segunda-feira, 25 de agosto de 2014
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Precisamos ouvir nossos ancestrais, por Lucas Tauil Freitas
"Metade das 6 mil línguas do mundo não são mais ensinadas às crianças. Apaga-se com cada uma delas uma faísca do espírito humano, respostas únicas à pergunta fundamental: o que significa ser humano, estar vivo e aqui?"Lucas Tauil Freitas
Para ler o texto completo da revista Vida Simples, acesse este link.
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Nicolau Sevcenko, por Elias Thomé Saliba
Meus exemplos de historiadores
Como eu disse nos agradecimentos da minha tese, Nicolau e Elias me ensinaram como ver a história sempre como se fosse a primeira vez...
NICOLAU SEVCENKO(1952-2014) para a ANPUH
20/08/2014
Por Elias Thomé Saliba(USP)
“Tempo presente e tempo passado, são ambos presentes no tempo futuro”. De especial predileção de Nicolau Sevcenko, este trecho de um dos quartetos de T. S. Eliot, nos vem à memória ao refletir sobre o repentino e brutal desaparecimento do historiador, que nasceu em São Vicente(SP) em 1952. Filho de imigrantes ucranianos, perdeu o pai aos cinco anos e foi criado pela mãe, que trabalhava como tecelã e morava numa colônia de imigrantes eslavos que abrangia os bairros de Vila Alpina e Vila Zelina. Começou trabalhando precocemente com o irmão, recolhendo metais de sucatas das indústrias do ABC.
Conheci Nicolau Sevcenko em 1972, ainda quando estudante de História na USP e ele, como eu, éramos procedentes da escola pública. No curso de História o clima era meio constrangedor, com a saída de mestres importantes como Emilia Viotti e Sérgio Buarque de Holanda e com a polícia ainda circulando ao redor do campus. Época de ânimos exaltados, na qual todos achavam que você ou era um aliado incondicional ou era necessariamente um inimigo.
Quem nos estimulou a prosseguir nos estudos foi a nossa mestra Maria Odila da Silva Dias, que se tornou responsável pela formação de vários e importantes historiadores. Rejeitando uma concepção arcaica de História, que a concebia como fluxo evolutivo, genético ou finalista, já partilhávamos com nossa mestra muitas outras coisas, esforçando-nos por observar o passado com desprendimento, considerando toda singularidade histórica como objeto de conhecimento de igual relevância. O que nos atraía para uma visão mais libertária da história, uma história fluida, ligada aos fluxos da vida, constantemente inventada e reinventada e distante, muito distante dos blocos graníticos das velhas ideologias.
Em 1981, Nicolau defendeu sua tese de doutorado, em sessão histórica, que contou com a presença de Sérgio Buarque de Holanda na sua ultima aparição pública, pouco antes do seu falecimento. Ali ouvimos o professor Sérgio traduzir uma frase paradoxal de Nietzsche, que dizia: “Todos os conceitos que se congregam num processo esquivam-se à definição: só o que não tem história é definível.” Naquela época era um tanto incomum historiadores utilizarem-se preferencialmente de fontes literárias, como foi o caso de Literatura como Missão.Brincadeiras superficiais diziam tratar-se de “literatura como omissão”, sem perceber o engajamento crítico daquele trabalho que teve um enorme impacto fora da universidade, arrebatando a maioria dos prêmios no ano de sua primeira publicação. Com olhares simultâneos - um na história social e outro na história da cultura -, Sevcenko propunha uma analise original das consciências polarizadas de Euclides da Cunha e Lima Barreto, demonstrando brilhantemente o quanto a literatura transformou-se naquele “testemunho triste, porém sublime, dos homens que foram vencidos pelos fatos.”
Já Orfeu Extático na Metrópole - originalmente apresentado como livre-docência em 1993 - é um densa sondagem dos impasses da modernidade na cultura brasileira, tendo como epicentro a urbanização acelerada de São Paulo nos frementes anos de 1920. O que impressiona neste livro é a capacidade de articulação entre a cultura internacional e a cultura brasileira. O mundo após a Ia. Guerra irradiava uma inédita forma de mobilização coletiva: em lugar da razão e da palavra, o universo imprevisível da ação que inaugurava uma curiosa espécie de cidadania fundada na emotividade. Nunca será demais lembrar que o livro é uma releitura original do modernismo brasileiro, através do seu enquadramento ambíguo neste cenário de desenraizamento e fragmentação, onde tudo convergia para repotencializar atitudes nacionalistas e mitos de mobilização coletiva.
