quinta-feira, 19 de abril de 2012
Assine o abaixo assinado que proibe textos que não sigam a norma culta nas escolas
Vejam se dá para levar a sério isso:
"Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais; Deputado Estadual Bruno Siqueira (PMDB); Deputado Estadual Adelmo Carneiro Leão (PT); Deputado Estadual Almir Paraca (PT); Deputado Estadual André Quintão (PT) O PROJETO DE LEI Nº 1.983/2011, protocolado na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais pelo deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB), proíbe a distribuição na rede de ensino pública e privada do Estado de Minas Gerais de qualquer livro didático, paradidático ou literário com conteúdo contrário à norma culta da língua portuguesa ou que viole de alguma forma o ensino correto da gramática de nosso idioma nacional, bem como conteúdo que apresenta elevado teor sexual, com descrições de atos obscenos, erotismo e referências a incestos ou apologias e incentivos diretos ou indiretos à prática de atos criminosos. A justificativa de tal projeto encontra-se embasada numa concepção do ensino de Língua Portuguesa completamente defasada e obsoleta em relação ao conhecimento científico solidamente acumulado na área de Letras e Linguística. Além disto, caso o projeto seja aprovado, esta lei proibirá a distribuição, nas escolas mineiras, de praticamente todo o riquíssimo patrimônio literário brasileiro edificado no século XX, já que um traço comum à vasta e heterogênea produção literária nacional dos últimos cem anos é exatamente a subversão à norma culta padrão de nossa língua materna. Restaria proibida em nossas escolas a distribuição de livros da autoria de Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Mário de Andrade, para ficar em apenas três nomes de uma infindável lista de grandes autores que inclusive satirizaram o ensino da norma culta da língua, como Oswald de Andrade no poema “Pronominais”. Restaria proibida também a distribuição de livros de poetas como Gregório de Matos, que, no século XVII, embora escrevesse conforme a norma culta da língua, eventualmente, usava vocábulos de baixo calão e imagens eróticas em seus textos poéticos. Considerando que o ensino de Língua Portuguesa condizente com um Estado Democrático de Direito deve se pautar pela leitura crítica de textos de quaisquer gêneros discursivos, em vez de encontrar-se restringido por uma lei que representa indiscutivelmente um retrocesso aos regimes mais autoritários de nossa história (lembrando a censura executada pelo regime militar para proibir a circulação de diversas obras literárias acusadas de cometer as mesmas “violações” que o referido projeto menciona), manifestamo-nos contrários à aprovação do PROJETO DE LEI Nº 1.983/2011. "
Infelizmente isso é sério, sim...lembrem-se de que o conflito cultural entre letrados e não-letrados é um dos mais importantes da história do Brasil e cada vez mais determina graus de hierarquia social por aqui... pessoas que tentaram problematizar isso (ou mesmo ressignificar a questão como fez Rosa, mas não só ele ) são cada vez mais indesejáveis... viva a educação brasileira!
Eu só espero que a nossa presidente se lembre de seu "namoro' com o texto todo contra-normas de Rosa em seu discurso de posse...
Assine aqui, eu já assinei!
"Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais; Deputado Estadual Bruno Siqueira (PMDB); Deputado Estadual Adelmo Carneiro Leão (PT); Deputado Estadual Almir Paraca (PT); Deputado Estadual André Quintão (PT) O PROJETO DE LEI Nº 1.983/2011, protocolado na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais pelo deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB), proíbe a distribuição na rede de ensino pública e privada do Estado de Minas Gerais de qualquer livro didático, paradidático ou literário com conteúdo contrário à norma culta da língua portuguesa ou que viole de alguma forma o ensino correto da gramática de nosso idioma nacional, bem como conteúdo que apresenta elevado teor sexual, com descrições de atos obscenos, erotismo e referências a incestos ou apologias e incentivos diretos ou indiretos à prática de atos criminosos. A justificativa de tal projeto encontra-se embasada numa concepção do ensino de Língua Portuguesa completamente defasada e obsoleta em relação ao conhecimento científico solidamente acumulado na área de Letras e Linguística. Além disto, caso o projeto seja aprovado, esta lei proibirá a distribuição, nas escolas mineiras, de praticamente todo o riquíssimo patrimônio literário brasileiro edificado no século XX, já que um traço comum à vasta e heterogênea produção literária nacional dos últimos cem anos é exatamente a subversão à norma culta padrão de nossa língua materna. Restaria proibida em nossas escolas a distribuição de livros da autoria de Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Mário de Andrade, para ficar em apenas três nomes de uma infindável lista de grandes autores que inclusive satirizaram o ensino da norma culta da língua, como Oswald de Andrade no poema “Pronominais”. Restaria proibida também a distribuição de livros de poetas como Gregório de Matos, que, no século XVII, embora escrevesse conforme a norma culta da língua, eventualmente, usava vocábulos de baixo calão e imagens eróticas em seus textos poéticos. Considerando que o ensino de Língua Portuguesa condizente com um Estado Democrático de Direito deve se pautar pela leitura crítica de textos de quaisquer gêneros discursivos, em vez de encontrar-se restringido por uma lei que representa indiscutivelmente um retrocesso aos regimes mais autoritários de nossa história (lembrando a censura executada pelo regime militar para proibir a circulação de diversas obras literárias acusadas de cometer as mesmas “violações” que o referido projeto menciona), manifestamo-nos contrários à aprovação do PROJETO DE LEI Nº 1.983/2011. "
Infelizmente isso é sério, sim...lembrem-se de que o conflito cultural entre letrados e não-letrados é um dos mais importantes da história do Brasil e cada vez mais determina graus de hierarquia social por aqui... pessoas que tentaram problematizar isso (ou mesmo ressignificar a questão como fez Rosa, mas não só ele ) são cada vez mais indesejáveis... viva a educação brasileira!
