terça-feira, 15 de setembro de 2009

Retratos de crianças do êxodo, de Sebastião Salgado



SALGADO, Sebastião. Apresentação de “Retratos de crianças do Êxodo”. São Paulo: Cia das Letras. 2000. Pp. 07-09


“ Este livro é dedicado a todas as crianças
que olharem para estas fotografias e forem
levadas a pensar sobre as vidas atrás dos rostos ”

“Em todas as situações de crise, seja guerra, miséria ou desastre natural, as crianças são as maiores vítimas. Mais fracas fisicamente, são sempre as primeiras a sucumbir à fome ou à doença. Emocionalmente vulneráveis, não têm condições de compreender por que estão sendo expulsas de suas casas, por que os vizinhos passaram a atacá-las, por que foram viver numa favela cercada de detritos ou num campo de refugiados cercado de dor. Isentas de responsabilidade pelos próprios destinos são, por definição, inocentes.
Mesmo assim – a não ser que estejam gravemente enfermas-, mesmo nas piores circunstâncias as crianças são a fonte da mais pura energia. Todos os fotógrafos que já tenham trabalhado entre refugiados ou migrantes urbanos verificou este fato. Há crianças por toda parte, em geral mais visíveis do que os adultos. Ao ver uma câmera, dão pulos de entusiasmo, riem, acenam, empurram-se umas às outras na esperança de serem fotografadas. Às vezes sua energia de viver chega a interceptar o registro fotográfico do que está acontecendo com elas. Como é possível uma criança sorridente representar o infortúnio mais profundo?
Esse paradoxo foi o ponto de partida deste livro. Eu estava trabalhando em Moçambique, em meio a pessoas deslocadas que haviam fugido da guerra civil para uma região chamada Mopéia. Como sempre, em todo lugar aonde eu ia era cercado por crianças. Acabei fazendo-lhes a seguinte proposta: ‘vou ficar sentado aqui. Se vocês quiserem que eu tire fotos de vocês, façam uma fila. Eu tiro a foto e depois vocês podem ir brincar”. Em pouco tempo eu já havia tirado uns 30 retratos. O estratagema funcionou. Felizes da vida, as crianças me deixaram tranqüilo por algum tempo. Claro, era só eu chegar em outro lugar que elas imediatamente reapareciam – e eu tornava a dizer –lhes para formar uma fila que eu ia fotografá-las.
Quando voltei para casa, em Paris, um belo dia dei com aquelas fotos e no mesmo instante percebi sua intensidade. Crianças que alguns segundos antes de serem fotografadas estavam rindo e gritando, de repente haviam ficado sérias. O grupo ruidoso se transformara em indivíduos que, por meio da roupa, da pose, da expressão e do olhar, contavam suas histórias com franqueza e dignidade desarmantes. O olhar daquelas crianças, mais do que qualquer outra coisa, eram como janelas de suas almas. E, através deles, a tristeza e o sofrimento que elas haviam encontrado em suas curtas vidas eram dolorosamente visíveis.
No início, não pensei em publicar aqueles retratos : depois de cada viagem, em geral eles eram os últimos a ser revelados e ampliados, mas no decorrer de minhas viagens,continuei tirando fotografas de crianças sempre que elas se punham a andar atrás de mim. Nem sempre isso acontecia : em umas poucas situações, por exemplo nas travessias clandestinas de fronteira, não havia crianças à vista. Outras vezes, como nos comboios de refugiados, elas viajavam amontoadas com as famílias. Nos campos de refugiados Hutu, em Goma, no Zaire, elas pareciam fracas demais, talvez assustadas demais, para me seguir. Mas em muitos campos de refugiados e muitas favelas urbanas sempre havia bandos de crianças buscando água, jogando futebol,inventado alguma travessura - e loucas para serem fotografadas.
Mas acabei chegando à conclusão de que elas mereciam um foro próprio. Sua história pode ser a mesma dos pais, mas elas vivenciaram – e contavam –na de outro jeito.
E o que, na realidade, elas estão sentindo? Só podemos tentar adivinhar. Este livro mostra crianças de origens drasticamente diferentes que tiveram suas vidas destroçadas. Isso não as impede de continuarem crianças, com a mesma facilidade para rir e para chorar, para se entusiasmarem e se desapontarem, para serem comunicativas num minuto e reservadas no minuto seguinte. Seu mistério é justamente parte do que nos atrai nas crianças. Quando elas olham para a câmera, estão atrás de esperança e compaixão? Ou isso é apenas o que nos parece que elas merecem?
