terça-feira, 28 de outubro de 2014
domingo, 26 de outubro de 2014
Reencarnação de Buda?
Mais um trecho de "A casa das belas adormecidas", de Yasunari Kawabata:
"...não era difícil imaginar que esses velhos, do ponto de vista mundano, deviam ser vencedores na vida, e não fracassados. Contudo devem ter conseguido alguns êxitos cometendo o mal, e preservando seus sucessos a custo de males acumulados. Então, eles não teriam paz de espírito, pelo contrário, estariam se sentido derrotados e aterrorizados. Quando se deitavam em contato com a nudez da jovem mulher, os sentimentos que ressurgiam do fundo dos seus âmagos talvez não fossem apenas o medo da morte que se aproximava ou o lamento pela juventude perdida. Talvez houvesse neles também certo arrependimento pelos pecados cometidos, ou pela infelicidade do lar, coisa muito comum nas famílias dos vencedores. Decerto os vencedores não possuíam seu Buda, diante do qual pudessem ajoelhar-se e orar. Por mais que abraçassem fortemente a bela desnuda, derramassem lágrimas frias, se desmanchassem em choro convulsivo ou berrassem, a garota nada ficaria sabendo e jamais acordaria. Os velhotes não haveriam de se envergonhar,nem ficariam com seu orgulho ferido. Estavam inteiramente livres para se arrepender e lamentar à vontade. Consideradas dessa forma, seriam as ‘belas adormecidas’ uma espécie de Buda? E, além de tudo, um Buda vivo? A pele o cheiro jovem das garotas seriam, então, o perdão e o consolo desses pobre velhotes. “ Yasunari Kawabata - A casa das belas adormecidas, p.80-1PS. Direto da Wikipédia:"Buda (sânscrito-devanagari: बुद्ध, transliterado Buddha, que significa "Desperto"1 , do radical Budh-, "despertar") é um título dado na filosofia budista àqueles que despertaram plenamente para a verdadeira natureza dos fenômenos e se puseram a divulgar tal descoberta aos demais seres. "A verdadeira natureza dos fenômenos", aqui, quer dizer o entendimento de que todos os fenômenos são impermanentes, insatisfatórios e impessoais. Tornando-se consciente dessas características da realidade, seria possível viver de maneira plena, livre dos condicionamentos mentais que causam a insatisfação, o descontentamento, o sofrimento."
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quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Um adeus a Nicolau Sevcenko, por Elias Thomé Saliba
Este texto e a imagem foram retirados da revista Carta na Escola e também está disponível neste link.
Um adeus a Nicolau Sevcenko
Irrepreensível na pesquisa e elegante no estilo, obra do historiador é um diálogo com a razão e com os sentimentos.
Por Elias Thomé Saliba
Em relação ao passado e à história experimentamos frequentemente duas atitudes diversas: aquela espécie de curiosidade intelectual, que nos leva a perguntar “como realmente ocorreram as coisas” ou uma inquietação nostálgica, que nos leva a acreditar que, como dizia Goethe, “o melhor da história é o entusiasmo que ela inspira”. A obra do historiador Nicolau Sevcenko (1952-2014) é destinada tanto àqueles leitores com inquietações intelectuais quanto aos nostálgicos pelo passado, ansiosos por reencontrar ou evocar suas próprias experiências intelectuais e afetivas.
Arthur Friedenreich, filho de imigrante alemão com uma ex-escrava, foi o maior artilheiro futebolístico brasileiro no ano de 1920. Naquele mesmo ano, Edu Chaves venceu o maior desafio aéreo sul-americano, percorrendo pela primeira vez a rota Buenos Aires-Rio de Janeiro num avião pintado com as cores da bandeira paulista. Qual a relação desses dois eventos esportivos com a história brasileira no início do século XX?
A revolução tecnológica, o crescimento explosivo das grandes metrópoles e as alterações no comportamento coletivo após a Primeira Guerra Mundial criaram um novo cenário para esses, os novos heróis. Não mais as celebridades da palavra e do pensamento reflexivo como Rui Barbosa ou o Barão do Rio Branco mas, sim, as estrelas da energia física, do esporte competitivo, do movimento e da velocidade.
