domingo, 29 de dezembro de 2013

Astolfinho e o travesseiro



.... eu pedi: me traga um travesseiro que tenha sido usado por um Rei...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Nu, de botas, Antonio Prata


Ontem terminei de ler o delicioso livrinho de Antonio Prata e, claro, super recomendo a leitura a todos, especialmente aos que não tem medo (e tem interesse) de experimentar novamente as percepções infantis da vida. É muito difícil representar o mundo todo estranho que uma criança vai sentido, e ainda mais fazer isso sem  tornar a narrativa chata ou intragável... Prata conseguiu em seu livrinho  muito gostoso de ler. Na contracapa  Gregorio Duvivier alerta que a gente vai rir e chorar nessa viagem, e é verdade porque,  afinal  TODO MUNDO TEVE INFÂNCIA... 
Para deixar uma amostrinha, não destaco momentos engraçados, porque eles são muitos e não pude escolher apenas um, então preferi citar o  último parágrafo da obra com sua derradeira  imagem :

"Naquela noite, tive pela primeira vez um sonho que se repetiu até o fim da infância, me seguiu pela adolescência e ainda hoje, vez ou outra, volta a me visitar. Eu acordo, saio de casa, pego a perua, desço na escola, cruzo o pátio, subo a escada , entro na classe, paro diante dos meus colegas e fico ali, em pé, pelo que parece ser muito, muito tempo, todos me olhando em silêncio e eu esperando o momento em que se darão conta do que, surpreendentemente, demoram tanto a perceber : que eu estou nu, nu, de botas."  
Antonio Prata. "Nu de Botas" P.140

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

"Coisas", de Moacir Santos

“Coisas” é um álbum do um arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista brasileiro Moacir Santos, lançado em 1965. Foi dica cultural indicada pelo  "Metrópolis" de Natal... ainda que com o alerta de que, em LP, ele estaria custando mais de 3000 reais! Eu não conhecia, mas em tempos de Youtube, pude experimentar  e não consigo parar mais de ouvir! Para quem é fã de música instrumental, como eu, é um verdadeiro presente de Natal!

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

DOCUMENTÁRIO: Guimarães Rosa : O mágico das palavras

 
"...então o Guimarães Rosa, através do sertão, entra dentro do coração selvagem da língua, no caso o português, mas é algo a mais do que o português do Brasil, quem já fica enriquecido de elementos de todas as linguagens: é o fenômeno da linguagem humana." Willi Bolle (47'51" - 48'15")
"... Guimarães Rosa incorpora à linguagem culta a pala popular. Um outro recurso técnico é que Guimarães Rosa desenvolve a sensação para a língua, como algo que está ainda se construindo, algo que não está pronto..."Willi Bolle 18:10 - 18'35"
"... aquele elementos todos: biblioteca, cadernetas de viagem, listas de palavras ajudam, são elementos  subsidiários para entendermos o processo de criação. Mas, na câmara íntima da criação de Guimarães Rosa eu acho que ninguém penetrou." Willi Bolle  21'28" - 21'51" 
"... aí está um desafio para a classe culta brasileira, que se acha tão acima do universo da cultura popular, que é tolerado, como uma coisa interessante, mas não realmente admitido. Esta postura é radicalmente questionada pela introdução deste interlocutor (mudo e letrado de Riobaldo em Grande Sertão Veredas) a quem Guimarães Rosa ENSINA A OUVIR"  Willi Bolle 37: 41 -38:10 
  
Será que eu gosto do Willi porque ele tem esta leitura do Rosa, ou eu tenho esta leitura do Rosa porque ele tem? Depois de tantos anos, tudo já se confundiu para mim! rsrsrs
Mas, em minha tese, cada vez mais emerge uma hipótese que se torna cada dia mais sólida: o humano é o estabelecimento de uma relação (sempre complexa) com a linguagem. Isso é história, estória (conta história)... é humano, travessia!

Roland Dyens Trio plays "Rondo" (Paris, 1989 - live recording)

Vamos viajar nesse som?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

...Lua, lua, lua,por um momento Meu canto contigo compactua...

...Lua, lua, lua, lua 
Por um momento 
Meu canto contigo compactua
E mesmo o vento canta-se
Compacto no tempo 
Estanca
Branca, branca, branca, branca
A minha, nossa voz a tua sendo silêncio
Meu canto não tem nada a ver com a lua
Lua, lua, lua, lua ...
Caetano Veloso



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sobre A Arca de Noé de Vinicius de Moraes


Estou ouvindo a versão de 2013 de A Arca de Noé, e que emoção!
Pelo que se sabe, "foi em 1950 que Vinicius de Moraes "Começou a escrever, sem a preocupação reuni-los  em livro, poemas infantis inspirados na Biblia. Salvo um ou outro, como o dedicado a São Francisco de Assis, os poemas tinham como base a história de  Noé  e sua arca ... "  Sendo seu último projeto em vida o de transformar estes poemas em  música, que virou disco postumamente, sei de uma canção que foi gravava  em 1956 por Paulo Soledade, mas que acabou ficando de fora do disco, mas talvez tenha sido o primeiro registro de que aqueles poemas foram compostos para serem canções (a cara do Vinicius isso!)

Com isso, reparem, estamos pensando cerca de trista anos  para a realização do projeto!  Quem, como Vinicius, "perderia" tanto tempo na produção de um objeto cultural para crianças, sabendo que a infância  é tão transitôria, quando se vê, já passou ... 

São referências assim que eu quero na minha tese :  só me interessam os adultos que respeitam as crianças, que não desconsideram sua sabedoria e perspectiva de vida! 
Quem quer saber mais sobre a história de A Arca de Noé, ouça este programa maravilhoso, um dos episódios em homenagem ao centenário do poetinha, que está disponível neste link da rádio Cultura AM:



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Caetano comenta o livro "A música de Milton Nascimento", de Chico Amaral

FOI PUBLICADO HOJE CEDO NO PERFIL "FALA CAETANO", NO FACEBOOK:



