sábado, 30 de junho de 2012

Debaixo dos caracóis dos meus cabelos...


Esta imagem circulou no Facebook estes dias e, inspirada nela, fui procurar no youtube "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", do Caetano Veloso, mas achei algo ainda melhor  : A HISTÓRICA VERSÃO DE ROBERTO E ERASMO CARLOS de 1969/1970!

Assim dá mesmo orgulho de meus cachos, como quando meu namorado me disse que uma das coisas mais bacanas que eu já ouvi: Que a história é como são os meus cabelos, se direciona para todos os lados simultaneamente, nada de linearidade pode controlar esse fenômeno, nem mesmo as grandes narrativas! 
 Adoro os caracóis dos meus cabelos e sou feliz, mesmo não tendo nem secador, que dirá chapinha!

sexta-feira, 29 de junho de 2012

"O cérebro é plástico e a experiência o molda constantemente." Oliver Sacks



Esta entrevista de Oliver Sacks é interessante, emocionante, humana! Seu interesse declarado em ouvir a narrativa dos pacientes neurológicos, saber o que eles contam sobre como aprenderam a conviver com suas moléstia se isso deve ter despertado seu interesse em narrar. Isso me lembra tanto o Guimarães Rosa: ouvir todos como se fossem o mais interessantes dos fenômenos, essa foi a profissão de fé de Rosa, não foi?
Mas os médicos não costumam trilhar esse caminho até o humano. Eu sei como é isso, convivi muito com neurologistas e eles, em especial, nos fazem esquecer que somos também pessoas, como eles e que não nos ajuda sermos tratados como máquinas, mas ao sentirmos estranhamentos causados por disturbios neurológicos, sentimos mesmo que o mundo foi dado completamente a nós, desde que nosso cérebro funcione perfeitamente e se ele não funciona, cabe a voz apaziguadora do médico nos falar palavas incentivadoras, que nos fale de possibilidades de contorno de situações aparentemente incontornáveis: O cérebro é plástico  e  a experiência o molda  constantemente.
Acho linda a ideia da narratologia! Escrevi sobre isso na minha dissertação: nós, seres humanos, podemos ser biologicamente parecidos, mas é preciso ter sempre em mente que cada um de nós possui um cérebro único, que está constantemente sendo modelado a partir de nossas vivências, das nossas narrativas individuais e intransponíveis. É por isso que pessoas intelectualmente bastante  comprometidas precisam tentar conseguir alguma forma de cantar, ou dançar, atuar, ou simplesmente contar causos.  O sentido das nossas vidas é narrá-las de alguma forma, para isso nosso cérebro está sempre de moldando e ai, na narrativa, temos as curas de moléstias incuráveis!
Gostei, especialmente, do depoimento final sobre o fato de não conseguir mais se lembrar tão facilmente dos nomes das pessoas, por isso ele anota, mesmo sendo um pouco desagradável.
Eu sei bem o que é isso. Nem sempre me lembro dos nomes das pessoas, dos livros, das obras...eles não foram perdidos, uma hora qualquer eles aparecem, pena não se sempre que preciso deles! (rs)
Vale muito a pena ouvir/ Oliver Sacks!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Vendo vozes Oliver Sacks


"Não falamos ou pensamos apenas com palavras ou sinais, mas com palavras ou sinais que se referem uns aos outros de uma determinada maneira. (...) Sem uma inter-relação adequada de suas partes, uma emissão verbal seria mera sucessão de nomes, um amontoado de palavras que não encerra proposição alguma. (...) A unidade da fala é uma proposição. A perda da fala (afasia)é, portanto, a perda da capacidade de proposicionar (...) não só a perda da capacidade de proposicionar em voz alta (falar), mas de proposicionar interna ou externamente. (...) O paciente sem fala perdeu-a não apenas no setido popular, de não conseguir se expressar em voz alta, mas no setido completo. Falamos não apenas para dizer a outras pessoas o que pensamos, mas para dizer a nós mesmos o que pensamos. A fala é uma parte do pensamento."
 (Hughlings- Jackson, citado por Oliver Sacks em Vendo vozes.p.28)

