terça-feira, 29 de março de 2016

Comentário político dessa semana ... Ode aos Ratos

PMDB, como um bando de ratos que é, desembarca do governo. deixa só o vice presidente, que não larga o osso. Como disse meu amigo Mario Rui Feliciani via Facebook:
"Um juiz julgou em 28 segundos. Um partido deixou o governo em 4 minutos.
Assim vamos passando de país do futuro para país futurista. Ave, Marinetti."

Criança e a pintura contemporânea de Geoges Mathieu, por Pedro Boch

Georges Mathieu – Venitian, 1970

No livro "Essas crianças de hoje! Histórias de Pedro Bloch" , Bloch veio com essa:

"ALMA INFANTIL O Helinho, de três ano e pouco,  tinha sido levado para ver a exposição francesa de pintura no Museu de Arte Moderna. O curioso é que ficou simplesmene empolgado com Mattieu. Tão emplogado que pediu a mãe, em casa, uma caixa de tinta e desandou a pintar.
Durante a visita à exposição, entretanto, não se conteve em olhar a mostra. Queria tocar com os dedos aquelas côres (sic). Mamãe o repreende:
- Que é isso, menino? Aí não se pode botar a mão!
O pirralho se surpreende e indaga: 
-Por quê? Não está sêco (sic)?" (BLOCH, Pedro. Essas crianças de hoje: histórias de Pedro Bloch.Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1970, p.81)

segunda-feira, 28 de março de 2016

APONTAMENTOS SOBRE O ANEDOTÁRIO INFANTIL E A HISTÓRIA


Com muito prazer e atenção terminei de ler o livro "Criança diz cada uma" (1963). Muitas das anedotas eu já conhecia porque foram reescritas depois em publicações mais recentes (Pedro Bloch repete muito as historinhas de criança), mas o mais interessante em ler um livro de Bloch tão antigo é perceber que as mensagens até podem ser as mesmas que eu li reescritas depois e em todas elas as falas das crianças fazem rir, pois todas continuam sendo crianças de verdade, entretanto não são iguais.
No livro da década de 1960, a enunciação é de uma criança sessentista e esse tempo aparece em flashs em todo o livro (as citações a artistas famosos na época como Guimarães Rosa;ao presidente João Goulart e seu filho que não gostava de morar no Palácio da Alvorada pois aquilo lhe parecia uma igreja. Aliás, vejam que interessante, em 1963 Bloch se lembrava de antigos "tempos da ditadura", tempos de Getúlio... mas se sabia que a maior delas ainda estaria por vir ...). São crianças mais moralistas - criadas para crescerem e se tornarem como seus pais (casar, constituir família), e muito católicas, de uma forma hoje inimagiável...é muito interessante perceber como, de forma semelhante ao que acontece nos cadernos Manuscritos de Rosa, a realidade histórica pinça até mesmo discursos tão externo como os de uma antologia de anedotas infantis.

Relato de pesquisadora

RELATO DE PESQUISADORA -No mestrado eu estudei três estórias do livro "Tutaméia", publicado em 1987 por João Guimarães Rosa e até consultei alguns arquivos no acervo dele, mas não soube, na época, desenvolver muita coisa sobre. De qualquer forma eu trilhei caminhos já abertos por pesquisadores antes (ainda que bem poucos).

No doutorado já foi bem diferente, eu estudei a presença da infância nos manuscritos de Rosa, especificamente em seus "Cadernos de Estudos" (sobre os quais, incrivelmente, ninguém ainda tinha escrito nada!) e saíram mais de 400 páginas de tese e até agora 2 artigos meus! Esses caminhos também tinham sido abertos pelas equipes dos arquivos do IEB / SP e da Fundação Casa Rui Barbosa /RJ, ainda que ninguém os tivesse trilhado.

