quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A voz das palavras mágicas de João Guimarães Rosa

Aleluia gente, o texto completo da minha fala no III Congresso Internacio​nal de Leitura e Literatura Infanfil e Juvenil, realizado em maio 2012, na PUCRS foi publicado nos anais do evento. O nome do texto é "A voz das palavras mágicas de João Guimarães Rosa", e o link para ler na íntegra é http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/IIICILLIJ/Trabalhos/Trabalhos/S3/camilarodrigues.pdf.

Sobre as "Histórias que os camponeses contam: O significado de Mamãe Ganso", de Robert Darnton



Na velocidade dos nossos tempos (até se pensando em ciências humanas como a História), o livro O Grande Massacre de Gatos, publicado por Robert Darnton (que eu amo) em meados dos anos 1980, para nós (leitores dos anos 2000)  um pouco datado, já que aponta tantas “novidades” na época (como as trazidas pela História das Mentalidades, que à época era mesmo a nova voga e hoje, mais de vinte anos depois, já foram quase que totalmente abandonadas pela produções de historiografia, deixando atrás de si, entretanto, algumas pegadas de todo um caminho no percurso daqueles historiadores, que agora já foram incorporadas à percepção do pesquisador. Como exemplo, neste livro, tomo alguns trechos de um texto fundamental para a minha pesquisa que estou relendo com cuidado, o salutar capítulo “Histórias que os camponeses contam: O significado de Mamãe Ganso”:   

“As grandes coletâneas de contos populares, organizadas nos séculos XIX  e início do século XX, oferecem uma rara oportunidade de se tomar contato com as massas analfabetas  que desapareceram no passado, sem deixar vestígios. Rejeitar os contos populares porque não podem ser datados nem situados com precisão, como outros documentos históricos, é virar as costas a um dos poucos pontos de entrada no universo mental dos camponeses (...)
O maior obstáculo é a impossibilidade de escutar as narrativas, como era feitas pelos contadores de histórias. Por mais exatas que sejam , as versões escritas dos contos não podem transmitir os efeitos que devem ter dado vida às histórias do século XVIII: as pausas dramáticas, as miradas maliciosas, o uso dos gestos para criar cenas – uma Branca de Neve com uma roda de fiar, uma Cinderela catando piolhos de uma irmã postiça – e o emprego de sons para pontuar as ações – uma batida à porta (muitas vezes obtida com pancadas nas testas de um ouvinte) ou uma cacetada, um peido. Todos estes dispositivos configuravam o significado dos contos e todos eles escapam ao historiador. Ele não pode ter certeza de que o texto inerte e sem vida que ele segura, entre as capas de um livro,  fornece um relato exato da interpretação que ocorreu no século XVIII.(...) Anotações da mesma epopeia, narrada pelo mesmo cantor, demonstram que cada interpretação é única. No entanto, (...) em cada caso, o cantor procede como se caminhasse por uma estrada bem conhecida. Pode desviar aqui, para fazer uma pausa, ou ali para apreciar uma vista, mas sempre permanece em terreno familiar, tão familiar, na verdade, que seria capaz de dizer que repetiu exatamente os mesmos passos dados antes. Não concebe a repetição da mesma maneira que a pessoa alfabetizada, porque não tem noção de palavras, linhas, versos. Os textos, para ele, não são rigorosamente fixos, como são para leitores da página impressa. Cria-se um novo texto ao narrá-lo, escolhendo novos caminhos através  dos velhos temas. Até pode trabalhar com material tirado de fontes impressas, porque a epopeia, no todo, é tão maior que a soma de suas partes a ponto de as modificações de detalhes mal perturbarem sua configuração geral.”(DARNTON, Robert. Histórias que os camponeses contam: O significado de Mamãe Ganso. In: O Grande Massacre de Gatos,2006. p.32-4)