Impossível falar de toda a obra de Nicolau Sevcenko e fazer justiça a sua surpreendente versatilidade sem mencionar A Revolta da Vacina. Dedicado às centenas de mortos de Vila Socó(Cubatão), que resultaram da histórica irresponsabilidade do poder político brasileiro, o livro alcançou quatro edições em 2010 e (se é que os rankings são de alguma serventia) foi o livro mais citado naquela mesma década. Muitos dos temas desprezados ou marginalizados por outros intérpretes constituíam para Sevcenko um pretexto para desentranhar uma história mais autentica, como se comprova pelo volume III da História da Vida Privada no Brasil, por ele organizado e, em inúmeros outros estudos, de temas sempre surpreendentes, das raízes xamânicas das narrativas aos impactos das inovações tecnológicas na vida cotidiana.
Impossibilidade maior ainda é descrever a competência e a criatividade de Nicolau Sevcenko como professor, sem descontentar as centenas de historiadores que foram seus alunos ou orientandos, na PUC-SP, na UNICAMP, na USP ou em Harvard. Muitos dos seus alunos o descrevem como um daqueles professores inesquecíveis: suas classes na USP, nunca com menos do que 80 alunos, em sessões diurnas e noturnas(algo que ninguém divulga quando, nos últimos tempos, tanto se ataca a universidade pública) eram tão disputadas que já se tornara hábito colocar cadeiras no corredor para assisti-las. Afável, generoso, solícito, sempre bem-humorado, trabalhador infatigável, dificilmente conseguia dizer “não” quando solicitado – e sempre foram muitas as solicitações. Havia nele um coração de criança, que conservava sempre aquela possibilidade de se surpreender com a vida e de enxergar o passado como uma criança vê as primeiras imagens que chegam aos seus olhos. Seu desaparecimento precoce é, para nós, a perda de um amigo e do mais formidável dos nossos interlocutores intelectuais. O que é quase nada diante da perda irreparável para a historiografia e para a cultura brasileira de um dos mais brilhantes dos seus historiadores.
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Elias Thomé Saliba.
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domingo, 17 de agosto de 2014
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Emicida - Sol de giz de Cera
Sol de Giz de Cera
Emicida
Ela quer me contar um negócio sobre
cada pé de feijão que brotou no algodão,
não após dar cada detalhe do passeio dos caracóis.
Voa sorrindo, brinca no vento.
Eu vi que o mundo pode ser velho e novo ao mesmo tempo.
Viro rei, pirata e samurai, em resumo, no rumo, papai.
cada pé de feijão que brotou no algodão,
não após dar cada detalhe do passeio dos caracóis.
Voa sorrindo, brinca no vento.
Eu vi que o mundo pode ser velho e novo ao mesmo tempo.
Viro rei, pirata e samurai, em resumo, no rumo, papai.
Sou eu quem mata o leão, quem vence o dragão,
ufa, enfrenta a vida dura
Dom Quixote doidão, de espada na mão
e ainda volto pra casa com a mistura, cantando:
Pa pa pa para, pa pa pa para (4x)
ufa, enfrenta a vida dura
Dom Quixote doidão, de espada na mão
e ainda volto pra casa com a mistura, cantando:
Pa pa pa para, pa pa pa para (4x)
Menos um dente, joelho ralado e eu atrás tipo um velho,
cuidado, cuidado.
Cuidado pa pai, ó ó, vem vem, só só, vem vem, dó dó.
O cadarço deu um nó, pula como quem flutua
e fala de abelha, bala, olha a lua.
O cachorro comeu a canetinha de sua alteza,
princesa, cosquinha.
cuidado, cuidado.
Cuidado pa pai, ó ó, vem vem, só só, vem vem, dó dó.
O cadarço deu um nó, pula como quem flutua
e fala de abelha, bala, olha a lua.
O cachorro comeu a canetinha de sua alteza,
princesa, cosquinha.