Revelando uma original capacidade de articulação entre a cultura internacional e a brasileira, esta é uma, entre muitas, das mais importantes e originais contribuições de Sevcenko para a cultura brasileira, no livro Orfeu Extático na Metrópole, de 1982.
O fluxo intenso de mudanças em escala mundial, que se concentrou de fins do século XIX até meados do século XX, envolveu, de forma completa e rápida, todas as pessoas, alterando dramaticamente seus hábitos cotidianos, suas convicções, seus modos de percepção e até mesmo seus reflexos instintivos.
O mundo, após a Primeira Guerra (1914-1918), gerou uma inédita forma de mobilização coletiva: em lugar da razão e da palavra, o universo imprevisível da ação que inaugurava uma curiosa espécie de cidadania fundada na emotividade.
Músico prodigioso e sedutor, Orfeu, na mitologia grega, era louvado como celebrante dos rituais de exaltação e êxtase coletivo. Como historiador de rara sensibilidade, Sevcenko serve-se da metáfora de Orfeu como inspiração para traçar um vigoroso painel da história brasileira nos anos 1920.
Do balé ao jazz, do cubismo ao futurismo, dos mitos fascistas à patafísica de Alfred Jarry, o historiador consegue captar com surpreendente versatilidade a forma como os registros literários e artísticos sintonizavam essa fragmentação e esse desenraizamento generalizados.
No final do livro, a narrativa retorna à cena urbana paulista, desdobrando-se em três acontecimentos, nos quais se exercitaram aquela mobilização e ritualização coletivas: 1922, a cena dos mártires na Revolta do Forte de Copacabana; 1924, quando São Paulo, a bela capital cosmopolita, foi bombardeada após a invasão das tropas federais; e 1930, quando Getúlio Vargas vem a São Paulo e foi (surpreendentemente para o próprio Vargas) saudado por uma imensa multidão.
O historiador já trilhava aí a senda aberta pelo seu primeiro livro, Literatura como Missão, de 1983, um estudo pioneiro, no qual se dedica a rever a história cultural brasileira a partir das obras de Euclides da Cunha e Lima Barreto. Pioneiro na abordagem, porque a criação literária não mais é vista como mero reflexo mecânico da história, mas como um conjunto vivo de práticas e eventos. A literatura revela todo o seu potencial como documento, não apenas pelas referências esporádicas a episódios históricos ou pela beleza de suas criações estilísticas, mas como um universo complexo que incorpora a história em todos os seus aspectos.
Com olhares simultâneos – um na história social e outro na história da cultura –, Nicolau Sevcenko acaba desvelando o quanto a literatura da época transformou-se naquele “testemunho triste, porém sublime, dos homens que foram vencidos pelos fatos”.
Rejeitando a concepção tradicional de História, que a concebe como fluxo evolutivo, genético ou finalista, a abordagem de Sevcenko consistiu no esforço de olhar a realidade com desprendimento, considerando toda singularidade histórica como objeto de conhecimento de igual relevância. É o que notamos no livro A Revolta da Vacina: Mentes insanas em corpos rebeldes, cuja primeira edição é de 1983, uma das primeiras e mais sólidas reconstruções desse capítulo pouco conhecido da história brasileira. O que não impediu o historiador de realizar uma interpretação engajada e crítica: a República brasileira pretendeu inaugurar uma sociedade liberal e democrática, mas acabou não só excluindo a maioria da população, como tratando-a com desmedida violência. Ou, na frase definitiva de Lima Barreto, a “república apenas democratizou a senzala”.
Já o livro A Corrida para o Século XXI catalisa os temas mais caros da obra do historiador: a avaliação dos custos irredimíveis da modernidade ao provocar o esgarçamento da solidariedade e anular as energias críticas do indivíduo. A aceleração da vida, que Sevcenko compara ao loop de uma montanha-russa, altera radicalmente o quadro de valores da sociedade.