"Na coluna de ontem para @[115230991849922:274:O Globo], Caetano discorre sobre o livro de Chico Amaral sobre Milton Nascimento. ___________________________________ MILTON: A MÚSICA Recebi um livro que me arrebatou. Trata-se de “A música de Milton Nascimento”, escrito por Chico Amaral. Muitas das ideias a que, ao longo dos anos, esse artista excepcional tem me levado aparecem de modo articulado pelo autor, coisa que a mim mesmo não seria possível. É preciso ser muitíssimo mais músico do que sou para captar com consciência técnica as peculiaridades harmônicas e rítmicas que fazem o mundo único de Milton aflorar em timbres e formas. Quando canto que a bossa nova é foda, estou me referindo à explosão do João Gilberto dos LPs “Chega de saudade”, “O amor, o sorriso e a flor” e “João Gilberto”, com as composições de Tom Jobim, Carlos Lyra, Roberto Menescal; as letras de Vinicius, de Bôscoli, do próprio Lyra ou do próprio Tom; as releituras de sambas de Caymmi, Ary, Bid & Marçal, Lauro Maia; os arranjos econômicos e perfeitamente elegantes de Jobim (e os de Walter Wanderley em parte do terceiro disco): foi o Big Bang. As bandas jazzísticas que apareceram depois, sobretudo no Beco das Garrafas, sendo, a meus ouvidos, apenas uma pequena regressão virtuosística. Em suma, a “bossa nova” de que falo no verso desaforado não é um gênero mas um acontecimento. Respeitei seus desdobramentos mas nunca os pude pôr no mesmo nível do ápice revolucionário. O aparecimento de Milton, coincidindo cronologicamente com o do grupo tropicalista, veio a mudar esse esquema. Ou pelo menos se apresentou como algo mais que relevante (além de intenso e genuíno) nascido de uma relação diferente com essa história: Milton desenvolveu uma visão da música que dava mais atenção aos floreios do Tamba Trio do que ao rigor fundador de João. Claro que Milton não era o único brasileiro a ser mais atraído por aqueles desdobramentos. Conheci dezenas de amantes da música que, no início dos anos 60, tendiam mais para o culto dos Zimbos e Tambas, do Donato do “Muito à vontade” — e das canções de Edu, fundamente informadas pela riqueza harmônica da bossa nova mas saindo para modos do Nordeste e para paisagens sonoras mais grandiosas. Mas Milton fez de tudo isso um mundo novo. Eu próprio, admirador de Edu (apesar de manter fidelidade estética e crítica ao minimalismo do Jobim de João), compus, em 1964, a canção “Boa palavra”, que o próprio Milton, anos depois, me disse ter sempre amado. Mas não só eu não tinha adesão estética total ao que se insinuava nessa segunda fase do momento bossanovista da nossa canção: faltava-me o talento musical para produzir algo orgânico. Terminei, no apego à exigência joãogilbertiana, indo para o ruidismo roqueiro e para a mirada pop da produção cancional. Muito mais musical do que eu, Gil percebeu a força e o significado de Milton. Bastou-lhe ouvi-lo cantar a música de Baden no festival da TV Excelsior. Quando, pouco depois, ele tomou conhecimento das composições do mineiro, era-lhe evidente que Milton era a coisa mais importante que tinha acontecido à música brasileira. De minha parte, embora me fosse óbvio que “Canção do sal” e “Travessia” fossem composições belas, só comecei a perceber algo de especial em Milton quando o conheci pessoalmente. Desde que o vi algumas vezes no Redondo (bar que ficava em frente ao Teatro de Arena de São Paulo) tive a sensação de estar diante de alguém com conteúdos muito densos — e uma forma externa à altura: a beleza de seu rosto negro valeria por si só, não fosse o sentimento indescritível sugerido por seu olhar. Mas só vim a combinar essa experiência com a música que saía dali quando, de volta de Londres, em 72, vi o show do Teatro da Lagoa. Foi o show que encantou Wayne Shorter. Em Londres, Dubas chegou com um LP “Courage”. Ouvi, admirei mas não me deixei tomar. Vendo Milton com a banda no palco, de repente entendi tudo. A música de Milton é a maior força de presença da música brasileira no mundo depois da bossa de Tom e João. Isso se deve a sua capacidade intuitiva para com as relações dos sons — e a forças atávicas, históricas e sociais da feitura de sua individualidade. (Quando vi, no resultado dos testes de DNA feitos com celebridades brasileiras, que Milton apresentava a mais alta percentagem de gens negros, pensei: tinha que ser no mínimo isso!) Primeiro a turma do jazz-fusion, depois a turma do rock e do pop: o mundo viu algo imenso erguer-se no Brasil. E o próprio Brasil passou a gerar talentos grandes que tinham tido em Milton a inspiração: Ivan Lins, Djavan, Gonzaguinha, João Bosco… Escrevo isto sob o impacto da leitura do livro de Amaral. E com o “Coração de estudante” a que o nó dos professores convida. Ainda o estou lendo, já mais perto do final. Mas não tenho outra coisa na cabeça."

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Terezinha de Jesus

Isso é :
ÁLBUM: O RITMO JOVEM NAS CANTIGAS DE RODA - 

CONJUNTO E CORO INFANTIL CBS (1967) 

A letra, na íntegra, é:


Teresinha de Jesus

Temas Infantis

Terezinha de Jesus deu uma queda
Foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos de chapéu na mão
O primeiro foi seu pai
O segundo seu irmão
O terceiro foi aquele
Que a Tereza deu a mão
Quanta laranja madura
Quanto limão pelo chão
Quanto sangue derramado
Dentro do meu coração
Terezinha levantou-se
Levantou-se lá do chão
E sorrindo disse ao noivo
Eu te dou meu coração

Dá laranja quero um gomo
Do limão quero um pedaço
Da morena mais bonita
Quero um beijo e um abraço



 Esta última parte da cantiga

 "Dá laranja quero um gomo 
Do limão quero um pedaço 
Da morena mais bonita
 Quero um beijo e um abraço" 

É um pouco estranha para mim... são variantes de tradições populares antipatiquíssimas! Achei interpretações milenares desta narrativa/ canção , advindas da Índia antiga! Por isso que as reflexões sobre História e Cultura Popular que comecei com um grupo aqui na USP, com muita razão, destacava que certos fenômenos culturais populares são muito mais complexos do que parecem ser e para nos aproximarmos e refletirmos melhor sobre eles, um caminho possível pode, sim, começar partindo de uma renovada reflexão sobre as ideias de F. Braudel sobre a Longa Duração (que não foi concluída pelo historiador que primeiro a propôs, mas foi logo deixada de lado e tomada como "modinha" velha pelos historiadores ansiosos por novidades historiográficas... mas que para alguns pesquisadores da História Cultural é assunto e questionamento presente no dia a dia... 

 Refletir sobre isso me parece ser um método possível de se escrever a História, e bem mais complexo do que montar fazer planilhas demográficas, não? rsrsrs

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Melhores momentos do Cocoricó: vai deixar muita saudade!

A TV Cultura surpreendeu, negativamente, dizendo que vai interromper definitivamente o Cocoricó. Não tenho palavras para dizer o quanto lamento e me indigno: a TV aberta não tem mais programas para as crianças, nem mesmo a TV Cultura - que já ganhou tantos prêmios internacionais pela qualidade da sua programação infantil - já não vai mais manter o seu maravilhoso Cocoricó. Talvez seja mais lucrativo e dê mais IBOPE trocar a programação infantil das mamnhã por aquele programa chatíssimo o Guia do Trânsito.Para o telespectador que não está preso no trânsito (espero que seja a maioria), é insuportável assistir aquilo. Pobres crianças, especialmente as que não possuem TV fechada... Lamentável!

domingo, 1 de setembro de 2013

"Recado de Primavera", de Rubem Braga


Quando entra setembro, sentimos que se  aproxima a  necessária primavera... nos preparando para recebê-la, compartilho um dos textos distribuídos na emocionante exposição "Rubem Braga - Fazendeiro do ar", no museu da Língua Portuguesa em São Paulo... só para lembrar que, em certos momentos, a vida NÃO  é feita só de tristeza, frio e feias visões e sentimento de fracasso ...há também a fecunda primavera!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Prefácio escrito por Moacir Scliar para o livro "Joãozito: a infância de Guimarães Rosa", de Vicente de Paulo Guimarães


