"O mundo infantil é cheio de mistério e poesia, suspense e humor. (..) Seria de desejar que todos os pais guardassem as frases mais expressivas dos filhos, como verdadeiros tesouros. Mas o que ocorre, normalmente, é que se conserva um flagrante fotográfico inexpressivo ou uma botinha, um boneco uma mecha de cabelo. Quase nunca percebe que o que a criança diz, em suas diferentes fases, são pedacinhos de alma dessa criança."
(BLOCH, Pedro. 'Criança diz cada uma!', 1963, p. 1)
Sempre gostei do Jorge Ben, mas não andava me lembrando muito dele até começar a ler a biografia do Tim Maia e ter começado a lembrar, a me interessar mais e mais e querer conhecer além da superfície, ouvir coisas novas, conhecer mais, deixando o Tim completamente de lado mesmo! Ouço Jorge Ben como ouço música instrumental e é um deleite só. Também tive a experiência de tentar dançá-lo no Samba Rock, mas eu queria saber mais, queria ler sobre, achei alguns textos na internet como este sobre a questão do negro em Jorge Ben e comprei o livro do disco sobre "A Táboa Esmeralda", de Paulo da Costa e Silva que acabou de chegar.
OH MULHER INFIEL - Eu não deveria começar a ler o livro sobre o Jorge Ben agora, haja visto que ainda restam algumas páginas para ler na imensa biografia do Tim Maia (ainda não terminei!)... mas como eu já fui infiel desde o início e não paro de ouvir o Jorge, e o livrinho acaba de chegar já comecei a devorar FAMÍLIA BEN : Identificando "parentes de alma" a partir de Jorge Ben, fui entrando de novo no universo Jorge :
"Na minha cabeça Jorge Ben ocupava um confortável lugar no segundo time entre os grandes de sua geração - bem atrás do Chico, Caetano, Gil, Milton... Um artista interessante, meio esquisito, mas com surpreendente potencial de propagação e grande vocação para o sucesso. Foi quando ouvi, por acaso, a versão original de 5 minutos, última faixa do "Tábua", que eu já conhecia bem na gravação feita pela Marisa Monte, mas que não me lembrava de ter ouvido na voz de Ben. Eu estava em meio a uma roda de amigos e lembro que a canção solicitou imediatamente a minha atenção. Acontece com relativa frequência de grandes obras de arte atravessarem nossas vidas sem que haja um verdadeiro encontro, como se ainda não estivéssemos prontos para elas. Ali aconteceu o contrário: pela primeira vez eu entrava em sintonia com a música de Jorge Ben. Numa espécie de epifania, fui arremessado por ela...." Paulo da Costa e Silva, p. 9
A epifania de Paulo da Costa e Silva foi ouvindo essa música :
"Tudo, absolutamente tudo na gravação soava contemporâneo. O timbre do violão de náilon tocado de forma despojada, livre, com um ritmo meio solto, quase capenga; a estranha sonoridade de uma sequência harmônica que, reforçada pelo desenho melódico contínuo do acompanhamento de cordas, deriva sua força mais do movimento circular do que da dinâmica tonal; a voz algo extraordinária, de rua, voz de não cantor, repleta de ruídos e chiados, erguedo-se em inesperados falsetes com ares de improviso; a atmosfera inteira da canção, com a massa sonora perfeitamente integrada na entidade física da voz e do violão de Ben, e tudo se desenvolvendo com natural fluidez. Aquilo pertencia ao eterno presente das obras-primas. Tendo sido gravada quase duas décadas antes,ela permanecia mais jovem, maus intensa e vital do que a versão de Marisa Monte. Na gravação de Ben os 5 minutos de que fala a canção pareciam realmente uma questão de vida ou morte Possuia tamanha concentração de força que através dela sentíamos realmente "quanto vale cinco minutos na vida". P. 10
É muito difícil ouvir a gravação de Ben, sem ter no ouvido aquela da Marisa, mas pensando nela como o encerramento de um disco sensacional como é o Tábua, a gente até consegue se deslocar naquele ambiente regulado de Marisa ... e é libertador!
