quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A RETROSPECTIVA 2009

Não ia fazer uma, porque tinha a impressão de que em 2009 nada tinha acontecido, mas relendo o blog,acho que aconteceram coisas, si, só não aconteceram as coisas que eu quero ... ainda não... Vamos ver que coisas aconteceram no ano, do fim para o começo:

DEZEMBRO - Redescobri, enfim, o prazer de estar estudando e de decodificar linguagens, fui aos shows do Karnak e do Funk como le gusta e como diz um amigo meu "sai do corpo", descobri o significado da frase do Caetano "Tarado ni você" e isso me ajudou a destrinchar o "Discurso Caetano", estive muito ligada nas crianças e seu mundo...

NOVEMBRO - Mês muito tenso: Fiquei muito brava com o caso da moça da UNIBAN (que absurdo!), muito preocupada com dois garotos que desapareceram, contra a arbitrária eleição do novo reitor... mas também tivemos coisas boas: Dia da consciência negra, sai com um bombadinho sensível rsrsrs, assisti ao sarau com Claudio Willer (suspiros) e fiquei feliz pelo ano, enfim, estar acabando

OUTUBRO - Muita emoção nesse mês... Chorei muito ao conhecer a história do menino abandonado pelos pais Julio César Santos,fiquei triste com a morte de Mercedes Sosa, fiquei sem palavras com as ações do MST e os laranjais, fiquei apreensiva mas feliz com o Nobel do Obama e, enfim, completei trita anos comendo doces e ganhei um presente lindo,a lembrança doce de uma aluna que tive na oficina de Guimarães Rosa que me deu a noção de que tenho que fazer doutorado mesmo! ,

SETEMBRO - Teve Show do Roberto Carlos -que momento!- descobri e publiquei aqui um dos textos mais lindos que eu encontrei no doutorado até agora, é a introdução de Sebastião Salgado sobre os retratos das crianças do Êxodo, soube da partitura que os pássaros compõem na cidade, Me envolvi demais com o curso do Tatit e com a invasão evangélica no imaginário das crianças de hoje em dia...

AGOSTO -Não blogueei muito, mas caetaneei pacas, experimentei o Twitter e não gostei, fiquei sem palavras com o sumiço do Belchior e quis também dar uma sumidinha do mapa (rs)

JULHO - Entrei no doutorado: Que susto! Li a reportagem sobre o Lado B da adoção, comecei o blog Vamo comê

JUNHO - Assisti ao show de Naná Vasconcelos e Virginia Rodrigues (emoção), senti uma fiquei tristeza de morte quando assisti a invasão da PM no campus da USP

MAIO - Descobri a voz (e a loucura) de Amy Winnerhouse, Fui ao show de Tom Zé na Virada Cultural e me comuniquei pacas com ele, só isso, acho que estava cansando

ABRIL - Assisti ao concerto de Paulo Marteli, vivi a dor do fim do meu mestrado, li o "Curioso caso de Bejamin Button", fiquei péssima na Páscoa, assisti ao show Estudando a Bossa, comemorei o aniversário da Revolução dos Cravos, estava sobrevivendo.

MARÇO - Defendi meu mestrado e comemorei na esteira porque o vazio me dominava, assisti a defesa de uma amiga sobre sexualidade árabe, e minha angustia estava em completo desenvolvimento, vi "Quem quer ser um milionário", e dei fim para minhas ilusões amorosas... fiquei no vazio.

FEVEREIRO - Eu estava ainda muito sonhadora achando que ia conseguir um emprego como professora, comemorei o centenário de Carmen Miranda e o começo da Era de Aquário, fiz uma lista de tudo o que eu não queria... e eram muitas coisas, vi e me emocionei muito com a titulação do meu orientador e vi que eu o seguia muito mesmo sem saber que o fazia, relembrei a morte de Dorot Stang, redescobri os caminhos da minha formação,

JANEIRO - Comecei o ano destruindo o blog Tutaméia e passando definitivamente para esse aqui, devorava o livro do Saramago A Viagem do Elefante" e estudei muito porque achava que ia dar aula, o Serra começou o ano fazendo asneiras na OSESP, sofria muito com a separação e relia direto "O amor nos Temos do cólera".. o ano não is ser moleza!

Vamos ver se ano que vem teremos mais...

Feliz ano Novo e : tchau 2009!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Caleidoscópio





"A gente bota essas experiências fortes de lado, mas elas ficam acontecidas dentro da gente; e os fragmentos delas formam um novo desenho lá no fundo do nosso caleidoscópio. Um caleidoscópio que o Tempo vai virando. Só que no nosso caleidoscópio as imagens viradas -mesmo parecendo que nunca mais vão voltar,acabam aparecendo de novo - porque a gente não deixa de se cada desenho que criou. "

Lygia Bojunga Nunes :Apud CORTEZ, Mariana. Palavra e imagem: Diálogo intersemiótico

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Meditações sobre um cavalinho de pau E.H. Gombrich

Foi Carlo Ginzburg, em seus livros Mitos Emblemas sinais e Olhos de Madeira (Ginzburg, 2005; 2007) que indicou um caminho remeteu às idéias de E.H. Gombrich, em seu texto Meditações sobre um cavalinho de pau, como um caminho possível de decifração de imagens pelo historiador. Em meu doutorado, pretendo interpretar símbolos referentes à infância não sónos textos escritos de Guimarães Rosa, mas também coleção de desenhos produzida em sua correspondência com as netas.
Gombrich trabalha sempre com a idéia de representação como produtora de "substitutos" da realidade- com a ajuda da imaginação criadora, que tem função de comunicar- pois “toda imagem será de algum modo sintomática de seu criador, mas pensá-la como uma fotografia de uma realidade preexistente é compreender mal todo o processo de feitura de imagens(...) na linguagem do quadro de criança, continua a ser reconhecida a função psicológica da ‘representação’. A criança recusará uma boneca perfeitamente naturalista em favor de alguma ‘bruxa’ monstruosamente ‘abstrata’ que seja mais ‘fofinha. É possível até mesmo que prescinda totalmente do elemento ‘forma’ e tome o travesseiro ou o edredom por sua chupeta predileta-um substituto ao qual quer entregar o seu amor. Mais tarde na vida, dizem os psicanalistas, pode entregar esse mesmo amor a alguém vivo, digno ou indigno dele."

E.H. Gombrich. Meditações sobre um cavalinho de pau. P. 04)

Isso é lindo, não é?

Rio rio rio, pondo perpétuo...

domingo, 20 de dezembro de 2009

Adriana Calcanhotto, no DVD do show Partimpim diz que aquele espetáculo só aconteceu porque Vinícius de Moraes existiu... acho muito belo e muito verdade, quem atenta para crianças (como eu), não esquece do Poetinha (que por ser diminutivo, não é menor que os outros, como as crianças, que não sabem menos, mas sabem outra coisa, como pensou uma antropóloga...
Por ele ter existido, nós e todas as crianças temos coisas como isso:


sábado, 19 de dezembro de 2009

"BRINQUEDOS", BY ROLAND BARTHES



O texto a seguir está na obra Mitologias, de Roland Barthes, onde o autor faz comentários críticos sobre a vida cotidiana da França entre 1954 e 1956... considerei-o muito interessante, especialmente nesta época de Natal:

“ O adulto francês considera a criança como um outro eu; nada o prova melhor do que o brinquedo francês. Os brinquedos vulgares são assim, essencialmente, um microcosmo adulto; são reproduções em miniatura de objetos humanos, como se, para o público, a criança fosse apenas um homem pequeno, um homúnculo a quem só se pode dar objetos proporcionais ao seu tamanho.
As formas inventadas são muito raras; apenas algumas construções, baseadas na habilidade manual, propõem formas dinâmicas. Quanto ao restante, o brinquedo francês significa sempre alguma coisa, e esse alguma coisa é sempre inteiramente socializado, constituído pelos mitos ou pelas técnicas da vida moderna adulta: o Exército, a Rádio, o Correio, a Medicina (estojo miniatura de instrumentos médicos, sala de operação para bonecas), a Escola, o Penteado Artístico (secadores, bobes), a Aviação (pára-quedistas), os Transportes (trens, citroens, lambretas, vespas, postos de gasolina), a Ciência (brinquedos marcianos).
O fato de os brinquedos franceses prefigurarem literalmente o universo das funções adultas só pode evidentemente preparar a criança a aceitá-las todas, construindo para ela, antes mesmo que possa refletir , o álibi de uma natureza que, desde que o mundo é mundo, criou soldados, empregados do Correio, e vespas. O brinquedo fornece-nos assim o catálogo de tudo aquilo que não espanta o adulto: a guerra, a burocracia, a fealdade, os macianos, etc. Alias, na realidade, não é tanto a imitação que constituí o signo da abdicação, mas sim a literalidade dessa imitação: o brinquedo francês é, em suma, uma cabeça mirrada de índios Jivaro – onde se reencontram numa cabeça com proporções de uma maçã, as rugas e os cabelos adulto. Existem, por exemplo, bonecas que urinam : possuem um esôfago, e se lhes dá mamadeira, molham as fraldas; sem dúvida, brevemente, o leite transformar-se -á em água, em seus ventres. Pode-se, desta forma, preparar a menininha para a causalidade doméstica, “ condicioná-la” para a sua futura função de mãe. Simplesmente, perante este universo de objetos fiéis e complicados, a criança só pode assumir o papel de proprietário, do utente, e nunca, o do criador; ela não inventa o mundo, utiliza-o : os adultos preparam-lhe gestos sem aventura,sem espanto, e sem alegria. Transformam-na num pequeno proprietário aburguesado que nem sequer tem de inventar os mecanismos de causalidade adulta, pois já lhes são fornecidos prontos: ela só tem de utilizá-los, nunca há nenhum caminho a percorrer. Qualquer jogo de construção, se não for demasiado sofisticado, implica um aprendizado de um mundo bem diferente: com ele a criança não cria nunca objetos significativos; pouco lhes importa se eles têm um nome adulto: o que ele exerce não é uma utilização, é uma demiurgia: cria formas que andam, que rodam, cria uma vida e não uma propriedade; os objetos conduzem-se a si próprios, já não são uma matéria inerte e complicada na concha da mão. Mas trata-se de um caso raro: o brinquedo francês,de um modo geral, é um brinquedo de imitação, pretende formar crianças-utentes e não crianças criadoras.
O aburguesamento do brinquedo não se reconhece só pelas suas formas,sempre funcionais, mas também pela sua substância. Os brinquedos vulgares são feitos de uma matéria ingrata, produtos de uma química, e não de uma natureza. Atualmente muitos são moldados em massas complicadas: a matéria plástica tem assim uma aparência simultaneamente grosseira e higiênica, ela mata o prazer, a suavidade, a humanidade do tato. Um signo espantoso é o desaparecimento progressivo da madeira, matéria um tanto ideal pela sua firmeza e brandura, pelo calor do seu contato; a madeira elimina, qualquer que seja a forma que sustente, o golpe de ângulos demasiado vivos, e o frio químico do metal: quando a criança manipula, ou bate com ela onde quer que seja a madeira não vibra e não range, produz um som simultaneamente surdo e nítido; é uma substância familiar e poética que deixa a criança permanecer numa continuidade de tato com a árvore a mesa, o soalho. A madeira não magoa, não se estraga também; não se parte,gasta-se, pode durar muito tempo, viver com a criança,modificar pouco a pouco as relações entre o objeto e a mão ; se morre, é diminuindo,e não inchando com esses brinquedos mecânicos que desaparecem sob a hérnia de uma mola quebrada. A madeira faz objetos essenciais, objetos de sempre. Ora,já praticamente não existem brinquedos de madeira, esses ‘redis dos Voges’ [1],só possível, é certo, numa época de artesanato. O brinquedo é doravante químico, de substância e de cor; a própria matéria- prima de que é construído leva a uma cenestesia da utilização e não do prazer. Estes brinquedos morrem, aliás, rapidamente,e , uma vez mortos, não têm para a criança nenhuma vida póstuma.”


