domingo, 23 de dezembro de 2012

A teoria dos sentimentos morais, Adam Smith (1759)


Para minha pesquisa de doutorado , comecei a ler o livro "A era da empatia - Liçoes da natureza para uma sociedade mais gentil", do primatólogo americano  Frans de Wall e publicado em 2010. Logo no começo ele faz uma excelente citação do primeiro livro de Adam Smith "A teoria dos sentimentos morais" (1759). Vou transcrever o texto do livro de Wall, com a citação inclusa:
 
"Adam Smith, o pai da economia, compreendia melhor do que ninguém que a luta em defesa de nossos interesses pessoais necessita ser temperada pelo sentimento de solidariedade. Ele defendeu esse ponto de vista em 'A teoria dos sentimentos morais', um livro muito menos conhecido do que A riqueza das nações. Smith iniciou seu primeiro livro com uma frase memorável:  'Por mais egoísta que se possa admitir que seja o homem, é evidente que existe certos princípios em sua natureza que o levaram a interessar-se pela sorte dos outros e fazem com que a felicidade destes lhe seja necessária, embora disso ele nada obtenha que não o prazer de testemunhar'." (SMITH,1759, p.09')"
 
Estou gostando  muito deste livro ... vamos seguir comentando...

sábado, 22 de dezembro de 2012

A Fantástica fábrica de chocolate, Roald Dahk

 
" A cachoeira é a coisa mais importante de tudo! - continuou o senhor Wonka. - Ela mistura chocolate! Ela bate, amassa, mexe e remexe! Faz o chocolate ficar leve, espumoso! Nenhuma outra fábrica no mundo mistura chocolate em cachoeira! Mas é o único jeito certo de fazer isso! O único! E minhas árvores, vocês gostam? - exclamou apontando com a bengala. E meus arbustos? Não são bonitinhos? Digo e repito: detesto feiura! E tem mais, é tudo comestível!Cada coisa é feita de algo diferente, delicioso! E as campinas? Vocês gostam da grama e dos meus copos-de-leite? A grama que vocês estão pisando, meus queridos, é feita de um novo tipo de açúcar mentolado que eu mesmo inventei! Chamo de VERDOCE! Experimentem uma folhinha de grama! Por favor, provem!"

Roald Dahk - A Fantástica fábrica de chocolate,p. 72

Declaração em juízo - Carlos Drummond de Andrade

Declaração Em Juízo

Carlos Drummond de Andrade

peço desculpas de ser
o sobrevivente.
não por longo tempo, é claro.
tranqüilizem-se.
mas devo confessar, reconhecer
que sou sobrevivente.
se é triste/cômico
ficar sentado na platéia
quando o espetáculo acabou
e fecha-se o teatro,
mais triste/grotesco é permanecer no palco,
ator único, sem papel,
quando o público já virou as costas
e somente baratas
circulam no farelo.
reparem: não tenho culpa.
não fiz nada para ser
sobrevivente.
não roguei aos altos poderes
que me conservassem tanto tempo.
não matei nenhum dos companheiros.
se não saí violentamente,
se me deixei ficar ficar ficar,
foi sem segunda intenção.
largaram-me aqui, eis tudo,
e lá se foram todos, um a um,
sem prevenir, sem me acenar,
sem dizer adeus, todos se foram.
(houve os que requintaram no silêncio).
não me queixo. nem os censuro.
decerto não houve propósito
de me deixar entregue a mim mesmo,
perplexo,
desentranhado.
não cuidaram que um sobraria.
foi isso. tornei, tornaram-me
sobre - vivente.
se se admiram de eu estar vivo,
esclareço: estou sobrevivo.
viver, propriamente, não vivi
senão em projeto. adiamento.
calendário do ano próximo.
jamais percebi estar vivendo
quando em volta viviam quantos! quanto.
alguma vez os invejei. outras, sentia
pena de tanta vida que se exauria no viver
enquanto o não viver, o sobreviver
duranvam, perdurando.
e me punha a um canto, à espera,
contraditória e simplesmente,
de chegar a hora de também
viver.
não chegou. digo que não. tudo foram ensaios,
testes, ilustrações. a verdadeira vida
sorria longe, indecifrável.
desisti. recolhi-me
cada vez mais, concha, à concha. agora
sou sobrevivente.
sobrevivente incomoda
mais que fantasma. sei a mim mesmo
incomodo-me. o reflexo é uma prova feroz.
por mais que me esconda, projeto-me,
devolvo-me, provoco-me.
não adianta ameaçar-me. volto sempre,
todas as manhãs me volto, viravolto
com exatidão de carteiro que distribui más notícias.
o dia todo é dia
de verificar o meu fenômeno.
estou onde não estão
minhas raízes, meu caminho
onde sobrei,
insistente, reiterado, aflitivo
sobrevivente
da vida que ainda
não vivi, juro por deus e o diabo, não vivi.
tudo confessado, que pena
me será aplicada, ou perdão?
desconfio nada pode ser feito
a meu favor ou contra.
nem há técnica
de fazer, desfazer
o infeito infazível.
se sou sobrevivente, sou sobrevivente.
cumpre reconhecer-me esta qualidade
que finalmente o é. sou o único, entendem?
de um grupo muito antigo
de que não há memória nas calçadas
e nos vídeos.
único a permanecer, a dormir,
a jantar, a urinar,
a tropeçar, até mesmo a sorrir
em rápidas ocasiões, mas garanto que sorrio,
como neste momento estou sorrindo
de ser - delícia? - sobrevivente.
é esperar apenas, está bem?
que passe o tempo de sobrevivência
e tudo se resolve sem escândalo
ante a justiça indiferente.
acabo de notar, e sem surpresa:
não me ouvem no sentido de entender,
nem importa que um sobrevivente
venha contar seu caso, defender-se
ou acusar-se, é tudo a mesma
nenhuma coisa, e branca