  “... Um longo espaço de tempo pode parecer desagradavelmente vago a qualquer pessoa que exija que a História seja precisa. Mas a precisão pode ser inadequada, ou mesmo impossível, na História das mentalidades, um gênero que requer métodos diferentes dos empregados nos gêneros convencionais, como a História política. Visões de mundo não podem ser descritas da mesma maneira que acontecimentos políticos, mas não menos ‘reais’. A política não poderia ocorrer sem que existisse uma disposição mental prévia, implícita na noção que o senso comum tem do mundo real. O próprio senso comum é uma elaboração social da realidade, que varia de cultura para cultura. Longe de ser a invenção arbitrária de uma imaginação coletiva, expressa a base comum de uma determinada ordem social.” (DARNTON, Robert. Histórias que os camponeses contam: O significado de Mamãe Ganso. In: O Grande Massacre de Gatos,2006.p.34-9)

Além de tudo isso, me chama a atenção a diferença que o texto sutilmente  apresenta entre as histórias contadas oralmente  e suas versões escritas.   Darnton acerta quando destaca que os símbolos alegóricos (como o relação direta entre o vermelho do chapeuzinho e a conotação sexual, ou o frágil pote de vidro alegorizando a virgindade da menina no  conto) não existiam nos contos populares, mas  foram crianções literárias de alguns compiladores, como Perrault ou os irmãos Grimm. Só que, ainda assim, é com base na interpretação destes símbolos que se sustentam muitas interpretações, como a dos psicanalistas e estes a estendem para o tempo longo das lendas e  não apresentam muitos pudores em anular a visão histórica das expressões. É  como se, desde sempre e em todas as culturas, o vermelho, o vidro tivessem significado a mesma coisa  e por isto esses contos seriam  quase que "Histórias Primordiais" (DARNTON,, 2006. P.37). Quando, na verdade,  estes símbolos e seus significados  foram criação dos próprio psicanalistas intérprete.
Porém, se a interpretação psicanalítica parece não servir muito para a História antropológica de Darnton, já que  não seria possível dizer nada sobre o que pensam os populares sobre símbolos que não aparecerem em suas expressões orais; penso que é muito significativo para o historiador que se debruça sobre as narrativas literárias destes contos, que também possuem sua História e isso não deve ser anulado. É preciso pensar mais ainda sobre.  Conforme eu for achando mais momentos ímpares para a reflexão de uma historiadora da História Cultural / do Livro e da Literatura  como eu volto a postar aqui, certo?

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Crianças resenhistas


No site da Editora Cosac Naify, que puplicou um edição capichadíssima do Pinóquio - A história de um boneco no final de 2010, agora podemos ler pelo menos duas resenhas do livro escritas por crianças .

Como já dei a referência, vou copiar os textos aqui porque  vale  muito:

Era uma vez um pedaço de pau que um dia foi parar na oficina do senhor ANTÔNIO que tinha o apelido de Cerejo mas que não gostava desse apelido. Um dia o mestre Cerejo foi trabalhar e pegou um pedaço de pau que falou não me golpei com tanta força e o mestre cerejo virou e viu que não tinha ninguem na rua e falou deve ser coisa da minha imaginação então entrou um carpinteiro que cujo nome era GEPPETTO procurando um pedaço de madeira para fazer um boneco o cerejo deu a madeira que falava, sem saber GEPPPETO foi para casa fazer o boneco pouco antes de ser terminado o boneco ja foi malcriado.GEPPETTO pegou pelas pernas de PINÓQUIO e o botou no chão para ver se ele andava mas ele não conseguio então GEPPETTO o segurou pela mão e tentou fazer que ele andasse e não que ele conseguio mas ele começou a corre para lá e para cá até que saiu de casa e GEPPETTO foi atras dele até que um guarda que estava por lá prendeu GEPPETTO. E PINÓQUIO votou para casa e encontrou o grilo falante só que PINÓQIO não gostava deescutar o grilo falar atirou um pedaço de madeira no grilo que o matou. Eu gostei muito do livro acho que as crianças vão adorar porque alem de ser uma historia classica e boa prende muito a atenção.Gabriel Jeneci, 10 anos  Postada  em 13/12/2011 

