terça-feira, 20 de junho de 2017

Apreensão infantil e o humor


PINKER, Steven. Toca do coelho adentro. In: Do que é feito o pensamento – a língua como janela para a natureza humana. Trad. Fernanda Ravagnani. São Paulo:Cia das Letras,2008.

Neste livro, Steven Pinker escreve um capítulo excelente sobre como as crianças costumam empreender extensas explorações de linguagem e por isso analisar seu discurso pode nos ajudar a compreender sua cosmologia e, claro, gerar situação engraçadas ao empregar “o código da linguagem com segurança suficiente para entender coisas improváveis como uma vaca pulando sobre a lua e um pato fingindo com a colher, ou expressar suas percepções infantis como ‘thinkthe Wind wants to get in out of the rain” [“acho que o vento quer entrar e sair da chuva”] ou “Ioften Wonder when people pass me by do they wonder about me” [“Sempre fico pensando quando as pessoas me passam elas ficam pensando em mim] (PINKER,2008, p. 43)

[Pinker esclarece que essas apreensões infantis que utilizou foram feitas pelo escritor Lloyd L.Brown do discurso de sua filha]


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Lendo a biografia do Tim Maia ...


Enfim meu volume chegou e eu comecei a ler ontem a noite, feliz depois de uma vitória do Santos. Desde o início eu estava bem empolgada com esse livro, ler a história de um preto brasileiro genial e realmente achei a edição linda, enorme, exuberante em suas cores vibrantes e letras garrafais (como o Tim?).

Fiquei um tempão olhando as fotos,  preto e branco, marcas do tempo, que é minha matéria. Olhando só as imagens, escolhi essa aqui que, mesmo estando no fim do livro, já me passou de cara a mensagem :


Eu sabia que o problema ali era eu, que não sou lá muito fã de ler biografias (a menos que tenha sido escrita pelo talentoso escritor  Rui Castro, claro kkkk), então acabei com muita vontade de deixar o livro de lado e ouvir o soul de Tim Maia. Voltarei a ler, claro, mas agora vamos ouvir um pouco de Tim!

quarta-feira, 14 de junho de 2017

SONHO DE ALICE E DEFESA

Não sei por qual motivo, depois de tantos anos, esta noite sonhei com defesa de tese. A minha tese. Era em um lugar desconhecido e eu cheguei terrivelmente atrasada, a ponto de que a primeira arguição, de um membro que eu não conhecia, já tivesse sido concluída sem a minha presença (sim, não sei a quem a banca arguiu!) e a segunda já peguei na metade (em geral ela parecia repetir a fala do primeiro professor e eu não sei bem de que tratava a MINHA tese!Não respondi nada!). Saímos para o intervalo e eu, julgando que seria melhor estabelecer 'contatinhos", me aproximei do público, cheio de jovens, para me desculpar com o primeiro arguidor pelo atraso, mas ele não pareceu se importar muito, pois estava muito entretido jogando baralho, não respondia logicamente ao que eu perguntava ! Quando acordei, cedinho, achei o sonho super Lewis Carroll - defesa, baralho, e eu querendo agir de forma lógica em um ambiente completamente nonsense- e eu pagando de Alice ! kkk

terça-feira, 13 de junho de 2017

História do Conidiano e a morte do Caio Fernando Abreu

HISTÓRIA DO COTIDIANO - Esses dias eu estava conversando com um amigo  é um jovenzinho sobre porque ouvir Legião Urbana, que eu gostava tanto - tenho todos os CDS mas nunca mais ouvi - é tão difícil para mim agora. Afora a questão de que meu gosto mudou, ouvir Legião me leva para quando eu era adolescente, entre 1995, 1996, e meu falecido irmão trabalhava no transporte de jornais e por isso, todos os dias, em casa tínhamos um exemplar de "O Estado de São Paulo" e de um outro jornal carioca, não me lembro mais qual era. Dai eu ter me tornado uma leitora frequente das crônicas do Caio Fernando Abreu, todas as quintas no OESP. E lembro, com muita dor, de ter acompanhado de perto, pelo jornal, quando ele descobriu que estava com AIDS, a mudança para o Sul para o tratamento ao lado dos pais, o tratamento e, enfim, a morte do cronista. A morte de CFA ficou registrada em mim como a ausência daquela coluna que eu lia como se fosse uma conversa com um amigo, a troca de confidências. Eu disse ao meu amigo que achava que tinha (e tenho mesmo, mas não sei onde) uma ou duas coluna recortadas do jornal na época guardadas entre meus papéis, mas que algumas delas estão publicadas no livro Pequenas Epifanias, que eu adorava, mas que tratavam de tempos muito dificeis: era a AIDS, uma grande peste que estava levando tantos embora, tantos que tinham sobrevivido à ditadura militar e sonhado com novos tempos (o que está claramente exposto no sensacional conto "Morangos Mofados", que depois analisei em um trabalho de História Contemporânea para o Nicolau Sevcenko, falando sobre o gosto meio amargo dos mofados Strawberry Fields de outrora), e que então estavam morrendo, como Cazuza, Renato Russo, Caio Fernando Abreu...quando ouço Legião Urbana hoje em dia, coisa que faço muito raramente, aquilo tudo volta de novo para mim com muita força. Não é fácil. Mas, olhando por outro lado, é uma anedota boa para se falar da História do Cotidiano, não é? Mas é mais fácil contar a história dos outros do que falar de nós mesmos, não é?

sexta-feira, 2 de junho de 2017

No Baile Black do Mano Brown e a dor do não pertencimento



Graças à gentileza de um amigo, consegui comparecer ao baile Black do Mano Brown no dia 01 de junho de 2017... com toda aquela gente preta linda, moços e moças esteticamente belos e alegres... coisa mais linda não há!


