segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Na galeria - F. Kafka

Na galeria - F. Kafka
Se alguma amazona frágil e tísica fosse impelida meses sem interrupção ao redor do picadeiro sobre o cavalo oscilante diante de um público infatigável pelo diretor de circo impiedoso e de chicote na mão,sibilando em cima do cavalo, atirando beijos,equilibrando-se na cintura,e se esse espetáculo prosseguisse pelo futuro que se vai abrindo à frente sempre cinzento sob o bramido incessante da orquestra e dos ventiladores, acompanhado pelo aplauso que se esvai e outra vez se avoluma das mãos que na verdade são martelos a vapor — talvez então um jovem espectador da galeria descesse às pressas a longa escada através de todas as filas,se arrojasse no picadeiro e bradasse o basta! em meio às fanfarras da orquestra sempre pronta a se adaptar às situações.

Mas uma vez que não é assim, uma bela dama em branco e vermelho entra voando por entre as cortinas que os orgulhosos criados de libré abrem diante dela; o diretor, que busca abnegadamente seus olhos, respira voltado para ela numa postura de animal fiel; ergue-a cauteloso sobre o alazão como se ela fosse a neta amada acima de tudo que parte para uma viagem perigosa;não consegue se decidir a dar o sinal com o chicote; afinal dominando-se ele o dá com um estalo; corre de boca aberta ao lado do cavalo; segue com o olhar agudo os saltos de amazona; mal pode entender sua destreza; procura adverti-la com exclamações em inglês; furioso exorta os palafreneiros que seguram os arcos à atenção mais minuciosa; as mãos levantadas, implora à orquestra para que faça silêncio antes do grande salto mortal; finalmente alça a pequena do cavalo trêmulo,beija-a nas duas faces e não considera suficiente nenhuma homenagem do público; enquanto ela própria, sustentada por ele, na ponta dos pés, de braços estendidos, a cabecinha inclinada para trás,quer partilhar sua felicidade com o circo inteiro — uma vez que é assim o espectador da galeria apóia o rosto sobre o parapeito e,afundando na marcha final como num sonho pesado, chora sem o saber.

Kafka, F. Um médico rural [Ein Landarzt]. Trad. Modesto Carone. 2-ª reimp. São Paulo: Companhia das Letras,2003, pp.22-23.

domingo, 9 de setembro de 2012

Nossa vida de aranhas


"Sim, é verdade, acontecem muitas coisas. Não podemos porém dize-las todas, somos um tipo que entende mais à mudez, somos sem língua, temos boca enfiada entre as patas e o dorso redondo, não gostamos de explicar as coisas. A quem poderíamos, de todo modo, dize-las? Nossa linguagem ninguém fala, nem todas as pessoas que se mexem, dançam, voam, nunca ficam no lugar, nem mesmo todas essas coisas imóveis como pedrase os galhos. Nós, nós preferimos ouvir e sentir, mesmo sem ver. Já aprendemos segredos de todas as espécies, por nós ouvidos no lugar em que estamos, nas nossas reentrâncias entre as plantas e as pedras. Os barulhos correm pela terra mole, batem de encontro às pedras duras, despencam nos lanosos orifícios que fabricamos. Os segredos, os segredos mais segredos se encontram na poeira. São coisas que vêm tombando e se agarram, tornando-se logo após indistintas. Que se transformam em fumaça, que desaparecem.Mas nós capturamos, nas tênues cortinas que tecemos. "

 (Nossas vidas de aranhas. J.M.G. Le Clézio. p. 176)

O que é que quer uma mulher?

"As mulheres precisam de atenção. Tem que falar com ela, reparar nas coisas de vez em quando, da carinho sempre, lembrar que elas existem e que estão vivas e que são importantes, esta é a única terapia..." Benigno de Fale com Ela

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Briga de Tom Zé com Caetano Veloso em 2008 foi "como se fosse na escola"

♥"Às vezes, as pessoas brigam como se estivessem na escola. Querem atenção. Esse foi um momento de loucura. Queria ser aceito e ter o carinho de Caetano, que é uma coisa muito poderosa." Tom Tom Zé
 
 
Isso me faz lembrar que Winnicot diz em seu "A Criança e o Brincar" que os adultos também brincam o tempo todo, especialmente quando discutem, e isso é tão importante para eles quanto é para uma criança...
 