“O livro foi uma surpresa, é bem diferente do filme de Walt Disney, mas além de ser diferente, ele é muito divertido, mostra que se você não ouvir as pessoas que te amam, você vai se dar mal na sua vida e estragar a vida de outras pessoas. A personagem que eu mais gostei foi a Fada dos Cabelos Turquesa, porque ela é uma grande mãe de coração e esta sempre ajudando os outros, principalmente o boneco Pinóquio. Pinóquio, no começo um menino bobo e irresponsavél, fácil de se enganar. Mas no final ele se tornou um menino de bem, trabalhador, obediente e amável. Recomendo este livro para crianças maiores de dez anos. Porque em algumas partes o vocabulário se torna complicado. As ilustrações do livro são bem bonitas, são estilo antigo, quando a gente fala do Pinóquio lembra do desenho animado, as do livro são diferentes.”Luiza Pereira, 10 anos Postada em 13/12/2011
Legal que tenha chamado a atenção para a diferença em relação à versão Disney e o cuidado em lembrar perspectivas de época: "desenhos antigos", vocabulário difícil para crianças com menos de 10 anos (rs)...Claro que todo texto escrito por crianças, especialmente os que são bem escritos como esses, levantam muitos questionamentos sobre quanto da opinião da própria criança (sem intervenção de adultos, que costumam ser intrusos) há ali. Mas não acho MESMO que as crianças não podem construir e expressar suas próprias opiniões, que são sempre peculiares e irreverentes. MNem toda criança precisa escrever resenhas assim como essas, mas todas deveriam ter o DIREITO AO ACESSO À VERSÃO ORIGINAL DE COLLODI, com o pau que lamentava e tudo, antes de terem seu imaginário dominado pelo desenho dos anos 1940, que é lindo, claro, mas o original é bem melhor! 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Crianças do Coração


Aconteceu o que eu sabia que ia acontecer desde que comprei o chocolate imenso pra emergências: acordei de madrugada aos prantos e devorei todinho, sem nem lembrar que estou no meio da terrível dieta dos "matos". Mas mesmo que eu tivesse me lembrado, não ia deixar de comer o doce, afinal não estou fazendo dieta para emagrecer e agora, nesse momento da minha vida, tudo que menos precisava para  manter minha saúde (até emocional) em ordem é ficar assim como estava, sem comer doce algum há mais de um mês. Está mais do que difícil, mas ainda assim, ontem, quando cheguei na  metade do livro de David Grossman, ele me lembrou  daquela que sempre foi  minha única saída na vida:  Existem as CRIANÇAS DO CORAÇÃO e, principalmente,  também existem as suas NARRATIVAS MARAVILHOSAS, que sempre podem  confortar  a todos em qualquer situação e até  salvar vidas (ou mortes) em momentos de extrema tensão: Sempre existe alguma "Xerazade", e chocolates...  

P.S. A expressão "Crianças do Coração" citada aqui está no livro Ver: Amor, de David Grossman, mas eu encontrei na internet este site intitulado com essa expressão, de onde tirei a imagem que ilustra o post. Mesmo sabendo que os sentidos dados a expressão não são iguais, me pareceram  totalmente ajustáveis. 

P.S.2 Lendo David Grossman mais um pouquinho, com a cabeça mais fresca, vi a que sua Xerazade não salva uma vida, como a a Sherazade; mas talvez ela, de alguma forma, salve uma morte ... vamos ver como as coisas vão se desenvolver nesta metade final do livro ...