Sobre o Mano Brown é  o cara! Que porte, que discurso ...um  homem enorme, exuberante e eu confirmei o que eu pensava antes :não sou tão mulherão para encarar um cara assim, não saberia nem por onde começar...mas chama a atenção, e como chama...

Era meu sonho ir a um baile black e, claro, achei delicioso, encantador. O contato com a  cultura negra, que é parte significativa de mim,  e na qual é comum que me incluam (sem perguntar o que eu sinto, claro) e é um universo que sempre me foi negado e só na  vida adulta que fui resgatar com força  e estudar essa herança. Mas ontem fiz um teste prático e constatei que em meio a todos eles, verdadeiramente, eu também não me senti pertencendo àquilo tudo em nenhum momento.

Sou sempre uma intrusa. Não é nada fácil.

É começar a vivenciar aquela ideia do Sérgio Buarque: Aqui nesse país miscigenado, somos estrangeiros em nossa própria terra (não somos europeus, não somos indígenas, nem africanos... somos brasileiros mestiços). Isso é lindo, mas como dói.



Mas pelo menos naquela noite eu fingi pertencer àquele grupo e cantei, de coração :
"...eu fui no baile, no baile black... ", sem medo do vazio do dia seguinte.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Criança : humor e ironia



PESQUISANDO O HUMOR DAS CRIANÇAS - Estudos sobre o humor da criança são raros, nos conta a professora Alessandra Del Ré (UNESP Araraquara), mas o que ela e seu grupo de pesquisa NaLíngua, com membros brasileiros e franceses, se propõem a fazer é bastante interessante, especialmente para os estudos de humor em geral. No capítulo Diversão partilhada, humor e ironia (DEL RÉ, A; et al.,2014, p. 50) lemos sobre algumas pesquisas realizadas com algumas crianças brasileiras e francesas em fase de aquisição da linguagem, e o objetivo das pesquisadoras é “identificar as premissas do humor e da ironia na produção de enunciados” daquela meninada e então elas perceberam que os mirins, mesmo pequenos, também podem produzir discurso irônico para fazer adultos e crianças rirem, e isso pode até acontecer, mas é muito raro que tanto um quanto outro cheguem a rir pelo mesmo motivo – o que seria um caso de diversão partilhada -, pois crianças e adultos possuem culturas humorísticas diferentes e a ironia (uma forma de humor) seria uma das formas de tentar aproximar estes estados de percepção.

sábado, 27 de maio de 2017

PEDRO BLOCH : UM PEQUENO FENÔMENO EDITORIAL

Concluindo meu  estágio pós doutoral, que nem foi propriamente  sobre o Pedro Bloch, mas sim sobre o seu trabalho com as crianças,  eu me impressiono com o fato de que não descobri exatamente quantos livros ele  publicou.Quando minha conta passou dos 90 volumes - dentre dicionários, séries de revistinhas, livros de bolso, publicações na área médica, dramaturgia, livros infanto juvenis,anedotários, etc- parei de contar e recortei os que realmente iam me interessar (no caso 13 volumes sobre humor de crianças). Mas ele foi mesmo um fenômeno editorial. Claro que ter uma editora da família ajudou muito na multiplicação de volumes, mas ele publicou em várias outras também (Ediouro,Brasiluso,Pró fono,Nórdica,Revinter,etc).
Um sujeito desses deve ser muito estudado, especialmente por ter vivido no Brasil,não acham? 

terça-feira, 23 de maio de 2017

ORALIDADE E PEDRO BLOCH




ORALIDADE E PEDRO BLOCH  
Em meu relatório final eu não devo  defender que o Pedro Bloch foi pesquisar e trabalhar com foniatria exclusivamente porque era judeu. Isso seria reducionista. Eu vejo o seu caso em um contexto maior: o século XX, a era do florescer dos estudos sobre a linguagem e a fala e o surgimento da própria Foniatria , que é uma área médica nascida na Alemanha em 1905 e que mais tarde foi trazida ao Brasil por pesquisadores como o  próprio Bloch na segunda metade do século XX, e que apostava em uma abordagem interdisciplinar para compreender e tratar distúrbios da fala. Bloch não era um teórico, ele era um judeu,  médico e também um cientista da área médica.
Por outro lado, como sou uma teórica, eu li (e pirei com isso) o Russel Jacoby e a a reflexão sobre a longa tradição judaica que propõe um elogio ao oral, tanto que Jacoby resgata o pensamento de Frtitz Mautner para defender, mais ou menos, que O JUDEU OUVE e ao que ouvir está pensando em história, porque "o ouvido não recebe uma mensagem apenas, ele registra a sequencia do tempo; o som requer duração". E Russel conclui: "o som inclui o tempo e o tempo implica a história" (A Imagem imperfeita, 2007, p. 203).
Eu não sei em que medida esse raciocínio interferiu nas ações de Bloch, mas também não posso afirmar que não esteve presente de nenhuma forma. Devo apontar essas questões, mas de forma leve, colocando mesmo como dúvida: Será que Bloch estudou a linguagem oral porque era judeu, ou porque era judeu foi estudar a oralidade? kkkk
No meio de tudo isso, tem as crianças e elas sempre apresentam outras apreensões para tudo, isso é o mais importante para mim!

domingo, 21 de maio de 2017

Entrevista de Pedro Bloch para a Revista Veja em out. de 1997


Quando escrevi meu projeto de pós-doutorado em janeiro de 2015 eu usei uma entrevista que o Pedro Bloch deu para a Revista Veja em 08 de outubro de 1997 e que a Óia disponibilizava em seu acervo na internet. Como a entrevista é bem legal, mostra o velho Bloch falando das amadas crianças, eu fui acessar o link de novo e não é que agora ele cai na página do Reinaldo Azevedo? Eca!