Barthes, Roland. Brinquedos. In: Mitologias. São Paulo: Diefel.1982. Pp. 40-2


[1] Redis dos Voges : brinquedo de madeira constituindo numa série de miniaturas de animais (carneiros, vacas, etc) que utilizam normalmente as pastagens da montanha (Vosgues)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

'Tempo Rei' e Teoria da História

Estou achando,por enquanto, que fazer doutorado na área de Teoria da História é como ouvir umas músicas do Gilberto Gil, que sempre estão meditando sobre o tempo e os tempos que vão se seguindo...
Começando com Parabolicamará,trazia os primeiros pensamentos sobre as novas relações entre Tempo - o da "onda luminosa" que, para transmitir informações, levava "o tempo de um raio, tempo que levava Rosa pra aprumar o balaio quando sentia que o balaio ía escorregar"... isso em um baião super dançante "ê, mundo dá volta, Camará!"
E depois a genial Tempo Rei:



Eu acho que a gente estuda História (especialmente a Teoria da História) para levantar questionamentos assim : "Tempo Rei, Oh Tempo Rei!Transformai as velhas formas do viver ensinai-me Oh Pai! O que eu, ainda não sei"
Ninguém, sozinho, poderá resolver todos os problemas da História do Brasil, mas nos vale levantar questionamentos, sem sermos bruscos ou formalistas , o que significaria uma crença errônea na absoluta capacidade humana de viver somente a partir do racional ... como pensaríamo, então, nossa cultura baseada na cordialidade e em tudo o que isso acarreta de bom e de ruim (como nos alertou Sérgio Buarque), como poderíamos analisar as coisas apenas pelo racional (por exemplo, como um estudioso de um músico como Tom Zé conseguiria um bom resultado se apenas assistisse aos seus shows sentado e analisando racionalmente? E as outras linguagens que ele desperta para serem desenvolvidas - a dança, os ritmos, etc?)
Um dos pontos chave dos estudiosos é perceber um espaço ótimo entre ele e as fontes, sempre descoberto a partir de tentativas de aproximação e afastamento: mobilidade de perspectiva é uma noção importantíssima para o Historiador da Cultura...
No Brasil, questionamentos claros podem estar expressos em letras de canções (como não cansa de dizer Luiz Tatit) e aí não é preciso falar alemão para filosofar, mesmo que a própria canção de Gil nos lembre que a quaqlquer momento o pensamento "poderá não mais fundar nem gregos, nem baianos"... e então?
Então sigamos, lembrando que Guimarães Rosa respondeu em uma entrevista que brasilidade seria um "sentir pensar"... se é assim, porque nós precisamos interpretar a História da Cultura do Brasil como se esta fosse um "pensar sentir"? Não é! É primeiro um sentir e muitas vezes só um sentir, é preciso prestar atenção nisso pra que depois possamos pensar sobre...
Chega, né?
Bom fim de semana a todos os meus possívies leitores !

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

SOBRE O ELOMAR FIGUEIRA MELLO E VER TUDO COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ

Uma coisa que me incomoda: sabemos que as crianças conseguem facilmente 'olhar tudo como se fosse a primeira vez', esse é seu diferencial . Mas como problematizar isso em Teoria da História? Seria 'Duração'? ou 'Epifania'?
Tentemos algumas definições pessoais rasas para esses conceitos:

*A idéia de 'infância' pode ser facilmente relacionada à 'duração' - que seria a união das camadas de tempo - passado, presente e futuro- em um só momento...Isso está teorizado em Bergson e seu conceito de ‘Durée’ , e também está em Benjamin –sem tanta conceituação- que a explicou como sendo um relâmpago em uma noite escura que, por alguns segundos, ilumina tudo: o que veio o antes, o que está acontecendo agora e também o que virá depois... eis uma boa alegoria sobre a condensação das camadas temporais!

*A 'epifania' é um comportamento usual de crianças, pois seria o momento do contato com o divino, o superior que, em literatura, aparece sempre que se experimenta uma surpresa que funciona como alguma espécie de suplência...isso está em Rosa o tempo todo: a manifestação de algo divino é sempre uma suplência em relação ao mundo histórico, e essa mediação costuma ocorrer pelo uso de formas da cultura popular.Isso está em Bosi! Mas para a expressão da linguagem das crianças, podemos identificá-lo no uso recorrente da ‘palavra mágica’ , que é quando elas começam a perceber que falando sobre seus desejos, eles acontecem (de ter a mãe perto,de comer, de brincar...), como se fosse uma “encantação mágica”, como teorizou Todorov. Assim, para as crianças, as relações entre o vivido no tempo e o percebido por elas ultrapassam a simples ficcionalização da qual falou Costa Lima (e eu adoro)...

Na minha dissertação sobre Tutaméia, eu chamei o tempo problematizado dos textos de Rosa de "não-história": um momento do tempo onde o próprio tempo fica em suspenso. Tem muito pano pra manga nisso aqui... é um doutorado! (rs)

Certo, e o que isso tema ver com o Elomar?

Como eu jpa tinha escrito aqui, quando eu tinha treze anos (uma criança!), ouvi pela primeira vez a "cantiga de arrumação" e fiquei morrendo de medo daquela música! Era estranha, assustadora, rude...e eu queria ouvi-la mesmo assim, muitas vezes, ouvir a "música do feijão" - que era a única palavra que eu entendia na letra... Vamos ouvi-la novamente:



Hoje em dia, eu sempre estou dizendo e pensando que gostaria muito de ouvir essa música “como eu a ouvia das primeiras vezes”: com todo aquele ar de estranhamento, porque é ouvindo Elomar agora - quando eu conheço bem a canção e até consigo cantar-, sinto vontade de ouvi-la "como se fosse a primeira vez", que era como eu a ouvi quando criança.

Será que é essa a busca do adulto que se volta ao olhar infantil? Reencontrar essa sensação? Poxa, isso é deveras interessante, não acham?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Castelos de Vento

Destruir casas e arrastar pessoas pode ser obra do vento, ou do amor.
Quando eu era adolescente eu pirava com esse vídeo... o que acham?

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ONDE ESTÁ ESTE ALGUÉM?

Além de estar na canção de Caetano Veloso, onde estaria este alguém que procuro:

"Se alguém pudesse ser um siboney
Boiando à flor do sol
Se alguém, seu arquipélago, seu rei
Seu golfo e seu farol
Captasse a cor das cores da razão do sal da vida
Talvez chegasse a ler o que este amor tem como lei"

Eu sei onde ele não está: na academia, em baladas, em festas familiares, em shows e rock, em piadas...
Mas ele pode estar no SESC, na USP, no Reveillon da Paulista,nos shows do Tom Zé...
no neu cotidiano, onde existem muitos interditos ... vejam este vídeo :

sábado, 5 de dezembro de 2009

LER O LIVRO DO MUNDO = DECODIFICAR LINGUAGENS

Os pensamentos que me atraem podem parecer bastante diversos (Caetano Veloso, Guimarães Rosa, Walter Benjamin, Tom Zé, Carlo Ginzburg...), mas para mim eles são atraentes porque se dedicam a produzir uma linguagem de signos e decodificá-los...

Caetano Veloso, nas suas palavras, lê processos de História do Brasil o tempo todo: somos um país mulato (cheio de “musas híbridas”, “pretas chiques”, “jaboticabas brancas”...), preso a uma mentalidade colonial (em pleno século XXI, somos apenas mulatos "natos no sentido lato mulato democrático do litoral: Sugar Cane Fields Forever) e embora estivermos cientes disso, ele alerta claramente:” E a crítica que não toque na poesia". Esse é Caetano pensador poeta. Isso é poesia.
Guimarães Rosa era um Peter Pan (eis a idéia do meu doutorado), ele nunca deixou de "ver o mundo como se fosse a primeira vez" - que é tarefa das crianças - e o mais interessante: exatamente como elas fazem o tempo todo, ele representava esse estado de catarse constante na linguagem (por isso as palavras tão herméticas de Rosa parecem - e são - ao mesmo tempo moderníssimas e arcaicas), e ele está percebendo os tempos e decodificando-os na linguagem. Isso é arte.
Walter Benjamin queria ler o livro do mundo, que é perceber que cada momento apresenta possibilidades de futuro e de passado, ou seja, “ler” o livro do mundo é encontrar diversas épocas em momentos alegóricos e demonstrar isso na linguagem. Isso é História.
Tom Zé é o mais complicado de entender (pelo menos para mim), porque ele usa diversas linguagens - muitas delas eu não domino nem um pouco-, mas todas elas possuem ligações diretas com os sentidos do tempo (sons, ruídos, psicanálise, poesia, culturas, danças, etc...). Isso é música.
Carlo Ginzburg é meu mestre - como historiadora - e o que ele pensa é muito simples, não existem ligações diretas entre a História e a realidade que não sejam pobres... Para ele, entre essas esferas encontram-se diversas camadas de sentidos inventadas e fabricadas, e decifrar esses códigos da linguagemé fazer narrativa da História. Isso é historiografia.