domingo, 18 de novembro de 2012

Comecinho de "Pinóquio - A história de um boneco", de Carlo Collodi



"Era uma vez...
-Um rei - dirão logo os meus leitores.
Não, meninos, vocês se enganaram. Era uma vez um pedaço de pau.
Não de madeira de lei, mas um simples pedaço de lenha, desses que no inverno atiramos nos fogões e nas lareiras para ascender o fogo e aquecer os aposentos.
Não sei como a coisa aconteceu, mas a verdade é que um belo dia esse pedaço de pau foi parar na oficina de um velho carpinteiro, que tinha o nome Antonio, embora todos os chamassem de Cerejo, por causa da ponta de seu nariz - sempre roxa e lustrosa, como uma cereja madura.
Assim que mestre Cerejo viu aquele pedaço de pau ficou todo alegre e, esfregando as mãos de contente, resmungou a meia-voz:
- Esta madeira veio bem na hora: vou usá-la para fazer uma perna de mesa.
Dito e feito, logo pegou a enxó afiada para começar a retirar a casca e desbastá-la, mas, quando ia dar o primeiro corte, ficou com o braço suspenso no ar, pois ouviu ua voz muito débil, que lhe pedia suplicante:
- Não me golpeie com força!
Imaginem como ficou o bom e velho mestre Cerejo!
Girou os olhos perturbados pelo cômodo para ver de onde podia ter saído aquela vozinha, mas não viu ninguém! Olhou embaixo da banqueta, mas ninguém;olhou dentro de um armário que estava sempre fechado, e não viu ninguém; olhou a porta da oficina para dar uma olhada até a rua, e ninguém! Ou então?
-Já sei! - disse rindo e coçando a peruca - é claro que essa voz foi imaginação minha. Voltemos ao trabalho.
E tomando de novo a enxó na mão, desferiu um soleníssimo golpe no pedaço de madeira.
-Ai! Você me machucou! gritou lastimando-se aquela vozinha.
Desta vez mestre Cerejo ficou pasmado, com olhos arregalados de medo, a boca escancarada e  a língua balançando à altura do queijo, como uma carranca de chafariz. Mal recobrou o uso da palavra, começou a falar trêmulo e balbuciando de temor:
- Mas de onde será que vem esta vozinha que disse ai? ... E olha que não há ninguém aqui. Seria por acaso este pedaço de pau quee aprendeu a choramingarncomo criança? Não posso acreditar. Aqui está este pedaço de pau; uma racha para queimar como todas as outras que, quando se põe no fogo, serve uma panela de feijão...
Ou então? Será que alguém se escondeu dentro dela? Se foi isto, pior para ele... Então ele não vai ver!
E, dito isto, agarrou com ambas as mãos o pobre pedaço de pau e começou a batê-lo sem piedade contra as paredes da oficina.
Depois ficou escutando para ver se alguma vozinha se lamentava. Esperou dois minutos, e nada; cinco minutos, e nada; dez minutos, e nada!
- Já entendi - disse esforçando-se para rir e desagrenhando a peruca -, está claro que a vozinha que disse ai não passa da minha imaginação! Voltemos ao trabalho.
Mas, como se sentiu inadir por um grande medo, começou a cantarolar para adquirir um pouco de coragem.
Então deixou de lado a enxó e apanhou a plaina para desbastar e polir o pedaço de pau; mas, no momento em que o aplainava para cima e para baixo, ouviu aquela mesma vozinha que lhe disse entre risos:
- Pare com isso! Está me fazendo cosquinhas no corpo!
Desta vez o pobre mestre Cerejo caiu fulminado. Quando reabriu os olhos, viu que estava sentado no chão.
Seu rosto parecia transfigurado, e além disso a ponta do seu nariz, que habitualmente era roxa, tornou-se azul de tanto medo..."    


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ainda sobre a regulamentação do ofício de historiador ...


UM HISTORIADOR VALE TANTO QUANTO UM MÉDICO OU UM ADVOGADO, NÃO É?

Por Marcos Silva

- Professor Titular de Metodologia da História, FFLCH/USP -

O Senado brasileiro vem de aprovar lei regulamentando a profissão de Historiador. A partir de agora, algumas tarefas específicas passarão a ser privilégio profissional de quem tiver formação acadêmica na área. Não é a primeira carreira de nível superior que merece essa regulamentação. Mesmo no campo das Ciências Humanas, Sociólogos e Geógrafos já desfrutam há alguns anos de condição similar.