A sorte, mesmo é que eu tenho o print da entrevista e publico ele aqui porque, como foi útil para mim, pode ser para outros pesquisadores, né? Aliá, se for o caso, eu tenho ela transcrita em versão txt, é só me pedir que eu repasso!


sábado, 20 de maio de 2017

Frustrações de uma pesquisa sem fomento

Como sabem meu pós- doutorado não recebeu nunca nenhum fomento. A lista de frustrações por conta disso é imensa. No relatório final eu  apresento todas. Veja essa aqui.

terça-feira, 16 de maio de 2017

NOVAMENTE AS EX-CRIANÇAS DE PEDRO BLOCH

NOVAMENTE AS EX-CRIANÇAS DE PEDRO BLOCH - Acabo de constatar que nesses dois anos de pesquisa de pós doutorado, eu consegui reunir dez depoimentos sobre Bloch através das redes sociais, sendo nove de suas ex- crianças. Acabo de relatar que não consegui um número maior porque não foi possível visitar o Rio de Janeiro para procurá-las, nem mesmo tive financiamento de pesquisa para custear um chamado em jornais na cidade (ainda que tenha feito até um orçamento), afinal quem bancava a pesquisa sou eu mesma, ai tinha que escolher bem onde aplicar os recursos. De toda forma,esses depoimentos são muito interessantes, estou conseguindo desdobrá-los bem e, como eu queria, já dá ter uma noção mais clara não apenas de quem eram seus leitores (da revista, dos livros), e até mesmo como seria seu contato direto com as crianças. Me emociona demais! Eu devo ser uma grande sonhadora, isso sim! Novamente, sou muito grata a todo que ajudam a continuar a ser assim. 

Passagens, de Walter Benjamin


A obra historiográfica que me fez pirar desde o mestrado ... até hoje está de pé ao lado do computador para eu não esquecer nunca da fragmentação da narrativa (rs)
Aqui a referência completa do meu volume (com traduções e tudo mais):

BENJAMIN, Walter. Passagens. Trad. Irene Aron (alemão) e Cleonice Paes Barreto Mourão (francês). Belo Horizonte: Editora UFMG;São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.
Sempre me perguntei : A narrativa constelacional da História de Benjamin poderia ser uma possibilidade de entrada na abordagem da narrativa humorística (também ela toda fracionada)? ... Não sei a resposta ainda, mas li um texto manuscrito de Benjamin chamado "Un historie comique à l'époque oú il n'y avait pas encore d'hommes" e o 'comique' aqui é mesmo HQ (este texto está publicado e no volume Les Cahiers de l'Herne - Walter Benjamin (2013) ... para quem pira na narrativa da história como eu : é demais! 
Voltando ao Passagens, cabe reforçar que esse material chega até nós em forma de um livro de 1166 páginas, mas não vamos esquecer que, originalmente, trata-se de um conjunto de MANUSCRITOS DE WALTER BENJAMIN... realmente eu não fui estudar os manuscritos de Rosa à toa, não ... é todo um oxigênio mental respirado no século XX. Sobre manuscritos, fragmentação e História, confiram meu artigo "A indagação da História nos manuscritos literários de Guimarães Rosa", publicado no vol 2 no. 2 da Revista Intelligere - História Intelectual ....

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Antonio Cândido e um almoço com 'declaração em juízo", de Drummond


UM ALMOÇO COM ANTONIO CÂNDIDO- Foi em junho de 2006, em um um evento em comemoração aos 50 anos da publicação de "Grande Sertão: Veredas" na FFLCH que eu e minha amiga Vera Maria Pereira Theodozio almoçamos com Antonio Cândido. Na verdade, falo isso, mas devo alertar que não foi um almoço marcado, nem mesmo pessoal, mas ele se sentou em nossa mesa na antiga lanchonete do Português do DH - o único lugar fora o bandejão, que servia comida na época e ele queria comer arroz com feijão. É verdade também que sua filha Marina me apresentou a ele: "Papai, esta é a Camila, ela foi aluna da Laura, estudou Saramago com ela", e ele se lembrou vagamente de que a Laura tinha mesmo comentado algo sobre Saramago com ele...
Era uma pessoa admirável, gostava de conversar e lembro com força de que,entre outras coisas, ele já lamentava que todos os seus amigos de geração estavam morrendo, o que o fazia se sentir muito solitário.
Então eu comentei que isso me fazia lembrar de "Declaração Em Juízo", de Drummond e ele apenas sorriu.
Cândido foi, é e sempre será nossa referência e, ainda que eu, em meus estudos literários, tenha enveredado por outros autores e tentado me manter há uma distância segura da sua teoria forte, nem sempre foi possível.
O que posso dizer nesta data de seu falecimento aos 98 anos é que só temos que agradecer por tudo, mas me lembrando daquele almoço, imagino o quão aliviado ele deve estar por não ser mais o único corpo de sua geração que sobreviveu. Mas em ideias, sobrevive e sobreviverá!
Muito obrigada, professor!

Pedro Bloch e a mudança na ideia de criança no século XX


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Visto de entrada da família Bloch no Brasil

Este documento está disponível no Arquivo Nacional e a reprodução compõe o livro "Seu Adolpho", de Felipe Pena. Rio de Janeiro : Ed Vermelho Caminho, 2010, p. 35.