Agora, no pós-doc sobre Pedro Bloch, enfim, experimento o gosto de, como dizia o professor Nicolau Sevcenko, "abrir uma picada" na mata para tentar contar a história do "Homem das historinhas de criança"... para o pesquisador, estar em meio a esse cenário nebuloso é muito bom, porque dali, a qualquer momento, pode sair as coisas mais sensacionais, como também pode não sair nada... o que tenho percebido mais frequentemente, com certo prazer (devo confessar), é que as afirmações que fiz até agora, foram, estão sendo ou serão desditas ! Amo muito tudo isso! <3 font="">

Crianceiras

Quem esta em São Paulo não perca nas manhãs de sábado de abril, no SESC Consolação o espetáculo Crianceiras :
"Crianceiras Portal
    Concebido a partir da obra de Manoel de Barros, o musical Crianceiras reúne poesia, música, imagem, ação e movimento em uma encenação delicada que pretende aproximar as crianças das artes: da literatura, da música, do teatro, do cinema de animação e da tecnologia digital, fazendo-se ponte da obra poética para a infância.
    A encenação apresenta a poesia interagindo com linguagens múltiplas, como as iluminuras da artista Martha Barros, filha do poeta Manoel de Barros, que ganham vida no cinema de animação e contracenam com os músicos, atores e bonecos, ilustrando a linguagem poética na cena.
    O CD “Crianceiras” lançado em 2011, foi indicado como “Melhor álbum Infantil” em 2012 pelo “Prêmio da Música Brasileira”. O musical está há três anos em circulação pelo país, já realizou 130 apresentações, foi visto por aproximadamente 130 mil pessoas e participou de importantes festivais nacionais: a 12ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, o Sesi Bonecos do Mundo e a II Bienal do Livro e da Leitura de Brasília.
    Elenco: Marcio de Camillo – cantor; Nath Calan – percussão; Tiago Sormani – sopro; Melina Menghini – atriz; João Bresser – ator.
    Ficha Técnica: concepção e direção musical: Marcio de Camillo; poesias: Manoel de Barros; ilustrações: Martha Barros; direção teatral: Luiz André Cherubini; assistência de direção: Andréa Freire; figurinos e cenografia: Telumi Hellen; desenhos de luz: Renato Machado; adereços: Carol Jordão; animação audiovisual: Josué Junior / Animatronic Estúdio e Andrea Senise; intérprete: Márcio de Camillo; VJ: Paulo Higa; operação de luz: Camila Jordão; técnica de som: Roberta Siviero; produção executiva: Izabella Maggi; produção: Criatto Promoções (MS).

    Duração: 55 minutos

    No Teatro Anchieta 

    domingo, 27 de março de 2016

    Mario Prata escreve sobre Pedro Bloch

    Achei uma crônica do Mário Prata sobre Pedro Bloch aqui.
    Copio-a inteira abaixo:

    "Criança diz cada uma… (Mário Prata)

    Tempos atrás o jornalista e dramaturgo Pedro Bloch tinha uma página na revista Manchete com o título acima. Contava histórias engraçadas e inusitadas acontecidas com crianças que passavam pelo seu consultório.