“        A literatura era parte do genoma da família de João Guimarães Rosa. A filha, Vilma Guimarães Rosa, é escritora, autora de Acontecências, Setestórias, Serendipity e Por que não?. E  o tio,  Vicente Guimarães, sob o pseudônimo de Vovô Felício, tornou-se conhecido por seus livros para crianças e jovens, elogiado por ninguém menos que Monteiro Lobato. Vilma homenageou o pai em Relembramentos; Vicente, por sua vez, evoca a infância do grande Rosa neste Joãozito, oportuno relançamento da Panda Books.
          Não se trata de uma obra acadêmica, erudita. O que moveu o autor, antes de mais nada, foi um genuíno afeto. O que temos aqui, antes de mais nada, é a história de uma amizade. Vicente Guimarães não foi o tio clássico, mais velho que o sobrinho. Como às vezes acontece em famílias grandes, a diferença de idade entre os dois era pequena, cerca de dois anos. Brincavam juntos, desenvolveram carreiras literárias paralelas, e foi isto que permitiu a Vicente falar do grande diplomata e escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e candidato ao Nobel como Joãozito, simplesmente, numa narrativa que tem encanto da ficção. Nisto teria o aplauso do próprio Rosa que uma vez declarou : “Às vezes quase acredito que sou um conto contado por mim mesmo.”
          O cenário da infância foi uma pequena cidade no meio de Minas Gerais. Cordisburgo quer dizer “cidade do coração”, e esta  denominação é significativa: com o coração Rosa descobriu o mundo e as pessoas; do coração morreu, logo após a posse na ABL, em 1967. Vicente conta a história da hoje famosa Cordisburgo, fala de seus tipo populares, o Mané Galinha, o Chico Bico, o Chico Baiano, o Juquinha Guarda-Chaves, a Macota e a Maricotinha; e ao fazê-lo, já está nos introduzindo ao próprio universo ficcional rosiano, que é, como o próprio escritor afirmava, eminentemente mineiro.
          Joãozito nascera em Cordisburgo em 1908, mesmo ano em que, no Rio, morria Machado de Assis. Era o primogênito de Floduardo Pinto Rosa, juiz-de-paz e comerciante, e de Francisca Guimarães Rosa, D. Chiquinha.
           Concluiu os estudos básicos e, em 1925, com 16 anos, entro na faculdade de medicina. Mas não deixava de voltar a Cordisburgo, em férias que Vicente descreve deliciado.
          Trabalhou como médico alguns  anos, fez concurso para o Itamaraty, e, como diplomata serviu em vários países. Cônsul-adjunto em Hamburgo durante a época do nazismo, salvou muitos refugiados judeus, concedendo-lhes vistos para o Brasil. Em 1946 publica Sagarana e dai por diante sua carreira prosseguirá com crescente êxito. Apesar disto, não esquecia os amigos, com quem mantinha ativa correspondência. No que chama de “a melhor parte do livro”, Vicente Guimarães reproduz algumas das cartas que Rosa lhe escreveu e que são muito reveladoras de sua pessoa e de sua atividade como escritor: “Quando escrevo, não estou pensando em obter tal ou qual efeito cultural ou educativo. O artista é uma autarquia, sente, pensa e cria, em termos absolutos, dando expressão à sua necessidade íntima.” Para ele, o escritor deve ser humilde, independente, corajoso, profundamente sincero, infinitamente paciente.

          Uma lição de arte, uma lição de vida. Por ambas, devemos ser profundamente gratos a Guimarães Rosa” 
SCLIAR, Moacir. Prefácio. In: GUIMARÃES, Vicente de Paulo. Joãozito: a infância, p. 05-07.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

19 de agosto: DIA DO HISTORIADOR

Viva "nóis"!

E é sempre bom lembrar estas palavras do Hobsbawm, porque ainda está cheio de historiadores que ainda seguem  "receitinhas de bolo", seja de metodologicamente, seja ideologicamente, e esquecem que o Século XIX já acabou faz pelo menos um século inteiro! De qualquer forma, viva  nossa  quase-profissão (regulamentada)!

domingo, 18 de agosto de 2013

Venho de Tempos Antigos - Hilda Hilst


Venho de Tempos Antigos
Hilda Hilst

Deus pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante sorvete de cereja.
Deus: Uma superfície de gelo ancorada no riso.


Venho de tempos antigos. Nomes extensos:

Vaz Cardoso, Almeida Prado

Dubayelle Hilst... eventos.

Venho de tuas raízes, sopros de ti.

E amo-te lassa agora, sangue, vinho

Taças irreais corroídas de tempo.

Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.

Como se pisássemos em avencas

E elas gritassem, vítimas de nós dois:

Intemporais, veementes.

Amo-te mínima como quem quer MAIS

Como quem tudo adivinha:

Lobo, lua, raposa e ancestrais.

Dize de mim: És minha.

Texto extraído do encarte à edição de "Cadernos da Literatura Brasileira", editado pelo Instituto Moreira Salles - São Paulo, número 8 - Outubro de 1999.

domingo, 11 de agosto de 2013

Nas pegadas do Rosa - Mia Couto


Peço licença para divulgar aqui, na integra, a transcrição da comunicação dita por Mia Couto no Seminário Internacional Guimarães Rosa, organizado pela PUC - Minas em 1998 e que foi publicado no mesmo ano em edição especial da revista Scripta. Deliciem-se com as palavra do lindo Mia Couto.
Mia couto palestrando em outro evento em 2011, mas sempre o Mia, ...

