quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Importância de uma História da Infância...

 
“Um outro diálogo interdisciplinar possível com as pesquisas inauguradas pelo livro (História Social da Criança e da Família, 1979) de Ariès, comentado anteriormente, e que florescem hoje no Brasil : a chamada ‘história da infância”. Por ela, torna-se possível explorar  a variação de uma concepção de infância no tempo, correlacionando-a a variações históricas nos modos de tratar, de se relacionar e de vivenciar a infância. Tais mudanças podem ser observadas em textos sobre a criança ou voltados para ela, nas artes plásticas, nos tratados de educação e pedagogia. Neste momento da ciência, em que se valoriza a interdisciplinaridade, esses estudos realizados por historiadores de formação, revelam-se frequentemente uma antropologia voltada para  tempos passados, e são extremamente valiosos no debate das imagens sobre as crianças e sua atuação no mundo.”

Clarice Cohn. Antropologia da Criança.2ª. Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. , 2009.p,43-4.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Antropologia e a revisão do conceito de Cultura

 
Antes que alguém me diga que essas coisas são mais do que conhecidas para os cientistas sociais, digo que tenho plena ciência de que isso deve ser o B+A = BA  para eles,  mas para mim, confesso,  são perspectivas novas e interessantes para mim:

 "A partir da década de 1960 (...) Na revisão do conceito de cultura, os antropólogos, ao invés de tomá-la como algo empiricamente observável e delimitado, cada vez mais abdicam de falar em costumes, valores, crenças para frisar que o que que de fato interessa está mais embaixo.Ou seja, não são os valores ou crenças que são os dados culturais, mas aquilo que os conforma. E o que os conforma é uma lógica particular, um sistema simbólico acionado pelos atores sociais a cada momento para dar sentido a suas experiências.Ela não é mensurável,  portanto, e nem detectável em um lugar apenas -é aquilo que faz com que as pessoas possam viver em sociedade compartilhando sentidos, porque eles são formados a partir de um mesmo sistema simbólico."


Clarice Cohn. Antropologia da criança,p. 19

Os planos não realizáveis do Xico Sá!

O texto original está aqui. Mas eu roubei e copiei aqui:

Plano bom é plano não-realizado

26/12/12 - 11:09


Trilha para os últimos dias do mundo que não acabou
Nas espumas flutuantes de mares e cervejas crepusculares, reflito:
Plano bom é plano não-realizado.
Cronicamente inviável e repetitivo vos digo, como a cada fim de ano: nossos planos são muito bons, como na canção dos Doces Bárbaros, nossos planos são recicláveis, como os de mil novecentos e antigamente…
Nossos planos são os mesmos que se arrastam desde século seculorum, nossos planos são tão conhecidos, tão íntimos, eles nos acompanham há tanto tempo que viraram nossos amantes, nossos melhores amigos.
Nossos planos renascem a cada fim de ano como os nossos melhores cúmplices.
Nossos planos sabem que se os realizássemos à risca a vida perderia a graça, seríamos perfeitos demais, estávamos todos magérrimos, malhados, gozando a saúde dos deuses ou dos imortais da ABL, seríamos todos um bando de Davids Beckhans e Giseles.
Nossos planos são muito bons, mas sinto muito por eles, coitados, mais uma vez não serão cumpridos na íntegra no ano da graça de 2013.
Cumpriremos, no máximo, os 10% da humaníssima cota do possível, os 10% do garçom, justa medida.
Nossos planos são muito bons e nunca foram atrapalhados por crise alguma. O que nossos planos enfrentam para valer é uma invencível guerra interna nos fracos juízos repletos de defeitos de fábrica.
Nossos planos são muito bons, mas, como sempre, ainda temos o benefício da dúvida, ainda temos a complacência e, se, por acaso, faltar alguma conversa fiada no estoque, botamos a culpa nos outros –nosso inferno mais próximo.
Nossos planos mal devoraram a ceia do Natal, nossos planos famintos, nossos planos eivados pela fome histórica de todos os semi-áridos e Jequitinhonhas, e lá estão nossos planos a dormir a mais preguiçosa das siestas espanholas.
Nossos planos estão dengosos, como nunca, para o ano novo, nossos planos querem colo, nossos planos odeiam uma academia de ginástica, um cooper às cinco da matina, uma dieta saudável…
Nossos planos não têm medo do colesterol e muito menos da gordura trans, nossos planos adoram uma costelinha de porco, como aquela que Maria fez ainda no Paraíso, costelinha com cerveja preta.
Ah, nossos planos lamberam os beiços, mesmo não sabendo o que seríamos de nós dali a duas voltas do sol no eixo da existência.
Nossos planos não se desgastam à toa, não vivem de estresse, não andam de automóvel na cidade de SP, nossos planos são eternos pedestres e adoram uma rede depois do almoço.
Nossos planos são do interior do mato e ruminam um capinzinho entre os dentes manchados pelo cigarro brabo do tempo.
Nossos planos se espreguiçam, estralando todas as juntas e costelas, quando ouvem falar outra vez de novos planos.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Feliz Natal


Com algumas poucas recoendações, também recomendo a leitura deste conto de Clarice Lispector. 

domingo, 23 de dezembro de 2012

A teoria dos sentimentos morais, Adam Smith (1759)


Para minha pesquisa de doutorado , comecei a ler o livro "A era da empatia - Liçoes da natureza para uma sociedade mais gentil", do primatólogo americano  Frans de Wall e publicado em 2010. Logo no começo ele faz uma excelente citação do primeiro livro de Adam Smith "A teoria dos sentimentos morais" (1759). Vou transcrever o texto do livro de Wall, com a citação inclusa:
 