Resumindo, meu grupo é o grupo dos que se voltaram com amor e atenção para a linguagem. O que eu vou fazer com isso eu não sei... Ainda.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

"Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo"

Essas palavras de Rosa não saíram da minha cabeça durante este ano todo.
Mas que milagre duradouro, não?
Só sei que estou aqui aguradando alguma coisa acontecer, para que eu possa vizualizar o tal milagre.
Tá osso...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sobre a eleição do reitor na USP: EU NÃO ENGOLI!

Como a maioria das pessoas, eu também ainda não engolli essa escolha.
Li um comentário crítico, seguido por uma entrevista com o candidato vencedor pelos votos das congregações, mas ARBITRARIAMENTE PRETERIDO PELO GOVERNADOR JOSÉ SERRA, apesar de indicar a referência aqui, colo-o completo- já que você já está aqui mesmo ... só devo salientar que, ao contrário do que pensa Oliva - o candidato preterido,EU PENSO,SIM QUE A DECISÃO DO SERRA TOCOU PROFUNDAMENTE A AUTONOMIA DA UNIVERSADE DE SÃO PAULO (AFINAL,EMBORA A ELEÇÃO NÃO TENHA MESMO, PROPRIAMENTE, DESREPEITADO O ESTADO DE DIREITO, MAS SE CONSIDERARMOS O CONTEXTO ATUAL DA UNIVERSIDADE, OBSERVAMOS QUE A AUTONOMIA VEM SOFRENDO CONSTANTE ENFRAQUECIMENTO, O QUE FOI MARCADO POR ATOS EXTREMOS COMO A ENTRADA DA PM NO CAMPUS E AGORA POR ESSA ELEIÇÃO AUTORITÁRIA, COMO ATÉ JÁ ESTAVAMOS ...)
Vejamos a reportagem:

" Terça, 17 de novembro de 2009, 08h57
Oliva: Ingerência política é incompatível com a USP
Eliano Jorge


Para um cientista, é sempre útil entender como funcionam mecanismos complexos. No caso de Glaucius Oliva, 49 anos, professor titular e diretor do Instituto de Física de São Carlos, a recente lição foi de meandros político-eleitorais. Talvez lhe seja um tema mais complicado do que a Cristalografia de Proteínas, tema em que virou doutor pela Universidade de Londres.
Embora tenha vencido a eleição para reitor da Universidade de São Paulo (USP), Oliva acabou preterido pelo governador paulista José Serra, do PSDB, a quem coube a escolha a partir da lista de três nomes apontados pelas urnas. Nomeado sexta-feira, 13, João Grandino Rodas alcançou apenas o segundo lugar nas várias etapas do escrutínio.
"É evidente que eu tinha toda a expectativa de que ele me indicaria porque tinha obtido o apoio explícito da comunidade universitária, numa campanha em que pautei exclusivamente - e talvez esta tenha sido minha falha - sobre a construção de um grande projeto e sobre o convencimento da comunidade universitária. Eu não tinha um viés político, grandes nomes secundando com carta de apoio, nenhuma manifestação política, caciques, ex-reitores", comentou Oliva, em conversa com Terra Magazine.
Ele se queixou da falta de análises mais profundas dos projetos por parte de Serra. A opção foi respeitada, mas não foi engolida a justificativa pela comparação de experiência e carreira dos candidatos: "Acho que ele não olhou direito os currículos. Não me pareceu convincente".
Tendo sempre Rodas na sua escolta, Oliva venceu as três votações do segundo turno, com diferença de 46, 56 e depois 57 votos entre eles. Nesta etapa, houve 85% de comparecimento às urnas, correspondentes a 274 membros do Conselho Universitário e dos Conselhos Centrais - de Graduação, Pós-Graduação, Pesquisa e Cultura e Extensão Universitária.
"O resultado no colegiado menor traçou a mesma vontade da comunidade expandida", concluiu a reitora Suely Vilela, em declaração reproduzida no site oficial da USP.
"Se, de fato, a decisão (do governador) teve uma origem política, é um pouco ruim, né? Porque a universidade deve ser regida por princípios acadêmicos, e não necessariamente ingerências políticas de qualquer sorte, me parecem incompatíveis com o princípio universitário", observou Oliva. "Se você tenta contaminar eleições acadêmicas e técnicas com preferências políticas, isso é terrível", acrescentou.
Atual diretor da Faculdade de Direito da USP, João Grandino Rodas comandou o Conselho Administrativo de Desenvolvimento Econômico (Cade) entre 2000 e 2004, nomeado pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula. A partir do dia 26, será o 25º reitor de uma das mais conceituadas universidades do País.
Confira a entrevista com Glaucius Oliva.
Terra Magazine - Como o senhor começa a semana depois do processo eleitoral? Já não está mais ligando para isso?Glaucius Oliva - O fato é que terminou, acabou o processo, nós temos um novo reitor. Portanto, eu tenho que retomar minhas atividades normais, de pesquisa, ensino, as atividades administrativas como diretor do Insituto de Física. E continuar trabalhando pela Universidade de São Paulo.
O futuro reitor declarou que deixou recado telefônico, convidando o senhor para a nova diretoria.
Eu vi essa declaração na imprensa, ele havia deixado recado com a minha secretária, na sexta-feira. Ainda não consegui retornar. Mas a minha impressão é que a sintonia entre um reitor e seu vice deve ser integral. Deveria ser uma chapa isso, e não duas eleições separadas, como são hoje. A eleição para vice-reitor é igualzinha à eleição para reitor, você forma uma lista tríplice para ser escolhida pelo governador. E, se o governador já não me escolheu, é porque talvez tenha razões para tal. Então, não faria muito sentido eu me candidatar novamente para vice-reitor. E acho que o reitor deve ter junto a ele, na vice-reitoria, uma pessoa com que ele tenha mais integral proximidade de ideias, métodos de trabalhos e procedimentos. Ele certamente tem pessoas de altíssimo gabarito no grupo que liderou.Ele não conversou comigo ainda, e eu estou respondendo em termos genéricos. Mas é uma conversa que a gente vai ter ao longo do tempo. A eleição para vice-reitor é só em março. Mas a minha primeira impressão é que não seria exatamente bom, nem para ele nem para a universidade, ter a minha presença na adminitração mais próxima, o que não me exime de ajudar em tudo o que for possível para que esta gestão tenha o maior sucesso. Todos nós somos USP e temos que lutar por ela. Não tem nenhum componente de rancor não. Do ponto de vista prático, não é bom você ter junto uma pessoa que teve mais voto que você, fica uma situação meio estranha.
Por ser empossado o segundo colocado na eleição para reitor da USP, foi ferida a autonomia universitária?
Não, de jeito nenhum. A regra do jogo era essa. Então, do ponto de vista legal, não houve nenhuma quebra de Estado de Direito. A ideia de ter uma escolha pelo governador era ter uma voz da sociedade sobre as ideias e os projetos que conduzem a universidade. E estranhou um pouco, não só a mim, mas a toda a comunidade universitária, a forma um pouco rápida com que esta decisão foi tomada, sem uma conversa com os candidatos, sem uma análise mais aprofundada dos projetos que estavam ali sobre a mesa, da nossa visão de futuro, da nossa experiência administrativa. Enfim, dá a impressão que houve uma decisão que teve outros contornos que não necessariamente da atualidade do projeto ou da pessoa para conduzi-lo.
Que interpretação o senhor faz desses contornos?
Se, de fato, a decisão teve uma origem política, é um pouco ruim, né? Porque a universidade deve ser regida por princípios acadêmicos, e não necessariamente ingerências políticas de qualquer sorte, me parecem incompatíveis com o princípio universitário. Eu sou um cientista, essa é minha natureza. Não é porque um indíviduo que eu não gosto fez um trabalho científico fantástico em demonstração experimental ou teórica de um fenômeno, que vou dizer que está errado. Não posso. Ciência foi feita não porque esse indíviduo pertence a esse ou aquele partido, ela é baseada na verdade, na busca da verdade e daquilo que é inquestionável. Se você tenta contaminar eleições acadêmicas e técnicas com preferências políticas, isso é terrível.
Depois de vencer todas as etapas de votação, o senhor imaginava que não seria referendado pelo governador?
É prerrogativa dele fazer essa indicação. É evidente que eu tinha toda a expectativa de que ele me indicaria porque tinha obtido o apoio explícito da comunidade universitária, numa campanha em que eu pautei exclusivamente - e talvez esta tenha sido minha falha - sobre a construção de um grande projeto e sobre o convencimento da comunidade universitária. Eu não tinha, na minha campanha, um viés político, grandes nomes secundando com carta de apoio. Tinha um monte de cientista, dizendo que achava que eu seria um ótimo administrador. Mas não tinha nenhuma manifestação política, caciques, ex-reitores. Enfim, foi uma campanha feita mesmo nas bases acadêmicas. Nestas, eu ganhei, e isso me satisfaz muito. O que é mais importante, para mim, é que deixo como legado para a universidade um projeto detalhado, em todas as áreas, com uma visão de futuro bem estabelecida para a Universidade de São Paulo, como sendo um centro de excelência, com um conjunto de propostas e ações concretas em Graduação, Pós-graduação, Pesquisa, gestão administrativa. Se o reitor puder aproveitar estas ideias, eu ficaria extremamente satisfeito.
O senhor pretende concorrer novamente à reitoria?
Quatro anos é um longo período, né? Se houver consenso entre as pessoas que, daqui até lá, estarão envolvidas no processo sucessório, eu me disponho a trabalhar como fiz agora. Eu nunca tive um desejo do cargo em si. A minha praia, do ponto de vista acadêmico, é outra. Eu sempre estive muito envolvido com atividades de pesquisas, ensino e criação de cursos, inovação tecnológica, transferência de tecnologia. Administração é uma coisa meio natural em mim, faço bem. E as pessoas acharam que era uma combinação importante para ter na reitoria. Mas não tenho nenhuma aspiração, não faço disso meu projeto de vida. Ao mesmo tempo, não me furto a servir a universidade na posição em que for chamado.
Numa eventual candidatura, não vai deixar de incluir um cunho político...
A gente aprende com a experiência, né? A gente vai ter que entender que, num processo desse, temos tanto público interno quanto público externo. Temos que convencer não apenas os soldados como os generais de que as ideias são boas. Eu talvez tenha ficado muito nos soldados e esquecido um pouco dos generais.
Por falar em soldados e generais, foi a primeira vez que o vencedor da eleição da USP não foi ratificado, desde o fim da ditadura militar. O que o senhor pensa?
Não faça nenhuma comparação. Quando eu disse soldados e generais, foi apenas uma figura de linguagem. Não teve nenhuma conotação de acusação. Foi uma decisão do governador, nós estamos num Estado democrático de Direito, ele tem autonomia e prerrogativa para fazer isso. Ele mesmo disse que nunca hesitou em assumir responsabilidade das prerrogativas que ele tem como governador. Eu não faço nenhuma comparação do momento que vivemos agora com o período militar, nós temos um mecanismo que é legítimo, legal. Eu posso discordar da forma como ele foi utilizado. Acho que ele, se utilizado, deve ser de uma forma muito parcimoniosa. A escolha da inversão da lista tríplice é uma arma muito poderosa e que, para ser usada, na minha interpretação, deveria ser por uma justificativa muito importante e séria.
O governador alegou currículo e experiência do segundo colocado.
Eu acho que ele não olhou direito o currículo de ambos os candidatos. Eu tenho uma experiência de gestão acadêmica universitária de 12 anos, muito mais do que isso, já fui chefe de departamento, diretor de unidade, presidente de Pós-graduação, consultor de empresas, coordeno institutos de pesquisa da Fapesp e do Ministério, exerci cargos no Ministério de Ciência e Tecnologia, no que diz respeito a comitês de avaliação de projetos e de gestão. Sou cientista de reconhecimento internacional, membro da Academia Brasileira de Ciências. Então, esta justificativa ficou um pouco mal explicada. Sou professor titular há mais de 12, 13 anos, dessa universidade. Sempre fui professor em dedicação integral e exclusiva, o que não acontece com o outro candidato, que só se tornou três, quatro anos atrás, sempre exerceu uma vida externa à universidade. Esta justificativa não me pareceu convincente.
De universidade, o senhor acredita que entende mais?
Eu não gosto de fazer comparações não. Eu só digo que entendo bastante de universidade. Presidi uma comissão de planejamento, isso foi uma coisa que talvez, se o governador tivesse olhado, gostaria. O governador é uma pessoa da área de Planejamento, ele nasce para a política como secretário de Planejamento do governo Montoro. E a Universidade de São Paulo é uma instituição muito complexa, muita gente, recursos vultosos, e que tinha, em seu estatuto, desde 1988, a previsão de existir uma comissão de planejamento com a missão de elaborar planos de médio a longo prazos para a universidade e estudar cenários externos e internos que afetassem as atividades universitárias. Surpreendentemente, em nenhuma das gestões reitorais desde 1988, esta comissão havia sido criada ou instalada, e convenci a então reitora que a criasse pela primeira vez. Desde 2007, presido esta comissão e temos estudado com profundidade os cenários que afetam a USP, estudamos a USP, o que as universidades do mundo estão fazendo para resolver os grandes desafios da academia, que é uma instituição que está passando por uma série de transformações no que diz respeito à própria organização do conhecimento, à multidisciplinaridade, à formação dos estudantes, à questão do financiamento, à incorporação de novas tecnologias. Então, do ponto de vista de conhecimento e preparação, eu acho que tinha uma boa bagagem.
Terra Magazine
ESTOU ACHANDO ESTRANHÍSSIMO QUE NINGUÉM (NEM MESMO A TÃO FALADA FFLCH!) TENHA FEITO NENHUMA MANIFESTAÇÃO: VAMOS DEIXAR UMA DAS INSTITUIÇÃO DE MAIOR NOME DO BRASIL VIVER ESSA SITUAÇÃO CALADOS?
AQUI NÃO!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

