"Um juiz julgou em 28 segundos. Um partido deixou o governo em 4 minutos.
Assim vamos passando de país do futuro para país futurista. Ave, Marinetti."
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| Georges Mathieu – Venitian, 1970 |
"ALMA INFANTIL O Helinho, de três ano e pouco, tinha sido levado para ver a exposição francesa de pintura no Museu de Arte Moderna. O curioso é que ficou simplesmene empolgado com Mattieu. Tão emplogado que pediu a mãe, em casa, uma caixa de tinta e desandou a pintar.
Durante a visita à exposição, entretanto, não se conteve em olhar a mostra. Queria tocar com os dedos aquelas côres (sic). Mamãe o repreende:
- Que é isso, menino? Aí não se pode botar a mão!
O pirralho se surpreende e indaga:
-Por quê? Não está sêco (sic)?" (BLOCH, Pedro. Essas crianças de hoje: histórias de Pedro Bloch.Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1970, p.81)

"Criança diz cada uma… (Mário Prata)
Tempos atrás o jornalista e dramaturgo Pedro Bloch tinha uma página na revista Manchete com o título acima. Contava histórias engraçadas e inusitadas acontecidas com crianças que passavam pelo seu consultório.
Outro dia achei uma revista dos anos 60 e me diverti muito com o Bloch. E me lembrei de histórias recentes com filhos ou filhas de amigos meus que, tenho certeza, o velho jornalista não titubearia em manchetá-las.xO protagonista da primeira delas é o Antonio, filho da velha amiga Maria Emília Bender, digníssima editora da Companhia das Letras e o grande italiano Lorenzo, ilustre professor de música na Universidade de São Paulo.Antonio, seis ou sete anos, tinha o aniversário de um amigo, o Bruno, lá num daqueles bufês no Itaim. Festa das seis às nove da noite. O pai Lorenzo, conhecido por suas distrações cá no Brasil, ficou de levar o garoto ao tal bufê. Depois iria pegar a Emília, iriam a um cinema e voltariam para buscar o menino.E assim foi feito. Lorenzo deixou Antonio no bufê, pegou a esposa e foram para o cinema. Nove da noite, conforme o combinado, foram buscar o pimpolho. Tocaram a companhia, veio o menino.Já no carro:– Tava boa a festa do Bruno, filho?– A festa tava boa, só que você errou de bufê, pai! Era aniversário de uma menina que eu nunca tinha visto na vida. Mas foi legal. Ajudei até o mágico. O nome dela é Andréa.A segunda história é da minha mais recente afilhada, a Maria Shirts, filha do Mateus e da Silvinha.Deu-se que o pai da Silvia morreu, o velho e bom Lori. Maria, cinco anos, insistiu em ir ao velório ver o avô morto. Foi levada (nos dois sentidos).No colo da mãe ficou ali alguns segundos, olhando para o avô. A sala cheia. De repente ela pergunta bem alto, como são, geralmente, as perguntas impertinentes:– Mãe, como é que ele sabe que morreu?Risadas filosóficas e generalizadas.xJá disse que meu filho se chama Antonio. Um dia, ele tinha uns quatro anos, dei uma bronca nele sei lá porque e ele me xingou, feroz:– Você é uma anta!!!No que eu, sem perder a calma, perguntei:– Ah, é? E quem é filho de anta, o que quê é?Pensou dois segundos e me desarmou completamente:– Filho de anta é… é… Antonio!xUma minha prima, hoje já casada e com dois filhos, quando tinha uns doze anos a mãe a chamou para um reservado:– Hoje eu vou lhe ensinar o que é sexo.A menina já fez cara feia. E a mãe começou lá pelo princípio com a história da maçã.– Uma vez Adão e Eva estavam no paraíso e…– Isso eu já sei. Pula.– O homem tem uma sementinha e…– Isso eu já sei. Vai mais para a frente.– Bem, para nascer uma criança é preciso que…– Pô, mãe, eu sei como é. Pode pular essa parte.– Bem, a mulher ter um órgão chamado útero…– Grande novidade, mãe.– O espermatozóide tem umas substâncias…– A porra.– Isso. Escuta aqui, menina. O que é que você não sabe?– O que é que a senhora ser saber? Pode perguntar, mãe. Pergunta!xE tinha um garotinho que era infernal. Brigava todo dia na escola.Um dia, no almoço, o pai, para testar seus conhecimentos bíblicos (ele estudava num colégio de padre), perguntou:– Meu filho, me diz quem foi que jogou a pedra no Golias.O garoto desatou a chorar.