"Joseph (um surdo) ansiava por comunicar-se, mas não conseguia. Não sabia  falar, escrever, nem usar a língua de sinais, e só podia servir-se de gestos, pantomima, além de uma notável habilidade para desenhar.(...) Anteriormente privado de oportunidades - pois ele nunca fora exposto à língua dos sinais, Joseph  estava começando a aprender um pouquinho e a ter comunicação os com outros. Isso manifestamente o deleitava; ele queria ficar na escola o dia inteiro, a noite inteira, o fim de semana inteiro, o tempo todo. Dava muita pena ver sua aflição ao sair da escola, pois ir para casa, para ele, significava voltar ao silêncio, retornar a um vácuo de comunicação sem esperanças, onde ele não podia conversar, comunicar-se com os pais, vizinhos, amigos; significava ser deixado de lado, tornar-se novamente um ninguém.
Isso era muito pungente, extraordinário - sem nenhum paralelo exato em minha experiência. Lembrava-me um pouco uma criancinha de dois anos vacilando a um passo da língua - mas Joseph tinha onze anos, era na maioria dos outros aspectos, um menino de onze anos. Lembrava-me um pouco um animal não verbal, mas nenhum animal jamais transmitiu o anseio pela língua como fazia Joseph." Oliver Sacks. Vendo vozes. p.42-3

terça-feira, 19 de junho de 2012

INFÂNCIA E HISTÓRIA VÃO AO CINEMA COM WALTER BENJAMIN




No fantástico volume A Infância vai ao cinema (organizado por larrosa, Jorge; lopes, José miguel; Teixeira, Inês) há muito Walter Benjamin. O que não é de se estranhar, já que Benjamim  que era bastante interessado no olhar infantil sobre o mundo e também  um encantado com linguagens visuais novíssimas em sua época e, por isso, considerou seriamente estes fatores na hora repensar os modos de se escrever a  história (eu não sou especialista em Benjamin, apesar de tê-lo como base teórica desde o mestrado e ter escolhido para a banca que me deu título de mestre em história, doi estudiodos de W. Benjamin - Willi Bolle e Susana Kampff Lages), mas acho que todos esses interesses "avulsos"  de Benjamin serviram diretamente  como componetentes enriquecedores na hora de pensar o melhor modo para escrever  sua historiografia. Considere que, pensando em Benjamin, 'historiografia' não significa um texto fluído, mas uma fragmentação de IMAGENS (vide o livro Passagens). Esses flashs de revelações, ao que me parece, são bem característicos do modo da criança ver o mundo, Um modo diferenciado e cada vez mais valorizado pelo mundo adulto.Em um livro que procura abordar infância e cinema não poderia deixar de considerar Benjamin. Aliás, um parêntese:  Walter Benjamin conseguiu algo interessante de ser observado: alguns de seus textos  -  sobre infância, sobre narrativa- não ficam datados,  continuam valendo como se o tempo não tivesse passado por eles, mesmo que os contextos tenham mudado muito : Walter Benjamin ainda é a referência para se falar de História e Infância (como eu me proponho a fazer) e os novos autores que se debruçaram sobre isso, trazem apenas releituras das ideias originalíssimas de Benjamin. Fechando o parêntese e voltando a pensar neste livro, ele também não poderia deixar Walter Benjamin de fora, tem muita história ali também. Nele  lemos algumas interpretações  de filmes interessantes (como a de  A língua das mariposas ), mas o mais interessante é como a infância procura aparecer, nos diversos textos de leitores diferentes, como componentes da própria linguagem cinematográfica: se a criança é  o infante (o que não fala), a linguagem do cinema seria a que melhor a que melhor poderia representá-la, já que para o cinema a palavra não ganha maior destaque. Sobre isso, podemos ler no prefácio de  Sonia Kramer coisas belas como :

"...falando sobre infância e história, Walter Benjamin já nos alertava para o fato de que O HOMEM FAZ HISTÓRIA, DE QUE EXISTE A POSSIBILIDADE DE SE FAZER HISTÓRIA, PORQUE TEMOS A INFÂNCIA." Sonia Kramer