Publicado em 2001, o livro ainda conserva uma estranha atualidade, pois antecipa os imperceptíveis efeitos da comunicação digital. Nas grandes metrópoles, todos vieram de algum lugar, portanto, ninguém conhece ninguém, são tantos e estão tão ocupados que a forma prática de conhecer os outros é pela maneira com que se vestem, pelos objetos simbólicos que exibem, pelo seu comportamento. A comunicação básica entre as pessoas é toda ela externa e baseada em símbolos exteriores. Como esses códigos mudam com extrema rapidez, ingressamos, sem o saber, no efêmero império das modas. Toda a comunicação humana não se concentra mais nas qualidades humanas da pessoa, mas nas mercadorias que ela ostenta ou nos objetos que possui.
Irrepreensível na pesquisa e elegante no estilo, toda a obra de Nicolau Sevcenko, tristemente inconclusa em face do seu precoce desaparecimento, é um diálogo com a nossa razão e com os nossos sentimentos. Como sabem as centenas de alunos de seus cursos e palestras, ele sempre atraiu e sempre atrairá muitos leitores porque conseguiu o raro feito de captar aquele ponto da vida humana, onde se cruzam experiências vividas com expectativas de experiências futuras. Aquela encruzilhada da vida que constitui o maior prêmio à nossa memória e na qual passado e presente se projetam no futuro. Ou, como dizia T.S. Eliot, aquela esquina quase desconhecida, onde “tempo presente e tempo passado são ambos presentes no tempo futuro”.
Publicado na edição 91, de outubro de 2014
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domingo, 19 de outubro de 2014
As fantasias femininas e os homens...
"...um outro episódio, talvez menos importante, foi aquele em que Eguchi,ainda moço, ouvira em confidência a esposa de um dos diretores de certa empresa de destaque, uma mulher de meia-idade, uma mulher que detinha fama de 'esposa exemplar', com um vasto círculo de relações.
- A noite, antes de pegar no sono, eu fecho os olhos e tento contar os homens pelos quais gostaria de ser beijada. Eu os conto dobrando os dedos. É tão divertido! E se não consigo contar dez, sinto uma tristeza. (...) falara apenas em contar, mas ele desconfiava que, enquanto contava, ela evocava o corpo e o rosto desses homens, remexendo sua fantasia e demorando um tempo considerável para contar até dez. Ao pensar nisso, o perfume de apelo afrodisíaco dessa mulher que já passara um pouco de sua plenitude de repente atingiu com força o olfato de Eguchi. O que ela evocaria a respeito dele antes de adormecer, como um dos homens por quem desejaria ser beijada, era sua liberdade secreta e não dizia respeito a Eguchi que, não podia evitar isso e se defender, nem podia reclamar. Mas parecia-lhe que, sem saber, tornara-se um brinquedo na imaginação daquela mulher de meia - idade, e isso lhe provocou a sensação de indecência. Mesmo assim, até agora não conseguia esquecer as palavras dela. " Yasunari Kawabata. "A casa das belas adormecidas"
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sábado, 18 de outubro de 2014
O apressado
Gente, hoje eu passei quase o dia todo no SESC Pompéia estudando... fico na sala de estudos lá de cima, sozinha, lendo, pensando e, claro, filmando o entorno rsrs
Hoje um rapaz barbudinho me chamou a atenção porque entrou correndo com uma mochila, disparado mesmo e subiu até onde eu estava, mas na parte da frente a mim.eu fiquei sentada em um canto e ele foi para o outro extremo, até longe, mas como não havia nada nem ninguém entre nós, pude observar melhor. Logo percebi que ele ia trabalhar, por isso correu tanto, que usava óculos e era bastante agitado. Uma hora ele me surpreendeu mesmo, porque simplesmente tirou a blusa que usava (nada demais, claro), mas eu não esperava que ele fizesse isso naquela hora, entende? Não na frente dos meus olhos de voyeur... foi mágico! Mas logo ele colocou uma camiseta, um uniforme (ele deve ser monitor da exposição que estava acontecendo ou algo assim). Então ele pegou na mochila uma tangerina e começou a descascar e comer, vagarosamente, como se oferecendo a si mesmo aquele simples prazer. E me oferecendo também. Ai chegaram os outros iguais a ele, meninos e meninas com o mesmo uniforme, então ele sumiu na multidão de uniformizados, tão rápido quanto chegou, como algumas coisas na vida da gente.
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