Acabei a pesquisa de pós-doutorado e o último trecho do relatório final eu falei sobre aquilo que eu achei mais bonito de todo o trabalho de Pedro Bloch, que foi a valorização da expressão da criança como ela é :
" Como parte de nossa investigação, conseguimos esboçar faces de como o
projeto de ouvir a meninada e inseri-la no diálogo teria ficado guardado na
memória cultural e pessoal das pessoas que nele estiveram envolvidas. Por outro
lado, percebemos que, embora ele tenha sido muito famoso em vida, vai sendo
gradativamente esquecido, seja porque sua atividade envolveu crianças há
bastante tempo e elas nem sempre puderam guardar memória do ocorrido, ou pelo
fato de terem participado da composição humorística e isso não sido considerado importante a ponto de permanecer na memória por muito
tempo, ou mesmo por conta dos fluxos e refluxos da história cultural, que se interessa por figuras assim, que
brilharam muito, às margens dos grande personagens, e rapidamente ficaram de
lado na narrativa. Enfim, procuramos
destacar a importância das anedotas infantis de Pedro Bloch porque vimos nelas
marcas de uma mudança sutil em relação à própria ideia de criança que então
estava em processo, sempre através do filtro mediador do humor, que foi o que
permitiu que se ouvisse em alto e bom som a até então calada voz infantes,
ainda que esse som nos viesse sempre cheio de estranhamento e comicidade. Como epígrafe de um de
seus primeiros livros sobre foniatria, o autor narra:
(BLOCH, O problema da gagueira, 1958)
Julgamos
que esta epígrafe sintetiza todo o seu projeto com os pequenos , afinal fazia
parte da sua pedagogia não deixar de
dizer a toda criança que encontrava “você é boa, bonita, inteligente porque sei
o que uma observação assim significa para um ser que brota" (BLOCH, Você tem personalidade?,1974, p. 193), então é como se conseguisse enxergar em suas crianças – fossem
pacientes, leitoras, personagens ou coautoras – algo precioso que só então
estava se revelando e elas lhe chegassem
lindas, inteligentes, divertidas, com uma porção de
significados desconhecidos que o levava a olha-la e dizer : Fala, agora! Por
que não falas? E em suas anedotas as
crianças enfim falaram, contando como
era o seu maravilhoso mundo encantado, no qual os adultos ainda não haviam
arriscado adentrar. " (RODRIGUES, Camila. Anedotas infantis de Pedro Bloch: Narrativas de história cultural do humor e da criança (1960 - 2002), p. 92)
Um texto do poetinha que acho que tem tudo a ver com HUMOR:
"Realmente, quando em meio a um discurso lógico nos deparara um grão de 'não senso', somos inconscientemente tocados pelo riso, que é o tédio da lógica ou pela poesia, que é a lógica do mistério. Um nó qualquer se desfaz em nosso espírito e vivemos um instante de liberdade no seio de uma ordem sem nenhum dogma."
Ilustração de Luís Jardim para a estória "Sorôco, sua mãe e sua filha", de Guimarães Rosa (1962)
Estou me aproximando do fim da biografia do Tim Maia, um grande cancionista brasileiro, mas já posso dizer que de toda ela a anedota mais bonita é essa aqui, que fala do poder aglutinador da canção, que remete ao mito de Orpheu cujo som da lira aglutiva toda a natureza, ou a chirimia da estória de Guimarães Rosa, que era
"a cantiga que avocava* que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois" (Primeiras Estórias, 1962, p. 15).
*avocar = atrair, chamar a atenção.
Aqui vai a narrativa sobre Tim:
“Tim estava popularíssimo, e foi o amor do público que o
salvou quando , mais uma vez, foi detido em seu carro com substâncias tóxicas
ilegais. Foi levado para o 13º. DP , no final da avenida Nossa Senhora de Copacabana, em frente à galeria
Alaska, um tradicional ponto gay carioca, com grande movimento por volta de uma
da madrugada.
Ao subir as escadas da delegacia, empurrado por dois canas,
Tim viu que tinha muita gente na calçada em frente e que já o haviam visto.
Parou e soltou a voz:
Ah! Se o mundo inteiro
me pudesse ouvir
Tenho muito pra
contar, dizer que aprendi
E na vida a gente
tem que entender
Que um nasce pra
sofrer enquanto o outro ri
O povo começou a cantar junto, a bater palmas e gritar seu nome. Os
tiras tentavam empurrar 128 quilos escada acima, mas ele não se movia nem
parava de cantar. Mais gente chegava, as putas e os travestis gritavam, todos
cantavam, a voz querida e poderosa de Tim Maia enchia a noite de Copacabana.
Diante da avassaladora solidariedade popular, da barulheira infernal e
do adiantado da hora, o delegado reagiu com bom senso e bom humor:
“Libera o elemento”.
(Nelson Motta. “Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia”, p.217-8)
Jorge Ben é muito genial. Não paro de ouvir (com meus ouvidos treinados para musica instrumental) e ele nos oferece pequenas sinfonias! Que beleza! Afora que a gente vai descobrindo como aquela obra reverbera em tanta coisa feita na música brasileira depois, assim como o Ivan Vilela destacou sobre o Clube da Esquina ... alguém tinha que estudar o Jorge, caso consiga ficar parado para analisar, claro rsrsrs
A primeira citação direta ao projeto de Pedro Bloch com as anedotas infantis que encontrei foi no livro de Guimarães Rosa que estudei no mestrado. Vejamos o trecho:
"Deixemos vir os pequenos em geral notáveis intérpretes, convocando-os do livro "Criança diz cada uma! ", de Pedro Bloch:
O TÚNEL. O menino cisma e pergunta: - "Por que será que sempre constroem um morro em cima dos túneis?"
TERRENO. Diante de uma casa em demolição, o menino observa: - "Olha, pai! Estão fazendo um terreno!"
O VIADUTO. A guriazinha de quatro anos olhou do alto do Viaduto do Chá, o Vale, e exclamou empolgada:
- "Mamãe! Olha! Que buraco lindo!"
A RISADA. A menina - estavam de visita a um protético - repentinamente entrou na sala, com uma
dentadura articulada, que descobrira em alguma prateleira : - "Titia! Titia! Encontrei uma risada!"
O VERDADEIRO GATO. O menino explicava ao pai a morte do bichinho: - "O gato saiu do gato, pai, só ficou o corpo do gato."
(ROSA, João Guimarães. Tutaméia: Terceiras Estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967, p. 8-9.