ESTA É MINHA DICA.
P.s. - o livro saiu pela editora Autêntica, de Belo Horizonte.




quinta-feira, 7 de junho de 2012

Flicts: O coração da cor

 

Flicts: O CORAÇAO DA COR

Carlos Drummond de Andrade
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 de agosto de
1969.
O mundo não é uma coleção de objetos naturais com suas formas respectivas, testemunhadas pela evidência ou pela ciência, o mundo é cor.A vida não é uma série de funções da substância organizada, desde a mais humilde até a de maior requinte, a vida são coresTudo é cor. O que existe, existe na cor e pela cor. A cor ama, brinca, exalta, repele, dá sentido e expressão ao sítio ou à aparência onde ela pousa.
Cores são seres individualizados e super-poderosos, que se servem de nosso veículo óptico para proclamar sua verdade.
Nossas verdadinhas concretas empalidecem ao sol múltiplo que elas concentram.
Aprendo isso, tão tarde! Com Ziraldo. Ou mais propriamente com Flicts, criação de Ziraldo, que se torna independente do criador, e vive e vibra por si.
Que é Flicts? Não digo, não quero dizer.
Cada um que trave contato pessoal com Flicts, e sinta o que eu sinto ao conhecê-la um deslumbramento, um pasmo radiante, a felicidade de renascer diante do espetáculo das coisas em estado puro.
Flicts faz a gente voltar ao ponto de partida, que, paradoxalmente, é ponto de chegada. No princípio era cor, e no fim será cor, alegria da percepção. Ou nem haverá fim, se concebermos a cor em si, flutuando no possível, desinteressada de pouso e tempo.
Flicts já flutua no bôjo desta idéia. Mais um passo, e não precisará de ponto de referência, ela que rodou por toda a parte para afirmar-se, e acabou se encontrando… onde, não digo, não quero dizer. Você é que tem que chegar lá para vê-la. O conto contado por Ziraldo só merece um adjetivo, infelizmente desmoralizado: maravilhoso. Não há outro, e sinto a pobreza do meu cartuchame verbal, para definir Flicts: não carece de definição. É.
Mestre do traço desmitificador ou generoso (Supermãe, Jeremias), Ziraldo abriu mão de suas artimanhas todas para revelar Flicts com absoluta economia de meios, ou, antes, sem meio algum. E dá-nos a festa da cor como realidade profunda, e não mera impressão da luz no olho. Sua revelação é fulgurante. Faz explodir a carga emocional e mental que as cores trazem consigo.
Disse que me faltam palavras: entretanto, o próprio Ziraldo, monstro inventor de Caratinga, soube encontrá-las, compondo com elas não uma explicação de Flicts, mas um guia lacônico de viagem, para acompanharmos o giro ancoso de Flicts pelo universo. Este guia saiu um poema exato. Do resto, que é Flicts senão poesia formulada de outra maneira por Ziraldo? E o consórcio das duas poesias forma uma terceira, dom maior deste livro.
Flicts é a iluminação – afinal, brotou a palavra – mais fascinante de um achado: a cor, muito além de fenômeno visual, é estado de ser, e é a própria imagem. Desprende-se da faculdade de simbolizar, e revela-se aquilo em torno do qual os símbolos circulam, voejam, volitam, esvoaçam – fly, flit, fling – no desejo de encarnar-se. Mas para que símbolos se captamos o coração da cor? Ziraldo realizou a façanha em seu livro.

ANDRADE, Carlos Drummond de. In: “Flicts: o coração da cor”. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1969.


É assim deste jeito (ou de uma forma muito parecida com essa) que as crianças percebem as cores? Suponho que sim!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Um Caminho feito para não haver chão - Mia Couto


Entre o autor e o seu texto existem caminhos, existem tempos. O caminho que separava  Rosa do texto rosiano foi o  da poesia. Os tempos foram os do Sertão. João Guimarães Rosa trilhou o caminho da poesia para poder sair de todos os existentes  caminhos. Os tempos do sertão fizeram com que ele escapasse do tempo. Porque esse sertão, construído com poesia, não era da ordem da geografia.