SOBRE O NOVO REITOR DA USP

Não disse nada sobreo novo reitor da USP, porque fiquei sem palavras.
Mas outras pessoas, ótimas, disseram, então eu indico o link do Alê e esse link antropológico.
Somos contra esse tipo de palhaçada naquela que é a melhor colocada do Brasil e da América Latica no raking mundial das universidades. Leiam os links, por favor.

VISÕES DE SEXO POR HILDA HILST; MENINA DE 18 ANOS E CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, DESENHO DE MILTON DACOSTA




Colada à tua boca a minha desordem

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer." HILDA HILST


Âmanga

Vou te dar meu âmago
Como fosse manga rosa
Para você provar minha carne
como fosse a polpa
para você beber meu gozo
como fosse o sumo
para você morder meu osso
como fosse o caroço MENINA DE 18 ANOS

Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua." DRUMMOND

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Desemprego e racismo

Somos um país racista, é óbvio.
Eu sendo uma mulher negra que cursou - e ainda cursa - Universidade Pública antes das cotas, ainda sofro na pele as dificuldades trazidas pela crise econômica mundial...que me deixou desempregada desde dezembro. Eu acho estranho que isso esteja se estendendo até hoje, quase um ano depois da demissão, isso porque eu sou uma profissional bem qualificada - continuo minha formação, que está em fase de finalização, já, com o doutoramento -, tenho certa experiência, muita criatividade e vontade de produzir...Essa situação me deixou com certos questionamentos sobre minha própria atuação profissional: Será que eu sou assim tão ruim, para ter sido deixada à margem assim?Não sabia, só me questionava sobre isso...

Mas algumas "novidades" de 2009 me deixaram mais confiante na minha atuação profissional: Em 2008 eu peguei aulas para algumas turmas de Sociologia no Ensino Médio, a partir de agosto... como fazer isso?

Assim que eu soube que a professora que tinha iniciado o curso já tinha introduzido conceitos fundamentais de sociologia e História da sociologia, quis levar alguns dados práticos,mostrando que a matéria também estava nos cotidiano deles: Quis abordar a sociologia do futebol. Para isso levei a eles trechos de um livro que tinha acabado de sair, Veneno Remédio, do José Miguel Wisnik. Poxa, rendeu muito e aquilo que eles achavam ser algo chato (aula de sociologia) era algo que também estava na diversão do seu cotidiano, falei a eles sobre o grupo de estudos sobre o tema que se desenvolve na USP faz cerca de dez anos ...os alunos se sentiram bem, introduzidos no mundo!

Porém, além a aceitação dos alunos, outras respostas significativas tive esse ano, quando formou-se um Seminário de estudos sobre o Futebol aqui na USP e quando aquele livro que eles leram um trecho em 2008, ficou em segundo lugar no Prêmio Jabuti de melhor livro de Ciências Humanas, mais de um ano depois!

Para mim isso foi uma prova que eu estava, sim, fazendo meu papel de educadora, levando aos alunos de um colégio periférico os assuntos que estavam sendo considerados importantes na USP... quem faria algo assim?

Mas essa professora ainda está sem emprego. Será mesmo que não é porque não passou no quesito "boa aparência?", ainda que até a Novela das 8 tenha uma protagonista negra... mas elas ainda não é uma negra que vive uma vida de negra... caminhamos, apesar das pedras.

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA, DIA DOS BRASILEIROS!


Hoje, dia 20 de Novembro, é dia da Consciência Negra.

Devia ser um dia muito lembrado por todos nós brasileiros, por motivos óbvios: Em nosso país vivemos cerca de 400 anos de escravidão e posteriormente 120 e poucos anos sem medidas de superação desse grande mal... por isso temos uma sociedade que rejeita claramente ações de superação em relação a isso.

Podemos reparar quando se sabe que embora sejamos um país mestiço (alguém duvida?), essa data não é considerada feriado em alguns estados do país, o que eu considero um absurdo e uma ignorância completa.

Quase tão completa quanto o que eu ouvi outro dia, de uma menina brasileira, que indignadíssima com o Feriado da Consciência Negra , considerava isso como uma jogada de marketing...Ora, que essa moça não tem a menos instrução não há dúvidas, aposto que ela não teve a menor "educação", como a maioria dos brasileiros... mas ela também não anda nas ruas? Ela não observa que a maioria da população brasileira é mestiça de pele escura?

Claro que não, ainda não há um incentivo para que se faça isso.

Por isso que o Dia da Consciência Negra é, sim, o dia mais importante do calendário do Brasil.

Claro que a guerra continua e ainda está longe de terminar...

Mas o Dia da Consciência Negra é uma importante luta contra essas idéias burras.

Viva os negros do Brasil (que é a mesma coisa que dizer viva os brasileiros...AINDA VÃO SER PRECISO MUITOS DIAS DA CONSCIÊNCIA NEGRA ATÉ QUE SE ENTENDA ISSO!)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Encontrei minhas origens



Encontrei minhas origens

Oliveira Silveira (*)

Encontrei minhas origens

Em velhos arquivos

Livros

Encontrei

Em malditos objetos

Troncos e grilhetas

Encontrei minhas origens

No leste

No mar em imundos tumbeiros

Encontrei

Em doces palavras

Cantos

Em furiosos tambores

Ritos

Encontrei minhas origens

Na cor de minha pele

Nos lanhos de minha alma

Em mim

Em minha gente escura

Em meus heróis altivos

Encontrei

Encontrei-as, enfim

Me encontrei.