No decorrer de minhas viagens, repetidas vezes encontrei situações em que as crianças não tinham razões para sentir esperança. Num centro para crianças abandonadas, em São Paulo, dezenas de bebês brincavam num terraço de onde se avistava a cidade na qual, quando eles quase certamente estariam condenadas a tornar-se párias sociais. Em Hong Kong, havia vinte e cindo mil imigrantes ilegais do Vietnã detidas nas prisões; por incrível que pareça, 40% desses prisioneiros eram crianças nascidas ali mesmo, que jamais haviam visto uma flor a vida. No Sul do Sudão, órfãos pré-adolescentes costumavam ser recrutados compulsoriamente por bandos armados. Parecem destinados a morrer tão jovens quanto seus pais antes deles.
Em todos os casos, deparei com crianças que estavam em encruzilhadas de suas vidas. No Brasil encontrei algumas acampadas à beira da estrada em grupos de agricultores sem terra em busca de alguma propriedade rural improdutiva para ocupar. Essas crianças se achavam em estado de desnutrição, mas seus pais tinham esperança. Em alguns casos, era uma esperança justificada. Mais tarde visitei cooperativas formadas por ex-sem terra e constatei que seus filhos agora freqüentavam escola. Onde há escola, há esperança. Nas favelas urbanas,seja na América Latina seja na Ásia,quando os filhos dos migrantes analfabetos aprendem a ler e a escrever,estão dando o primeiro passo na direção de uma vida melhor. Alguns deles, graças ao talento, à sorte, talvez consigam até entrar na universidade.
O futuro das crianças refugiadas, porém, é particularmente incerto. Quando a fuga de povoados e cidades é feita de forma súbita e caótica, muitas crianças são separadas dos pais e familiares. Em determinado momento da brutal guerra civil de Moçambique havia nada menos que 350.000 crianças ‘perdidas’,que não faziam a menor idéia se os pais estava vivos ou mortos. Mais recentemente, milhares de crianças desacompanhadas faziam parte do êxodo em massa de Kosovares para a Albânia e Macedônia, embora nesse caso, pelo menos, a Cruz Vermelha Internacional e outras instituições humanitárias tenham tido condições de reagrupar boa parte das famílias num prazo de algumas semanas.
As crianças refugiadas também são vítimas de ferimentos mais difíceis de curar do que o trauma do deslocamento físico. Quando elas e os pais são vítimas de limpeza étnica, por exemplo, o desejo de vingança não é uma reação natural? Quando submetidas a exílios prolongados, as crianças crescem sabendo que tem um inimigo; quando um pai foi assassinado, que mãe pode ensinar os filhos a perdoar? Não é surpreendente que os campos de refugiados se transformem em centros de recrutamento para forças armadas guatemaltecos recrutavam adolescentes índios em campos de refugiados no México, os rebeldes palestinos utilizavam campos de refugiados no Líbano com o mesmo objetivo. As crianças refugiadas aprendem depressa que a derrota acarreta responsabilidades.
Algumas das cenas mais tristes que presenciei,contudo, envolveram os meninos de rua das atuais megalópoles. Essas imagens foram incluídas em Êxodos, e não aqui, porque aquelas crianças eram indiferentes a minha presença e não demonstraram interesse em poses para fotografias. Muitas vezes elas são usuárias de cola ou crack ou alguma outra droga,e conseguem sobreviver mendigando, roubando bolsas das passantes ou se prostituindo. O vírus da AIDS está se disseminando rapidamente entre elas, e é altamente improvável que venham a receber cuidados médicos. Em qualquer dos casos, foram abandonadas pela sociedade.
Todos os anos a UNICEF publica um relatório alarmante, sobre a situação das crianças no mundo todo. Fornece detalhes desanimadores sobre carências que afetam centenas de milhares de crianças em todo o planeta nas áreas de saúde, educação e moradia. Este livro de fotografias não pretende fazer esse tipo de análise. Simplesmente mostra noventa crianças de diferentes regiões da Terra num determinado dia de suas vidas. Elas aparecem lindas, felizes,orgulhosas, pensativas ou tristes. Por um breve instante , tiveram condições de dizer ‘Eu sou’. Em seguida, depressa demais, ficarão adultas e outras crianças tomarão seu lugar.”
Sebastião Salgado
Paris, julho de 1999

