sexta-feira, 19 de agosto de 2011

“EXPERIÊNCIA HISTÓRICA”: O DIA QUE A HISTORIADORA ENCONTRA SEU OBJETO VIVO!

Hoje é dia 19 de agosto - o dia do historiador – mas a gente não costuma ganhar presentes, só que ontem eu ganhei o meu! Eu fui a mesa redonda do lançamento do livro “Justa – Aracy de Carvalho e o resgate dos judeus: trocando a Alemanha nazista pelo Brasil”,de Mônica Raissa Schpun, que aconteceu no IEB/USP. Eis o livro:



Foi um prato cheio para qualquer historiador, mas para uma que, como eu, estuda Guimarães Rosa talvez sejam dois pratos transbordando! Isso porque a mesa redonda, além da autora do livro, contou com a professora Sandra Guardini T. Vasconcelos e o senhor Eduardo Tess, filho de Aracy, que foi esposa de Guimarães Rosa. Nesta foto, da esquerda para a direita, vemos a autora Mônica Raissa Schpun, a professora Sandra G.T. Vsconcelos e o senhor Eduardo Tess:



Foi muito emocionante tudo, a pesquisa de 20 anos feita pela Mônica, o orgulho e o reconhecimento de Tess e de todos os outros que lá estavam mostra que algumas vidas, como a de Aracy, tiveram valor inquestionável, tanto que ela recebeu um dos dois títulos brasileiros de “Justos entre as nações”, pelo resgate de judeus durante a segunda guerra mundial. Foi lindo, emocionante, porque alguns familiares de pessoas que foram resgatadas àquela época estavam no lançamento para prestigiarem a autora do livro.

Mas o Sr. Eduardo Tess, que é filho de dona Aracy, a segunda esposa de Guimarães Rosa, levou duas convidadas que me interessaram demais: sua esposa sra. Beatriz Tess e uma de suas filhas, Vera Tess.

Sim, sim, Vera Tess a Verinha, a neta que, como alerta a professora Sílvia Maria Azevedo, era neta adotada, porém tão legítima que era a preferida de Rosa.

Foi uma grande emoção para mim porque as correspondências mantidas por Rosa e Vera e sua irmã Beatriz Helena são um dos meus objetos de estudo no doutorado, então ver que hoje a Vera, que já não é mais a Verinha de três aninhos que a foto acima mostra no colo do Vovô Joãozinho, ela é a doutora Vera, médica psiquiatra do HC de São Paulo!

Fui conversar com ela, claro... eu pensava que estava tendo uma chance que os historadores quase nunca têm, porque nós não costumamos pesquisar “pessoas vivas” ... ossos do ofício! Mas como eu não estava preparada para encontrá-la, embora soubesse que seria minha grande chance e precisava falar algo, mas não sabia o que ... acabei fazendo perguntinhas tolas (como era o contato com Rosa; se ela se lembra dos lápis de cor; se ela era mesmo a neta favorita...) , e ela me respondeu na medida do possível, afinal ela me lembrou de um detalhe que eu (JUSTO EU, QUE SEMPRE ME PREPAREI PARA NÃO ESQUECER DISSO) estava esquecendo na hora: tudo aquilo que eu perguntei ela viveu, sim, mas quando tinha apenas três aninhos, não tinha lembrança nem conhecimento detalhado de tudo aquilo! Ou seja: lá estava eu exercendo o “ofício do historiador” e pisando em terreno fragmentado, novamente, porque o que se passava na cabeça de Verinha e da sua relação com o vovô Joãozinho já não podemos mais saber e o mais interessante, talvez nem mesmo ela possa!

Mas são impressionantes as armadilhas que o tempo nos prega e que nem mesmo os historiadores conseguem fugir sempre... o ofício do historiador é entrar no país das maravilhas como faz Alice e descobrir que a única coisa irrefutável a qual se tem acesso é que nada será tão claro e lógico como gostaríamos, mas que teremos que inventar novas maneiras de lidar com a densidade das temporalidades expressas naquilo que chamamos tão levianamente de passado!

