sábado, 10 de setembro de 2011

Pablo - Milton Nascimento


"Káritas ficou grávida. Bituca se comportou como o protótipo do cara que vai ser pai. Apalpava a barriga da mulher e fazia planos para o nascituro. Moravam sepaados; ela, em São Paulo; ele, no Rio. Decorrido o prazo regulamentar, como diria um cronista esportivo, Pablo nasceu. Ganhou de presente uma música de Bituca com letra de Ronaldo, uma cantiga de aparência infantil mas de melodia intricada e sutil, carregada de emoções complexas. A letra não fazia muito sentido, mas soava muito bem, combinação esta que pode ser perfeitamente uma caracteística das grandes letras de música popular:

'Meu nome é pablo
como um trator é vermelho
incêndio nos cabelos
pó de nuvem nos sapatos
meu nome é pablo
nasci num rio qualquer
meu nome é rio
e rio é meu corpo
meu nome é vento
e vento é meu corpo
incêndio nos cabelos
pó de nuvem nos sapatos
como um trator é vermelho
pablo é meu nome
meu nome é pedra
e pedra é meu corpo'

'Meu bem, meu amor' todo mundo já escreveu. Trator vermelho, nuvem nos sapatos, incêndio nos cabelos, aquilo sim, era puro Salvador Dali."
Márcio Borges. Os sonhos não envelhecem - histórias do clube da esquina. P. 306-7

Salvador Dali? Talvez seja mais simples ou ainda mais complexo do que que isso, talvez esta lógica cheia de estranhamento seja mesmo aquela da infância, pois a criança habita outra temporalidade, enxerga outras cores no mundo, que percebe tudo pelo corpo, que querem e podem voar ...criança é como Márcio Borges descreveu a melodia desta canção: " intricada e sutil, carregada de emoções complexas"... muito genial esta canção!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Ainda sobre A VOZ...

Continuando o tema do texto abaixo, volto a pensar na VOZ...
Tem a voz mais perfeitamente hamônica de Milton Nascimento, mas essa é rara, raríssima de tão maviosa... também me interessam as vozes que me causam certo estranhamento e que nem por isso deixam de serem muito belas, como a da Bjork:

Interessante ver ler os comentários de brasileiros sobre este vídeo, ficam incomodados com a PRONÚNCIA DO PORTUGUÊS DA BJORK! Me lembrei daquele filme "Fabricando Tom Zé", quando ele foi vaiado na França porque tentou falar algumas palavras em francês e os franceses se ofenderam com a pronunca... é ridículo que isso tenha acontecido lá na Europa, que ainda tenta manter certa tradição, mas aqui é o cúmulto do ridículo porque parece que nós brasileiros temos total conhecimento da língua portuguesa e nossa pronúncia seja exatamente a mesma do Oiapoque ao Chuí! Sobre o vídeo, adorei (curto muito estranhonhamentos...). O que acharam?

sábado, 3 de setembro de 2011

POESIA ORAL


Quando eu contei na terapia que tinha entrado no doutorado e ia estudar infância na escritura de Guimarães Rosa minha terapeuta disse mais uma das suas colocações assustdoras (daquele tipo que eu prefiro nem pedir explicação na hora, sabe?)... ela disse apenas:
"-Meus parabéns Camila! Aliás penso que esse seu doutorado vai ser mais um motivo para você rever algumas coisas que ainda estão em aberto sobre sua infância, e isso não é só com você, porque na verdade o que todo mundo passa a vida procurando por algo que ocupe a sensação da mãe na fase intra uterina..."