Nas pegadas do Rosa  Mia Couto 
Digo a vocês que estou aqui em pânico, mas sinto, ao mesmo tempo, muito gosto de estar aqui convosco e partilhar. Eu sou realmente um biólogo. Sempre me perguntam o que eu sou, eu nunca digo que sou escritor, porque tem um lado triste de ser escritor, por isso digo sempre que sou biólogo.
Eu nasci numa pequena cidade que fica num pântano, no centro de Moçambique. A cidade era tão pequena que sonhava de fato ser cidade; havia um projeto de construir ali uma cidade bem no meio do lamaçal. E ela se sonhava sendo uma cidade europeia e, como uma cidade europeia e, como uma cidade europeia que sonhava ser, tinha um pequeno cinema. E nós, em tempos da minha infância, esperávamos pelo domingo, pela matinée de domingo, porque era o único espaço onde, naquela penumbra, daquela sala, nós  escapávamos daquela realidade e saíamos daquele lugar que sonhava ser cinema. Naquele lugarzinho, aos domingos, havia um funcionário que me fascinava e que era a única presença disciplinadora naquela sala. Era o arrumador, com lanterninha, de uma sala onde se fabricava o sonho. E eu sempre perseguia uma obsessão que era aquela do arrumador do cinema. Em vez de me sentar na sala, passava para o palco, para o écran,  e me arrumava para além daquela toalha luminosa, que era o lugar do sonho.
E isso vai acontecer pela mão de um arrumador, que era João Guimarães Rosa. Esse encontro deu-se de uma maneira mais fortuita.
Eu comecei a escrever poesia primeiro, depois fui escrever  contos. Eu era jornalista. E esses contos foram os primeiros contos que eu escrevi, num primeiro livro. Chama-se Vozes anoitecidas. Contos muito marcados pelo encontro que tive com o escritor que deveria estar aqui, chamado Luandino Vieira. Foi Luandino Vieira que me fez fazer este clic, e me autorizou a fazer coisa que aprecio muito fazer. As estórias que eu queria contar não podiam ser contatadas no português normal, no português que, afinal, Moçambique adotou como língua oficial.
Eu vi, mais tarde, depois de ter publicado esse livro, uma entrevista  com Luandino Vieira em que ele falava que ele tinha em mim, ele tinha a partir de um escritor que nós não conhecíamos, que se chamava Guimarães Rosa. Eu fiquei alertado, avisado, e queria muito que esses livros, desse tal escritor, chegassem até mim. Eu devo dizer que não chegavam livros do Brasil em Moçambique. Nós estávamos em plena guerra e não havia troca comercial alguma, nem cultural, com o Brasil. Então eu pedi a alguém, foi uma operação bem complicada, pedi a alguém que trouxesse um livro. E quando eu li, a primeira impressão é que eu não estava ali.
Quando chegou o primeiro livro, Primeiras estórias, houve um fenômeno curioso. Eu não conseguia entrar naquele texto. Era como se eu não lesse, ouvisse vozes, que eram as vozes da minha infância. Os livros de Guimarães Rosa quase me atiram para fora da escrita. E, para eu entrar naquele texto, eu tenho de fazer apelo a um verbo que não é o verbo ler, que é um outro verbo que provavelmente não tem nome.   O que me tomava principalmente  não era a invenção de palavras, mas havia ali uma poesia, a tal arrumação que funcionava muito como os dançarinos de Moçambique, os dançarinos da África em geral, naquele exato momento em que eles estão entrando  em transe para serem possuídos pelos espíritos. Aquele  flagrante  daquele momento em que aquilo já não é dança, mas já é outra coisa. Era isso que acontecia naquela linguagem. Era uma linguagem, quase uma linguagem de transe, que permitia que  outras linguagens tomassem posse dela. E isso era fundamental num país em que há uma amálgama, há uma ficção que se chama Moçambique.  Moçambique não é uma nação ainda, é um projeto de nação, portanto é uma espécie de categoria  ficcional que nós estamos inventando, numa situação em que existem vários povos com suas próprias línguas, numa situação em que 80% não tem a língua portuguesa como língua materna, em que há muita gente que não fala sequer português. Nessa circunstância é urgente que haja esse tipo de linguagem que é como a dos dançarinos a que me referi e como a linguagem que Guimarães Rosa usa e que permite essa situação de pulsão e de troca de diálogo, de cultura, para criarmos este corpo que ainda é um projeto  e que é Moçambique.
Eu, quando penso sobre a questão de Guimarães Rosa, de Luandino Vieira e nesse tipo de trabalho literário que estou fazendo em Moçambique, eu imagino que entre esses três casos existe uma relação que eu gostava de tocar aqui, que não é literária.  Para que o escritor chegue a esse relacionamento com esse tipo de linguagem, ele tem que ser, sobretudo, não escritor em momentos da sua vida. Ele tem que escapar daquela lógica, que é a escrita enquanto sistema de pensamento. Então significa que em qualquer um desses casos - Luandino Vieira esteve preso, não sei quantos anos, 14 anos, 17 anos -, num lugar onde a palavra devia ter peso, ela se transforma numa espécie de espaço redentor de salvação.  Guimarães Rosa reencontrou esse encantamento da linguagem, da fala, da anedota, do provérbio.
No meu caso, em particular, digamos, eu cheguei a essa possibilidade da escrita pelo lado não-literário, pelo lado da não escrita também, pelo lado da oralidade. Eu vivo num país onde os contadores de histórias têm grande importância. Nessas zonas rurais eles são, de fato, os grandes defensores, os grandes reprodutores dessa via antiga dos valores rurais. Os contadores de histórias têm um sistema muito ritualizado de narrar, o que é cerimônia muito coplicada, com interdições: não se pode contar histórias de dia porque senão fica careca, tem que contar histórias de noite. E dos rituais, uma das normas é que o contador de histórias nunca se intitule ele próprio um criador; ele está reproduzindo a palavra divina dos antepassados.
Então, no final, ele tem de fazer uma operação bem delicada que se chama o fechamento da história, ele tem que fechar a história. E ele chega ao fim da história, é como se falasse com a história, como se a história fosse uma entidade, ele vira para ela e diz : ‘Voltem para a casa, Zavane e Guama (serão o equivalente a Adão e Eva, o primeiro casal humano). E é dentro desta caixa que estão as estórias’. Então ele diz: ‘Voltem para a casa, Zavane e Guama’. Se ele faz isso, a assistência fica doente e é chamada uma doença de sonhar. E João Guimarães Rosa foi, para mim, um contador que não fechou a história e que nos deixou, pelo menos para mim, essa incurável doença e sonhar.
Muito obrigado.
______________________________________________________________________
COUTO, Mia. Nas pegadas do Rosa. In: Scripta (Edição especial do Seminário Internacional Guimarães Rosa), Belo Horizonte, v. 2, no. 3, p. 11-13, 2 sem. 1998.



sábado, 3 de agosto de 2013

O Amor na obra de Guimarães Rosa - Benedito Nunes (trecho)


“Esses personagens – o Menino, a Menina, o Jovem – dados a encanamento e sortilégios, munidos dos dons extraordinários, e que podem ter das coisas uma visão mais completa do que a comum, pertencem a uma só família mítica. A infância ou a juventude é neles um estado de receptividade, de sabedoria inata, e tem duplo sentido: por um lado, remorso e nebuloso passado, que se confunde com as origens, e, por outro lado, prenúncio de um novo ser, ainda em esboço, que advirá do que é humano e terrenal. Sob o primeiro aspecto, essa infância simboliza a alma que nasceu da Unidade primordial e que, por isso, ainda participa da indistinção caótica, anterior à separação dos elementos e ao conflito dos princípios opostos do mundo sensível. É, por esse lado, potência obscura, indefinida, cuja natureza oscila entre o divino e o diabólico. Mas se assim é em seu aspecto noturno, ancestral, o símbolo da infância, desentranhável dos  personagens a que nos reportamos, exprime, em sua face luminosa, a ideia de um novo nascimento, de reintegração da alma dividida, a qual deverá recuperar a sua unidade congênita e ingressar num estado de plena harmonia consigo mesma, harmonia que superará os contrários –o  masculino e o feminino- que a dividem no estágio terreno de sua peregrinação.

O infante de Guimarães Rosa, pelo seus atributos míticos, pelo seu caráter peregrino, abrange simbolicamente esses dois nascimentos. Por isso é que a estirpe do Menino, com seus muitos avatares, da menina encantada e do Rapaz alado, é espécie representativa de um padrão mitológico, uma essência arquetípica, inserta nas formas religiosas arcanas, e que tem servido de conduto à imaginação poética: a Criança Primordial.

A Criança Primordial ou Criança Divina, ocupa, segundo Jung, um campo mitológico versátil. Apesar de corresponder a certas formas significativas, arquetípicas, as suas manifestações fenomênicas variam: menina algumas vezes, menino de ouro outras e, ainda, jovem, efebo alado, semelhante a representação pictórica do divino Eros (...)

O andrógeno, a que se refere Platão em O Banquete, é a espécie primitiva da humanidade, que se teria dividido em dois seres incompletos que se buscam, movidos pela força original do Eros, cada qual ativada por um princípio complementar do outro. Da união deles resultaria a coincidentia oppositorum.

A Criança Primordial ou Criança Divina pertence a um domínio que é comum à simbologia erótica e mística, porque representa a final restituição do homem à divindade ou, numa interpretação mais condizente com o ensino das correntes ocultistas, que admitem a adroginia, da final conversão do humano ao divino.

O andrógino, desse modo, comporta os mesmos aspectos retrospectivos e prospectivos do infante mítico, da Criança Divina, que Guimarães Rosa recriou poeticamente com seus meninos sábios e extremamente sensíveis, - um dos quais devassa o passado imemorial, chegando ao domínio fugidio das reminiscências – como seu jovem alado, prenúncio de um novo ser, tal como aquele que, na operação alquímica , destinada a produzir a pedra filosofal, resultaria na conjunção dos opostos, encarnando a própria natureza da alma purificada. Reminiscência de um estado originário que foi perdido, a Criança Divina é também a superior excelência de um estado ideal a conquistar. Além dessa ambilência no tempo, ela possui o caráter ambíguo das teofanias primitivas, peculiar à dialética do sagrado, do numinoso. Seduz e fascina, aterroriza e inquieta. Força ambígua, seus efeitos ora tão benéficos ora maléficos,  podendo ser fonte do Bem ou causa do Mal. Possui um polo luminoso, amável e propício, e outro sombrio, repelente e hostil, um polo divino e um polo demoníaco, reversível, pois que o diabo fascina e Deus é, por vezes, sombrio e tortuoso.”
NUNES, Benedito. O Amor na obra de Guimarães Rosa, p. 161-4.
 