Acho que por enquanto é isso que eu posso comentar, ainda preciso assimilar melhor aquela “experiência histórica” que vivi ontem e que eu acho que está sintetizada nesta foto aqui:

O mais interessante é que temos que interpretá-la em perspectiva, afinal a cena nos mostra mais próxima do nosso olhar a figura de Vera Tess (a moça de blusa cor de rosa) e lá no fundo da sala a figura elegante do seu pai o senhor Eduardo Tess, entre eles temos a imagem de um diálogo estabelecido entre uma parente de um dos resgatados do nazismo pela Sra. Aracy Carvalho (a senhora de cabelos curtos e roupa preta) conversando com a mãe de Vera, a sra Beatriz (a de cachecol vermelho), como se ali naquele momento estivessemos registrando em perpectiva pelo menos três vivências temporais distintas.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O que Guimarães Rosa faz com seu leitor, e qual os seus motivos...






A explicação está claramente exposta nestas linhas de Monique Balbuena:

“Em sua elaboração de um texto estético, poético, artisticamente belo, Guimarães Rosa trouxe grandes inovações linguísticas em todos os níveis: léxico, gramático-sintático, poético e retórico. Como já vimos, Rosa ” buscava transformar o mundo com a força criadora da linguagem, e uma linguagem rasa, meramente comunicativa ou referencial, não seria eficaz na realização de seus projetos mais ambiciosos. Dessa forma, a ‘revolução linguística’ pela qual seria responsável está indissociada da necessidade que via em modificar os hábitos mentais do homem e libertá-lo de arcaicas categorias de pensamento, resgatando a linguagem como verdadeira expressão da vida.
Suas obras, muitos já o disseram, apresentam sérias dificuldades de fluência e compreensão a uma primeira leitura. O leitor, acostumado a textos mais coerentes e tradicionais, se vê atordoado, desnorteado e dominado, sem clemência, por uma prosa acidentada, difícil, com formas e sons inusitados, um manancial léxico desconhecido, compondo um estilo muito original. Passadas as primeiras investidas, conseguida a penetração na densa selva após a apreensão da chave léxica e, com ela, a possibilidade de descodificação, o leitor, só então, se sente recompensado pelo seu esforço e persistência: estabelecida a comunicação, Rosa se revela em seu esplendor, e, banhado em luz e música, o leitor disso não mais quer se privar.
Ao contrário, ele passa a tomar parte importante no próprio processo de criação, pois o estranho texto de Rosa deixa lacunas intencionais que devem ser preenchidas, apresenta formulações ou estruturas sintáticas que exigem reflexão constante...Em suma: ele faz pensar, proíbe a automatização e impede a letargia.”


BALBUENA, Monique Rodrigues. Poe e Rosa à luz da cabala. Rio de Janeiro: Imago Ed, 1994.Pp. 78-9

domingo, 7 de agosto de 2011

Qual o poblema do Brasil mestiço?

Leia este texto, que colo aqui:

Brasil: mestiço, improdutivo e desarmônico?
Livro atribuído a norueguês que matou 77 pessoas em ataque afirma que miscigenação seria causa de atraso brasileiro
Ronaldo Pelli

5/8/2011
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Envie essa matéria para um amigo Centro de Oslo, capital da Noruega, logo após a detonação de explosivos em prédios do governo, que matou oito pessoas / Fonte: wikimedia-cc

O absurdo ataque do norueguês Anders Behring Breivik que resultou em 77 vítimas fatais também resvalou – em muito menor escala, é verdade – no Brasil. Logo após o massacre no país nórdico, foi divulgado um manifesto com mais de mil páginas chamado “2083 – A European Declaration of Independence” (algo como “2083 – uma declaração de independência europeia”) que seria de sua autoria. A obra prega, entre outras medidas de extrema direita, uma Europa “livre” de imigrantes, o que ocorreria entre 20 a 70 anos – daí a data do título. O Brasil é citado algumas vezes nesse tratado de intolerância exatamente como um péssimo exemplo por ser um país miscigenado.