(*) O professor, poeta e pesquisador gaúcho Oliveira Ferreira da Silveira foi o idealizador do Dia da Consciência Negra.

domingo, 15 de novembro de 2009

Filipe e Gustavo - Desaparecidos

No sábado, dia 07/11/2009, à noite, DOIS filhos de Vilma Pereira da Silva, que reside na Vila Madalena - Zona Oeste de São Paulo, saíram para ir a um supermercado do bairro e estão desaparecidos desde então. Os nomes dos meninos são: Gustavo, 9 anos e Filipe, 13 anos. Há suspeitas de que tenham fugido de casa. A Polícia, o Conselho Tutelar e todos os órgãos competentes já foram avisados, mas o descaso é tamanho que precisamos recorrer a todosos possíveis! A mãe está desesperada! Favor entrar em contato com Vilma pelo tel.: (11) 9195-7805 ou Mônica e Bruno pelos telefones: (11) 8156-2694 cel., 8139-0861, ou 3969-0861 res.
As fotos deles:



Segregação da mulher: A nova velha história...

Achei muito estranho o Tom Zé não ter feito nenhum comentário sobre ocaso UNIBAN! Justo ele, que é o maior guerreiro pelo direito da mulher ser inteira... então escrevi para ele, colo aqui a mensagem:

"Olá Tom Zé,
Aqui que escreve é uma fã de muito tempo, a última vez que te escrevi, foi sobre seu show no Teatro Municipal de São Paulo, durante a Virada Cultural... pois então, assisti sua participação no Raul Gil e achei fenomenal (como sempre), as idéias libertárias ainda são estranhas para as mulheres tão acostumadas a serem reprimidas, você sabe.
Uma vez você autografou meu CD Estudando o Pagode,e eu te disse que aquele disco deveria ser distribuído a todas as mulheres, porque nele as suas letras dizem coisas que eu sempre achei, mas nunca tinha tido coragem de falar (como o fato dos homens quererem sempre transar "uma boneca de pau", e muito mais...)
Mas acho, Tom Zé, que está claro o motivo pelo qual as mulheres, quase nunca, se mostrarem como mandam seus desejos: Ainda não existe lugar para que elas façam isso. Falo do exemplo da estudante da UNIBAN. Ao ouvir a notícia e ver as imagens pela Internet, coloquei seu disco para tocar, claro. Queria ler o que você pensa sobre isso, apesar de suspeitar que já sei mais ou menos, mas ao visitar seu blog agora, vi que estás viajando para Irará e tal, desejo ótima viagem, mas estarei aguardando suas palavras sobre a moça e também sobre aquela instituição medieval - a UNIBAN- que expulsou a mulher porque ela se mostrou mulher e os homens não se seguraram (como se fossem estupradores, quando dizem que a mulher que "provocou".. absurdos!)
É, Tom Zé, apesar de ganharmos algumas lutas importantes (como quando você falou da liberdade sexual da mulher no programa Raul Gil!), esta guerra ainda longe de terminar.. contamos sempre com você e com a Neusa!
Grande abraço a vocês
Ca"

Sarau na Casa das Rosas, com Claudio Willer e a planta dos pés...

Ontem eu estive no Sarau mensal da Casa das Rosas. Desta vez tivemos um convidado super especial - o poeta Claudio Willer- que leu alguns poemas dele.
Um deles, quando expressos por ele, por aquela voz, aquilo tudo que ele é, se toranram definitivos para mim, eu posso colá-lo aqui:

"Após uma manifestação em defesa da reserva florestal
de Caucáia do Alto

por mim teria ficado por lá mesmo
no altiplano
onde tudo começou
bem acima
destes bolsões de pânico
bem longe
deste mundo coagulado
na devida distância
desta fantasia sulfurosa
na qual moramos
teria ficado por lá mesmo
mergulhado na lagoa de reencontro
escavada na superfície do planeta
em sua primitiva forma
ficar por lá mesmo
encontrar o mais puro rastro vegetal
entre samambaias sem memória
cipós de sabedoria
e círculos de névoa
ficar lá mesmo
buscar o segredo do arenito
a linguagem da pedra
percorrer o avesso da consciência
ficar por lá mesmo
nunca mais sair
deste planeta
frio e luminoso
e sempre celebrar
a redescoberta do corpo
pela planta dos pés"

Certo, vocês podem ler, podem até gostar, mas o que eu senti na hora que ele leu, dificilmente alguém terá... quando aquela voz, aquele tom, aquilo tudo que ELE entoou "...sempre celebrar a redescoberta do corpo pela planta dos pés.", foi o meu corpo que reagiu, ali sozinho, pulsando pois percebeu estar de novo na frente de um homem inteiro - que sabe a glória do saber querer -e eu relembrei aquilo que parece que é melhor que eu esqucesse: existe uma ligação energética direta da planta dos pés com todo o corpo,que faz ser tão gostoso tocar e ser tocado nos pés... mas não pode esquecer esses detalhes (que são coisas muito grandes pra esquecer).
Uma das pessoas que quiseram muito que eu me esquecesse de que eu sou, sim,tudo isso voltou a me procurar, dizendo que eu era tudo o que eu sou - tudo de bom -, mas eu não preciso mais ouvir isso, porque eu sei, também sei que quero muito mais...
Recentemente eu senti algo relacionado à planta dos meus pés, mas a ligação com o meu corpo redescoberto só foi feita pelo poema de Willer... o resto é segredo!
Suspiros...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

GUIMARÃES ROSA POR GUIMARÃES ROSA

Tive acesso a uma carta de Guimarães Rosaa seu tradutor para o francês, disponível no Arquivo do IEB USP, fundo Guimarães Rosa...
Trancrevo aqui um trecho que achei interessantíssimo :

"Quase todas as expressões empregadas no Primeiras Estórias não são tiradas da linguagem comum, mas sim criadas por mim, de toutes pièces -de modo que,também para oleitor brasileiro elas soam novas,estranhas, completamente inéditas. Por isso mesmo, e se tratando de estórias muito curtas, essas tournures nãopoderiam ser omitidas (nem vertidas para fórmulas usuais do outro idioma) sem prejuízo,tudopodendo resultar em mole, frouxo, incolor, sem valer a pena. (...) "

"Parabéns pela 9a netinha: que todas as gentis Fadas rodeiemo berço da pequena Sophie! A vida tem horas bonitas,e cheias de compensações."
Rio de Janeiro, 1964

domingo, 1 de novembro de 2009

IGNORÂNCIA E MACHISMO

Vocês souberam da triste história da aluna da UNIBAN?
Se não vira, procurem no Youtube!
Eu soube e achei muito triste e preocupante!
O nome daquilo não é outro a não ser MACHISMO extremo!
Aquilo foi um triste exemplo de como, ainda hoje,os homens pode se sentirem poderosos e com direitos sobre a mulher. Afinal, caso algum daqueles moços encontrasse a menina numa festa, com certeza não a agrediria...
Esses homens das cavernas estão por fora!

DESCRIÇÃO GEOGRÁFICA DO BRASIL

"Situação astronômica: está situado no mundo da Lua, a 38 graus à sombra, pelo meridiano do Rio de Janeiro , apenas no verão. Limites: ao sul, o Borges de Medeiros; a leste o cabo submarino; a oeste , o Acre; não tem norte, Superficie: foi sempre um país muito superficial, em tudo. População maior do que a da Argentina e fortemente camuflada. Estreitos: o canal do mangue e o cérebro do sr. Marcolino Barreto. Montanhas : O Monte Pio, na burocracia; o Monte Líbano, habitação do bode preto. O ponto culminante do Brasil é o sr. Rui Barbosa." (Mendes Fradique. História do Brasil pelo método confuso. São Paulo: Cia das Letras. Pp 72-3)
Como vemos, a definição é perfeitamente DEFINIDA! KKKKKK

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

SEMÂNTICA E SEMIÓTICA: QUE LOUCURA!

Escreveu Steven Pinker em seu último livro traduzido no Brasil:
"A semântica trata da relação das palavras com pensamentos, mas também da relação das palavras com outras questões humanas. A semântica trata da relação das palavras com a realidade - modo como os falantes se comprometem com uma compreensão comum da verdade, e o modo como seus pensamentos são ancorados em coisas e situações no mundo. (...)Trata-se da relação das palavras com as emoções: o modo como as palavras não só indicam coisas, mas estão saturadas de sentimentos, quedotam as palavrasde uma idéia de magia, tabu e pecado." (PINKER,Steven. Do que é feito o pensamento: A língua como janela para a natureza humana. São Paulo: Cia das Letras. 2008.P.15)
Certinho,certinho. Ando assistindo as aulas de semiótica de Luiz Tatit. que uma vez disse que Semiótica era Semântica... como assim?
Pesquisando na internet, achei esse texto aqui:
"
SEMIÓTICA FÁCIL

4. SEMÂNTICAS
A semântica que conhecemos é simplesmente aquela parte da gramática que abrange os significados das palavras. Em semiótica, semântica é aquela dimensão do entendimento que nos dá conta dos significados de todo e qualquer signo ou de toda e qualquer composição sígnica ou proposição. A semântica, em semiótica, diz respeito a todo tipo de signo, e não somente das palavras escritas ou faladas e dá conta da compreensão também de imagens e sons e toda e qualquer informação que nos chega pelos sentidos e pela elaboração mental.
Quando queremos saber o significado usual, costumeiro, de uma palavra, recorremos, sem hesitar, ao dicionário. Entretanto, nem sempre o dicionário informa sobre os sentidos derivados em que as palavras são empregadas, como nas metáforas ou quando estamos diante de neologismos e gírias, por exemplo. Por isso os semiólogos, como Umberto Eco, ou lingüistas, como o dinamarquês Hjelmslev, definem a semântica como um vasto universo que compreende desde os significados restritos e usuais até aos significados possíveis, em função de relações associativas..."
Tudo isso tá pirando minha cabeça! O que vocês acham?
(Ah, no site temos uma bibliografia de referência, vou consutar, indico aqui:

BIBLIOGRAFIA
ECO, Umberto. Semiótica e filosofia da linguagem. Lisboa: Instituto Piaget, 1984.
HJELMSLEV, Louis Trolle. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. São Paulo: Abril Cultural, 1978 - p.195/197.
SAUSURRE, Ferdinand. As palavras sob as palavras. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Meninices de Rosa...