Sua tradução, também na página 34 do livro citado, é

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Janusz Korczak, holocausto, crianças

Segundo a Enciclopédia do Holocausto, as criativas e alegres crianças eram consideradas "perigosas" e "indesejáveis", por isso quando não eram tomadas como escravas era defendido o seu assassinato em massa. 
Neste contexto terrível, porém, elas encontraram um de seus maiores aliados que foi o humanista Janusz Korczak, que idealizou a sua República das crianças no orfanato que dirigiu na Polônia, durante a Segunda Guerra. Se as crianças, por si só, já eram um perigo a ser controlado, imagine um educador humanista que as tutoriava. 
Hoje temos conhecimento do legado de  Korczak e saber da sua história, de alguma forma, me ajuda a compreender um pouco mais o ideário do imigrante ucraniano judeu Pedro Bloch e seu interesse afetuoso por crianças.

domingo, 30 de abril de 2017

domingo, 23 de abril de 2017

As Congadas invadem a Basílica de Aparecida para alegrar a semana de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário

Em 22 de abril de 2017 assisti as Congadas oriundas de todo o Brasil, mas mais fortes em Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo, adentrarem a Basílica de Aparecida para festejarem a Semana de São Benedito e Nossa Senhora de Rosário. Gosto muito de ver esses corpos e rostos, pertencentes a congadas de todo o Brasil, de todas as cores e idades nesse tributo a alegria!
Eu sei que esses vídeos de celular que eu gravo ficam horríveis e depois nem sei arrumar, mas não pude deixar de gravar só um pouquinho das congadas ontem. Claro que o celular não captou nem 1/10 daquele ritmo que convidava o corpo a se mover em plena basílica.
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segunda-feira, 17 de abril de 2017

sábado, 15 de abril de 2017

Resumo para congresso na UERJ

Gente, acabo de escrever o resumo da minha palestra sobre Pedro Bloch e as crianças na UERJ em agosto. É bem reduzido, mas na falara trarei de algumas anedotas infantis bem engraçadas, poque rir é muito bom. <3 span=""> O que acham?
Título: Anedotários infantis de Pedro Bloch: graciosas narrativas reveladoras da percepção da criança
Palavras-chave: Criança, Humor, Pedro Bloch
Resumo: Na segunda metade do século XX, o médico foniatra, jornalista e escritor Pedro Bloch (1914 -2004), manteve uma seção humorística contando historinhas de criança nas revistas Manchete e Pais & Filhos, que depois transformou em livros, os seus anedotários infantis.Além de conversar com seus pequenos pacientes no consultório para escrever textos, Bloch incentivava seus leitores e conhecidos adultos a ouvir a meninada, pois assim experimentariam o contato revelador como aquela peculiar percepção do mundo, que é o que ele procurava expor em suas anedotas. É sobre este projeto de inserção da criança no diálogo cultural e suas consequências para a escrita de uma nova História dessas crianças que tratarei nesta fala.

domingo, 9 de abril de 2017

Por uma História da Criança

Outro dia vi no Facebook alguém lembrando do uniforme do pré primário que todas as crianças usavam nos anos 80 ... Eu  sabia que eu tinha uma foto usando ele, mas demorei tanto para achar que perdi a postagem. De qualquer forma, eis a foto comprobatória, diretamente de 1985:
Foto caseira de Camila Rodrigues indo à aula do pré-primário uniformizada em 1985
Eu vejo essas minhas fotos de criança e me lembro daquele livro que eu (será que só eu ?) considero uma obra prima para se pensar a história da criança no século XX, que é o "Infância em Berlim, 1900", de Walter Benjamin, no qual ele fala tanto das memórias das coisas do seu cotidiano infantil, as roupas que usava, os brinquedos, os lugares ... no meu pós-doc eu estou tentando iluminar isso: é preciso, porque depois do século XX já é possível, tentar contar a história da infância a partir das vivências dela...É essa minha proposta, construída lado a lado com Benjamin, que está na resenha que escrevi para outro livo dele, disponível aqui. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

SÍNTESE DO MEU PERCURSO ACADÊMICO : BUSCA PELA INTERDISCIPLINARIDADE

BUSCA PELA INTERDISCIPLINARIDADE - Precisei abrir meus resultados finais de pesquisa sobre as relações entre História e Literatura (Iniciação científica - mestrado - tese) e sabe de uma coisa? Me orgulhei muito deles!
Se na IC, sobre um romance de Saramago, eu já me interessava por questões teóricas e metodológicas, também já amava Ginzburg, mas ainda não conhecia outra orientação teórica mais específica na História para realizar esta operação com o literário, só que com minhas "visitas" às aulas nas Letras "conheci" o discurso dialógico de Bakhtin e pirei (até hoje piro nesse lance do diálogo) e adaptei isso para os fluxos da historiografia portuguesa, o que Laura de Melo e Sousa (orientadora) achou que ficou original. Como resultado final eu escrevi um artigo que ficou eternamente no prelo e nunca foi publicado, infelizmente.
Ilustrações  do livro Tutaméia: terceitórias de JGR (1967)
No mestrado eu quis mudar e mergulhei no livro Tutaméia de Rosa e na sua fortuna crítica, e isso me obrigou a mudar certas perspectivas : embora não seja o ideal, o texto de Saramago me permitia não analisá-lo detalhadamente, palavra por palavra, como o Alfredo Bosi ensinava analisar um poema. Já o rendado texto de Rosa sempre exige uma leitura "ulpianística" da coisa. Nesse trabalho, além do papai Ginzburg, eu mergulhei também nas ideias de Walter Benjamin e formou-se minha divina trindade:
Ginzburg-Rosa-Benjamin
O legal desse trabalho é que, como eu queria, ele ficou bem brasileiro, e embora não o cite textualmente nenhuma vez (não sei porque não o cito nunca!), por trás de tudo ali está embutido o ideário do que considero nosso maior historiador, que é o Sérgio Buarque de Holanda (sim, eu sou uma cria da USP!).
Recortes de desenhos que Rosa fez para sua neta Vera Tess
O doutorado poderia ter sido só a celebração da minha santíssima trindade descoberta no mestrado, mas como eu quis inserir as crianças, precisei experimentar novos métodos historiográficos e trouxe à tona os manuscritos literários, o que me levou a dialogar com a Crítica Genética e tal...e é um trabalho mais lúdico, mais lambuzado de Guimarães Rosa que eu simplesmente amei fazer.

