sábado, 8 de setembro de 2018

Ora Ei Ei Ô Oxum


Sou Oxum. Transparecendo doçura venci todos os meus inimigos. Resisti com meu povo à escravidão, à fome, à humilhação. Minhas filhas, essas mulheres tão lindas, essas negras que exalam o doce perfume do macassá, sofreram as mais terríveis violências. Corpos expropriados, almas destruídas, ventres violados. Chorei ao parir esses filhos. Filhos da pior desgraça, filhos do medo, do abuso, da crueldade. Filhos que nem sempre pude amamentar, mas que amei como minhas mais belas joias, como minhas maiores riquezas.
Abençoei a luta dessas mulheres. Com mel e água curei suas chagas. Mesmo as dores mais profundas, abrandei. Nascer mulher é uma sina, um castigo? Que homem disse isso? Só quem desconhece a força da vida é capaz de negar o poder feminino. Sou Oxum, sou mulher. Sou a grande dama da sociedade, a Iyalodê! Sou rainha, sou mãe, sou feiticeira
Vim das terras de Ijexá e Oxobô, da Nigéria, da África. De lá transborda meu rio, o Rio Oxum, de águas douradas e calmas que se expandem e tomam muitas formas, que se transformam e se confundem, que se ampliam e desaguam. Águas sinuosas, um dia calmas, outro revoltas, mas nunca as mesmas.
Oxum é como as águas do rio que parecem límpidas e calmas, mas que sem o menor aviso se transformam em uma corredeira violenta que deságua em uma cachoeira de si.
Ser filha de Oxum é ser tudo isso e ter todo esse turbilhão de água ao seu redor e conseguir a calma necessária para superar todos os obstáculos
Gratidão ao universo por ser filha desta grande mãe
Ora ye ye ye ooooo Oxum

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Show dos 40 anos do disco Clube da Esquina 2


Entre 31 de agosto e 02 de setembro de 2018 o SESC Vila Mariana promoveu uma mini turnê em comemoração pelos quarenta anos do disco Clube da Esquina 2 (1978), em três shows de Wagner Tiso e Flávio Venturini, com convidados : Toninho Horta, Nelson Ângelo e Zé Renato.
O disco de Milton Nascimento, como o primeiro Clube da Esquina, em parceria com Lô Borges de 1972, contou com a presença de um extenso grupo de músicos, todos aglutinados em torno de Milton, o grande guru do Movimento Musical.
No  curso que assisti sobre o Clube da Esquina, a partir do artigo sensacional “Nada ficou como antes” do professor Ivan Vilela só foi abordado o primeiro disco e suas saídas musicais criativas, apesar de nós pedirmos muito para falar do disco 2, para Vilela o segundo disco não apresentava novidades frescas como o primeiro, seria apenas uma celebração da ideia daquele movimento musical. Se é verdade ou se é mentira, o certo é que em determinado momento do curso Vilela, que propunha um método auditivo para tratar das canções,  separou  três minutos e meio para ouvirmos a segunda faixa do segundo disco, ” Nascente” na voz de Milton Nascimento, e todos ficamos extasiados e emocionados.
O fato é que o disco Clube da Esquina 2, tanto quando o primeiro disco de 1972, tem seu lugar definido na memória afetiva e musical dos admiradores  da música mineira daquele álbum composto por vinte e duas faixas e tantas delas foram interpretadas no show. Como eu tenho o álbum todo preservado na memória, percebi que não foram interpretadas as faixas mais tristes do disco (que é também fruto da ditadura, como todo o Clube da Esquina), como “Olho dágua”, “e daí?”, “cancion por la unidad de latino America”, “Dona Oimpya”, “a sede do peixe”(essa é outra do meu coração porque tem Rosa),”Toshiro” e “que bom amigo”(que se eu escutasse ao vivo iria soluçar!)...
Além de boa quantidade de canções do disco, tocaram músicas simbólicas que estão no primeiro disco  como “Clube da Esquina 2”, “Paisagem na janela” , esta a única que a plateia, visivelmente não composta apenas de clubeiros (senti  isso porque sempre vou a shows do clubem sei como é quando tem clubeiros)  pareceu cantar com força).

Em geral, Wagner Tiso brilhou no piano  nos arranjos  para uma banda muito boa executar e todos se emocionaram muito. Uma canção, “o que foi feito devera” foi tocada duas vezes  e apesar de ter esquecido algumas letras, Flavio Venturini se saiu até que bem interpretando as clássicas do Bituca. Foi el quem contou a anedota  mais saborosa: quando o disco foi lançado, em 1978, a música de trabalho que puxava o álbum foi a sua composição “Nascente”, que já tinha sido gravada pelo Beto Gudes no seu primeiro disco “A página do relâmpago elétrico” (‘977), mas na voz do Bituca tornou-se definitiva. Achei interessante porque hoje, como o Clube da Esquina 1 e 2 são álbuns clássicos, nunca pensei em quais  teriam  sido suas músicas de divulgação ...  
Como sempre, super valeu ouvir música mineira, que eu amo, e estar entre clubeiros...
Agradecimento final 



sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Um livro sobre o Candomblé


Fui la na FFLCH buscar este que é o último empréstimo de livro como ex aluna que me cabe e comecei a ler. Trata-se de "um livro sobre o candomblé", o "Segredos guardados: orixás na alma brasileira" de Reginaldo Prandi. Escrito por um professor e pesquisador (claro que é só uma percepção da coisa, um pouco de fora, bem acadêmica, mas é importante também, especialmente este bem claro, quase didático), uma leitura muito interessante! Só lamento que este, como a maioria das coisas sobre a cultura negra no Brasil seja tão mais caro! Só em biblioteca mesmo para conseguir pelo menos experimentar a leitura, enfim!
Faz tempo que estou fora das salas de aula, nesse país que rejeita seus especialistas, mas tenho muita saudade de dar aula. Recortei esse trechinho do livro porque ele é rico em questões para se discutir, dá panos para mangas, o que acham:


