Lembra aquela história de que a nobreza negra em Jorge Ben está cantada em pequenos detalhes quase que imperceptíveis? Então...
Eis que me aparece Umbabarauma, o ponta de lança decidido:
Ai, quando ele canta junto com o Mano Brown narrando um gol do Serginho Chulapa pelo Santos , temos o ponta de lança negro em ação: vários significados, toda uma mitologia ... a semântica de Jorge é um tesouro! <3 font="">3>
Quando assisti ao curso do Ivan Vilela (professor de Canção Popular na ECA/USP) lembro dele comentar, sobre o fantástico A Página do Relâmpago Elétrico do Beto Guedes, que, geralmente, vale a pena prestar atenção nos primeiros discos dos artistas, porque eles costumam concentrar muita energia, tempo e expectativa até que ele finalmente viesse a existir. Quando eu ouço Samba Esquema Novo do Jorge Ben, que foi o seu primeiro e, se duvidar, continua sendo a gravação dele que mais ouço por completo, penso : UAU!
Uma das melhores canções da história da black music, sem dúvidas, é "I heard it through the grapevine", imortalizada na versão sexy de Marvin Gaye, que a gravou em 1968.
Mas ontem ouvi uma gravação dela de mais de 10 minutos, um rock delicioso do Creedence, o que levou alguém a me jurar que essa seria a original.De responsa esse som:
Mesmo que eu prefira a sensualidade do Marvin Gaye, claro...
Ai fui ler sobre a música na Wikipédia e descobri que, na verdade, esta não foi a versão original da canção composta exclusivamente para a Motown Records em 1966, e por isso, inicialmente ela foi gravada por vários de seus artistas, dentre os quais a versão clássica é de Marvin Gaye . A primeira gravação teria sido essa, com
Smokey Robinson & The Miracles, em 1966
Mas como a música é realmente muito boa e a gravação do Marvin Gaye é sensacional, outros artistas tentaram desconstruí-la, dai que em 1970, surge essa gravação do linda Creedence.
Um grande amigo meu, sabendo da minha paixão por Van Gogh, me marcou nesse vídeo no Facebook e eu achei a coisa mais linda! Adorei mesmo! Eu acho exatamente isso que o critico disse de Van Gogh: É o melhor por muitos motivos, mas especialmente porque para retratar a dor a transformou em beleza imensa e poucos souberam fazer isso. Outro que também é assim é o Guimarães Rosa, que conta as histórias mais terríveis, mas sempre encharcadas de lirismo... enfim.
Surpreendendo muita gente, uma das questões do ENEM 2017 problematizava uma música dos Racionais MC's. Fim de Semana no Parque é talvez a música mais conhecida dos Racionais e hoje eu ainda me pergunto como foi que eles conseguiram tocar tanto no rádio (sim, no fim dos anos 1990 se ouvia rádio) e essa popularidade com essa música tão não comercial, tão questionadora, tão difícil de ouvir ? Acho um fenômeno ainda sem explicação. É como se houvesse uma força da natureza que dissesse que todo mundo ia ouvir e gravar na memória esse som que "ninguém gosta". E que é assim mesmo, não é feito para agradar.
Já faz tempo que os grandes processos seletivos como vestibular e ENEM abordam a canção popular no Brasil, não é para menos, afinal essa é quase uma instituição nacional e seria muito mais dificil do que já é entender esse país sem passar por ela. Mas agora falamos de outra coisa, bem diferente: Não se trata mais apenas de problematizar a "instituição" canção no Brasil, aliás é muito ao contrário disso: Vamos problematizar também esse retorno propositadamente difícil de ouvir, como diz ESTE TEXTO marcante de Maria Rita Kehl é cheio de consoantes que pipocam no ouvido como tiros de balas, sem tantas vogais melódicas com as quais sempre adoramos nos identificar. Acho um marco, quase tão inexplicável quanto o fato de lembrar que quem era adolescente na época e que não ouvia RAP como eu, ainda saberem de cor Fim de Semana no Parque, mais de vinte anos depois.
Ano passado se falou muito do Nobel de literatura ganho por Bob Dylan por suas canções e passou-se a perguntar que se agora canção também é literatura, quem devia ganhar no Brasil? Ai surgiam aqueles nomes de sempre Chico Buarque, Cartola, Tom Jobim, etc...todos esses que já aparecem nas provas, com toda a legitimidade. Me lembro bem que eu e poucas pessoas dissemos na lata: Mano Brown devia ganhar! Sim, Mano Brown dos racionais mesmo (não aquele delicioso de Boogie Naipe e black music) ! Pensei no Brown justamente porque aquilo que ele faz é música, mas não é canção, é o seu oposto, é um texto que canta não mais lirismo, mas sons duros e quase impossíveis de escutar , acessa locais não muito doces, incomoda e literalmente joga na nossa cara tudo que a gente rejeita mas também é o que somos como brasileiros, por isso precisamos escutar e guardar. Acho arrepiante a força que isso tem. Este também é o som da resistência dos negros no Brasil atualmente e também é o que somos, apesar do quão difícil é reconhecemos isso!
Ilustração de Valéria Saraiva, para o livro Bruna e a galinha d'angola, de Gercilga de Ameida
"- Vó, por que a Conquém (galinha d'angola) está junto com o pombo e o lagarto neste panô?
-Bruna, minha querida,conta a lenda da minha aldeia africana que estes foram animais que vieram ajudar a Conquém na criação do mundo e de meu povo. Conquém espalhou a terra quando desceu do céu para a Terra, o lagarto desceu para ver se a terra estava firme e o pombo foi avisar aos outros animais que já podiam descer para habitar naquele lugar. Esta é a história da criação do mundo que minha avó já me contava enquanto eu pintava panôs como este."
Gercilga de Ameida no livro "Bruna e a galinha d'angola" (Rio de Janeiro, EDC e Pallas Editora, 2011)
Ganhei esse disco quando completei 18 anos, há 20 anos e ouvido hoje percebo que ele continua DEMAIS! É um disco para ouvir inteirinho, ainda agrada do começo ao fim. Ouvindo todo eu percebendo que as críticas sociais continuam valendo tanto quando há 20 anos : a miséria da mendicância, o racismo, a violência do uso de armas... se fosse um disco lançado hoje, estaria super atual. Raridade isso!