No pós-doutorado, ainda inconcluso, voltei à historiografia mais clássica e brinco com a História Cultural, só que do humor. Para analisar minhas fontes, sigo o método do meu ex orientador e atual supervisor Elias Thomé Saliba : objetividade metodológica (leia e analise o documento) e subjetividade epistemológica (considere todos os que dialogarem com seu tema), que, na verdade, é mais uma forma possível de abordar a interdisciplinaridade na pesquisa em História.
Acho que, resumidamente, este é o grosso do meu percurso acadêmico até agora.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Convite : falem para mim sobre essa capa


Lembram do famigerado artigo sobre o Disco Minas que eu comecei a escrever faz mais de um ano? O problema é que eu fico muito sensibilizada ouvindo e não consigo escrever sobre,  mas  a ideia ainda  é terminá-lo, agora quero pedia ajuda .. 

Essa é a capa do álbum, uma foto de Cafi retratando Milton Nascimento (1975). Tenho que descrevê-la e falar algo sobre ela, mas acho que ela é tão definitiva que mal posso comentar. 
Gostaria de ouvir outras pessoas comentando sobre ela antes de concluir minha definição. Alguém pode ajudar?

sábado, 25 de março de 2017

Futebol na cidade de São Paulo


Comecei a ler hoje este livro e, pelo que entendi nele, se jogava futebol no final do século XIX, na Vázea do Carmo e em algumas chácaras do Bom Retiro, regiões que estavam "fora do perímetro urbano da cidade". Depois foram surgindo espaços para a prática do futebol na cidade, até a construção do ."monumental" Estádio Municipal do Pacaembu no fim da década de 1930, que representou um interesse do poder público em controlar esta prática esportiva. Mas antes disso, o primeiro dos 3 times que serão abordados no livro a aparecer na História foi o Palmeiras e sua "praça de esporte", como lemos nesse interessante trecho:
"... a sociedade Esportiva Palestra Itália realizou melhorias para transformar a tradicional praça de esportes em estádio. O primeiro projeto de estádio foi apresentado em setembro de 1920. Mas por toda a década seguinte, o Parque Antártica continuou funcionando como um campo de futebol no qual as arquibancadas eram improvisadas nos barrancos existentes nas laterais do campo, com os torcedores se mesclando às arvores. Em março de 1929, o clube apresentou um projeto de remodelação do Parque Antárctica que incluía uma sede social nova, a construção de um estádio com iluminação noturna, piscina, quadras de tênis e seção hípica."
Achei muito interessante essa descrição, especialmente porque eu morei a vida toda ao lado do que eu ainda chamo "Palestra Itália", mesmo já tendo visitado a bela grandiosidade do Allianz Parque agora, ver como tudo começou é demais! Eu amo História !

Neymar Dias e Igor Pimenta no "Come together projet"


Ontem no show o Neymar Dias e o Igor Pimenta tocaram uma canção do disco "Come together project"

Álbum  composto por músicas dos Beatles em arranjos para viola e baixo acústico (que ontem não tínhamos no palco, mas improvisou-se) e tocaram essa aqui com uma pitadinha de Bach no final, não tinha como não me emocionar. O disco todo ficou muito lindo ... e na dedicatória Neymar ME AGRADECE, mas eu que tenho o que agradecer, né?



sexta-feira, 24 de março de 2017

Show do violeiro Neymar Dias



Acabo de vir do show do Neymar Dias no aconchegante Espaço 91 e foi sensacional, como ele também é. O cara tem um talento excepcional, toca de tudo na viola, modas, rock, Bach... Chorei demais, lembrei do meu pai, lembrei de tudo... que emoção. Ao final fui falar com ele, e ele que já tinha se comunicado comigo essa semana, falou "que bom que você veio, Camila", suspirei e olhei muito fundo nos seus olhos, agradeci, dei abraços , beijos (ele lembra muito meu pai, é um caipira, super carinhoso, deixa a gente ser também) e trouxe 3 CDS com autógrafos e ele disse : não deixe de ouvir para saber se gosta... eu respondi: com certeza ouvirei sem parar e já gostei. Mas gente: que violas lindas ele toca!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Foi um presente que a vida me deu, quero mais, e mais 

Sou filha de Oxum :Ora ei ei ô


Agora a pouco na Academia eu perguntei a um amigo de longa data:
"Carlos, por que você sempre me chama de "Camilinha bonitinha? Tá dizendo que eu sou uma feia arrumadinha?"
Ele respondeu:
"Não, é que você é sempre toda meiga, delicada,até seu jeito de falar é cheio de dengo, você mesmo a Camilinha bonitinha"}
Então tá, né? Acho que só agora  ele descobriu que sou de Oxum, cheia de fé fé xorodô" :
"Nhem-nhem-nhem
Nhem-nhem-nhem-xorodô
Nhem-nhem-nhem-xorodô
É o mar, é o mar
Fé-fé xorodô..."