Na hora eu fiquei com medo desta fala, achei que ela estivesse atropelando um pouco os assuntos, mas acabei me esquecendo, até que esta semana eu li um texto que me fez pensar que talvez ela tivesse razão:

“Indefinível, senão em termos de afastamento, articulação entre sujeito e objeto, entre Um e Outro, a voz permanece inobjetável, enigmática, não especular”. Ela interpela o sujeito, o constitui e nele imprime a cifra de uma alteridade. Para aquele que produz o som, ela rompe uma clausura, libera de um limite que por aí revela, instauradora de uma ordem própria: desde que é vocalizado, todo objeto ganha para um sujeito, ao menos parcialmente, estatuto de símbolo. O ouvinte escuta, no silêncio de si mesmo, esta voz que vem de outra parte, El a deixa ressoar em ondas, recolhe suas modificações, toda ‘argumentação’ suspensa. Esta atenção se torna, no tempo de uma escuta, seu lugar, fora da língua, fora do corpo.
Jogo, ritmo vocálico anterior à instauração de um espaço e tempo mensuráveis, e que só é ‘sentido’ na medida em que esta palavra designa direção e processo: a voz se encontra simbolicamente ‘colocada’ no indivíduo desde o nascimento, significando (por oposição, segundo D. Vasse, ao fechamento do umbigo) abertura e saída. Mais tarde, entrada em conjunção histórica, a criança assimilará a percepção auditiva ao calor e à liberdade anunciados pela voz materna – ou à austeridade protetora da lei, significada pela voz do pai. Experiência equívoca: à imagem em que pesa a presença do significado materno se opõe o iconoclasma da ordem e da razão, mas o equívoco vem de mais longe: no útero a criança, já se banhava da Palavra viva, percebia as vozes e, como se diz, melhor os graves do que os agudos: vantagem acústica a favor do pai, mas a voz materna se ouvia no íntimo contato dos corpos, calor comum, sensações musculares apaziguadoras. Assim se esboçavam os ritmos da palavra futura, numa comunicação feita de afetividade modulada, de uma música uterina que, reproduzida artificialmente ao lado de um recém nascido, provoca imediatamente o sono e, ao lado de uma criança autista (na terapêutica de A. Tomatis), deflagra uma regressão salvadora.
À medida que se afaste o doce ‘não lugar’ pré natal e que tome consistência a sensação de um corpo-instrumento, a voz, por sua vez, se ajustará à linguagem, em vista de uma liberdade. O símbolo vai invadir o imaginário.Pelo menos, subsiste a memória de um engodo fundamental, a marca de um antes, puro efeito de ausência sensorial, que cada grito, cada palavra pronunciada, parece ilusoriamente poder preencher. Tocamos aqui, como penso, nas nascentes da poesia oral.”


(ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Belo Horizonte : ufmg.Pp.15-6)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

CRÔNICA : MEU PRIMEIRO MAR DE PALAVRAS


Achei aqui uma crônica que eu escrevi para um curso que assisti em 2002, com então 22 anos de idade. Tem quase 10 anos, mas muitas temporalidades nela, vejam: 


MEU PRIMEIRO MAR DE PALAVRAS

"Já sabia que, quando mexo com literatura, meus sentimentos ficam mais à mostra que a razão e eu sempre experimento um pouco mais de mim mesma. O que eu não poderia imaginar é que o curso sobre Gêneros Híbridos seria uma grande coleção de oportunidades de reviver a minha infância.

Desde a primeira aula qualquer coisa que acontecia ali conduzia meu tempo presente aos tempos mais antigos, das sensações mais primeiras de que me lembro: as histórias...os comentários... a imagem de uma árvore carregadinha de pássaros... tudo isso era como uma festa de balões de gás coloridos que iam explodindo dentro de mim e retomando a menina Camila que eu fui.

Sextas-feiras eram dia de ser Camilinha novamente. E nos meus olhos de menina pulavam alegrias infinitas de ouvir histórias sobre os meus primeiros autores: Orígenes Lessa, Lourenço Diaféria, Paulo Mendes Campos... todos eles que moravam nos meus primeiros livrinhos.

E tinha também o Rubem Braga. Com este eu marquei inúmeros encontros e faltei a todos: não li no colegial, não li para o vestibular, não li na faculdade. O Rubem Braga? Eu não conhecia o gosto dele.