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Infância e história - Giorgio Agamben

 
"É a infância, a experiência transcedental da diferença entre língua e fala, a abrir pela primeira vez à história o seu espaço. Por isso, Babel , ou seja, a saída da pura língua edêmica e o ingresso no balbuciar da infância (quando, dizem-nos os linguistas, a criança forma os fonemas de todas as línguas do mundo), é a origem transcedental da história. Experenciar significa, necessariamente, neste sentido, reentrar na infância como pátria transcedental da história. O mistério que a infância institui para o homem pode de fato ser solucionado somente na história, assim como a experiência, enquanto infância, e pátria do homem, é algo de onde ele desde sempre se encontra no ato de cair na linguagem e na palavra. Por isso a história não pode ser o progresso contínuo da humanidade falante ao longo do tempo linear, mas é, na sua essência, intervalo, descontinuidade, epoché. Aquilo que tem na infância a sua pátria originária, rumo à infância e através da infância, deve manter-se em viagem." Giorgio Agamben. Infancia e História. p. 64-5

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Oralidade na Invenção do Cotidiano

 
"Com toda razão, a oralidade exige o reconhecimento de seus direitos, pois começamos a descobrir mais nitidamente o papel fundador do oral na relação com o outro.
O desejo de falar vem à criança pela música das vozes, que a envolve, nomeia e chama a existir por sua conta. Toda uma arqueologia de vozes codifica e torna possível a interpretação das relações, a partir do reconhecimento das vozes familiares, tão próximas. Músicas de sons e de sentidos, polifonias de locutores que se buscam, se ouvem, se interrompem, se entrecruzam e se respondem. (...) numa sociedade não existe comunicação sem oralidade, mesmo quando essa sociedade dá grande espaço à escrita para a memorização da tradição ou para a circulação do saber. A oralidade está em toda a parte, porque a conversação se insinua em todo o lugar; ela organiza a família e a rua, o trabalho na empresa e a pesquisa nos laboratórios. Oceanos de comunicação que se infiltram por toda parte e sempre determinantes, mesmo onde o produto final da atividade apaga todo traço dessa relação com a oralidade."
 
Michel de Certeau; Luce Giard e Pierre Mayol, A Invenção do Cotidiano : 2 – Morar, cozinhar, p. 336-8

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Do abraço ao grunhido: a Web!

Um amigo, meio que em tom de brincadeira, disse sentir saudade das comunidades do Orkut. Eu lhe respondi da seguinte forma:

'Eu também sinto falta das comunidades do orkut ativas. Pelo que eu penso, elas foram a última tentativa de aproximar pessoas do mundo todo, que moravam longe uma da outra, mas que tinham interesses semelhantes. Não me importando que vão dizer que estou velha (porque isso eu estou mesmo), mas lembro das White Pages do ICQ...  Mas as coisas foram ficando cada vez mais individualistas. Veja por exemplo o Twitter, que é algo ao contrário a aproximação, como disse José Saramago em uma das suas últimas ranzizices :

"Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."

Bom, concordo em partes com Saramago, pois eu estudo comunicação "de" e "com" bebês, por isso não acho os grunhidos algo assim sem importância, mas como são sons primitivos do corpo, mesmo eles são mais expressivos que os 140 caracteres padronizados do Twitter (não me acostumo com eles)... Os tempos da web já foram bem mais interessantes...