Para Breivik, que escreve em inglês e assina com o nome Andrew Berwick – uma adaptação para o inglês de seu nome –, os conservadores europeus “devem tomar o poder político e militar através de uma combinação de lutas armada e democrática dentro de 70 anos”. Segundo o homem de 32 anos, a alternativa a essa “tomada de poder” “é o modelo de abastardamento contínuo, muito semelhante ao modelo brasileiro”.

A partir de então, Berwick começa a explicar o que seria esse paradigma verde-amarelo e a consequente, em sua opinião, falta de união nacional. Para começar, ele afirma que a mistura de raças no Brasil foi feita a partir de europeus, africanos e asiáticos – sem explicar se os indígenas representariam os asiáticos citados. É possível que sim, já que em outros trechos, ele assegura que os indígenas são “nórdicos por definição”, além de juntar no mesmo grupo de nações que ele considera produtivas e harmônicas a Escandinávia, a Alemanha, a Coreia do Sul e o Japão. Como se “nórdico” assumisse a denotação de “puro”, de “não-contaminado”. Portanto, em uma lógica torta, os indígenas seriam asiáticos, porque puros, e todos, em conclusão, “nórdicos”.

Outro trecho sem uma explicação clara afirma que essa mistura entre europeus, asiáticos e africanos teria acontecido graças à “revolução brasileira marxista”. De qualquer forma, o texto defende enfaticamente que essa mistura de raças se mostrou catastrófica tanto para o Brasil quanto para qualquer outra nação que tenha institucionalizado e facilitado esse cruzamento.

“O Brasil se estabeleceu firmemente como um país de segundo mundo com um baixíssimo grau de coesão social. Os resultados são evidentes e são manifestados através de um elevado grau de corrupção, falta de produtividade e eterno conflito entre as várias ‘culturas’ concorrentes como a miríade de recém-criadas ‘subtribos’ (preto, mulato, mestiço, branco) paralisa qualquer esperança de algum dia chegar ao mesmo nível de produtividade e harmonia como, por exemplo, Escandinávia, Alemanha, Coreia do Sul ou Japão”, escreve ele, em uma tradução livre, que completa: “Vendo a falta de coesão social no Brasil, e a produtividade média do brasileiro médio, é evidente que uma abordagem semelhante na Europa seria devastadora e retardaria a nação, sem mencionar que seria um crime grave (genocídio) para contribuir de qualquer forma para a aniquilação desconstrução e genocídio dos povos indígenas que são nórdicos, por definição.”

Tal afirmação repercutiu nos meios de comunicação e entre nomes como o músico Caetano Veloso. Em sua coluna no jornal “O Globo” do último domingo (31 de julho), Caetano disse que sua oposição a esse programa é “visceral”: “Tudo o que faço tem esse núcleo”, escreveu.

“É a velha hipótese que tinha vigência dentro do próprio Brasil (e, claro, nunca foi descartada de todo — nem por todos), só sendo realmente abalada pela virada que representou ‘Casa grande e senzala’, digam o que disserem os neorracialistas. Gilberto Freyre, ‘Gabriela, cravo e canela’, o ‘Amálgama’de Jorge Mautner e aquele hino à miscigenação que Aldir Blanc escreveu faz uns anos para a TV Globo parecem mais bonitos se confrontados com o criminoso norueguês que matou dezenas de jovens individualmente”, completou.