Participo do debate sobre a questão, na área de História, ao menos desde os anos 80 do século XX. Lembro de colegas que sustentavam a falta de necessidade de regulamentação em nosso espaço profissional, considerando que importantes historiadores brasileiros do século XX (Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda e Caio Prado Jr.) não tinham formação em curso superior de História. Esse argumento apresentava duas graves fragilidades: 1) quando os três fizeram cursos superiores, não havia bacharelado em História no Brasil; 2) Freyre, Buarque de Hollanda e Prado Jr. tiveram condições pessoais ou familiares para requintadas formações humanísticas fora do Brasil – respectivamente, Estados Unidos, Alemanha e Grã-Bretanha.

A situação é muito diferente para um jovem brasileiro de classe média ou menos que, nos dias de hoje, estuda História e se lança num mercado de trabalho fortemente regulamentado noutras áreas. Permanecer nesse mercado fora de suas regras dominantes
é assistir à consolidação dos direitos alheios sem garantia de direitos próprios.

Regulamentar uma profissão é definir exclusividades de exercício, sim. Isso não se confunde com impedir o direito ao pensamento. A História, como tema, sempre será objeto de livre acesso para jornalistas, ficcionistas, advogados, médicos, cidadãos em geral... O desempenho profissional na área, diferentemente, dependerá de uma comprovada capacidade técnica e teórica, obtida em formação acadêmica – como ocorre em relação a médicos, engenheiros, dentistas...

Há quem legitime a regulamentação de algumas carreiras (Medicina e Direito, particularmente) e reivindique a liberdade de prática profissional para as demais: Medicina lida com vidas humanas, Direito zela pelas garantias individuais e coletivas
diante da Lei. Quer dizer que falar sobre o tempo humano (fazer, memória) não possui igual magnitude? Quer dizer que pesquisar e ensinar o Holocausto Nazista ou a Ditadura brasileira de 1964/1984 não é tão minucioso quanto interpretar uma lei ou fazer uma cirurgia? Não vejo hierarquia entre essas práticas. Respeito muito os colegas profissionais de outras áreas regulamentadas. Tenho muito respeito por mim mesmo e pelos demais colegas de minha área profissional.

Enquanto houver regulamentação de algumas profissões, não vejo legitimidade em exigir desregulamentação de outras. Agora, podemos conversar sobre desregulamentação geral das profissões no Brasil. Quem se habilita?

A Diaba e sua filha, de NDiaye



"Há em Moçambique um provérbio que diz : a vida de cada um é um rio. Assim pensando, o tempo que nos cabe para viver é alimentado por uma fonte eterna : a infância. E assim dita, a infância não é um tempo passado, mas a capacidade infinita de nos renovarmos entre nascentes e estuario.
Este conto de Marie Dianye (A Diaba e sua filha) é uma história extraordinária, repleta de mistério e sedução, que confirma , em mim, a ideia de que aquilo que chamamos de literatura infantil é, muitas vezes, um esteriótipo fundado numa falsa menoridade da criança e na verdadeira  arrogância do adulto. Este conto fala desse rio que apenas existe se nos olharmos como eternos inventores da nossa própria infância. Na margem desse rio, nenhuma história tem idade porque toda a narrativa está fora do tempo.
Nesta história não há lugar, não há nomes, tudo é nocturno, o que sucede está envolto em brumas. Todos nós habitámos essa casa de luz calorosa onde uma diaba se recorda de ter sido feliz. Todos nós fechamos a porta do preconceito, e nada mais queremos saber sobre os que ficam confinados na outra margem. longe da nossa existência.
NDiaye escreve sobre os nossos medos e o modo como eles são colectivamente construídos. Escreve sobre a necessidade de classificarmos os outros e os arrumarmos em bons e mauls, em anjos e monstros. Nestas páginas se inscreve, enfim, a facilidade em culparmos e diabolizamos os que são diferentes e o modo como os sinais de aparêcia ( no caso, os pés de cabra) se erguem como marca de fronteira entre os "nossos" e os"do lado de lá".
Terminou com o recurso a  um outro provérbio africano, que diz : eu sou os outros.  Marie Dianye confirma a verdade desse aforismo numa história em que se desfazem as fronteiras entre homem e animal, entre humanidade e demónios, os do bem e os do mal. Os outros que somos (ou que poderíamos ser) desfilam neste apelo para reencontrarmos, na diversidade das criaturas que somos, a nossa própria humanidade."
Mia Couto. Orelha do livro A Diaba e sua filha, de Marie Dianye