Cada escritor procura, nessa ausência de lugar, o seu universo único. Essa procura faz-se para além daquilo que ele próprio pode entender. Porque essa criação se furta ao território da racionalidade. A maior parte das vezes, os escritores escrevem exatamente  porque não sabem. E quando sabem eles escrevem para deixarem de saber.

Certa vez, José Saramago me confessou que, já depois de muito livro escrito, ele se encontrou numa espécie de encruzilhada existencial no que respeita à adoção de um estilo que, sendo inovador,   fosse a marca da sua individualidade. Para definir essa hesitação, Saramago fez uso do célebre verso drummondiano ‘e agora José?’. Por muito que explicasse Saramago sabia que não dava nenhuma explicação. Na verdade, o modo de operar de cada escritor pertence ao domínio que está para além daquilo que ele pode racionalizar.

Tal como acontece com Rosa, não parece haver nos primeiros textos de Saramago algo que faça adivinhar o estilo já maduro e que, depois, ficou consagrado como marca pessoal do autor. E, no entanto, já há qualquer coisa nas primeiras criações que indiciam uma inquietação, e atuam como a forja do que seria não exatamente em ‘estilo’ mas um idioma particular. O edifício que daí resulta é uma escrita que se deixa apropriar pela oralidade, uma escrita plural que se deixa inundar pela Vida. Uma escrita que não pode ser apenas lida. Mas precisa ser escrutada. Porque ela é feita de vozes, de margens, de veredas.

Um dos segredos da maturação de Rosa está no quanto ele tornou a página permeável a falas e sotaques que não são exatamente apenas do Brasil, mas surgem como um Brasil pessoal, o Brasil de Rosa, uma nação encantada que só pode ser dita por palavra que por inventar.

A viagem que, após a sua chegada de Paris, Rosa empreende pelos sertões de Mina Gerais é, afinal, uma deslocação interior, um revoltear do seu chão mais íntimo. Terá sido aí que Rosa descobriu a sua linguagem causadora, a um tempo, de proximidade e estranhamente? Não sei. Duvido. Porque em todo escritor há um percurso lento e cego que não se tanto de revelações como de esquecimentos. É verdade que o próprio JGR defende que a inspiração  é uma espécie de transe. Mas esse transe serve mais para calar e ocultar o que é certo e sabido.

Rosa não escreveu sobre o universo sertanejo. Ele inventou esse universo. E usou essa invenção contra aquilo que ele sentia como ameaça: a invasão de um território uniformizado, modernizado, à custa da anulação do espaço mítico. Onde o mundo sugere a diluição de afetos o escritor propõe um clã, onde a modernidade impõe a uniformidade, o escritor contrapõe a soberania da intimidade. Onde  os novos tempos sugerem uma aldeia global, o escritor ergue uma casa, uma residência  para a alma, uma raiz para a individualidade.

  Mia Couto

(texto de apresentação do livro “Antes das Primeiras Estórias”, de João Guimarães Rosa)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Lápis de cor fazendo arte!


O artista colombiano Federico Uribe amplia as possibilidades de usar o lápis de cor para fazer arte... confira o site dele aqui.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Encontro Internacional "Depois de Babel" na Colombia

Desde o meu mestrado (quando ou não tinha ou não conhecia tradução para o português), seguindo recomendação meu orientador, leio e acho soberbo, interessante demais aquele que ele chama de capítulo sobre "futuridade da linguagem" neste livro. Sempre quis ler mais e melhor este livro, acho que ele merece um grupo de estudos, para que suas complexidades sejam identificadas e discutidas, porque a simples leitura solitária talvez seja pouco. Talvez este meu desejo não seja todo depropositado ou inverídico: em março de 2013 a Universidade Nacional da Colombia vai realizar um Encontro Internacional para discutir as questões de linguagem e tradução (inclusive de significados) postas por George Steiner neste livro (ENCONTRO). Vontade (e até oportunidade) de participar eu tenho, pena que parece que só eu me interesso por esse tema e teria que ir sozinha ao vamos ter um Congresso. O que vocês acham ?