A escritora e professora do Departamento de Antropologia da USP Lilia Moritz Schwarcz mostrou ainda um ângulo que torna essas declarações mais complicadas. Apesar de esse tipo de discurso não fazer mais parte do âmbito acadêmico nem do político, já que a ciência acabou com qualquer apoio para o conceito de raça, no século XIX, ainda, ela chama a atenção para como em ambientes públicos essas ideias ainda encontram solo para se propagar.

“O que me chama atenção desse discurso não é o quanto ele pode ser anacrônico, mas o quanto essa declaração faz parte do senso comum. O senso comum é uma ideologia muito poderosa. Não é incomum no Brasil que se fale mal da mestiçagem, dizendo que ela é deletéria”, opinou a antropóloga por telefone. Ela, de qualquer forma, defende a possibilidade de qualquer pessoa se expressar, mesmo que um extremista. Essa proposta ecoa a opinião do primeiro-ministro norueguês Jens Stoltenberg, que, mesmo em um momento de intensa crise em seu país, argumenta que a circulação de pensamentos é livre, desde que não haja a tentativa de “implementar essas ideias com violência”.

“A única forma de esclarecer é permitir que essas ideias apareçam, que a intolerância apareça”, acrescentou Schwarcz, elogiando a coragem do primeiro-ministro norueguês. “A política de esclarecimento é contrária à proibição. Bem claro que sobre a violência que foi aplicada, não há tolerância que dê conta. Estamos falando da expressão de ideias que nós consideramos execráveis. A diferença é exatamente isso.”

A antropóloga também ressaltou o fato de o Brasil ser um exemplo da miscigenação, lembrando que é uma leitura freyreana, “que faz o igual ser igual à igualdade”, exemplificando que “inclusão cultural e a mestiçagem biológica não são sinônimos de igualdade”.

“Gilberto Freyre teve papel fundamental na divulgação dessas ideias, mas ele fez parte de uma geração, o que as pessoas esquecem em geral”, explicou. “Ele só pôde fazer isso porque desde o século XVI a representação do Brasil é de um país mestiço. A diferença é que a representação varia do positivo ao negativo. As primeiras descrições do Brasil dos viajantes seiscentistas eram do país da grande fauna e da mistura de raças. Claro que alguns viam isso com descrédito. Mas se você pegar Montaigne, em ‘Dos canibais’, é evidentemente positiva à gente do Brasil. Essa mesma noção é a de Rousseau, do bom selvagem. Que está lá no movimento romântico. Os indigenistas do século XIX falavam em uma mistura entre os nobres da terra e os nobres portugueses.” Ela continua:

“O primeiro vencedor do concurso do IHGB, que perguntava como escrever a história do Brasil, é Von Martius, cuja tese falava que o Brasil era composto de três grandes rios: o rio branco, mais caudaloso; o indígena, menor; e o negro, ainda menor. Para você ver, a primeira tese em que se escreve a história do Brasil, já foi feita com esse modelo”, explica a professora, para quem “não existira Gilberto Freyre sem existir outros”.

Mesmo que o Brasil seja visto até hoje como o país da mestiçagem, principalmente externamente, há também movimentos preconceituosos e que prezam por uma suposta pureza no Brasil, contrários a nordestinos por exemplo. A professora lembra que, se o Brasil não vivenciou o ódio racial escrito em lei, ou que provocou chacinas, a experiência da escravidão nos deixou marcas até hoje.

“Lidamos com a escravidão de maneira silenciosa. Um exemplo é o nosso hino da República, feito, portanto, um ano e meio após a abolição da escravidão que dizia: ‘nós nem cremos que outrora escravos tenha havido em tão nobre país’. Outrora era um ano e meio”, ressalta ela. “Estamos numa época em que há vários marcadores sociais da diferença. Toda a sociedade carrega os seus marcadores, classe, etnia, região, idade. Raças vêm aparecendo mais. É impressionante que quanto mais a gente destrói o conceito biologicamente, mais ele vai sendo recriado. Cria-se novos eixos, novos olhos, novas representações. É impressionante.”