– Tá vendo, mãe? Tudo eu. Tudo eu. Juro, pai, juro pelo que é de mais sagrado que eu nem conheço esse menino.xE aquela religiosa mãe que pegou o filho e um amiguinho dentro do banheiro fazendo uma troca-troca? Só que, quando ela entrou, o filho queridinho e santo levava uma nítida desvantagem no ato. Mas o pequeno pecador não se abalou:– Mas mãe, eu comi primeiro!!!xAninha já estava com dois anos. Loira, linda. Nunca tinha cortado o cabelo. Era amarelo-ouro e cacheado. Parecia um anjinho barroco.Lá um dia, a mãe pega uma enorme tesoura e resolve dar um trato na cabeça da criança, pois as melenas já estavam nos ombros. Chama a menina, que chega ressabiada, olhando a cintilante tesoura.– Mamãe vai cortar a cabelinho da Aninha.Aninha olha para a tesoura, se apavora.– Não quero, não quero, não quero!!!– Não dói nada…– Não quero!, já disse.E sai correndo. A mãe sai correndo atrás. Com a tesoura na mão. A muito custo, consegue tirar a filha que estava debaixo da cama, chorando, temendo o pior. Consola a filha. Sentam-se na cama. Dá um tempo. A menina para de chorar. Mas não tira o olho da tesoura.– Olha, meu amor, a mamãe promete cortar só dois dedinhos.Aninha abre as duas mãos, já submissa, desata o choro, perguntando, olhando para a enorme tesoura e para a própria mãozinha:– Quais deles, mãe?xClaudia tinha seis anos. Seus pais se separaram. O pai arrumou outra namorada e a engravidou. Resolveu ter o filho. Foi contar para a Claudia, filha do primeiro casamento.– Filhinha, o papi quer te contar uma novidade.– Ahn…– Você vai ganhar um irmãozinho.– A mamãe tá grávida?– Não, filhinha. É com a minha namorada.Claudinha fica intrigada. Seis anos:– Mas como é que você vai ter um filho com a Fernanda se vocês não são casados?O pai se embaraça, sai pela tangente:– Sabe o que é, filhinha, a cegonha errou a data, entende?– Cegonha, papi? Cegonha?– É, errou a data… Acontece…– Papi, eu estou achando que você andou colocando uma sementinha na Fernanda!!!xE o pai daquele garotinho, o Bruno, foi designado para trabalhar em Washington durante dois anos. Na viagem, a mãe foi explicando ao Bruno, quatro anos, como seria a vida nos Estados Unidos, que lá é tudo diferente, o povo, a comida e, principalmente, a língua.Bruno ouvia tudo, no avião, muito curioso.– Como que é a língua, mã?– É outra língua, completamente diferente. Mas, com o tempo, você vai se acostumando.Uma semana depois, a mãe vai buscar o filho na escola, depois do primeiro dia de aula. Bruno tinha passado o dia inteiro lá. Vem a professora americana, toda preocupada:– Seu filho é um amor. Participou de todas as atividades. Só que não disse uma única palavra. Não abriu a boca nem na hora do lanche.Voltando para a casa, a mãe pergunta ao filho:– A professora me disse que você não abriu a boca nem para comer. Sem fome, filho? Estranhou a comida?– E eu sou bobo? Se eu abro a boca eles trocam a minha língua…xLaurinha era separada e tinha duas filhas. Conheceu Carlinhos que era igualmente separado e tinha quatro filhos. Só que três de um casamento e o caçula, Pedro, de uma outra relação.Laurinha e Carlinhos se casaram e juntaram os seis, numa mesma casa. Passa o tempo, Laurinha se engravida de Carlinhos. Reúnem todos os filhos numa sala para dar a notícia.Laurinha:– Queremos avisar a todos vocês que eu e o pai de vocês vamos ter mais um filho.No que o caçula Pedro, incontinenti:– Ué, mas pode ter filho morando junto?"
"Com as estórias publicadas na década de 1960, João Guimarães Rosa assumiu um distanciamento da lógica da História através de uma aproximação da comicidade pela via da anedota. Para abordar como teria se composto esse questionamento foram consultados alguns de seus manuscritos literários, mais especificamente os seus Cadernos de Anotações, nos quais encontramos um pequeno anedotário inspirador que nos permite acessar diferenciadas relações entre realidade e transcendência por intermédio da graça, é sobre isso que trata este artigo. Os manuscritos rosianos consultados estão disponíveis para pesquisadores no arquivo do IEB, no Fundo de sua segunda esposa Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (IEB-ACGR) e também no acervo rosiano na Fundação Casa Rui Barbosa (FCRB). Analisar estes documentos inéditos, além de ser uma oportunidade de abordar o complexo processo de escrita rosiano, também abre caminhos para que se reflita sobre humor, tema que não é usualmente abordado pela crítica do autor, o que torna esta contribuição original. Para analisar melhor esse conteúdo, nos apoiamos em recentes reflexões teóricas sobre Crítica Genética, História e Humor."