terça-feira, 20 de agosto de 2019

"A Serpente" , filme de Jura Capela

Cartaz do filme 

Sem muitos planos para a fria noite de domingo 18 de agosto, fui ao CineSesc  assistir ao nacional  “A Serpente”, dirigido por  dirigido pelo pernambucano Jura Capela, lançado em 2017. Como sempre nem li nada sobre o filme antes, só lá mesmo no cinema soube que é uma adaptação de Nelson  Rodrigues (1912-1980), o que me deixou contente e apreensiva (vai que estragassem a obra de Nelson). Mas foi uma baita experiência, qu comento abaixo. 
A PEÇA RODRIAGUIANA – Todo brasileiro conhece ou devia saber quem foi Nelson Rodrigues, que além de outras coisas, talvez tenha sido o nosso maior dramaturgo, ainda que fosse uma figura que não agradou a todos, mesmo. Eu o conhecia mais por outras obras, acho que as crônicas futebolísticas dele são umas joias da literatura nacional. Sobre as peças teatrais e seu fundo sexual e moralista, conheço muito pouco, e embora tivesse o sonho, nunca assisti uma encenação de uma, embora tenha lido e analisado o roteiro de “álbum de família” para um trabalho da faculdade, o que me aproximou um pouco do complexo universo rodriguiano e das inovações de linguagem que ele se propôs.
A respeito de “A Serpente” (1978),conta  a história é de duas irmãs, Lígia e Guida, ambas casadas, que vivem juntas na mesma casa, herdada pelo pai para que vivessem com seus maridos. Uma delas, Lígia, é casada com  Décio que sofre de impotência, o que acaba decretando  a virgindade eterna a sua esposa, que esconde de todos sua infelicidade conjugal. Por outro lado, Guida vive uma felicidade sexual real no quarto ao lado, que, na leitura deste artigo  é percebida e de forma até histérica, invejada pela irmã. O fato é que um dia a máscara de Guida cai e ela tenta suicídio, o que faz com que a irmã lhe ofereça seu marido Paulo, para salvar sua vida. Obviamente que, embora tenha sido nobre, o resultado causa mais problemas a todos, a ponto de que a única saída possível seja a morte.  
Mas como adaptar uma obra rodriguiana ao cinema? Certamente muitos experimentaram vários caminhos, mas esse escolhido por Capela  é muito interessante, pois o filme alterna entre ser uma adaptação para o cinema do texto dramático de Nelson Rodrigues e ser uma adaptação para o cinema da encenação da peça! É muito impactante, porque é como se a peça não pudesse ser sem sua interpretação. Isso, para mim, é propriamente o teatro: contar, com o corpo, todas as histórias.
PERSONAGENS E ATORES – De forma muito sucinta, temos cinco personagens e quatro atores. As irmãs Guida e Ligia são interpretadas pela atriz favorita de Nelson, Lucélia Santos. Não sei se na peça elas  são gêmeas, mas no filme elas são ao mesmo tempo iguais e opostas em suas personalidades básicas : Guida sempre se preto e Lígia sempre se branco. Lucélia está maravilhosa e visceral, com caras , bocas e olhos de ódio e desejo que me agradou e , certamente, agradaria Nelson.
Também visceral é a atuação de Matheus Nachtergaele, interpretando Paulo, marido de Guida, mas disputado entre ela e a irmã. Paulo é uma personagem típica do universo rodriguiano: o homem que julga as mulheres a partir de um rígido código moral: as senhoras para amar, as esposas, e as que lhe satisfazem o desejo sexual, as putas, mas não sai ileso desta disputa, como se supunha.
Outra atuação muito boa é a de Silvio Restiffe, no  papel do marido impotente de Lígia, que aparece na trama cantando alegremente, depois de ter superado seu “problema” com a ajuda de Dora, uma lavadeira negra de corpo farto interpretada por Cellia Nascimento, que o excita sexualmente e o faz, enfim, se realizar sexualmente, fazendo com que ele abandone a esposa que era por ele agredida física e verbalmente, já que ela lhe lembrava sua incapacidade, para ser carinhoso e terno com a amante cafusa. 
TRILHA SONORA - A cena em que Cellia e Silvio cantam a clássica Dora, de Dorival Caymmi, é uma das mais belas e memoráveis do filme.  Aliás, a trilha sonora é um tópico a ser considerado, além do som muito bom, que vamos ouvindo o filme todo, reparei nos créditos finais a lista de títulos de faixas composta em sua maioria por canções em referência ao universo das cobras, como Serpente, Urutu, etc. Sobre a trilha destaco o seguinte comentário neste texto :"Com trilha produzida pelos músicos Fábio Trummer (Banda Eddie) e Pupillo (Nação Zumbi), o longa de Jura Capela ganhou modernidade sonora pelas mãos dos pernambucanos, que criaram universo pop & rock para a trama"

Enfim, foi uma grata surpresa ter visto esse filme, vencedor de prêmios dentro e fora do país. Mas como tudo relacionado ao Nelson Rodrigues, para assistir carece de ter coragem. 
O Trailer do filme :


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