I Congresso de Estudos da Infância - Diálogos Contemporâneos 2017 na UERJ


No ano passado eu descobri a existência deste grupo de Estudos sobre a criança contemporânea na UERJ, suas produções sempre me encantaram demais, e agora consegui contato com eles e até já vou participar do primeiro Congresso deles falando da minha pesquisa sobre as anedotas de Pedro Bloch na mesa "Infância, literatura e memória: o que dizem as crianças? O que os adultos escutam?", na UERJ, Campus Maracanã em 10/08/17 das 14h às 16h. <3 span="">

quarta-feira, 22 de março de 2017

Não dá para fugir de "Your Song"




Ai você estava suportando um dia especialmente difícil, parece que a "ficha" está caindo e dói,  então o  Youtube manda um e-mail para você conferir algumas "inscrições" novas e a primeira aparece é essa aqui de um dos shows do Instrumental Sesc Brasil, em  30 /01, uma noite quente, mas cheia de arrepios sobre a qual eu falei um pouco aqui. Eu que nem Clube da Esquina estou ouvindo mais, mas sou forte e tô aguentando isso também.

Como tenho dito sempre: Ai de mim que sou romântica!

segunda-feira, 20 de março de 2017

De volta ao relatório final do pós doc

3 violões no show Circuladô, de Caetano Veloso

Há alguns dias convidei aqui para ouvirmos o instrumental da canção "Debaixo dos Caracóis dos seus cabelos", no disco Circuladô vivo, pois a ficha técnica do CD indicava apenas três violões, porém o som é tão robusto que jurava terem mais intrumentos ali.  Mas um amigo caetanete achou um vídeo do show e concluiu: "Camila, é impressionante, mas acho que são 3 violões mesmo"



Isso que são violões muito bem tocados!

sexta-feira, 17 de março de 2017

Hamilton de Holanda solando no bandolim


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Tentei reduzir o tamanho do último vídeo que eu tenho do Baile do Almeidinha para postar aqui. Reduziu bem e não apenas o tamanho do arquivo, o original é bem maior, mas tá valendo.

Nele Hamilton estava solando no bandolim e eu babando e gravando :)

Sobre literatura infantil sec XIX e XX

Ao final da reportagem o trabalho de pós doc da minha grande amiga Patricia Raffaini é citado, muito sucesso! <3 span="">