"Adam Smith, o pai da economia, compreendia melhor do que ninguém que a luta em defesa de nossos interesses pessoais necessita ser temperada pelo sentimento de solidariedade. Ele defendeu esse ponto de vista em 'A teoria dos sentimentos morais', um livro muito menos conhecido do que A riqueza das nações. Smith iniciou seu primeiro livro com uma frase memorável:  'Por mais egoísta que se possa admitir que seja o homem, é evidente que existe certos princípios em sua natureza que o levaram a interessar-se pela sorte dos outros e fazem com que a felicidade destes lhe seja necessária, embora disso ele nada obtenha que não o prazer de testemunhar'." (SMITH,1759, p.09')"
 
Estou gostando  muito deste livro ... vamos seguir comentando...

sábado, 22 de dezembro de 2012

A Fantástica fábrica de chocolate, Roald Dahk

 
" A cachoeira é a coisa mais importante de tudo! - continuou o senhor Wonka. - Ela mistura chocolate! Ela bate, amassa, mexe e remexe! Faz o chocolate ficar leve, espumoso! Nenhuma outra fábrica no mundo mistura chocolate em cachoeira! Mas é o único jeito certo de fazer isso! O único! E minhas árvores, vocês gostam? - exclamou apontando com a bengala. E meus arbustos? Não são bonitinhos? Digo e repito: detesto feiura! E tem mais, é tudo comestível!Cada coisa é feita de algo diferente, delicioso! E as campinas? Vocês gostam da grama e dos meus copos-de-leite? A grama que vocês estão pisando, meus queridos, é feita de um novo tipo de açúcar mentolado que eu mesmo inventei! Chamo de VERDOCE! Experimentem uma folhinha de grama! Por favor, provem!"

Roald Dahk - A Fantástica fábrica de chocolate,p. 72

Declaração em juízo - Carlos Drummond de Andrade

Declaração Em Juízo

Carlos Drummond de Andrade

peço desculpas de ser
o sobrevivente.
não por longo tempo, é claro.
tranqüilizem-se.
mas devo confessar, reconhecer
que sou sobrevivente.
se é triste/cômico
ficar sentado na platéia
quando o espetáculo acabou
e fecha-se o teatro,
mais triste/grotesco é permanecer no palco,
ator único, sem papel,
quando o público já virou as costas
e somente baratas
circulam no farelo.
reparem: não tenho culpa.
não fiz nada para ser
sobrevivente.
não roguei aos altos poderes
que me conservassem tanto tempo.
não matei nenhum dos companheiros.
se não saí violentamente,
se me deixei ficar ficar ficar,
foi sem segunda intenção.
largaram-me aqui, eis tudo,
e lá se foram todos, um a um,
sem prevenir, sem me acenar,
sem dizer adeus, todos se foram.
(houve os que requintaram no silêncio).
não me queixo. nem os censuro.
decerto não houve propósito
de me deixar entregue a mim mesmo,
perplexo,
desentranhado.
não cuidaram que um sobraria.
foi isso. tornei, tornaram-me
sobre - vivente.
se se admiram de eu estar vivo,
esclareço: estou sobrevivo.
viver, propriamente, não vivi
senão em projeto. adiamento.
calendário do ano próximo.
jamais percebi estar vivendo
quando em volta viviam quantos! quanto.
alguma vez os invejei. outras, sentia
pena de tanta vida que se exauria no viver
enquanto o não viver, o sobreviver
duranvam, perdurando.
e me punha a um canto, à espera,
contraditória e simplesmente,
de chegar a hora de também
viver.
não chegou. digo que não. tudo foram ensaios,
testes, ilustrações. a verdadeira vida
sorria longe, indecifrável.
desisti. recolhi-me
cada vez mais, concha, à concha. agora
sou sobrevivente.
sobrevivente incomoda
mais que fantasma. sei a mim mesmo
incomodo-me. o reflexo é uma prova feroz.
por mais que me esconda, projeto-me,
devolvo-me, provoco-me.
não adianta ameaçar-me. volto sempre,
todas as manhãs me volto, viravolto
com exatidão de carteiro que distribui más notícias.
o dia todo é dia
de verificar o meu fenômeno.
estou onde não estão
minhas raízes, meu caminho
onde sobrei,
insistente, reiterado, aflitivo
sobrevivente
da vida que ainda
não vivi, juro por deus e o diabo, não vivi.
tudo confessado, que pena
me será aplicada, ou perdão?
desconfio nada pode ser feito
a meu favor ou contra.
nem há técnica
de fazer, desfazer
o infeito infazível.
se sou sobrevivente, sou sobrevivente.
cumpre reconhecer-me esta qualidade
que finalmente o é. sou o único, entendem?
de um grupo muito antigo
de que não há memória nas calçadas
e nos vídeos.
único a permanecer, a dormir,
a jantar, a urinar,
a tropeçar, até mesmo a sorrir
em rápidas ocasiões, mas garanto que sorrio,
como neste momento estou sorrindo
de ser - delícia? - sobrevivente.
é esperar apenas, está bem?
que passe o tempo de sobrevivência
e tudo se resolve sem escândalo
ante a justiça indiferente.
acabo de notar, e sem surpresa:
não me ouvem no sentido de entender,
nem importa que um sobrevivente
venha contar seu caso, defender-se
ou acusar-se, é tudo a mesma
nenhuma coisa, e branca