Eu só espero que a nossa presidente se lembre de seu "namoro' com o texto todo contra-normas de Rosa em seu discurso de posse...
Assine aqui, eu já assinei!
domingo, 15 de abril de 2012
Wisnik - Caetano- Rosa
"É preciso dizer que um dos encantamentos do conto (A Terceira margem do Rio, de Guimarães Rosa) está em decantar a experiência do luto-melancolia em estado puro, sem designar a morte que lhe corresponde, pois esta não se localiza num tempo (quando se deu?) nem num lugar (não tem margem), não é propriamente literal ne metafórica, e fica em suspensão, ressoando no símbolo imemorial da barca e da travessia do rio (como se Caronte se conduzisse a si próprio para lugar nenhum). A passagem para outra margem, que repetiria na tradição mitológica o território dos vivos e dos mortos em dois campos opostos e dualizados, não se dá aqui: o conto dissolve essa dualidade na alusão, que lhe dá nome, è terceira margem inominável (cf. Galvão, Ealnice Nogueira. Mitológicas rosianas, 1978. P. 37-40). Podemos dizer assim que a morte está, nesse conto, ao mesmo tempo recalcada (na relação das personagens com o pai ausente, sob o luto tácito e a melancolia) e surpreendida pela narrativa num estado de evidência insólita em que o silêncio ilumina aquilo que não pode ser dito, escapando na tangente da leitura alegórica, fantásstica ou mítica para confundir-se com o fluxo do rio que retorna, tautológico, perpétuo e provisório, sobre si mesmo. É desse lugar que o mineiro Milton Nascimento, silencioso, lança em música essa 'terceira margem' ao baiano Caetano Veloso, para que este dê nome - poético- ao enigma.
Esta é a letra da canção:
Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira
Água da palavra
Água calada, pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai
Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai
Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio riu, ri
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas
Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai
Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai
(...)
A singularidade da canção popular brasileira tem nesse exemplo a demonstração de uma de suas consequências inusitadas: em que cultura, ou em que país, pode-se perguntar, o cancionista popular chega a ser o sujeito de uma interpretação vertical do seu maior escritor? Nisso não vai apenas uma questão de competência específica e de arranjo original das especialidades, mas o índice de uma trama cultural em que a malha das permeabilidades é muito intrincada. Essa constatação não é. no entanto, apologética, mas problemática: permeabilidade e maleabilidade têm sido, nas várias interpretações do 'dilema brasileiro', o reverso da moeda da anomia, da irresponsabilidade e da incapacidade de sustentar projeto (traços recorrentes, por exemplo, em muitos dos protagonistas do romance brasileiro, emblematizados na ambiguidade do Macunaíma). (...)"
Wisnk, José Miguel. A Gaia Ciência - Literatura e música popular no Brasil. In: Ao Encontro da palavra cantada: pesia, música e voz. p. 193-96)
Marcadores:
Caetano Veloso,
Guimarães Rosa,
José Miguel Wisnik
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Poema gera poema?
Bom dia aos que acordaram de madrugada para trabalhar, como eu! Comecemos o dia de trabalho com um poema de Eduardo Prado Vieira, composto por inspiração da primeira leitura do livro Primeiras Estórias, em dezembro de 1962:
INTERROGAR - Eduardo Prado Vieira
A coisa quieta
Que descansa no retrato, na lâmpada
Ou na pedra de gelo.A coisa real
Que está ali, existe, mas é vazia, falsa
E incapaz.Incomunicável, o retrato se mostra.