Os precursores de Lobato
Livros para crianças escritos por autores nacionais já circulavam no final do século XIX
CARLOS FIORAVANTI | ED. 253 | MARÇO 2017
Capa de Versos para os pequeninos
No final de fevereiro, os Versos para os pequeninos foram finalmente publicados, depois de permanecerem inéditos por pelo menos 120 anos. Com 24 poemas infantis escritos entre 1886 e 1897 pelo bacharel em direito e educador fluminense João Köpke (1852-1926) e resgatados por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os Versos somam-se a descobertas de especialistas de outras universidades do país que revelam os autores nacionais e os mecanismos de funcionamento do mercado editorial de livros para crianças no final do século XIX e início do XX. A articulação entre editores, escritores, divulgadores e leitores começou a se formar décadas antes da publicação, em 1920, de A menina do narizinho arrebitado, o primeiro livro do escritor paulista José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948), autor de uma obra ampla e reconhecida (ver Pesquisa FAPESP no 157 e Especial 50 Anos). Estudos recentes reiteram a conclusão de que Lobato modernizou a literatura infantil brasileira, mas não a criou, diferentemente do que diziam pesquisadores e escritores do passado. Um de seus primeiros biógrafos, o escritor paulista Edgard Cavalheiro (1911-1958), em um comentário bastante citado em estudos nessa área, afastou os precursores ao afirmar que antes de Lobato “a literatura infantil praticamente não existia entre nós” e “havia tão somente o conto com fundo folclórico”.
“Em carta de 1919 para um amigo, Lobato comentou que não havia nada para ler para os filhos dele a não ser o livro de fábulas de João Köpke. Ele se referia à qualidade das obras disponíveis, adaptações de obras europeias e mesmo livros de autores nacionais, mas não é a verdade absoluta”, diz Marisa Lajolo, professora da Unicamp e da Universidade Mackenzie, que retoma esse assunto no livro Literatura infantil brasileira: Uma nova/outra nova história (FTD-PUC Press, 2017), a ser lançado em abril, em coautoria com Regina Zimmermann. “Em 1920, Lobato recebe da gráfica que estava imprimindo a primeira edição de Narizinho arrebitado a informação de que o Primeiro livro de leitura, de Köpke, serviria de modelo para a impressão da história do sítio.” Segundo ela, Lobato fez mudanças radicais na literatura infantil, “como os modernistas de 1922 fizeram na literatura adulta”, e a partir da década de 1930 teve muito mais visibilidade que qualquer outro autor antes dele.O filho mais velho de Köpke, Winckelmann Köpke (1886-1951), foi quem inicialmente guardou o original de 54 páginas de Versos para os pequeninos, já com os poemas manuscritos organizados em sequência e as respectivas ilustrações de página inteira, recortadas de outros livros, para servir como referência a quem as refizesse. Provavelmente Winckelmann o entregou a seu filho José, que o deixou com sua filha mais velha, Maria Izabel Köpke Ramos, bisneta de João Köpke. Uma das irmãs de Maria Izabel, Maria Lygia Köpke Santos, mencionou o livro em sua tese de doutorado, apresentada em 2013 na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (FE-Unicamp). Depois ela entregou os originais a sua orientadora, Norma Ferreira, professora da FE-Unicamp. Norma analisou os Versos em sua tese de livre-docência, apresentada em 2014 e agora publicada na forma de livro, com os poemas.
Depois de construir uma carreira respeitada de educador em escolas das cidades de São Paulo e Campinas, Köpke se mudou em 1886 para o Rio de Janeiro e criou o Instituto Henrique Köpke, assim chamado em homenagem a seu pai. O instituto era uma escola particular, que funcionou até 1897 e servia para ele lançar seus próprios livros de alfabetização e de leituras para crianças. Foi como diretor do instituto que Köpke se apresentou na abertura dos Versos, em grandes letras manuscritas. De acordo com Norma, seu propósito com o livro era oferecer uma leitura agradável para as crianças e aplicar o método analítico de alfabetização, que ele tinha desenvolvido em outros livros, o primeiro deles publicado em 1884 pela Francisco Alves.
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Os poemas consistem em histórias alegres e rimas simples, tratando da Lua, de avós, brincadeiras, brinquedos, animais e canções das crianças (leia trechos do poema O balanço). “Versos para os pequeninos, de forma mais contundente do que em suas obras editadas, oferecem outra faceta de João Köpke: a de um escritor que quer conquistar a criança-leitora com uma representação do universo infantil que questiona o conhecimento, a verdade e a realidade”, escreveu Norma em sua tese de livre-docência.
A seu ver, a liberdade e a informalidade dos poemas não se encaixavam nas propostas pedagógicas predominantes no início do século XX, que valorizavam poemas edificantes e crianças bem-comportadas, como as do Livros das crianças, da educadora paulista Zalina Rolim (1867-1961), de 1897. “Köpke era bastante crítico das propostas educacionais daquele período, como o plano pedagógico, adotado para a criação do Jardim da Infância, que, segundo ele, apresentava salas superlotadas e fechadas, intervalos curtos entre as aulas e professores inexperientes”, diz Norma. “A irreverência nos poemas se tornou uma marca do estilo de Lobato, décadas depois.”
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João Felpudo na capa da revista O Tico-Tico de 1925
João Felpudo no BrasilPor sua vez, já no final de sua pesquisa de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), a historiadora Patrícia Raffaini investigava jornais antigos no site da Biblioteca Nacional no início de 2016 quando encontrou o anúncio “João Felpudo – Histórias alegres para crianças travessas com vinte e quatro pinturas esquisitas” na edição de 4 de dezembro de 1860 do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro. O anúncio era um registro da primeira edição de um livro de muito sucesso lançado na Alemanha em 1844. Escrito pelo médico Heinrich Hoffmann para seu filho de 3 anos, trazia ilustrações generosas e histórias breves de crianças que recebem castigos severos por não gostar de banho ou de sopa. Patrícia encontrava o tradutor original, o desembargador Henrique Velloso de Oliveira (1804-1861), possivelmente um dos responsáveis pela adaptação do título original, Der Struwwelpeter, cuja tradução literal resultaria em Pedro descabelado.
Patrícia encontrou depois outros anúncios de João Felpudo no Jornal do Commercio, indicando uma das formas pelas quais a Editora Laemmert promovia a venda dos livros. Em 1894, como ela já tinha verificado, o editor fluminense Pedro Quaresma (1863-1921), dono da Livraria do Povo, investiu em anúncios de meia página para promover o relançamento de uma produção nacional, Contos da carochinha, já que os 5 mil exemplares da primeira edição teriam se esgotado em menos de um mês. Contos da carochinha inaugurava uma série de livros organizados pelo jornalista carioca Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914) com o propósito de apresentar em uma linguagem coloquial as fábulas de autores europeus, com animais falantes, lobisomens, santos e fadas. Com esses livros, Quaresma pretendia criar uma literatura infantil mais popular, com edições mais simples e de menor custo que as traduções refinadas das editoras Laemmert, de proprietários alemães, Garnier, de origem francesa, e da Francisco Alves, portuguesa.