Em 2003/4 eu fiz uma experiência muito interessante de apresentar os jogos de linguagem de Rosa a crianças. Foi marcante, claro!
Hoje eu tenho contato com algumas daquelas crianças - hoje já adolescentes - e no último domingo,quando eu fiz aniversário, recebi votos de parabéns de uma delas,com cheiro de lembranças :"
Manu : Parabéns Camila, um beijão do Guilherme - lherme!! " rs
Em nossas atividades de dividir as palavras em pedacinhos e tentar transformá-los em outros significados, esta menina chamava o Guimarães Rosa de "Guilherme-lherme", então eu a chamava assim ... eu nunca vou me esquecer, e quando ela se lembrou disso, depois de anos, foi um grande presente que eu ganhei: PELO MENOS UMA ALUNA NÃO SE ESQUECEU DAS NOSSAS BRINCADEIRAS COM O ROSA!


Por isso que eu não posso desistir do doutorado, não posso mesmo...
Que o Rosa esteja conosco, sempre!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

30 ANOS? SOLIDÃO, QUE POEIRA LEVE...

"Na Vida quem perdeo telhado em troca recebe as estrelas..." E DAI?

E QUANDO DA DESCOBERTA DAS MINAS?

Vimos aqui que os colonizadores do Brasil - metalistas- andavam em busca de ouro, prata e pedras preciosas desde a carta inaugural de Caminha, mas esses produtos só foram encontrados no século XVIII. Isso está registrado na literatura, vejamos o poema de Alvarenga Peixoto, extraído da antologia Com palmos medida:










sábado, 24 de outubro de 2009

"... ela mesma não podia ser um sonho para nunca envelhecer..."


Conforme já estava previsto, domingo 25 de outubro de 2009, completo 30 anos.
Viro uma balzaquiana com uma cara de moleca, mas a idade já me pesa um pouco...
Se até a Brigit Bardot- que era uma moça bonita - ficou velha, por que eu não poderei curtir meu amadurecimento?
Com ela eu não sei, mas comigo, nenhum rapaz de 20 anos me telefonou AINDA e eu, como ela, estou "ficando velha, triste e sozinha", mas ao contrário dos dela, os "MEUS SONHOS NÃO QUEREM PEDIR DIVÓRCIO", não ainda!
FELIZ ANIVERSÁRIO PARA MIM, A MAIS NOVA BALZAQUIANA DO PEDAÇO!

sábado, 17 de outubro de 2009

"Sou um mulato nato no sentido lato mulato democrático do litoral"


Esse vídeo nunca postei aqui, mas eu o conheço desde a época que Obama era candidato...
Só que eu estava ouvindo com muita atenção o disco de Caetano, Araçá Azul (porque eu queria beber da fonte colonial para meu doutorado) já que eu dei uma passada de olho (ler é outra coisa ) na dissertação de mestrado de Peter Dietrich sobre este disco e o que ele escreveu sobre a frase de Sugar cane fields forever, que dá título a esse post,me fez lembrar muito desse vídeo.
Escreveu Dietrich e vou parafrasear aqui : Mulato é a mistura das raças negra e branca, é a personificação da síntese entre Europa e África que deu origem ao povo brasileiro. A democracia válida para o mulato é a etnica, e o "nato" refere-se às características herdadas pela etnia. E o mas genial de tudo é que, ao justapor os adjetivos "lato" e "nato", como se estivessem saindo da palavra "mulato", que então passa a aparecer como algo original e autêntico, que o distanciam de suas origens e o colocam como algo novo. (C.f. Peter Dietrich. Araçá Azul: Uma análise semiótica.P.145)
Bom, Caetano é foda e eu concordo MUITO com ele PREFIRO UM MULATO A UMA MULHER (rs)
Por causa do Caetano, se tenho coragem, me denomino Preta Chique, a democrata social racial, como Neide Candolina!
O que vocês acham?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

MALABARISMOS

Parece que cientistas estão descobrindo que praticar MALABARISMO ajuda o cérebro a se desenvolver melhor. Leiam aqui.
Isso me lembrou um dos melhores poemas de Viníciu, Acrobatas.
Leiam o poema e imaginem as acrobacias cerebrais, porque para mim parece muito interessante pensar que acrobacias do corpo podem interferir no poder da mente, que conhecemos bem como imaginação, mas parece que vão bem alám disso; e depois imaginem exercícios de acrobacia sexual, da qual fala Vinicius no poema, até que caiamos mortos, pela "pequena morte", que é como os franceses chamam o orgasmo...

domingo, 11 de outubro de 2009

TRAUMAS DE INFÂNCIA : JESUS DO SBT

Não posso colar o vídeo aqui, só o link: http://www.youtube.com/watch?v=TmtQKStTV_I
Escrevi aqui outro dia, sobre como algumas crenças religiosas estavam tentando destruir o imaginário infantil...
Pois agora eu pude entrar em contato com vídeo que, durante a minha infância me aterrorizava!
Eu morria de medo do tom ameaçador da mensagem! O pior era o final
"VOCÊ TEM CERTEZA DE QUE JÁ FEZ TUDO O QUE PODIA PELO SEMELHANTE? PENSE BEM, POIS UM DIA VAMOS NOS ENCONTRAR..." (rs)
O problema era o seguinte: Eu não fazia idéia de quem era esse tal de meu semelhante, então com certeza eu não tinha feito nada por ele e a qualquer hora ESSE JESUS IA VIR ME BUSCAR! (RS)
Isso me dava muito medo! Que monstros, bruxas, duendes... eu tinha medo mesmo do JESUS DO SBT!
Isso tudo,que hoje euacho engraçado, me faz lembrar da catequização dos índios, que nada estavam entendendo direito, e recebiam sobre si, sem aviso prévio, essa carga ameaçadora, só podiam se converter MESMO!
É cada uma, né?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

SOBRE OBAMA E O NOBEL DA PAZ


Todo mundo sabe que eu considero Obama "tudibom", que homem chique, elegante, influente e lindo! Mas agora ele veio a receber o Nobel da Paz, e claro que os narizes tortos não sossegaram em se contorcer ainda mais... calei-me, mas Saramago não... concordo plenamente com ele e ofereço a todos esse link com sua opinião, que também é a minha... se quiserem, confiram...
Investimento em esperança é acreditar na construçãode algum um tipo de HERANÇA IMATERIAL e apostar em Obama é tentar pintar a história com outras cores, não é?
Vejamos...

NOTÍCIAS DA USP : ELEIÇÕES E VESTIBULAR

Para pessoas mais ou menos ligadas a questões políticas da USP (muito mais menos do que mais como eu), não deve ser novidade que as Eleições para reitor estão tomando o centro das atenções do movimento estudantil. A preocupação não é tola, não só para pessoas da comunidade USP - a quem foi apresentado um site com o tema Eleições USP 2009- mas também a todos os paulistas, pois a eleição do reitor da USP interfere diretamente na economia de poderes que sustem o poder do governador do Estado de São Paulo...


Como em todas as eleições, a do reitor da USP é repleta de jogos de politicagem, de disputas partidárias e de disputas ideológicas entre "esquerdas" e "direitas"...


Mas a lista com os 8 candidatos a serem avaliados pela Assembléia Universitária, composta pelo Conselho Universitário, pelos Conselhos Centrais e pelas Congregações das Unidades, já está disponível...
Como eu me envolvo bem pouco com questões políticas da USP, conheço bem poucos nomes da lista, mas um deles me faz pensar (e temer) que se as coisas seguirem o fluxo que estão seguindo, é bem capaz que quem substituirá Suely Vilena (a Suely"chama a PM pro campus"), será Sonia Penin!
Quem é Sonia Penin?
Quem participou da greve dos alunos da FFLCH em 2002, pela contratação de novos professores para a faculdade, pois contávamos com poucos e as salas estavam sempre lotadas, e o que pior, havia cursos como o e chinês, seria fechado pois seu único docente estava para se aposentar... CHINÊS, MEUS CAROS, QUE É UMA LÍNGUA QUE JÁ VINHA CRESCENDO MUITO EM IMPORTÂNCIA , DADA A COLOCAÇÃO DA CHINA COMO ESTADO QUE MAIS CRESCE DEMAIS NO MUNDO... E a Universidade de São Paulo quase aboliu o seu ensino.
Foram 4 meses de greve, que resultaram na contratação de muitos professores, não só de chinês, mas para a faculdade toda, mas até isso aocntecer, algumas cenas serão para sempre inesquecíveis, como na tarde que os estudantes convocaram a então "Pró reitora de graduação Sonia Penin" para ouvir as colocações dos alunos a respeito da contratação de novos professores.
Conhecendo como as coisas funcionam, os estudantes foram munidos de arsenal simbólico, caso a pró reitora nos falasse coisas absurdas (o que seria mais do que provável), poderíamos colocar os narizes de palhaços devidos...
Então , não foi que ela despejou absurdos? Sona Penin é da área de Educação, e teve a coragem de dizer que PROFESSORES NÃO PODERIAM SER CONTRATADOS, MAS QUE UM NOVO PRÉDIO PODERIA SER CONSTRUÍDO PARA RESOLVER A SUPER LOTAÇÃO DAS SALAS(???) E TAMBÉM OFERECER MUITOS COMPUTADORES MODERNOS PARA SEREM USADOS NAS NOVAS SALAS.
Isso não é chamar os alunos de palhaços?
Sempre, sempre, sempre, educação precisou, basicamente, de apenas duas coisas : mestres e alunos ... como alguém da área de educação estava propondo que os professores fossem substituídos por computadores? Ela fez isso. E agora está querendo ser reitora da USP...
Tomara que ela seja excluída agora em outubro e nem chegue a integrar a listra tríplice da qual o nosso "querido" governador José Serra indicará o novo reitor...
Veremos o que acontecerá.
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Mudando só um pouco de assunto
Por outro lado, a USP enfim se colocou a repeito da utilização do resultado do ENEM no vestibular. Ao contrário da UNICAMP, que assim que se soube da compra da prova, desconsiderou de cara a utilização, a USP ficou pensando, pensando.
Eu achei muito triste o que aconteceu com esse novo ENEM, que seria o primeiro passo de uma nova forma, proposta pelo MEC, de como ensinar os conteúdos, mas não sei... no caso de história (minha área) é muito claro que a mudança seria bastante radical... muito menos conteúdo tipo google, mas muito mais reflexão e compração de saberes (que é muito mais próximo do que se aprende nas faculdades de história), com isso os cursinhos pré vestibulares (os donos do dinheiro investido na educação) poderiam sair perdendo, né? Será mesmo que essa fraude foi um evento realizado para interesse financeiros de algumas pessoas? Achei muito estranho. Como uma prova tão conhecida teria sob si uma segurança assim tão fágil? Como confiar?
Se a USP estivesse mantendo essa utilização, mesmo com todo o cenário de questionamentos de legitimidade desta prova do ENEM, estaria assinando embaixo desse mar de questões, que pode ser bem sujo. Mas não manteve. Novamente, vamos ver as cenas dos próximos capítulos.
Chega de assuntos polícos e politiqueiros porque estamos entrando na semana das crianças: OBA!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

MST E OS LARANJAIS : ARBITRARIEDADE SE PAGA COM ARBITRARIEDADE?

