quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

PRIMEIRO CADERNO DO ALUNO DE POESIA OSWALD DE ANDRADE

Depois de ficar impossibilitada - por conta das tempestades diárias de Janeiro- de assistir a duas aulas do curso bimestral sobre a poesia visual de Oswald de Andrade na Casa das Rosas (e possivelmente perder o direito ao certificado, voltei a assistir às maravilhosas aulas.
Com muita sorte consegui assistir algumas aulas do livro mais importante para mim o "Primeiro Caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade":


Ganhamos algumas fotocópias, tentei scanear, para dividir ... vejamos esse primeio poema em quatro partes "As quatro gares" (a professora explicou que gares é estação em francês, mais especificamente quer dizer, "estação de trem", ou seja, uma referência espacial, mas isso foi usado ironicamente pois no poema ele está falando de estação em outro sentido, o temporal, tipo "estação do ano", que seria expresso pela palavra saisons)... O poema é lindo, vejamos:







Na gare da infância temos expressão muito infantil, só algumas lembranças inesquecíveis - memória dos camisolão, do jarro, etc; na adolescência o sintético Oswald nos deixa sem saber o que dizer: é um poema pelo não dito (reforçado pelo casal de aparência não muito jovem e de costas); a gare da maturidade apresenta um poema ready-made (que utiliza um convite real onde o poeta Oswald enxerga o lirismo existente na vida adulta "sr + sra e bebê") com um desenho de bercinho e, enfim, a velhice, onde vemos um desenho muito intrigante : todo mundo relaciona o chinelo ao avô, mas se olharmos bem, ele é todo desenhado, como se fosse infantil... seria uma junção das duas "gares"? Genial!

Ainda sobre a percepção do mundo infantil, vemos uma pequena obra prima:





É muito fiel ao que se imagina ser a percepção da criança à relaidade ao seu redor, não acham?

Para meu doutorado eu pesquisei Fréderic Fraçois, que diz que "além da importância geral nas diversas sociedades - não deve haver sociedade sem narrativa-, a narrativa contitui um dos principais exercícios escolares" (Crianças e Narrativas- maneiras de sentir, maneiras de dizer.Pp 45-6), Oswald nos brinda com coisas assim:


Afinal, estamos falando de um Caderno Escolar... que começa com o poema que Haroldo de Campos teria chamado de o mais sintétic da Literatura brasileira (rs), o famosíssimo:
Acho muito bom e sinto muito que Oswald seja um renegado entre os modernistas... é preciso muita humildade e inteligência para compreendê-lo minimamente.
Afinal, falamos do autor do Manifesto Antropófago, movimento que, conforme explicou Augusto de Campos em 1975, centrava-se na idéia da "devoração cultural das técnicas e informações dos países superdesenvovidos para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação (da mesma forma que o antropófago devorava o inimigo para adquirir as suas qualidades).Atitude crítica, posta em prática por Oswald, que se alimentou da cultura europ[eia para gerar suas próprias e desconcertantes criações, contestadoras dessa mesma cultura...a Antropofagia é a única filosofia original brasileira e,sob alguns aspectos, o mais radicaldos movimentos literários que produzimos"(Revistas re-vistas: Os antropófagos.IN Poesia,antipoesia, antropofagia.P.124)
Acho que precisamos devorar Oswald, não?

3 comentários:

alvaro disse...

Que delícia de post! Uma bela homenagem ao poeta. Ele teria orgulho do que você escreveu sobre ele,por conta da criatividade, da alegria e da sutileza das palavras!

Dan disse...

Oi Linda,

Beleza de postagem. Espero que você não precise faltar no curso. Aqui está um temporal.

Abraços

Romario Silva Andrade disse...

Uma verdadeira lição de poesia. Me alegra saber que há pessoas com tamanha inspiração. Arte na maneira de informar.
Romário Andrade