“Mesmo  quando o negro se expressa para afirmar a negritude, a condição africana, não resta a ele fazê-lo senão como um brasileiro. Ainda que o passado ancestral perdido seja a África pluriétnica, multicultural, o passado recuperável  é aquele que o Brasil logrou incorporar  na construção de uma nova civilização, passado que só pode ser reinventado, memória  recriada. Entre o Brasil contemporâneo e a velha África, bem como  entre a antiga Europa e as perdidas civilizações indígenas, situa-se a nossa própria história, que nos impede ou auxilia no reencontro do nosso ponto de partida, nos meandros da civilização que ela mesma engendrou. Do Brasil de hoje se faz  raiz África de ontem, África simbólica que é memória e identidade possíveis dos afro-brasileiros. O candomblé, nesse processo, deixa de ser religião e passa a funcionar apenas como fonte idealizada de identidade, mesmo porque o candomblé não tem a menor disposição   de se enfileirar com o movimento de afirmação do negro; pais e mães-de-santo, muitos deles brancos ou mestiços, querem ser apenas líderes religiosos, longe de qualquer outra instituição que possa interferir na comunidade que eles formam e dirigem com mão-de-ferro. Do outro lado, embora alguma parcela do movimento negro possa escolher o candomblé como símbolo de identidade africana, dificilmente o conjunto todo estará disposto a assumir uma religião e submeter-se às suas orientações. Candomblé e movimento negro têm a mesma origem, mas já não podem ser juntados. O candomblé tornou-se religião universal, já não pertence a raça ou etnias definidas, é religião “para todos nós”, para todos os brasileiros. “ Reginaldo Prandi. "Segredos guardados: orixás na alma brasileira", p. 172-3        

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Um livro sobre o disco "Clube da Esquina", de Milton Nascimento e Lô Borges, 1972

Capa do livro do disco Clube da Esquina


EM MAIO À LEITURA-  Acabei de adquirir, mas já estou na metade da leitura do pequeno volume sobre o disco Clube da Esquina (2018), escrito pelo jornalista e antropólogo  Paulo Thiago de Mello para a coleção “Livro do Disco”, da editora Cobogó e gostaria de escrever uma primeira impressão de leitura aqui, que pode mudar ao final,  mas que fique registrada aqui .  Como admiradora da história  canção, também sou desta coleção e os dois outros volume que li, achei sensacionais: o primeiro que li foi o sobre “Estudando o Samba”, de Tom Zé, escrito pelo professor de filosofa Bernardo Oliveira e depois do volume sobre “ A tábua de esmeralda”, de Jorge Ben, escrito pelo crítico musical Paulo da Costa e Silva. Duas coisas que me encantaram na coleção é que os autores usam o disco em questão para tratar de toda a produção do musical do compositor, o que sempre me revelou novidades, até mesmo sobre o caso do Tom Zé (de quem sou fã há décadas); outra coisa sedutora na coleção é que os escritores parecem ter se apaixonado pelo compositor em questão a partir das descobertas geniais que identificaram, resultando sempre em uma narrativa apaixonada e deliciosa, o que observei demais no texto sobre Jorge Ben.
Por enquanto, em se tratando do livro sobre o Clube, ainda não observei nenhuma dessas duas características. Claro que ainda tem meio livro pela frente, e minha consideração final pode mudar. Claro que sou uma pesquisadora do clube há anos, até curso sobre eu assisti, sabia que seria difícil o livro me surpreender, mas nesses primeiros capítulos Thiago fala mais sobre o contexto da canção brasileira na década de 1970, do que propriamente do disco, o que é importante para o leitor comum, mas para mim é meio sacal, confesso. E espero que nas próximas páginas o livro volte a me emocionar, como quando o abri e li a epígrafe “não se esqueça amigo, eu vou voltar”, ou quando achei, na página 19 uma das melhores definições sobre o Clube
"Mais do que um disco, mais que um movimento, uma aventura amorosa fundada na amizade"

sábado, 7 de julho de 2018

A Copa do Mundo e a História da Cultura do Divertimento



Como sabem eu sou uma pesquisadora na área de História Cultural e minha mais recente pesquisa está vinculada a uma modalidade recente da historiografia, a História Cultural do Humor, mais especificamente as anedotas de crianças. Nesses dias de Copa do mundo eu recebi um parecer sobre um artigo que submeti que destacava minha perspectiva como original pois eu utilizo "fontes que poderiam ser consideradas efêmeras ou menores, voltadas à CULTURA DO DIVERTIMENTO, e considero índices privilegiados para se ESCUTAR AS VOZES DOS ATORES DO PASSADO"
Para quem conhece a historiografia não é novidade o interesse extremo por objetos relacionados a cultura do divertimento, como história dos bares e botecos, da boemia,das revistas e livros pornográficos, dos líbelos e panfletos, do esporte, da canção, etc, tudo isso diz coisas sobre a sensibilidade do passado que a História oficial nunca alcaçaria, porque divertimento é humano e se está no tempo, também é história. Tanto é história que esta cultura também está submetida a outras engrenagens sociais (no caso do futebol, os altos valores que fazem circular ou a corrupção de entidades como a FIFA, por exemplo)... mas no fim é tudo em torno de algo tão demasiadamente humano, o divertimento!
Preguiça desse povo que só bate na tecla do "pão e circo"