Vocês receberam notícias sobre os pés de laranja que tratores do MST destruíram em uma fazenda de São Paulo, não é? Eu estive revendo essas cenas e ouvindo comentários vários sobre ela o dia inteiro...
É que todo mundo sabe que a reforma agrária é algo importantíssimo de se realizar no Brasil, mas sempre me pergunto se o caminho que o MST está percorrendo vai garantir esse objetivo, será?
Se alguém for procurar quais os argumentos do MST para ter destruído os pés de laranja vai, pelo menos, parar para pensar um pouco... A fazenda pertence a Cutrale,que é uma das maiores produtoras de suco de laranja do mundo, a cada três copos de suco tomado no mundo, um foi produzido pela Cultrale, que vêm adiquirindo empresas estrangeiras, e é frequentemente acusada de cartel por outros produtores de laranja. O MST levantou dados de que fazendas ocupadas pelo movimento, que fazem parte do grupo Cutrale, são áreas ilegalmente ocupadas pela empresa, uma vez que a fazenda está localizada em uma região onde 10 mil hectares de terras pertencem à União, então a empresa está sediada em terras do governo federal, o INCRA já havia se manifestado denunciando que à ocupação de tais terras pelo latifúndio dos Cutrale é ilegal. (isso quem esclareceu foi uma pessoa ligada ao MST,que não foi ouvida pela mídia, claro). Então,quem invadiu primeiro a terra da União foi a Cultrale, o MST só veio fazer isso depois? Parece que sim e isso está de pleno acordo com a ideologia defendida pelo MST de lutar contra o predomínio de latifúndios,entretanto, sair destruindo laranjais- sem ter recomeçado imediatamente a plantar o feijão prometido para brecar a monocultura- e ficar pichando muros são manisfestações infantis que são usadas nas greves da USP e que só podem levar a indignação da sociedade (que como sabemos, morre de medo de entrar em contato com algumas coisas como a questão fundiária e com esse tipo de atitude do MST, acabam achando alguma legitimidade para esse medo... péssimo!)
Por outro lado, claro que eu fico sem palavras com as opiniões apresentadas pela mídia,como sempre...O Alexandre Garcia, nesta manhã, entoou um verdadeiro discurso indignado pela existência e permanência de ORGANIZAÇÕES AUTÔNOMAS QUE SE APRESENTAM COMO MOVIMENTOS SOCIAIS, COMO O MST...E o direito da livre manifestação? Péssimo isso de pensar e agir com arbitrariedade.
Assim,sou eu é quem fica com medo, medo de ignorância paga com mais ignorância e arbitrariedade paga com mas arbitrariedade... nessa luta por saber quem é o mais hostil, e as questões fundiárias e trabalhistas acabam ficando à margem e são usadas por interesses politiqueiros de todos os lados.
Assim, todos perdem e, como sabemos,os mais fracos perdem mais.. mas quem são os mais fracos, mesmo?
Tô confusa, eu sei,mas eu acho que é uma questão para ser muito discutida, muito mesmo, mas como a luta para saber quem grita mais, vamos apenas ouvir ruídos demais!

domingo, 4 de outubro de 2009

"Y una hermana muy hermosa que se llama libertad..."


Não é com nenhuma alegria que fico sabendo que neste dia 04 de outubro nos deixou aqui sozinhos nesse mundo quase todo errado uma das pessoas que mais lutou, louvou e se preocupou com a fraternidade no mundo: Morreu Mercedes Sosa.
Muitas canções que ela entoou me emocionaram e emocionam,mas essa do vídeo é especial... e quando penso que ela morreu, só me lembro do poema de Drummond, em seu lindo e melancólico livro Farewell, no poema "Liberdade" :
"O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto."
Que Mercedez voe em direção a sua "hermana muy hermosa que se llama libertad..."

sábado, 3 de outubro de 2009

UFANISMO UTÓPICO



O título e a charge eu peguei do perfil do meu orkut-amigo Jonh Bernardes Justiniano.

Mas a idéia também é minha: Esse entusiasmo adolescente não está mais colando em mim...

Como no dia que seria divulgado o resultado da disputa do local a ser realizado em 2016 foi decretado PONTO FACULTATIVO!... Sei lá, esse tipo de envento não dá certo sem muito empenho e muita grana (que grana?)

Eu não fiquei tão "feliz"... mas é apenas a minha opnião...

O que vocês acham?

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Certidão de batismo da literatura do lugar que viria a ser o Brasil

Sexta-feira, 1º de Maio de 1500

“... Entre todos os entes que aqui vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho ao redor de si. Porém, ao assentar, não fazia gande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal,que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha..
Ora, Vossa Alteza, se quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que pertence à sua salvação. (...)
Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar,nalgumas partes,grandes barreiras,delas vermelhas.delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.
Pelo ‘sartaam’ nos pareceu, vista do mar, muito grande porque a estender olhos,não podíamos ver senão terra com arvoredos,que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata,nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Doiro e Minho, porque neste tempo agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é gaciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se á nela tudo, po bem das águas que tem.
Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar. (...)
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
De Porto Seguro, da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha ”

Se eu seria personagem

No conto “Se eu seria personagem”, do livro Tutaméia de Guimarães Rosa o narrador duvida da própria existência e deseja a chegar a existir (que seria ser realmente personagem), assim como seu amigo Tito-lívio Sérvulo. Como tudo do Guimarães Rosa este texto é sublime, vejamos como ele começa:

Note-se e medite-se. Para mim mesmo, sou anônimo; o mais fundo de
meus pensamentos não entende minhas palavras; só sabemos de nós mesmos com muita
confusão.
” (Guimarães Rosa. Se eu seria personagem. In Tutaméia.P.199)

Para um texto de Antonio Candido, já mais antigo que eu, a personagem de romance (que estou entendendo aqui como personagem de ficção escrita no geral) :

“a personagem é um ser fictício, -expressão que soa como paradoxo.
De fato, como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe? No
entanto, a criação literária repousa sobre este paradoxo, e o problema da
verossimilhança no romance depende desta possibilidade de um ser fictício,
isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão da
mais lidima verdade existencial. Podemos dizer, portanto, que o romance se
baseia,antes de mais nada, num certo tipo de relação entre o ser vivo e o ser
fictício, manifestada através da personagem, que é a concretização
deste.”
(Antonio Candido. A personagem do romance. In A
personagem de ficção. P.55)
Mas por que eu trago estas colocações tão teóricas e literárias neste texto? Existe uma motivação real.
Faz cerca de duas semanas eu acompanhei pela televisão a história de um homem que se inventou, como se ele mesmo fosse uma personagem de ficção. Falo da História de Julio César Santos, que foi contada em uma
reportagem do Globo repórter.
Julio Cesar, nome que foi a única informação que ele recebeu sobre sua origem desde quando foi entregue a um abrigo no Rio de Janeiro em 1970, com menos de 2 anos de idade e sobre o qual não se sabia quase nada além deste primeiro nome, nem o sobrenome, nem a data de nascimento, nem a identificação dos pais...isso ele, com mais de 40 anos, ele foi buscar, com a ajuda de uma assistente social, pois ele pensava (e com razão) que ele tinha direito a ter na certidão de nascimento um sobrenome e o nome da mãe.... aí foi dado a ele o direito de inventar sua realidade. Escolheu o sobrenome Santos porque ele assistia muitos filmes evangélicos e a idéia de alguma coisa “santa” rondava sempre sua cabeça, e o que eu achei mais importante: para a mãe ele escolheu um nome extraído do seu nome, se ele era Julio César, a mãe poderia ser Juliana...
Começou assim a criação da personagem Julio César Santos, bombeiro,que adotou pais depois de adulto ...sim, ele não foi adotado por ninguém quando criança, e nos relatórios de sua internação nos abrigos sempre só constou que “não se sabia de ninguém que o tivesse vindo procurar” , mas depois que saiu do abrigo ele mesmo “adotou” um casal que apresentou a esposa e aos filhos como sendo seus pais...sim, ele nunca dizia a ninguém sobre o que realmente tinha lhe acontecido, que tinha sido entregue em um abrigo, ainda bebê e lá permaneceu, pois tinha medo de ser rejeitado pelas pessoas. Esta verdade lhe doia muito. Eu entendo muito bem do que ele está falando e o tamanho da dor que ele sente.
Eu não conseguia escrever sobre isso (e ainda é difícil), porque embora eu saiba que minha história não é como a dele, eu tenho pais e família que me acolheram desde sempre e ainda me acolhem (os meus me adotaram, não precisei adotá-los depois de adulta), o que é ótimo para mim, claro, e significa uma ferida a menos, mas eu também sei que a ferida mais aberta não está na adoção – que é um história bela e de acolhimento-, mas sim no que aconteceu antes dela... quando a gente sabe que a primeira coisa que lhe aconteceu quando surgimos no mundo foi que fomos abandonados, como ter uma grande auto estima? Como qualquer abandono, tolo que seja, pode não doer mortalmente em você?
Não pode.
Julio César precisou contar a sua história para a Globo, e o fez na esperança de que a sua mãe (que pode não se chamar Juliana, mas é a “única pessoa que ele gostara que ouvisse seu relato”),porque pensa que isso fizesse com que doesse menos. Será?
Comigo a história é ligeiramente diferente. Me dói muito aquilo que a minha mãe (a mulher que me adotou) contou a história de como eu apareci aqui em casa, uma linda história, da qual eu só posso me orgulhar, mas quando me narrou ela ainda comentou (um pouco sem ter noção de quanto doeria) “achei estranho que a sua mãe (ela referia-se a mulher que me pariu) nunca ter te procurado,nem por curiosidade...
Claro, você pode achar isso um detalhe tolo, mas digo-lhe que não é. No fundo, no fundo, eis a base desse meu (inexplicável a primeira vista) sentimento de não pertencimento a esse mundo onde vivo...
Não vou procurar a mulher que me pariu há 30 anos atrás, nem procurar a Globo numa atitude desesperada de resgatá-la, porque ela já significa quase nada naquilo que eu vim a me tornar, mas não sei se é intencional ou não, não posso esquecer que eu escolhi -e lutei muito para sustentar essa escolha- estudar as crianças abandonadas da literatura de Guimarães Rosa com0o tema do meu doutorado e como anunciei claramente na defesa do meu mestrado em março, aquela dissertação só existiu porque Guimarães Rosa escreveu “Lá, nas campinas” , que é a história de Drijimiro, que é mais ou menos como a de Julio César Santos, alguém que sabia quase nada da sua origem ... estudar essas questões e tocar profundamente em feridas são formas de tentar digerir o que não é digerível.
Boa sorte para Julio César, para mim, e para todos que começaram a vida a partir de um nada, porque é possível, sim, que este “quase nada” se transforme em tudo, como na palavra Tutaméia, que quer dizer “quase nada”, mas também quer dizer “tudo o que é meu”.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Retratos de crianças do êxodo, de Sebastião Salgado