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Anúncio da edição brasileira de 1860 (acima) e o desenho original, de 1844
“O mercado de livros para crianças e jovens prosperava no final do século XIX, um período no qual se acreditava que pouco ou quase nada estava à disposição dos jovens leitores”, diz Patrícia. “Os editores investiam nesse segmento e muitas obras, como João Felpudo, já haviam sido traduzidas. A produção de obras com autores nacionais estava começando.” Ela iniciou sua pesquisa com uma lista de 20 títulos de livros infantis publicados entre 1860 e 1920 identificados na Biblioteca Nacional e no Real Gabinete Português de Leitura, ambos no Rio. Três anos depois, após garimpar por sebos de todo o país, tinha reunido 70 títulos diferentes.
“Umas das precursoras da literatura infantil brasileira foi a romancista Júlia Lopes de Almeida (1862-1934)”, atestou Nelly Novaes Coelho, professora aposentada da USP e uma das maiores especialistas no assunto, no livro Panorama histórico da literatura infantil/juvenil (Amarilys, 2010). Em 1886, Júlia Lopes publicou Contos infantis, com 60 narrativas em verso e prosa escritas em colaboração com sua irmã Adelina Lopes Vieira, depois Histórias da nossa terra, de 1907, e Era uma vez, de 1917, todos com reedições. “Simultaneamente ao aumento de traduções e adaptações de livros literários para o público infantojuvenil”, Nelly Coelho escreveu em seu livro, “começa a se firmar, no Brasil, a consciência de que uma literatura própria, que valorizasse o nacional, fazia-se urgente para a criança e para a juventude brasileiras”. Ela também reconhece Pimentel como “o primeiro intelectual a popularizar o livro, através de edições mais acessíveis de autores clássicos”.
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Livros de autores nacionais: Álbum das crianças, de Figueiredo Pimentel, de 1897
Além da crítica literária
Os escritores anteriores a Lobato já eram citados em vários livros e sites, como o Memória de Leitura, da Unicamp, que reúne 19 autores de 1880 a 1910 e suas obras mais importantes. Uma investigação mais profunda levará a uma representante de uma época ainda mais remota, Nísia Floresta (1809-1885), educadora potiguar que criou um colégio para meninas no Rio de Janeiro e escreveu poemas, romances e novelas – Conselhos à minha filha é de 1842 e as novelas Fany ou o modelo das donzelas e Daciz ou a jovem completa, de 1847.
O que pesquisadores de São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Ceará e outros estados têm feito é ampliar o olhar para além das narrativas dos livros. “Saímos do viés da crítica literária – que destaca apenas o que era bom – para a história cultural, que considera o que era lido, independentemente da qualidade, quem produzia, de que modo, em que lugar e quem consumia”, explica a historiadora Gabriela Pellegrino Soares, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e autora do livro Semear horizontes (Editora da UFMG, 2007), sobre a formação do mercado editorial de livros para crianças na Argentina e no Brasil. “Examinar as engrenagens da produção e circulação dos livros é um caminho muito fértil para conhecer as ideias e as representações do mundo em uma época”, ela acrescenta.
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…e Cantigas das crianças e do povo, de Alexina Magalhães Pinto, de 1911
Livros para adultos e crianças circulavam principalmente nas capitais do Brasil, ao longo do século XIX, apesar do alto analfabetismo, que chegava a 80% da população de quase 10 milhões de pessoas em 1872, quando foi feito o primeiro censo demográfico nacional. Estima-se que o analfabetismo fosse menor, talvez de 50%, no Rio de Janeiro, a então capital do país. “Há uma intensa importação de livros para o Brasil, entre os quais infantis, desde o século XVIII”, diz Márcia Abreu, professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, coordenadora de um projeto de pesquisa sobre a circulação transatlântica de impressos (ver Pesquisa FAPESP no 240) e autora de Os caminhos dos livros (Mercado de Letras, 2003). A leitura era uma das maiores fontes de entretenimento nessa época e os homens livres compravam vários livros por ano. Isso gerava uma forte movimentação editorial e comercial, com importação frequente de livros e, após 1808, também com muita impressão brasileira.”
Havia um mercado consumidor em formação, composto por um contingente cada vez maior de imigrantes, homens livres e profissionais liberais ou assalariados. Estima-se que 17 livrarias e 30 tipografias funcionavam na cidade do Rio de Janeiro em 1860. Hoje, mesmo com o fechamento contínuo de livrarias, a literatura infantil constitui um mercado pujante. Em 2014 foram publicados 37 milhões de exemplares de 7.802 títulos de livros para crianças, segundo a Câmara Brasileira do Livro.
© PATRÍCIA HANSEN / HEMEROTECA BIBLIOTECA NACIONAL
Anúncio destacando a obra de Lobato
Depois de Lobato
“Monteiro Lobato foi tão importante que apagou os escritores anteriores. Ninguém mais fala de Olavo Bilac e Tales de Andrade”, diz a jornalista Laura Sandroni, autora do livro De Lobato a Bojunga – As reinações renovadas (Agir, 1987), além de criadora e diretora por quase 20 anos da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Lobato se impôs com uma obra formada por 22 livros escritos em linguagem coloquial, irreverente e vibrante, tratando de problemas da época e não de um distante país do futuro, como nos livros escolares anteriores. Apoiados por uma propaganda intensa – o próprio Lobato separou 500 exemplares de Narizinho para enviar para escolas e acelerar sua aceitação –, seus livros ultrapassaram a tiragem de 1 milhão em 1943.
“Lobato era um gênio, como escritor e editor, e ele próprio construiu a ideia de que teria sido um pioneiro”, diz a historiadora Patrícia Hansen, atualmente vivendo em Lisboa. No acervo digital de jornais antigos da Biblioteca Nacional, ela encontrou um anúncio da edição de 15 de novembro de 1933 na revista O Tico-Tico, depois reproduzido em outras publicações, apresentando o História do mundo para crianças, o lançamento mais recente da Companhia Editora Nacional, e o escritor paulista como “o criador da literatura infantil no Brasil”. “Foi um marketing que deu certo”, concluiu Patrícia. “Não questionaram a fonte.”
Projeto
Leitura ficcional na infância, 1880-1920 (nº 13/00454-1); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Elias Thome Saliba (USP); Beneficiária Patrícia Tavares Raffaini; Investimento R$ 240.377,83.
Artigo científico
HANSEN, P. S. A biblioteca dos jovens brasileiros: Do caráter didático da literatura infantil aos usos dos livros pelas crianças no início do século XXEscritos. v. 5, n. 5, p. 79-96, 2011.
Livros
SOARES, G. P. Semear horizontes: Uma história da formação de leitores na Argentina e no Brasil, 1915-1954. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
ABREU, M. Os caminhos dos livros. Campinas: Mercado de Letras/ALB/FAPESP, 2003, 382 p.
COELHO, N. N. Panorama histórico da literatura infantil/juvenil. São Paulo: Amarylis, 2010, 320 p.
SANDRONI, L. De Lobato a Bojunga – As reinações renovadas. Rio de Janeiro: Agir, 1987, 181 p.
FERREIRA, N. S. de A. Um estudo sobre os versos para os pequeninos, de João Köpke. Campinas: FAPESP/Mercado de Letras, 2017, 276 p.