Tenho uma relação muito ambígua com este texto, eu amo, concordo, mas não plenamente, tenho MUITA DIFICULDADE com algumas coisas expressas ali... sei que eu vou ter que me haver com ele, muitas vezes... vamos ver
 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O Mito da infância feliz: antologia

 
Achei este  livro  aleatoriamente, ontem na biblioteca ... e é  muito interessante! Trata-se de uma antologia de depoimentos sobre o "lado não tão feliz" da infância de algumas personalidades. O fato delas serem quem elas são (pessoas verdadeiramente ligadas ao mundo infantil, justamente as que a gente apostava terem sido crianças puramente felizes na infância, como Ana Maria Machado, Fanny Abramovich, Ruth Rocha etc) torna o livro mais verdadeiro e mais interessante. Diz a contra capa:
"Que espécie de verdade estamos passando às crianças quando lhes dizemos que temos inveja da felicidade e que vivem nos anos da infância? É o esta oportuna antologia questiona, mediante textos perplexos, dilacerados, irônicos, sofridos, de autores que atuam em diferentes campos profissionais, tendo em comum a capacidade de expressarem em termos atuais suas posições e - mais importante- todos tem algo a dizer. Para refletirmos, para discutirmos, para ampliarmos nosso horizonte de compreensão da criança."
ABROMOVICH, Fanny. (org). "O Mito da infância infeliz: antologia". São Paulo: Summus Editorial, 1983. (Série Novas buscas em educação). 


Muito interessante, não acham?

domingo, 7 de julho de 2013

Quartas Estórias e a consolidação do cânone literário que, antes de tudo, vende!

 
Eu comprei este livro e não tinha gostado muito dele. Até comentei que achei só legalzinho, nada demais... porque, como eu temia, a maior parte dos textos é inspirada em passagens do Grande Sertão, algumas poucas em Sagarana e uma ou outra no Corpo de Baile. Inspirado nas Primeiras Estórias, pelo que vi, só um texto a partir de Famigerado, e sobre Tutameia: nada. Isso é comum na recepção crítica que Rosa tem até hoje e é claro que se trata da solidificação de sua imagem  como autor de determinadas obras canônicas, ok. Eu nem sei se deveria achar isso ruim, mas de qualquer forma eu não gosto nada disso! Eu gosto muito da segunda fase do Rosa, acho que continua sendo uma escrita densa, repleta de significados e cada vez mais caindo para o poético.
Agora fui pesquisar um pouco na editora Garamond e vi do que se trata realmente este livro: é mesmo para comemorar datas cabalísticas e tentar vender mais livros...
No site da editora está escrito assim:
Este livro é uma homenagem, respectivamente, aos 60 e 50 anos de lançamento das duas obras-primas de Guimarães Rosa, Sagarana e Grande Sertão: veredas. Reflete tanto a atualidade da obra de Rosa quanto suas diferenças com relação ao mundo em que vivemos, estabelecendo um diálogo entre diferentes aspectos do Brasil e da literatura.
Ao encarnar o desafio de recriar as histórias de um autor tão especial para a literatura do Brasil e do mundo, Quartas Histórias atesta o talento de 40 escritores brasileiros contemporâneos, alguns ainda bem jovens, e a vitalidade da nossa literatura contemporânea. Trata-se de uma obra marcada pelo vigor, pela ousadia e pela atualidade.
Os contos de Quartas Histórias podem ser lidos e entendidos independentemente de o leitor conhecer ou não as histórias de Guimarães Rosa. Eles podem inclusive despertar a curiosidade dos mais jovens pela obra do grande autor mineiro.
AUTORES QUE PARTICIPAM DE QUARTAS HISTÓRIAS
Aleilton Fonseca, Amador Ribeiro Neto, André Sant’Anna, Antonio Carlos Secchin, Antonio Carlos Viana, Ataíde Tartari, Bernardo Ajzenberg, Carlos Gildemar Pontes, Carlos Ribeiro, Cecília Prada, Deonísio da Silva, Fabrício Carpinejar, Fernando Bonassi, Geraldo Maciel, Godofredo de Oliveira Neto, João Anzanello Carrascoza, José Castello, José Rezende Jr., Leila Guenther, Luzilá Gonçalves Ferreira, Marcelino Freire, Marcelo Carneiro da Cunha, Maria Alzira Brum Lemos, Marilia Arnaud, Mário Chamie, Miguel Sanches Neto, Nelson de Oliveira, Nilto Maciel, Paulo Franchetti, Pedro Salgueiro, Raimundo Carrero, Ricardo Soares, Rinaldo de Fernandes, Ronaldo Correia de Brito, Ruy Espinheira Filho, Sérgio Fantini, Silviano Santiago, Suênio Campos de Lucena, Tércia Montenegro e W. J. Solha.
SOBRE O ORGANIZADOR
Rinaldo Fernandes é escritor, pesquisador e professor de literatura, atualmente na Universidade Federal da Paraíba. É autor de livros de contos e romances, além de organizador das coletâneas O Clarim e a Oração: cem anos de Os Sertões; Chico Buarque do Brasil e Contos Cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira.
Quem sabe um dia Guimarães Rosa vai interessar para além da sua capacidade de produzir mercadoria...
De qualquer forma, fica  a dica para quem se interessar.