Linda exposição sobre Pinóquio


No fim de outubro, no dia do meu aniversário, eu recebi  um grande presente no Sesc Belezinho, vi a exposição 9 cenas de Pinóquio  e, claro, amei:

Ai, aqui estaria a própria alegorização do o fim da infância construída por Carlo Collodi... Eu acho que todas as crianças deveriam ler Pinóquio algum dia. A criança que ainda vive em mim só leu o original de Collodi um pouco "madura" já (depois de ter lido inúmeras adaptações e ter assistido ao filme da Disney), mas ainda assim foi delicioso e me deu muita vontade de presentear todas as crianças com o livro...
Esta exposição no Sesc Belenzinzinho (como quase tudo relacionado ao Pinóquio) me emocionou demais, mas também me divertiu!
Adorei tudo, especialmente a própria sombra do bonequinho presente no ambiente que eu jurava que não ia sair nunca nas fotos, mas saíu...



domingo, 11 de novembro de 2012

(Im) Possível retorno do vovô Anshel


Dois momentos do livro "Ver: Amor" de David Grossman, onde o garotinho Momik expressa seu grande desejo de resgatar o ser que acreditava existir ainda no velhinho que ele chamava de vovô Anshel (um sequelado vindo de campo de concentração ). Me emociona muito, porque tantas vezes eu me sinto como  Momik nos últimos tempos ...


"Esses números realmente o deixavam doido, porque não estavam escritos com caneta e não saiam com água ou cuspe. Momik tentou de tudo quando lavava os braços do avô, mas o número permanecia e, por causa disto, Momik começou a pensar que talvez fosse um número escrito não por fora, mas  por dentro; por isto ficou até mais convencido de que  talvez existisse mesmo alguém dentro do vovô (...) e teve uma sensação realmente forte de que a qualquer momento vovô abriria totalmente, se abriria no meio e ao comprido como uma vagem  de ervilha amarelada e se fenderia assim em dois, uma espécie de vovô pintinho, um avô pequeno, sorridente e de bom coração e que gostava de criança saltaria dali, isto não aconteceu, mas de repente Momik sentiu um aperto no coração e uma tristeza estranha, levantou-se, aproximou-se  deste seu avô, abraçou-o com força, e sentiu  como ele era quente, exatamente como um forno, então vovô parou de falar sozinho, e durante talvez meio minuto ele se calou, as mãos e o rosto repousaram, e ele pareceu prestar atenção a  todas as coisas que havia dentro de si, mas, como se sabe, era-lhe proibido deixar de falar por muito tempo.  " p. 17-18


"Então Momik pode jogar a mochila, despir o vovô do casaco grande e velho de papai, cheirá-lo um pouco bem rápido, sentá-lo à mesa e esquentar a comida para os dois. Para a vovó Heni era preciso trazer a comida na hora do almoço até o quarto dela, porque sozinha ela não descia da cama, mas vovô come com ele, e isto lhe é agradável, como se ele fosse um avô  verdadeiro com o qual é possível conversar e tudo mais." P.33

sábado, 10 de novembro de 2012

Regulamentação da profissão de Historiador levanta polêmica...