    Outro dia achei uma revista dos anos 60 e me diverti muito com o Bloch. E me lembrei de histórias recentes com filhos ou filhas de amigos meus que, tenho certeza, o velho jornalista não titubearia em manchetá-las.
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    O protagonista da primeira delas é o Antonio, filho da velha amiga Maria Emília Bender, digníssima editora da Companhia das Letras e o grande italiano Lorenzo, ilustre professor de música na Universidade de São Paulo.
    Antonio, seis ou sete anos, tinha o aniversário de um amigo, o Bruno, lá num daqueles bufês no Itaim. Festa das seis às nove da noite. O pai Lorenzo, conhecido por suas distrações cá no Brasil, ficou de levar o garoto ao tal bufê. Depois iria pegar a Emília, iriam a um cinema e voltariam para buscar o menino.
    E assim foi feito. Lorenzo deixou Antonio no bufê, pegou a esposa e foram para o cinema. Nove da noite, conforme o combinado, foram buscar o pimpolho. Tocaram a companhia, veio o menino.
    Já no carro:
    – Tava boa a festa do Bruno, filho?
    – A festa tava boa, só que você errou de bufê, pai! Era aniversário de uma menina que eu nunca tinha visto na vida. Mas foi legal. Ajudei até o mágico. O nome dela é Andréa.
    A segunda história é da minha mais recente afilhada, a Maria Shirts, filha do Mateus e da Silvinha.
    Deu-se que o pai da Silvia morreu, o velho e bom Lori. Maria, cinco anos, insistiu em ir ao velório ver o avô morto. Foi levada (nos dois sentidos).
    No colo da mãe ficou ali alguns segundos, olhando para o avô. A sala cheia. De repente ela pergunta bem alto, como são, geralmente, as perguntas impertinentes:
    – Mãe, como é que ele sabe que morreu?
    Risadas filosóficas e generalizadas.
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    Já disse que meu filho se chama Antonio. Um dia, ele tinha uns quatro anos, dei uma bronca nele sei lá porque e ele me xingou, feroz:
    – Você é uma anta!!!
    No que eu, sem perder a calma, perguntei:
    – Ah, é? E quem é filho de anta, o que quê é?
    Pensou dois segundos e me desarmou completamente:
    – Filho de anta é… é… Antonio!
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    Uma minha prima, hoje já casada e com dois filhos, quando tinha uns doze anos a mãe a chamou para um reservado:
    – Hoje eu vou lhe ensinar o que é sexo.
    A menina já fez cara feia. E a mãe começou lá pelo princípio com a história da maçã.
    – Uma vez Adão e Eva estavam no paraíso e…
    – Isso eu já sei. Pula.
    – O homem tem uma sementinha e…
    – Isso eu já sei. Vai mais para a frente.
    – Bem, para nascer uma criança é preciso que…
    – Pô, mãe, eu sei como é. Pode pular essa parte.
    – Bem, a mulher ter um órgão chamado útero…
    – Grande novidade, mãe.
    – O espermatozóide tem umas substâncias…
    – A porra.
    – Isso. Escuta aqui, menina. O que é que você não sabe?
    – O que é que a senhora ser saber? Pode perguntar, mãe. Pergunta!
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    E tinha um garotinho que era infernal. Brigava todo dia na escola.
    Um dia, no almoço, o pai, para testar seus conhecimentos bíblicos (ele estudava num colégio de padre), perguntou:
    – Meu filho, me diz quem foi que jogou a pedra no Golias.
    O garoto desatou a chorar.
    – Tá vendo, mãe? Tudo eu. Tudo eu. Juro, pai, juro pelo que é de mais sagrado que eu nem conheço esse menino.
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    E aquela religiosa mãe que pegou o filho e um amiguinho dentro do banheiro fazendo uma troca-troca? Só que, quando ela entrou, o filho queridinho e santo levava uma nítida desvantagem no ato. Mas o pequeno pecador não se abalou:
    – Mas mãe, eu comi primeiro!!!
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    Aninha já estava com dois anos. Loira, linda. Nunca tinha cortado o cabelo. Era amarelo-ouro e cacheado. Parecia um anjinho barroco.
    Lá um dia, a mãe pega uma enorme tesoura e resolve dar um trato na cabeça da criança, pois as melenas já estavam nos ombros. Chama a menina, que chega ressabiada, olhando a cintilante tesoura.
    – Mamãe vai cortar a cabelinho da Aninha.
    Aninha olha para a tesoura, se apavora.
    – Não quero, não quero, não quero!!!
    – Não dói nada…
    – Não quero!, já disse.
    E sai correndo. A mãe sai correndo atrás. Com a tesoura na mão. A muito custo, consegue tirar a filha que estava debaixo da cama, chorando, temendo o pior. Consola a filha. Sentam-se na cama. Dá um tempo. A menina para de chorar. Mas não tira o olho da tesoura.
    – Olha, meu amor, a mamãe promete cortar só dois dedinhos.
    Aninha abre as duas mãos, já submissa, desata o choro, perguntando, olhando para a enorme tesoura e para a própria mãozinha:
    – Quais deles, mãe?
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    Claudia tinha seis anos. Seus pais se separaram. O pai arrumou outra namorada e a engravidou. Resolveu ter o filho. Foi contar para a Claudia, filha do primeiro casamento.
    – Filhinha, o papi quer te contar uma novidade.
    – Ahn…
    – Você vai ganhar um irmãozinho.
    – A mamãe tá grávida?
    – Não, filhinha. É com a minha namorada.
    Claudinha fica intrigada. Seis anos:
    – Mas como é que você vai ter um filho com a Fernanda se vocês não são casados?
    O pai se embaraça, sai pela tangente:
    – Sabe o que é, filhinha, a cegonha errou a data, entende?
    – Cegonha, papi? Cegonha?
    – É, errou a data… Acontece…
    – Papi, eu estou achando que você andou colocando uma sementinha na Fernanda!!!
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    E o pai daquele garotinho, o Bruno, foi designado para trabalhar em Washington durante dois anos. Na viagem, a mãe foi explicando ao Bruno, quatro anos, como seria a vida nos Estados Unidos, que lá é tudo diferente, o povo, a comida e, principalmente, a língua.
    Bruno ouvia tudo, no avião, muito curioso.
    – Como que é a língua, mã?
    – É outra língua, completamente diferente. Mas, com o tempo, você vai se acostumando.
    Uma semana depois, a mãe vai buscar o filho na escola, depois do primeiro dia de aula. Bruno tinha passado o dia inteiro lá. Vem a professora americana, toda preocupada:
    – Seu filho é um amor. Participou de todas as atividades. Só que não disse uma única palavra. Não abriu a boca nem na hora do lanche.
    Voltando para a casa, a mãe pergunta ao filho:
    – A professora me disse que você não abriu a boca nem para comer. Sem fome, filho? Estranhou a comida?
    – E eu sou bobo? Se eu abro a boca eles trocam a minha língua…
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    Laurinha era separada e tinha duas filhas. Conheceu Carlinhos que era igualmente separado e tinha quatro filhos. Só que três de um casamento e o caçula, Pedro, de uma outra relação.
    Laurinha e Carlinhos se casaram e juntaram os seis, numa mesma casa. Passa o tempo, Laurinha se engravida de Carlinhos. Reúnem todos os filhos numa sala para dar a notícia.
    Laurinha:
    – Queremos avisar a todos vocês que eu e o pai de vocês vamos ter mais um filho.
    No que o caçula Pedro, incontinenti:
    – Ué, mas pode ter filho morando junto?"