SALGADO, Sebastião. Apresentação de “Retratos de crianças do Êxodo”. São Paulo: Cia das Letras. 2000. Pp. 07-09


“ Este livro é dedicado a todas as crianças
que olharem para estas fotografias e forem
levadas a pensar sobre as vidas atrás dos rostos ”

“Em todas as situações de crise, seja guerra, miséria ou desastre natural, as crianças são as maiores vítimas. Mais fracas fisicamente, são sempre as primeiras a sucumbir à fome ou à doença. Emocionalmente vulneráveis, não têm condições de compreender por que estão sendo expulsas de suas casas, por que os vizinhos passaram a atacá-las, por que foram viver numa favela cercada de detritos ou num campo de refugiados cercado de dor. Isentas de responsabilidade pelos próprios destinos são, por definição, inocentes.
Mesmo assim – a não ser que estejam gravemente enfermas-, mesmo nas piores circunstâncias as crianças são a fonte da mais pura energia. Todos os fotógrafos que já tenham trabalhado entre refugiados ou migrantes urbanos verificou este fato. Há crianças por toda parte, em geral mais visíveis do que os adultos. Ao ver uma câmera, dão pulos de entusiasmo, riem, acenam, empurram-se umas às outras na esperança de serem fotografadas. Às vezes sua energia de viver chega a interceptar o registro fotográfico do que está acontecendo com elas. Como é possível uma criança sorridente representar o infortúnio mais profundo?
Esse paradoxo foi o ponto de partida deste livro. Eu estava trabalhando em Moçambique, em meio a pessoas deslocadas que haviam fugido da guerra civil para uma região chamada Mopéia. Como sempre, em todo lugar aonde eu ia era cercado por crianças. Acabei fazendo-lhes a seguinte proposta: ‘vou ficar sentado aqui. Se vocês quiserem que eu tire fotos de vocês, façam uma fila. Eu tiro a foto e depois vocês podem ir brincar”. Em pouco tempo eu já havia tirado uns 30 retratos. O estratagema funcionou. Felizes da vida, as crianças me deixaram tranqüilo por algum tempo. Claro, era só eu chegar em outro lugar que elas imediatamente reapareciam – e eu tornava a dizer –lhes para formar uma fila que eu ia fotografá-las.
Quando voltei para casa, em Paris, um belo dia dei com aquelas fotos e no mesmo instante percebi sua intensidade. Crianças que alguns segundos antes de serem fotografadas estavam rindo e gritando, de repente haviam ficado sérias. O grupo ruidoso se transformara em indivíduos que, por meio da roupa, da pose, da expressão e do olhar, contavam suas histórias com franqueza e dignidade desarmantes. O olhar daquelas crianças, mais do que qualquer outra coisa, eram como janelas de suas almas. E, através deles, a tristeza e o sofrimento que elas haviam encontrado em suas curtas vidas eram dolorosamente visíveis.
No início, não pensei em publicar aqueles retratos : depois de cada viagem, em geral eles eram os últimos a ser revelados e ampliados, mas no decorrer de minhas viagens,continuei tirando fotografas de crianças sempre que elas se punham a andar atrás de mim. Nem sempre isso acontecia : em umas poucas situações, por exemplo nas travessias clandestinas de fronteira, não havia crianças à vista. Outras vezes, como nos comboios de refugiados, elas viajavam amontoadas com as famílias. Nos campos de refugiados Hutu, em Goma, no Zaire, elas pareciam fracas demais, talvez assustadas demais, para me seguir. Mas em muitos campos de refugiados e muitas favelas urbanas sempre havia bandos de crianças buscando água, jogando futebol,inventado alguma travessura - e loucas para serem fotografadas.
Mas acabei chegando à conclusão de que elas mereciam um foro próprio. Sua história pode ser a mesma dos pais, mas elas vivenciaram – e contavam –na de outro jeito.
E o que, na realidade, elas estão sentindo? Só podemos tentar adivinhar. Este livro mostra crianças de origens drasticamente diferentes que tiveram suas vidas destroçadas. Isso não as impede de continuarem crianças, com a mesma facilidade para rir e para chorar, para se entusiasmarem e se desapontarem, para serem comunicativas num minuto e reservadas no minuto seguinte. Seu mistério é justamente parte do que nos atrai nas crianças. Quando elas olham para a câmera, estão atrás de esperança e compaixão? Ou isso é apenas o que nos parece que elas merecem?
No decorrer de minhas viagens, repetidas vezes encontrei situações em que as crianças não tinham razões para sentir esperança. Num centro para crianças abandonadas, em São Paulo, dezenas de bebês brincavam num terraço de onde se avistava a cidade na qual, quando eles quase certamente estariam condenadas a tornar-se párias sociais. Em Hong Kong, havia vinte e cindo mil imigrantes ilegais do Vietnã detidas nas prisões; por incrível que pareça, 40% desses prisioneiros eram crianças nascidas ali mesmo, que jamais haviam visto uma flor a vida. No Sul do Sudão, órfãos pré-adolescentes costumavam ser recrutados compulsoriamente por bandos armados. Parecem destinados a morrer tão jovens quanto seus pais antes deles.
Em todos os casos, deparei com crianças que estavam em encruzilhadas de suas vidas. No Brasil encontrei algumas acampadas à beira da estrada em grupos de agricultores sem terra em busca de alguma propriedade rural improdutiva para ocupar. Essas crianças se achavam em estado de desnutrição, mas seus pais tinham esperança. Em alguns casos, era uma esperança justificada. Mais tarde visitei cooperativas formadas por ex-sem terra e constatei que seus filhos agora freqüentavam escola. Onde há escola, há esperança. Nas favelas urbanas,seja na América Latina seja na Ásia,quando os filhos dos migrantes analfabetos aprendem a ler e a escrever,estão dando o primeiro passo na direção de uma vida melhor. Alguns deles, graças ao talento, à sorte, talvez consigam até entrar na universidade.
O futuro das crianças refugiadas, porém, é particularmente incerto. Quando a fuga de povoados e cidades é feita de forma súbita e caótica, muitas crianças são separadas dos pais e familiares. Em determinado momento da brutal guerra civil de Moçambique havia nada menos que 350.000 crianças ‘perdidas’,que não faziam a menor idéia se os pais estava vivos ou mortos. Mais recentemente, milhares de crianças desacompanhadas faziam parte do êxodo em massa de Kosovares para a Albânia e Macedônia, embora nesse caso, pelo menos, a Cruz Vermelha Internacional e outras instituições humanitárias tenham tido condições de reagrupar boa parte das famílias num prazo de algumas semanas.
As crianças refugiadas também são vítimas de ferimentos mais difíceis de curar do que o trauma do deslocamento físico. Quando elas e os pais são vítimas de limpeza étnica, por exemplo, o desejo de vingança não é uma reação natural? Quando submetidas a exílios prolongados, as crianças crescem sabendo que tem um inimigo; quando um pai foi assassinado, que mãe pode ensinar os filhos a perdoar? Não é surpreendente que os campos de refugiados se transformem em centros de recrutamento para forças armadas guatemaltecos recrutavam adolescentes índios em campos de refugiados no México, os rebeldes palestinos utilizavam campos de refugiados no Líbano com o mesmo objetivo. As crianças refugiadas aprendem depressa que a derrota acarreta responsabilidades.
Algumas das cenas mais tristes que presenciei,contudo, envolveram os meninos de rua das atuais megalópoles. Essas imagens foram incluídas em Êxodos, e não aqui, porque aquelas crianças eram indiferentes a minha presença e não demonstraram interesse em poses para fotografias. Muitas vezes elas são usuárias de cola ou crack ou alguma outra droga,e conseguem sobreviver mendigando, roubando bolsas das passantes ou se prostituindo. O vírus da AIDS está se disseminando rapidamente entre elas, e é altamente improvável que venham a receber cuidados médicos. Em qualquer dos casos, foram abandonadas pela sociedade.
Todos os anos a UNICEF publica um relatório alarmante, sobre a situação das crianças no mundo todo. Fornece detalhes desanimadores sobre carências que afetam centenas de milhares de crianças em todo o planeta nas áreas de saúde, educação e moradia. Este livro de fotografias não pretende fazer esse tipo de análise. Simplesmente mostra noventa crianças de diferentes regiões da Terra num determinado dia de suas vidas. Elas aparecem lindas, felizes,orgulhosas, pensativas ou tristes. Por um breve instante , tiveram condições de dizer ‘Eu sou’. Em seguida, depressa demais, ficarão adultas e outras crianças tomarão seu lugar.”
Sebastião Salgado
Paris, julho de 1999