Sou eu quem mata o leão, quem vence o dragão,
ufa, enfrenta a vida dura
Dom Quixote doidão, de espada na mão
e ainda volto pra casa com a mistura, cantando:
Pa pa pa para, pa pa pa para (4x)
ufa, enfrenta a vida dura
Dom Quixote doidão, de espada na mão
e ainda volto pra casa com a mistura, cantando:
Pa pa pa para, pa pa pa para (4x)
domingo, 10 de agosto de 2014
Leitinho - Pequeno Cidadão
Leitinho é coisa de bebê, né? Algumas vezes, na coleção de textos críticos sobre as Estórias que Rosa colecionou, aparece que aqueles textos evocam o denso 'leite humano', e com isso, na minha tese, eu destaco como referência "à primeira infância humana ou, se quisermos especificar, a seu primeiro alimento cultural que, segundo defendeu Afrânio Coutinho, consistia na cultura oral, por ele denominada de “o primeiro leite da cultura humana” (Apud SANDRONI, 2011) , que desde os primórdios vem nos alimentando com mitos, lendas, arquétipos, epopeias, elementos que, inquestionavelmente, se encontram na escritura das estórias rosianas."
Um leitinho pro nenê, um acalanto ... viva a infância na escritura rosiana!
Referências:
RODRIGUES, Camila. 'Escrevendo a lápis de cor: Infância e história na escritura de Guimarães Rosa'. Tese de doutoramento, USP, 2014.
SANDRONI, Laura. 'De Lobato a Bojunga: as reinações renovadas'. 2ª. Ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira,2011.
"Após 40 anos da morte de frei Tito, o Brasil segue torturando", por Leonardo Sakamoto
Este texto está originalmente disponível aqui. Que o Frei Tito esteja em paz, finalmente.
"Após 40 anos da morte de frei Tito, o Brasil segue torturando
"Após 40 anos da morte de frei Tito, o Brasil segue torturando
Leonardo Sakamoto
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Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, foi encontrado enforcado no dia 10 de agosto de 1974, durante seu exílio na França, como consequência da tortura que sofreu pelas mãos dos agentes da ditadura militar brasileira. Em 1969, ele foi um dos dominicanos presos pelo torturador Sérgio Paranhos Fleury, delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), acusados de apoiar as ações da resistência contra o regime. O calvário de Tito, da prisão ao suicídio, tornou-se um dos símbolos da luta contra a ditadura.
Trago um trecho do testemunho de Tito à Justiça Militar, em 1969, em que conta como foram as sessões de tortura. O depoimento faz parte de ação movida pelo Ministério Público Federal contra os torturadores:
“Na quarta feira, fui acordado às 8 horas, subi para a sala de interrogatórios, onde a equipe do capitão Homero me esperava.
Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, ou recebia cuteladas na cabeça, nos braços e no peito.
Neste ritmo prosseguiram até o início da noite, quando me serviram a primeira refeição naquelas 48 horas. (…)
Na quinta- feira, três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão, cercado por uma equipe, voltou às mesmas perguntas.
“Vai ter que falar, senão, só sai morto daqui”, gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça: era quase uma certeza.
Sentaram-me na “cadeira de dragão” (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos e na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse decompor.
Da sessão de choques, passaram-me ao pau-de-arara. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor.
Uma hora depois, com o corpo todo sangrando e todo ferido, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me à outra sala, dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse “antes de morrer”. Não chegaram a fazê-lo.
Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatórias. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais: tudo parecia massacrado.
Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais. Restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos.
Este blog solicitou ao também frei dominicano e membro da Comissão Pastoral da Terra no Tocantins, Xavier Plassat, última pessoa a ver Tito com vida antes do suicídio, um relato sobre as consequências da tortura sobre o religioso. Xavier lançou, neste sábado (9), durante evento que celebrou a memória de Tito na capital paulista, o livro “As próprias pedras gritarão – Escritos, ideias e poemas de Frei Tito'':
“Convivi com frei Tito na comunidade dominicana de L’Arbresle (França). Foram duas primaveras, dois verões, mas um só outono e um só inverno. Ele com seus 27 anos e eu, meus 23.