domingo, 30 de junho de 2013

Alimentação das crianças brasileiras


 
Alimentação das crianças brasileiras

Dois alimentos tradicionais para crianças são o pirão de leite e o pirão escaldado, com ovos cozidos, ‘cabeça de galo’, infalível na idade escolar. O pirão de leite acompanhava picadinho de carne, n’água e sal. Depois bebia-se o caldo do cozido.
            Leite quase nenhum. Ou nenhum. A primeira reação era do próprio interessado:
-‘Sou lá menino novo para beber leite!’
Verduras, hortaliças, sopas, nada. O brasileiro detesta, em regra geral, possuir uma pequenina tarefa em casa, uma horta no quitalejo. E tudo sempre foi muito caro para a pecúnia popular.
Bolacha ou pão com café pela manhã. Munguzá, milho cozido com leite de côco, bem mais comum entre o povo que o de gado. Cuscuz de milho. Durante o dia os engodos sedutores nos tabuleiros da rua, cocada, bolo preto, cajicão, a puxa-puxa para enganar, depois estilizada no plano da resistência pelo ‘pirulito’ moderno, dourado, doce e sujo. Menino de rua , sempre comendo  e empre faminto. Infinitamente menor o uso do amendoim na alimentação brasileira. Na África Ocidental e Oriental é básico. No Brasil, de onde viajou, é uma gulodice, um passatempo, sem a indispensabilidade africana.
            Dos alimentos-guloseimas recordo a farinha de castanha, a de milho, a pipoca, presentemente industrializada e servida salgadinha, aos elegantes. A simples e gostosa farinha de mandioca com açúcar ou rapdura pilada. O mel de engenho. O Jerimum, batata, com leite são acepipes sertanejos, assim como a farinha com leite e açucar. E os favos de mel mais encontradiços que no litoral. E as frutas do mato, procuradas nas safras e nunca intencionalmente plantadas. A colheita sistemática sem cultivo fê-las rarear e algumas espécies desapareceram dos arredores das cidades onde abundavam.   
            Como a criança tem a vocação pela fruta, comendo-a em maiores quantidades e frequência que o adulto, há também a sabida habilidade de localizar as árvores frutíferas em maturação, quando quase toda a gente ignora. Também, antigamente, as mulheres do povo que iam às frutas, nos morros e  tabuleiros no Nordeste, eram acompanhadas pelos filhos menores, tornados depressa veteranos na identificação da pomicultura selvagem e utilização de seus sabores. Faziam mesmo um pequeno comércio de frutas nativas nas cidades, depois de impossível continuação pela morte das fruteiras ou avanço  dos arrabaldes, ocupando o que dantes era baldio, povoado de frutos. Esse aspecto era idêntico às populações do Sul e Centro e, Pará e Amazonas, verificava-se semelhantemente, quanto ao oferecimento de frutos colhidos nas cercanias das cidades e que foram extintos pelo desenvolvimento urbano.
            Outra fonte de alimentação infantil, nas cidades e vilas marítimas, são os moluscos e crustáceos nos mangues, alagados e pedras que empoçam água, guardando peixinhos que aguardam a vinda da preamar. No comum os mangues eram povoados pelos meninos, ‘catando’ siris e ‘caçando’ goiamuns. Já não os vejo presentemente nos manguais desertos, unicamente campos de pesca de adultos.
            Como, sem necessidade alimentar mas atendendo ao irresistível apelo da idade e da ecologia fascinante, fui pescador de manjubas e mores no rio Potengi, na convivência dos grupos de meninos de todas as classes, presto um depoimento de testemunha, de fato e de direito.”     
 
 
 
 
CASCUDO,  Luís da Câmara.História da Alimentação no Brasil (cozinha brasileira). São Paulo: Cia Editora Nacional, 1968. 2 V., p. 304-6
 
 
 

 

domingo, 16 de junho de 2013

Tatiana Belinky : ficou ainda mais encantada hoje! Saudade!



"Uma vez me perguntaram qual é a figura feminina mais importante da literatura brasileira? E eu disse, olha, a Capitu que perdoe - eu gosto muito dela-, mas pra mim a maior feminina figura do Brasil , é a  Emília!" Tatiana Belinky (1:40)

 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Hilda Hilst e sua "paixão sensorial pelos sons ou pelo desenho das palavras, por sua grafia..." Leo Gilson Ribeiro

 
Em entrevista ao crítico literário Leo Gilson Ribeiro, que foi publicada recentemente na  coletânea de entrevistas de Hilst "Fico besta quando me entendem", organizada por Cristiano Diniz,a poeta comenta:
 
"O ummm russo, com essas reverberações ameaçadoras do m depois do u profundo, abissal, u sinto como demais verdade, sensorial, é um barulho que vem de dentro, perigosíssimo, talvez o homem tenha extrapolado a utilidade do intelecto, talvez se tivesse tido noção da periculosidade implícita desse som, sei lá, mântrico, aterrador, seria outra coisa o intelecto e não esse ummm apavorante " Hilda Hilst, 1980.
 
Temos também trechos de divulgação do livro :

 
 

domingo, 9 de junho de 2013

Como as crianças ensinam o Ser Humano a contar sua História?


Citando  Walter Benjamin:

(as crianças) Sentem-se irresistivelmente atraídas pelos detritos que se originam da construção, do trabalho no jardim ou na marcenaria, da atividade do alfaiate ou onde quer que seja. Nesses produtos residuais elas reconhecem o rosto que o mundo das coisas volta exatamente para elas, e somente para elas. Neles estão menos empenhadas em reproduzir as obras dos adultos do que estabelecer uma relação nova e incoerente entre esses restos e materiais residuais. Com isso as crianças formam o seu próprio mundo de coisas, um pequeno mundo inserido no grande.” (BENJAMIN, Walter. Livros infantis, velhos e esquecidos, p. 57-8.)    



 Nesta foto, com "detritos" de lápis de cor (nada mais infantil),  vemos como as crianças podem reinventar a partir de restos, que era o que interessava Walter Benjamin,  que postulou que assim também podemos aprender com elas a escrever a História! Como diz Sonia Kramer, em excelente citação: “Walter Benjamin já nos alertava para o fato de que o homem faz história, de que existe a possibilidade de fazer história, porque temos a infância" (KRAMER, Sonia. Prefácio do livro A Infância vai ao cinema. p. 08.)
 
 
 
 
 
 
 

domingo, 2 de junho de 2013

Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa


“ASCENDINO LEITE: - E a sua infância?
Mirando-me fixamente, os olhos brilhando por trás das lentes grossas, o autor de Sagarana acentua, com certa ironia:
GUIMARÃES ROSA:- Não gosto de falar de infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando, comandando, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Já era míope e, nem mesmo eu, ninguém sabia disso. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas tempo bom, de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagens, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas, numa combinação mais limpa e mais plausível, porque  - como muita gente já compreendeu e já falou – a vida não passa de histórias mal arranjadas, de espetáculo fora de foco. A arte e o céu serão, pois, assunto mais sério, e também são países de primeira necessidade...”   
 
LIMA, Sônia Maria Van Dick. (org.).Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa em 26 de maio de 1946. João Pessoa: Editora UFPB, 1997, P. 39.

sábado, 1 de junho de 2013

A infância para Walter Benjamin


“Benjamin não ressalta a ingenuidade ou inocência infantis, mas, sim, a inabilidade, a desorientação, a falta de desenvoltura das crianças em oposição à “segurança” dos adultos. Mas essa incapacidade infantil é preciosa: não porque ela nos permite lançar um olhar retrospectivo comovido e cheio de benevolência sobre os coitadinhos que fomos, ou que nos cercam hoje. Mas porque contém a experiência preciosa e essencial ao homem do seu desajustamento em relação ao mundo, da sua insegurança primeira, enfim, da sua não-soberania. Essa fraqueza infantil também aponta para verdades que os adultos não querem mais ouvir: verdade política da presença constante dos pequenos e dos humilhados que a criança percebe, simplesmente porque ela mesma, sendo pequena, tem outro campo de percepção; ela vê aquilo que o adulto não vê mais, os pobres que moram nos porões cujas janelas beiram as calçadas, ou as figuras menores na base das estátuas erigidas para os vencedores. A incapacidade infantil de entender direito certas  palavras, ou de manusear direito certos objetos também recorda que, fundamentalmente, nem os objetos nem as palavras  estão aí somente à disposição para nos obedecer, mas que nos escapam, nos questionam, podem ser outra coisa que nossos instrumentos dóceis.

