PALAVRAS

"Já sabia que, quando mexo com literatura, meus sentimentos ficam mais à mostra que a razão e eu sempre experimento um pouco mais de mim mesma. O que eu não poderia imaginar é que o curso sobre Gêneros Híbridos seria uma grande coleção de oportunidades de reviver a minha infância.

Desde a primeira aula qualquer coisa que acontecia ali conduzia meu tempo presente aos tempos mais antigos, das sensações mais primeiras de que me lembro: as histórias...os comentários... a imagem de uma árvore carregadinha de pássaros... tudo isso era como uma festa de balões de gás coloridos que iam explodindo dentro de mim e retomando a menina Camila que eu fui.

Sextas-feiras eram dia de ser Camilinha novamente. E nos meus olhos de menina pulavam alegrias infinitas de ouvir histórias sobre os meus primeiros autores: Orígenes Lessa, Lourenço Diaféria, Paulo Mendes Campos... todos eles que moravam nos meus primeiros livrinhos.

E tinha também o Rubem Braga. Com este eu marquei inúmeros encontros e faltei a todos: não li no colegial, não li para o vestibular, não li na faculdade. O Rubem Braga? Eu não conhecia o gosto dele.

Um dia, antes de ir para a aula, eu passei no sebo e, enfim, fui ao encontro de Rubem Braga: eram duzentas crônicas escolhidas num livrinho bem velho, de capa dura e desgastada que eu comprei com muito orgulho de estar sendo uma garota que não faltava mais aos meus encontros literários. E fui ao curso.

Chovia na cidade, chovia tempestades. Antes de pegar o ônibus aconcheguei minha bolsa junto à barriga e cobri o corpo com o casaco: não podia deixar molhar o meu ‘primeiro Rubem Braga’. Tão precioso que eu não aguentei esperar e comecei a devorar o livro ali mesmo, numa emocionada e deliciosa sensação de descoberta.

De repente eu comecei a não enxergar mais nada. Dos meus olhos marejavam lágrimas quentes, lágrimas amigas da chuva que caía lá fora. Eu não estava mais só no ônibus, estava também lá pela página trinta do livro, no meio do mar.

‘A primeira vez que eu vi o mar eu não estava sozinho’. Começava assim a crônica. Eu sabia, essa eu conhecia, conhecia intimamente, mais do que conhecia: eu a amava, desde há muito, desde uma tarde lá muito longe, nos meus oito anos, na terceira série primária.

A professora escrevia na lousa as palavras que, então, eu não sabia serem de Rubem Braga : o menino que nunca tinha visto o mar. Como eu podia esquecer da comoção que aquele texto causou na criança que eu tinha sido? Como eu poderia esquecer aquela semana  inteira que eu passei pensando em como era sem graça ter conhecido o litoral desde recém-nascida e nunca poder saber que encanto era ver o mar pela primeira vez...?

Como eu podia esquecer do meu primeiro texto literário? Não podia.

Mas o tempo, que coisa complexa, faz armadilhas inúmeras: eu me movia entre os oito anos, o tempo do mar e o tempo do ônibus. Neste terceiro a senhora sentada ao meu lado cutucou meu ombro e disse com uma gentileza meio bruta, apontando a minha bolsa sobre a barriga e escondida debaixo do casco:

- Moça, mulher grávida não deve chorar assim, não...mesmo com livro triste.

E eu sorri pensando que ela não poderia saber que aquilo era só o meu presente remodelando o momento exato em que fiquei grávida da minha primeira emoção literária, e que isso era, de certa forma, como ver o mar pela primeira vez."
Camila Rodrigues