Incomunicável, a lâmpada acende o que dela nem sabe.
Incomunicável, o gelo é a água polida, pele toda, carne só, de repente sem exterior.
E eu. Que vejo e calo,
Como um sábio de coisas incolores,
Aprendiz de outras fluindo.
Meu suave Guimarães Rosa:
Por que existe algo em lugar de nada? (Revista Leitura - Rio de Janeiro)
O QUE ACHARAM DELE?
INTERROGAR - Eduardo Prado Vieira
A coisa quieta
Que descansa no retrato, na lâmpada
Ou na pedra de gelo.A coisa real
Que está ali, existe, mas é vazia, falsa
E incapaz.Incomunicável, o retrato se mostra.
Incomunicável, a lâmpada acende o que dela nem sabe.
Incomunicável, o gelo é a água polida, pele toda, carne só, de repente sem exterior.
E eu. Que vejo e calo,
Como um sábio de coisas incolores,
Aprendiz de outras fluindo.
Meu suave Guimarães Rosa:
Por que existe algo em lugar de nada? (Revista Leitura - Rio de Janeiro)
O QUE ACHARAM DELE?
Marcadores:
Eduardo Prado Vieira,
madrugada,
poema
domingo, 8 de abril de 2012
Os três dedos de Adão
Esse livro é uma maravilha! Comprei para minha pesquisa, com a reserva técnica, mas vou querer um pra mim, como não podia deixar de ser: Quando quis estudar história (tipo, quando prestei FUVEST) queria estudar medieval (desta forma que aparece nesse livro, só que não tive a chance de fazer isso na graduação). Depois tudo parecia ter se modificado nos meus desejos em história e tal, mas estudos sobre a Idade Média sempre tiveram um gosto especial para mim, de alguma forma. Só que hoje eu percebo que talvez não que eu quisesse fazer um estudo sobre a Idade Média como esse, porque meu maior interesse, talvez, nem seja por causa do tema em si, mas muito mais pelas questões de método: como contar uma história que, com o passar dos séculos, acabou quase sem registros materiais tradicionalmente fundamentados? Lá vieram os historiadores medievalistas virando as metodologias de ponta cabeça e suas "invenções" passaram a ser um ponto sério a ser discutido... Dai para falar de infância através da narrativa literária de Guimarães Rosa, que toca o mundo do sertão - uma sociedade contemporânea , mas com traços fortes de cultura oral, mais ou menos como era a medieval - e produzir literatura, Rosa teve que tocar muitas destas esferas, ao menos passar por elas... super genial.Ai quando eu leio Hilário Franco Jr e, além do arcabouço imagético, ele coloca na roda de observação os historiadores que me escoram até hoje, eu morro:
"A imagem em questão (a de Adão engasgado, colocando a mão na garganta utilizando somente seus 3 primeiros dedos, não os 5, como era habitual na iconografia do pecado original,em San Juan de La Peña no séc. XII) é única porque indicaria uma situação particular, exprimiria um estadom de espírito específico à comunidade monástica de San Juan.
Tal hipótese é difícil de ser testada, porque o mosteiro foi vítima de incêndios (no séc. X em 1494,1675 e 1809) que destruíram grande parte de seus fundos documentais, tanto textuais como iconográficos (inclusive, mais da metade dos capitéis do clausto). Diante disso, devemos recorrer a HIPÓTESES DE TRABALHO NÃO FUNDAMENTADAS SOBRE 'PROVAS' E SIM SOBRE UM 'CONHECIMENTO POR TRAÇOS' BASEADO NAQUILO QUE OS TEXTOS - E AS IMAGENS - NOS DIZEM 'SEM TER DESEJADO DIZER', COMO SUGERE MARC BLOCH. Mais recentemente Carlo Ginzbug prosseguiu nessa linha linha (que também é a de Arnold Hauser, Edgar Wind e Enrico Castelnuovo), chamando atenção para o 'paradigma indiciário' nas ciências sociais, inclusive na história, cujo conhecimento é 'indireto, indiciário e conjectural'. Dito de outra forma, o trabalho do historiador pede,com as precauções necessárias, raciocínio indutivo: passar 'do melhor ou do menos mal conhecido ao mais obscuro' , 'aplicar um método regressivo. (...)
FRANCO JR, Hilário. Os Três dedos de adão. p. 375-6
Marcadores:
Hilário Franco Jr.,
ofício do historiador,
Os três dedos de Adão
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Assinar:
Postagens (Atom)