As imagens da infância evocadas por Benjamin tentam pensar aquilo que, profundamente, jaz neste prefixo in – da palavra infância. O que significa para o pensamento humano essa ausência originária e universal de linguagem, de palavras, de razão, esses logos que não é nem silêncio inefável, nem mutismo consciente, mas desnudamento e miséria no limiar  da existência e da fala?  Retomando essa questão, Giorgio Agamben nos indica que essa experiência inefável da in-fância – inefável não porque seria um início paradisíaco além das palavras, mas porque in-fância está aquém das palavras, ao mesmo tempo sem palavras, sem linguagem e, porém, condição de possibilidade de sua eclosão –, que essa experiência da infância ‘exclui que a linguagem possa se apresentar como totalidade e verdade’. Nem no domínio do pecado nem jardim do paraíso, a infância habita muito mais, como seu limite interior e fundador, nossa linguagem e nossa razão humanas. Ela é o signo sempre presente de que a humanidade do homem não repousa somente sobre sua força e seu poder, mas também, de maneira mais secreta,  mas tão essencial, sobre suas faltas e suas fraquezas, sobre esse vazio que nossas palavras, tais como fios num motivo de renda, não deveriam encobrir, mas sim, muito mais, acolher e bordar. É porque a in-fância não é a humanidade completa e acabada, é porque a infância é, como diz Lyotard, in-humana, que talvez, ela nos indique o que há de mais verdadeiro no pensamento  humano: a saber, sua incompletude, isto é, também, a invenção do possível.” 
 Jeanne Marie Gagnebin. Infância e Pensamento. In : 7 aulas sobre linguagem, memória e história, p. 179-81.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Criança crionça e o nonsense para crianças

Este CD é delicioso, eu amo! Se quiser saber mais, acesse este link. Hoje eu achei esta resenha, escrita por Carlos Adriano, que explica muita coisa sobre ele, copio ela abaixo:


CANÇÃO E POESIA
Nonsense para crianças
Por Carlos Adriano
Cid Campos faz versões musicais de textos de Edward Lear, Lewis Carroll, Augusto de Campos e Paulo Leminski