Ali, surgiu entre nós uma relação feita de cumplicidade e de amizade, de sorrisos e de raivas, de luta e de fé, enfrentando o Fleury [Sérgio Fernando Paranhos Fleury, delegado em São Paulo, acusado de ser um dos principais torturadores do regime militar] que, por dentro do Tito, continuava sua tortura destruidora, partindo-lhe a alma entre resistência e desistência.
Resistência era quando Tito formava projetos, tocava violão, abraçava o amigo, brincava com as crianças, rezava, sorria.
Desistência era quando obedecia cegamente à intimação alucinante da voz que atormentava sua mente sem parar, fugindo para onde mandava que fosse, ou afundando-se em impenetráveis prantos ou desesperados silêncios.
Lembro como se fosse ontem: o dia era 11 de setembro de 1973. As rádios anunciavam o golpe de Pinochet. Ao chegar de longa viagem, achei Tito prostrado e gemendo ao pé de uma árvore, no estacionamento frente à portaria de La Corbusière, nosso convento.
Assim estava desde cedo. Ninguém entendia seu choramingo incessante e assustador. Sentei e fiquei ao lado, horas a fio, procurando abrigar o amigo da chuva intermitente. Pelas altas horas da noite, a duras custas, incrédulo, eu comecei a perceber do que Tito tremia e a quem implorava por piedade: era o Fleury, vociferando em (imaginário) alto-falante localizado do outro lado do vale.
Enquanto torturava um após o outro cada um dos seus irmãos, ele bradava insultos contra o Tito: “comunista, traidor, terrorista, a igreja te jogou fora, você não pisará mais neste chão sagrado, não há mais como tu escapar de mim''. Enquanto ele não se entregasse, continuaria a tortura da família por inteiro: os dez irmãos, o pai, a mãe. E Tito, o caçula, escutava soluços dos seus, entre gritos e imprecações.
Desse dia em diante, Tito pendularia entre o entregar-se e o resistir, como que acuado entre as paredes deste novo “corredor polonês”: morrer vivendo, viver morrendo.
Cumpria-se a louca promessa que recebeu durante as sessões reais de tortura. Em suas próprias palavras, em depoimento: “Quiseram-me deixar dependurado toda a noite no “pau-de-arara''. Mas o capitão Albernaz objetou: “Não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia''.
Juntos, viajamos, cantamos, choramos, xingamos e desafiamos. Partilhamos do melhor e do pior. O chão que vem e o chão que se vá.
Até que um dia (era em agosto de 1974, na semana de São Domingos), Tito resolveu livrar-se definitivamente do torturador e da loucura que este pretendia infundir-lhe. Neste instante longamente preparado, num último mistério de resistência e de fé, Tito derrubou lhe a pretensão de poder continuar, dia após dia, roubando a sua vida.
“Melhor morrer que perder a vida. Opção 1: corda (suicídio, Vejube). Opção 2: tortura prolongada, Bacuri”, foram umas das últimas palavras que rabiscou no papel.
Entendi assim: minha vida, ninguém tira, é minha. Eu a estou entregando. Prova de amor, maior não há.
Se os discípulos se calarem, as próprias pedras gritarão.''
O golpe e a ditadura cívico-militar ainda são temas que não fazem parte de nosso cotidiano em comparação com outros países que viveram realidades semelhantes e que almejam ser democracias. Por aqui, lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez.
Em nome de uma suposta estabilidade institucional, o passado não resolvido permanece nos assombrando. Seja através de um olhar perdido da mãe de um amigo que, da janela, permanece a esperar o marido que jaz no fundo do mar, lançado de helicóptero. Seja adotando os métodos desenvolvidos por eles para garantir a ordem e o progresso.
O impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia-a-dia das periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). A verdade é que não queremos olhar para o retrovisor não por ele mostrar o que está lá atrás, mas por nos revelar qual a nossa cara hoje.
Tito morre novamente e novamente, todos os dias, no Brasil, sob outros nomes, crenças, gênero ou cor de pele.
Como aqui já disse, que a história das mortes sob responsabilidade da ditadura, como a de frei Tito, sejam conhecidas e contadas nas escolas até entrarem nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada. Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente."
"É melhor morrer do que perder a vida" Frei Tito de Alencar Lima, morto há quarenta anos em decorrência das marcas de torturas durante a ditadura militar.
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