domingo, 13 de setembro de 2009

BRUXAS E O IMAGINÁRIO INFANTIL



Quando eu trabalhava como voluntária na biblioteca de uma escola pública, os livros infantis eram divididos por temas e o que fazia mais "sucesso" eram os das histórias de bruxas e fadas, por aí, para mim, o imaginário das crianças sempre foi povoado por serem fantásticos... um exemplo disse é o sucesso de Harry Potter e etc...
Pesquisando a história da cultura e da produção cultural, "descobri" o óbvio: no Brasil - o lugar que desde sempre era considerado o paraíso - o imaginário é uma das forças motrizes da história e ele tem se manifestado desde sempre, pelos mitos e lendas, pelas feiticeiras coloniais das Minas Gerais, mil outros exemplos interessantíssimos que me levam a não ter nenhuma religião: quero saber e entender de todas, todas, todas...
Uma pena que algumas pessoas (e até crianças) abraçam uma religião e a tomam como uma espécie de monopólio da felicidade... com isso acabam perdendo todo um imaginário riquíssimo que veio crescendo antes dela ... é uma perda cultural sem precedentes!
Sinto muito que isso esteja cada vez mais forte.

domingo, 6 de setembro de 2009

Cinquentenário da carreira de Roberto Carlos

Eu assisti ao show dos 50 anos de Roberto Carlos, bem de pertinho, como podem ver na data da foto, que eu tirei quando ele cantava a minha preferida "Outra vez":



Outra vez foi a primeira canção dele que eu ouvi,isso eu nem me lembro quantos anos eu tinha, mas só sei que eu era muito pequena e ela aparecia numa propaganda de TV...inesquecível... eu chamava de "comercial com aquela música bonita"...Foi meu primeiro contato com a produção musical do Roberto Carlos. Depois, como boa brasileira, ele encheu de sons minha vida toda. Só vendo o público composto por todas as idades do show, e pensando que aquilo se repetiu por nove noites, nas quais soube que ficaram lotadíssimos... na noite que eu fui (02/setembro) até o outro rei, o Pelé, estava na platéria,e reparando que todo mundo sabia todas as letras, não deixa dúvida : ESSE É O CARA DA CANÇÃO NO BRASIL!Me emocionei demais, como vocês podem imaginar... esse vídeo é só para lembrar que beleza foi aquilo e chorar mais um pouquinho! (rs)

Pássaros e a música da vida

Sensibilidade é uma coisa que quase não existe mais no mundo de hoje, o mundo do Twitter e etc... Entretando o lirismo ainda existe! No dia 02 de setembro de 2009, no Estadão online, foi publicada esta reportagem, na qual vemos uma foto de pássaros dispostos em fios nas ruas, que um paulistano (quem diria) exergou como se fosse música e assim a traduziu musicalmente.
Cliquem abaixo da foto e ouçam a "tradução musical" da imagem da natureza.
A músca é ou não é vida?




ASSESSORIA TÉCNICA DESTE POST FOI FEITA POR LUCAS BLEICHER, AQUELE QUE ESTUDOU COMPUTAÇÃO NO PASSADO!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Melancólicos setembros


Quando eu era mais jovem eu amava setembros, era um mês alegre, da volta do sol, da alegria, do colorido das flores...
Meu primeiro beijo na boca foi dado num dia 08 de setembro, quando eu tinha 11 aninhos (é, eu sei que hoje eu estaria muito velha, mas na época era normal...), minha primeira sobrinha nasceu em um 21 de setembro, trazendo alegrias várias...
Mas de lá para cá, os setembros me troxeram memórias mais amarguinhas ... A pior de todas foi no ano passado, um novo contato violento com o abandono extremo, depois de vinte e oito anos...foi bem terrível (sempre é!), mas eu achei que tinha superado. Negativo.

Ontem, quinta feira, na terapia, eu falei do show do Roberto Carlos que assisti na quarta e porque tudo aquilo me lembrava uma história de amor e desamor recente, entramos em contato com com aquele meu primeiro abandono, que eu achei estar superado, mas não estava. Não está.

Saí tremendo muito de lá, e "sai pensando na morte, mas a morte não chegava", como diz o poema de Drummond, mas o que chegou foi a aula do Tatit, na qual passei tremendo a primeira parte toda, mas na segunda, eu parei com essas coisas, como manda uma canção do Rei, e lembrei que já era Setembro... o mês cinza e nem sempre repleto de flores coloridas.

Viver setembro cinzas são coisas que acontecem com pessoas como eu.

O que posso fazer? "A única coisa a fazer é tocar um tango argentino", como no poema de Bandeira?

Nada disso: Escrever no blog!