Fazer arte para criança não é brincadeira. Por mais que elas adorem artes, manhas, bricolagens e desmontagens de jogos (o prazer do batoteiro bakhtiniano), e os adultos teimem em tentar adivinhar como agradá-las, surpreendê-las e educá-las.
Se o desenho permite às crianças um grau de empatia imediata pelo reconhecimento (do) visível, a música opera em esfera abstrata e menos aparente, livre da representação do mundo. Sem as conveniências da identificação da visualidade e da absorção inconsciente da música, a literatura, por jogar justamente com palavras, enfrenta outras armações para falar à criança, do aparato lógico de código às convenções da linguagem verbal.
Os dois escritores que mais se empenharam em desmontar os artifícios das palavras e das gramáticas tendo como suposto público-alvo as crianças –e que lograram executar a tarefa com um artesanato de humor lúdico– são homenageados pelo músico Cid Campos em seu CD recém-lançado “Crianças Crionças”.
Poemas de Edward Lear (1812-1888) e de Lewis Carroll (1832-1898) traduzidos por Augusto de Campos, pai de Cid, formam o núcleo do disco lançado pelo Selo Sesc (R$ 15,20). Na ciranda-constelação, rodam ainda poemas do próprio Augusto, de Haroldo de Campos (1929-2003), de Luis Turiba, de Paulo Leminski (1944-1989) e de Walter Silveira.
Os textos dos dois escritores ingleses da era vitoriana eram destinados (ou assim se faziam crer, ou assim se queria acreditar) à leitura das crianças, mas, por outros sentidos graças a trocadilhos e jogos de linguagem, sua voltagem de invenção e ironia atraiu a literatura e a crítica da alta modernidade.
Edward Lear é considerado o criador do gênero “nonsense”. Suas obras “A Book of Nonsense” (1846) e “Nonsense Songs, Stories, Botany and Alphabets” (1871) contêm poemas e ilustrações de sua autoria. Lewis Carroll (1832-1898) é o celebrado criador de “Alice no País das Maravilhas” (1865) e “Alice Através do Espelho” (1872) e seu gosto pela fotografia ilustra seu escopo com a imagem.
Mas a era vitoriana não nos deu apenas o “nonsense”, os “limericks” de Lear e as “portmanteau words” de Carroll. Numa época em que assistiu as diversões assumiram-se como espetáculos urbanos e populares (teatros de variedades e projeções de lanterna mágica, por exemplo), o período foi pródigo em exibir uma sorte de gadgets e dispositivos de ilusão por imagens ópticas e mecânicas que conjuraria (n)o cinema.
Émile Reynaud (1844-1918) foi o criador do engenhoso Teatro Óptico, que apresentava no Musée Grévin (Paris) suas “pantomimas luminosas”. O papel de pioneiro do cinema imprimiu-se pelo seu dispositivo: a projeção de filmes pintados e desenhados sobre uma banda flexível com imagens sequenciais, de inspiração infantil e juvenil. Um de seus filmes mais famosos foi o poético “Pobre Pierrot!” (1892).
Não era um espetáculo propriamente para crianças, mas é impossível não se deixar encantar pela tentação de correspondências entre o olhar daqueles espectadores que testemunhavam a inauguração de uma forma de imagens em movimento (nos tempos do pré-cinema e do cinema dos primeiros tempos) e o olhar virgem de uma criança.
Não se insinua aqui uma analogia entre distantes e diferentes tempos históricos, mas sugere-se uma im/provável hipostasia poética. É óbvio e natural que a percepção de crianças do fim do século 19 guarda um abismo de especificidades e diferenças com relação à percepção de crianças do início do século 21.
Hoje as crianças já nascem dominando a cultura do “copy & paste”, a bricolagem digital é quase intuitiva e natural, não gera nenhum espanto ou maravilhamento como as invenções optico-mecânicas de cem anos atrás. Mas é curiosa a correspondência entre o olhar (por essência e natureza) tabula-rasa de uma criança e o olhar não-domesticado (e não ingênuo) do espectador que via nascer a projeção de imagens em movimento.
É possível entender a bricolagem digital ("copy, cut, paste") como uma extensão genérica do cinema de animação, que não é só desenho animado, mas, sobretudo, já na origem, efeito, truque, trucagem, expedientes que funcionam como plataformas da aventura da fantasia e fazem a imaginação viajar. O espírito da bricolagem não deixa de ser um contraponto à descontrução do espírito do batoteiro.
O primeiro artista do gênero foi Georges Méliès (1861-1938), prestidigitador amador que comprou o teatro de Robert-Houdini e encenava a magia do dispositivo, em filmes como “Viagem à Lua” (1902) e “Viagem Através do Impossível” (1904). Émile Cohl (1857-1938) foi pioneiro da animação, com filmes de desenho animado e filmes que usavam a colagem, como “Fantasmagoria” (1908) e “Drama Entre os Fantoches” (1909).
Pelo teor dos textos e o tratamento musical, “Crianças Crionças” evoca essa sensação de um leitor-ouvinte estar descobrindo algo em seu momento inaugural. Os arranjos filiam-se à operação de bricolagem, pelos procedimentos digitais de produção e composição de música atualmente. A sobreposição de melodias e timbres e o humor da mixagem propõem rimas ao nonsense, às rodas de brincadeiras, ao bricabraque das crianças.
Os poemas e jogos de linguagem e de sentido foram trabalhados musicalmente por Cid Campos em arranjos de balada e salsa, blues e bossa nova, xote e country. Das 15 faixas, 7 são compostas de traduções (ou versões) de Lear (“A Pata e o Canguru”, “A Mesa e a Cadeira”, “Alface”) e de Carroll (“Canção da Falsa Tartaruga”, “Recado aos Peixes”, “Poema-cauda”, “O Mocho e a Gatinha”), realizadas por Augusto de Campos.
As traduções de Lear feitas por Augusto são inéditas em livro, incluindo a quadra “Do ‘Auto-Retrato de Edward Lear’” (de “How Unpleasant to Know Mr. Lear”; a tradução do poema inteiro também permanece inédita), que funciona como epígrafe introdutória no encarte, mas não foi musicada.
As traduções de Carroll feitas por Augusto estão todas (a partir de trabalhos de 1971 e 1973) em “O Anticrítico” (1986), com o estudo em “prosa porosa” “Lewis Carroll: Homenagem ao Nonsense” e quatro traduções, entre elas a radical “Jaguadarte”, que Arrigo Barnabé musicou e Tetê Espíndola gravou em “Pássaros na Garganta” (1982).
“Canção da Falsa Tartaruga” e “O Mocho e a Gatinha” foram gravadas por Adriana Calcanhotto, em “Partimpim” (2004), com Cid fazendo a segunda voz. Calcanhotto entusiasmou-se ao ouvir “Alface” no estúdio do músico e gravou-a em “Partimpim 2” (2009), que traz ainda a composição de Cid para “As Borboletas” de Vinícius de Moraes.
“A Pata e o Canguru” (“'A minha vida é muito chata, / Estou cansada de ser pata. / Quero você pra meu guru!’ / Disse a pata pro canguru”) e “A Mesa e a Cadeira” (“‘Que tal dar uma saída, / Bater papo, isso é que é vida! / Vamos, chega de madeira!’ – Disse a mesa pra cadeira”) são duas baladas sobre improváveis cantadas de bichos e móveis.
Em “Alface” (“Alface! Ó alface! / Faça-se, ó faça-se. / Ó alface, afinal, / Faça-se o nosso al- / Moço, face a face, / Ó alface!”), a rotação da canção sobre si mesma (pela linha melódica e pela textura dos instrumentos) sugere o sentido espiral da figura da verdura e da aliteração das palavras.
A harmonia da “Canção da Falsa Tartaruga” parece mover-se no mesmo passo em falso do ralentar do réptil, fazendo da escansão dos versos e da defasagem na sobreposição de versos tateios de um rastro em busca de bocados (“Quem não daria tudo só para beliscar essa bela sopa?”).
Em “Recado aos Peixes”, a música sibilina em acorde com a hesitação da ação e a suspensão de sentido: “Saquei então de um saca-rolhas / E fui eu mesmo atrás das bolhas. / E ao ver a porta já cerrada, / Bati, toquei, topei, que nada! / E ao ver a porta ali, zás-trás, / Girei a maçaneta, mas...”.
A fisionomia gráfica de “Poema-cauda” equivale à divisão frásica de trocadilhos e à modulada escala vocal, em batida country: “Disse o / Rato pro / Gato: / – Um julga- / Mento / Tal, sem / Juiz nem / Jurado, / Seria um / Dispa- / Rate. / – O juiz / E o jurado / Serei eu, / Disse / O gato, / E tu, / Rato / Réu / Nato, / Eu con- / Deno / A meu / Prato”.
A harpa midi e o vibrafone em “O Mocho e a Gatinha” geram um contraponto de extrações sonoras para outro conto de namoro: “O mocho e a gatinha foram pro mar / Num lindo bote verde-ervilha. / Eles tinham mel e grana a granel / E uma nota de uma milha”.
Além das versões de Lear e de Carroll, o disco traz dois poemas inéditos de Augusto, feitos para este disco: “Criança Crionça”, inspirado nas palavras do poema-desenho de sua neta (e filha de Cid) Julie, e “A Gaita do Jabuti”, inspirado numa lenda tupi de “O Selvagem” (1876), de Couto de Magalhães, e adaptando-a para fazer soar a gaita, curiosamente um instrumento tocado por Augusto, na faixa “Flor da Boca” do disco de Cid “No Lago do Olho” (2001).
Outra letra de Augusto, “De Ninar” foi gravada por Cid em “Canções de Ninar” (1992) da dupla “Palavra Cantada” (Sandra Peres e Paulo Tatit), que viria a se especializar em músicas infantis. O novo CD de Cid traz ainda poemas de Haroldo de Campos (“A Gata Lady Bi”), Luis Turiba (“Ver (durinhas), Frutóides e Legu (mimosas)”), Paulo Leminski (“A Lua no Cinema”) e Walter Silveira (“O Desafio”, “Garça”).
A canção “Criança Crionça” vale-se da metamorfose de moda de viola, combinando violão, viola 10 cordas, mandolim e harpa midi às vozes de Cid e Leo Cavalcanti (que participa dos vocais em outras nove canções), nas pistas das manchas que camuflam e enganam os sentidos: “Mas uma criança / Chamou a responsa / Criou uma dança / A dança da onça / Criança crionça / Crionça criança / Dançando essa dança / A onça desonça / Despança / Dispensa / Sua comilança / E hoje só pensa / Em dançar a dança”.
Em “A Gaita do Jabuti” (“Jabuti tinha uma gaita / E saía pela mata, / Tocando todo janota. / A onça, invejosa-nata, / Queria, queria a gaita / ‘Me dá tua gaita, jabota!’”), o arranjo dispõe do instrumento do título e do banjo para deixar respirar e engraçar as rimas em “ata” e “ota”.
Para encerrar o CD, “De Ninar” (“Na água parada / O peixe não faz nada / Nada nada nada / E a criança o que faz? / Dorme dorme dorme / Que amanhã tem mais”), em que os sentidos de substantivos e de verbos embalam o acalanto composto por viola, sanfona e percussão.
Uma primeira audição geral dá a impressão de que as canções escapam de um previsível tom infantil que se convencionou adotar para produções do gênero. O teor da infância parece residir mais nas texturas dos textos, com suas brincadeiras de linguagem, e nas texturas musicais, com suas combinações de ritmos, melodias e harmonias, o que cria um tom de estranhamento afinado ao tom do nonsense.
No texto que apresenta o disco e consta do encarte, Adriana Calcanhotto, que adota a persona de Partimpim em seus discos para crianças, aponta a fluidez e a naturalidade das canções conseguidas por Cid a partir de poemas de métrica intrincada e invenção vocabular, e lembra a íntima convivência do músico com a poesia, já em família.
Neste ano, em que lançou na revista "Errática" o clip-poema “TVGRAMA 3” e o poema-filme “Statue of Victory: Profilograma” (roteiro sousandradino de bricolagem de imagens que contou com a contribuição musical de Cid) e publicou dois livros de tradução de poesia – “Byron e Keats: Entreversos” (ed. da Unicamp) e “August Stramm: Poemas Estalactites” (ed. Perspectiva) –, Augusto de Campos também assina o projeto gráfico do CD, como costuma fazer com seus livros.
Além de ilustrações de sua autoria, Augusto valeu-se dos desenhos de Lear e de John Tenniel (1820-1914), considerado o melhor ilustrador de Carroll. Na capa do CD e reproduzido no encarte com variações cromáticas, um poema-desenho de Julie Bozon de Campos, filha de Cid e neta de Augusto, feito quando tinha sete anos.
Por que um CD como “Crianças Crionças” não é adotado como material didático nas escolas? O selo Sesc já atesta o estatuto educacional do produto e o timbre da literatura musicada, com o lastro de criação e competência de um dos maiores poetas e tradutores da língua portuguesa, é outro atributo que justificaria que um CD como este tocasse nas salas de aula e tocasse também com outros sons o processo de aprendizagem.
Com seus poemas e desenhos, mas também com seu projeto ideológico, o “Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade” (1927) apontava para um sentido órfico que faria, de cada um e de todos, alunos de poesia, alunos de música, alunos de artes. Ver com olhos livres, ver o novo com olhos novos.
Talvez haveria aí um ideal romântico, à la Rousseau, de tomar a “criança” como depositária de uma nostalgia progressista, parâmetro de uma condição de pureza do olhar e da escuta (ainda que “impuros” sejam os meios e as formas, no sentido que a mixagem e miscigenação digital propagam a contaminação de formas e suportes).