 
Tirem suas conclusões, eu já tenho a minha...Na Folha de São Paulo, de autoria de Fernando Rodrigues, foi publicado o seguinte texto:
"Historiador? Só com diploma
BRASÍLIA - Poucos notaram, mas o Senado aprovou um projeto de lei estapafúrdio na última quarta-feira. Eis o essencial: "O exercício da profissão de historiador, em todo o território nacional, é privativo dos portadores de diploma de curso superior em história, expedido por instituição regular de ensino".
Em resumo, se vier a ser aprovada pela Câmara e depois sancionada pela presidente da República, a nova lei impedirá que pessoas sem diploma de história possam dar aulas dessa disciplina.
A proposta é de um maniqueísmo atroz. Ignora que médicos, sociólogos, economistas, engenheiros, juristas, jornalistas ou cidadãos sem diploma possam acumular conhecimentos históricos sobre suas áreas de atuação. Terão todos de guardar para si o que aprenderem.
Há sempre a esperança de alguém levantar a mão e interromper essa marcha da insensatez na Câmara. Mas mesmo que seja abortado, o episódio não perderá a sua gravidade. Trata-se de um alerta sobre a obsolescência e a falta de lógica do processo legislativo brasileiro.
A ideia nasceu em 2009. Era um projeto do senador Paulo Paim, do PT gaúcho. Em três meses, o senador Cristovam Buarque, do PDT de Brasília, deu um parecer favorável. Ouviu um chiste de José Sarney: "Você quer me impedir de escrever sobre a história do Maranhão".
Cristovam parece arrependido do seu protagonismo. Indica ter deixado tudo para assessores, sem supervisioná-los como deveria. Erros acontecem. Só que o senador defensor da educação não quis reconhecer o equívoco na quarta-feira. Preferiu se ausentar do plenário.
O Senado tem 81 integrantes. Só dois votaram contra o diploma obrigatório para historiadores: Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e Pedro Taques (PDT-MT). É muito pouco para impedir que o país se transforme, de lambança em lambança, numa pátria das corporações."
 
Mas a  ANPUH de São Paulo já deu sua resposta , a qual concordo plenamente:
 
"PROFISSÃO DE HISTORIADOR:
MARCHA DA INSENSATEZ OU DO DESCONHECIMENTO?

Nós, historiadores profissionais, sabemos que uma das regras básicas do nosso ofício é a elaboração de um discurso de prova, assentado na pesquisa e na crítica dos vestígios do passado, os documentos. Fernando Rodrigues, por não ter essa formação, talvez desconheça essa regra tão elementar e, por isso, não se deu ao trabalho de ler com atenção o documento que deveria balizar a sua análise (sic) publicada no jornal Folha de São Paulo de 10 de novembro de 2012: o Projeto de Regulamentação da Profissão de Historiador, aprovado no Senado Federal na última quarta-feira. Em nenhum momento este projeto veda que pessoas com outras formações, ou sem formação alguma, escrevam sobre o passado e elaborem narrativas históricas. Apenas estabelece que as instituições onde se realiza o ensino e a pesquisa de História contem com historiadores profissionais em seus quadros, por considerar que, ao longo de sua formação, eles desenvolvem habilidades específicas como a crítica documental e historiográfica e a aquisição de conhecimentos teóricos, metodológicos e técnicos imprescindíveis à investigação científica do passado. Da mesma maneira, a regulamentação pode evitar que continuem a se verificar, nos estabelecimentos de diversos níveis de ensino, situações como a de o professor de História ser obrigado a lecionar Geografia, Sociologia, Educação Artística, entre outras disciplinas, sem ter formação específica para isso (e vice-versa).

Temos certeza que o Senador Cristovam Buarque, tão sensível aos problemas da educação brasileira, apóia esta idéia, pois ela possibilita um ensino mais qualificado.

Temos certeza também que o Senador José Sarney, conhecedor do teor do projeto, está tranqüilo, pois sabe que não vai ser impedido, como nenhum cidadão brasileiro, de escrever sobre a história de seu estado, ou de qualquer período, indivíduo, localidade ou processo. Isso atentaria contra as liberdades democráticas, das quais os historiadores profissionais são grandes defensores.

Fique tranqüilo senhor Fernando Rodrigues, o senhor também poderá escrever sobre história. Só sugerimos que leia os documentos necessários antes de o fazer.

Benito Bisso Schmidt

Presidente da Associação Nacional de História – ANPUH-Brasil"
 
 
 
 
 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Mia Couto no Roda Viva




Entrevista interessantíssima! Adoro várias partes, especialmente a que ele fala da plasticidade da língua portuguesa, coisa que Rosa sempre acreditou...