    In: https://marioprata.net/cronicas/crianca-diz-cada-uma/

    sexta-feira, 25 de março de 2016

    A coleção de anedotas dos Cadernos de Guimarães Rosa

    Meu artigo "Anedotários nos Cadernos de Anotações:uma vereda espirituosa nos manuscritos de Guimarães Rosa"(p.56 - 69) acaba de ser  publicado no número 29 da Revista Manuscrítica ( 2015). Nele eu trato da coleção de anedotas selecionadas por Guimarães Rosa em seus Cadernos literários e , além de abordar a Crítica Genética, também trato de humor de humor infantil e até das encantadoras anedotinhas da pequena Maria Teresa Kopschitz. Está bem divertido! Para ler clique aqui.
    Em tempo, o resumo do artigo é
    "Com as estórias publicadas na década de 1960, João Guimarães Rosa assumiu um distanciamento da lógica da História através de uma aproximação da comicidade pela via da anedota. Para abordar como teria se composto esse questionamento foram consultados alguns de seus manuscritos literários, mais especificamente os seus Cadernos de Anotações, nos quais encontramos um pequeno anedotário inspirador que nos permite acessar diferenciadas relações entre realidade e transcendência por intermédio da graça, é sobre isso que trata este artigo. Os manuscritos rosianos consultados estão disponíveis para pesquisadores no arquivo do IEB, no Fundo de sua segunda esposa Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (IEB-ACGR) e também no acervo rosiano na Fundação Casa Rui Barbosa (FCRB). Analisar estes documentos inéditos, além de ser uma oportunidade de abordar o complexo processo de escrita rosiano, também abre caminhos para que se reflita sobre humor, tema que não é usualmente abordado pela crítica do autor, o que torna esta contribuição original. Para analisar melhor esse conteúdo, nos apoiamos em recentes reflexões teóricas sobre Crítica Genética, História e Humor."