Um dia, antes de ir para a aula, eu passei no sebo e, enfim, fui ao encontro de Rubem Braga: eram duzentas crônicas escolhidas num livrinho bem velho, de capa dura e desgastada que eu comprei com muito orgulho de estar sendo uma garota que não faltava mais aos meus encontros literários. E fui ao curso.

Chovia na cidade, chovia tempestades. Antes de pegar o ônibus aconcheguei minha bolsa junto à barriga e cobri o corpo com o casaco: não podia deixar molhar o meu ‘primeiro Rubem Braga’. Tão precioso que eu não aguentei esperar e comecei a devorar o livro ali mesmo, numa emocionada e deliciosa sensação de descoberta.

De repente eu comecei a não enxergar mais nada. Dos meus olhos marejavam lágrimas quentes, lágrimas amigas da chuva que caía lá fora. Eu não estava mais só no ônibus, estava também lá pela página trinta do livro, no meio do mar.

‘A primeira vez que eu vi o mar eu não estava sozinho’. Começava assim a crônica. Eu sabia, essa eu conhecia, conhecia intimamente, mais do que conhecia: eu a amava, desde há muito, desde uma tarde lá muito longe, nos meus oito anos, na terceira série primária.

A professora escrevia na lousa as palavras que, então, eu não sabia serem de Rubem Braga : o menino que nunca tinha visto o mar. Como eu podia esquecer da comoção que aquele texto causou na criança que eu tinha sido? Como eu poderia esquecer aquela semana  inteira que eu passei pensando em como era sem graça ter conhecido o litoral desde recém-nascida e nunca poder saber que encanto era ver o mar pela primeira vez...?

Como eu podia esquecer do meu primeiro texto literário? Não podia.

Mas o tempo, que coisa complexa, faz armadilhas inúmeras: eu me movia entre os oito anos, o tempo do mar e o tempo do ônibus. Neste terceiro a senhora sentada ao meu lado cutucou meu ombro e disse com uma gentileza meio bruta, apontando a minha bolsa sobre a barriga e escondida debaixo do casco:

- Moça, mulher grávida não deve chorar assim, não...mesmo com livro triste.

E eu sorri pensando que ela não poderia saber que aquilo era só o meu presente remodelando o momento exato em que fiquei grávida da minha primeira emoção literária, e que isso era, de certa forma, como ver o mar pela primeira vez."
Camila Rodrigues

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

As crianças e as cores








"A cor é 'nuvem', superfície de deslocamento, linha de fuga no imaginário para divagações laterais, escapa para fora da página, compreende-se que ela suscite a desconfiança dos pedagogos. Em relação à conduta, ela favorece o afastamento; em relação à profundidade ou à verticalidade do sentido, ela ensina o charme do não sentido. Ela desvia as palavras de sua acepção corrente e impede a criança de se tornar semelhante aos 'modelos de moralidade'; ela proíbe a identificação obrigatória, familiar ou pedagógica.(...) De fato, o uso sujo das cores é, por sua vez, algo da ordem do deslizamento mimético pelos improvisos imprevistos do imaginário: lambuzada, imunda, brincando de pintar ou de tatuar o corpo, a criança rejeita, assim, identificar-se com a imagem que se exige dela: ao usar o visível para se tornar invisível aos outros, ela escapa à vigilância deles."
(SCHÉRER, René. Infantis- Charles Fourier e a infância para além das crianças. Belo Horizonte: Autêntica. 2009. Pp. 126-131)

domingo, 21 de agosto de 2011

Felicidade Eterna - José Eduardo Agualusa

Antigamente todos os contos para crianças terminavam com a mesma frase, e foram felizes para sempre, isto depois de o Príncipe casar com a Princesa e de terem muitos filhos. Na vida, é claro, nenhum enredo remata assim. As Princesas casam com os guarda-costas, casam com os trapezistas, a vida continua, e os dois são infelizes até que se separam. Anos mais tarde, como todos nós, morrem. Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre.

José Eduardo Agualusa, in 'O Vendedor de Passados'