Para explicar melhor o contexto, colo o texto deste site aqui:

04/09/201219h07

No "Programa do Jô", Caetano pergunta por que Tom Zé o mandou tomar no c... em 2008

 

James Cimino
Do UOL, em São Paulo
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    Tom Zé divulga seu novo CD no "Programa do Jô": "Saí como ele nos dentes!" (04/09/2012)Tom Zé divulga seu novo CD no "Programa do Jô": "Saí como ele nos dentes!" (04/09/2012)
Convidado especial do "Programa do Jô" que vai ao ar nesta terça (4), o cantor Tom Zé enfrentou uma tremenda saia justa com outro ícone do tropicalismo, o cantor e compositor Caetano Veloso. Durante a entrevista, que durou dois blocos, a produção do programa colocou no ar um depoimento de Caetano em que ele pergunta a Tom Zé por que ele teve "aquela reação" em 2008. Durante um show no Ginásio do Ibirapuera, em 23 de novembro de 2008, Tom Zé mandou Caetano "tomar no c..." após dizer que o cantor e "seu grupo baiano" havia se apossado e se beneficiado "daquilo que era meu".

A resposta de Tom Zé foi bastante humilde: "Às vezes, as pessoas brigam como se estivessem na escola. Querem atenção. Esse foi um momento de loucura. Queria ser aceito e ter o carinho de Caetano, que é uma coisa muito poderosa."

Além da retratação, Tom Zé, que está divulgando seu novo disco "Tropicália Lixo Lógico", cantou duas músicas: "Não Tenha Ódio no Verão" e "Tropicália Jacta". O novo ´álbum, segundo o próprio cantor, é um mergulho na obra de Caetano e Gil. "Mergulhei na obra de Gil e Caetano, que são dois luminares, e emergi desse poço de medo com o disco entre os dentes."

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Le Clézio, novamente ...


Já falei aqui sobre este livro enquanto ainda estava lendo a "História do pé". Mas agora estou lendo as "Outras Fantasias", que, infelizmente, não são muito fantasiosas : são descrições de situações que realmente acontecem, mas  que a gente nunca lê sobre, porque nem sempre é possível (ou interessante) narrar (mesmo ficcionalmente) a vida de um refugiado, especialmente se for a partir da perspectiva dele! Le Clézio faz isso nesse livro, e agora, lendo as "outras fantasias",  reforça-se com mais propriedade aquela sensação que tive quando li a "História do pé": aquilo é tema para Homi Bhabha! O tema é a a relação com o sentimento de pertença ou não pertença destas pessoas que estão marginalizadas de tantas maneiras... interessantíssimo, eu recomendo !

domingo, 26 de agosto de 2012

Mais de Le Clézio


“Ujine imagina que, em toda aquela cidade, talvez exista alguém que pense nela. Samuel, do tamanho de uma ameba, do tamanho de uma cabeça de alfinete. Se ela o chamasse, se gritasse seu nome, será que ele escutaria? Se pensasse nele intensamente , comprimindo as têmporas nas mãos, será que ele se mexeria na cama, durante o sono, e olharia na direção do horizonte? Ele a veria nos seus sonhos?
De repente, a uma pontada no epigástrico, ela se dobra ao meio.  Não contava com isso agora, a lembrança chega com violência, domina-a, sufoca-a. Gemendo um pouco, ela sente lágrimas subindo de todo o seu corpo para transbordar em suas pálpebras e escorrer para a boca. Com Samuel, ela está naquela estrada que serpenteia na bruma ao longo do mar do Norte, atravessando as colinas de eulálias. Lembra que nem sabia esse nome, chamava aquilo de capim, e Samuel tinha explicado, dando até mesmo o nome latino , que era planta do Japão ou da China. Um nome tão delicado, eulália, ela achou lindo. Samuel parou o carro numa clareira, no final da estradinha de terra. Juntos, através do para-brisa crivado de gotinhas, os dois espiam os retalhos de bruma a rodopiar entre as plantas. A luz do dia que amanhece pincela o céu de um brilho intenso, multiplicado pelas gotas de orvalho.Os talos altos, leves, flexíveis, estão imóveis e exultam. Não há barulho ao redor. Ujine, ouvindo a vibração do coração, encosta o ouvido no peito de Samuel para escutar o ritmo que está na mesma cadência, uma batida breve, outra mais longa... É um momento de felicidade que ela acredita jamais ter acontecido antes. Pensa em tantos anos de solidão, na morte da mãe no hospital, na angústia de te de trabalhar, ter de encontrar um lugar no mundo. Ela não fala nada, ele também fica calado, ela sabe que o ama e que é amada por ele, está certa disso, quele instante, fora do mundo, fora do tempo, nada jamais poderá apagar.”