quinta-feira, 14 de outubro de 2021

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

ROMANCE E ADAPTAÇÕES

 


Com o termino da Mostra de Cinemas Africanos ontem, já comecei a cumprir minha promessa de retornar ao Ojuobá. Assisti a todos os vídeos da série "Tenda dos Milagres" (1985) disponíveis no Youtube e achei bem bonito, claro. Muitos atores negros e "mestiços" (Nelson Xavier, Milton Gonçalves, Chica Xavier, Gracindo Júnior, Antônio Pompeo, Solange Couto, Joel Silva, Antônio Pitanga, Tony Tornado, Tânia Alves, Dhu Moraes.etc) se saindo muito bem e essa trilha sonora é da gente levar pra vida:

01. MILAGRES DO POVO – Caetano Veloso

02. LIVRE – Beth Bruno

03. OLHOS DE XANGÔ (AFOXÉ) – Moraes Moreira

04. É D’OXUM – MPB 4

05. ELOIÁ – Dudu Moraes

06. FLOR DA BAHIA – Nana Caymmi

07. OIÁ – Danilo Caymmi

08. AMOR DE MATAR – Tânia Alves

09. AFOXÉ – Dorival Caymmi

10. MALUCO PRA TE VER – Wálter Queiróz

Produção musical: Guto Graça Mello

Não sei se alguma dessas canções foi composta para a série, sei que o tema de Caetano  foi uma homenagem ao Jorge Amado, que teria dito em entrevista, a maravilhosa frase que abre a canção "quem é ateu e viu milagres como eu ", o que é a cara de Jorge e a alma do romance Tenda dos Milagres!  

Como é uma adaptação para TV, ela é e não é fiel ao livro. No romance temos dois tempos diferentes, o da vida de Pedro Arcanjo o intelectual orgânico nas décadas de 1920/1930 e toda a discussão (inclusive teórica, científica da época) sobre posição do negro na sociedade num país que tinha nem 30 anos de abolição da escravatura, a perseguição ao candomblé e capoeira e etc. E também tem o tempo da redescoberta de Pedro Arcanjo na década de 1960, que foi alçado ídolo da Bahia pelo Nobel em sociologia estadunidense James Dean Leverson, trazendo à tona e todo cenário ideológico binário do contexto da ditadura militar : todo mundo queria um pouquinho da memória de Arcanjo pra sua luta.
Sabemos, e nos relembra a Wikipédia, que as personagens dos livros de Jorge Amado foram baseadas em
"pessoas reais,- quando não as inseriu com os próprios nomes em suas obras. O rábula João Romão foi baseado em Cosme de Farias - um célebre defensor dos pobres em Salvador. O professor Silva Virajá era o médico também célebre Pirajá da Silva. O delegado Pedrito Gordo era o chefe de polícia Pedrito Gordilho, famoso por perseguir o candomblé e os capoeiristas.

Até o personagem principal, Pedro Archanjo, foi inspirado numa pessoa real, o negro Manuel Querino. Como no livro de Jorge Amado, Manuel Querino notabilizou-se por escrever vários livros de caráter antropológicos e étnicos (um deles sobre a culinária baiana e um outro, considerado muito importante, que traça a genealogia da elite branca de Salvador, mostrando a sua miscigenação com a raça negra). O adversário intelectual de Pedro Arcanjo é Nilo Argolo, provavelmente inspirado na figura do médico e antropólogo brasileiro Nina Rodrigues que ficou conhecido por suas afinidades com as teorias racistas de Lombroso e outros." Tenda dos Milagres

Na série global, pelo que deu para ver (20 episódios, quase tudo), temos retratado só a primeira parte, a da Bahia nos anos 30. Eles tem esse direito e a Globo sempre faz esse tipo de recorte ( depois fizeram a mesma coisa com o "O Tempo e o Vento", retiraram a parte das discussões políticas mais atuais). Sobre o Tenda, só destaco que, por exemplo, se na série Ana Mercedes vira par romântico de Pedro Arcanjo, no romance ela nunca chegou a conhecê-lo, tendo nascido depois que ele morreu , pois no romance ela é só a namorada do poeta ("vate, amante e côrno") Fausto Pena, o narrador do livro, que por alguns dólares, aceita escrever sobre como ela o traiu com o tal do nobel americano (Jorge Amado me diverte rsrs) Sobre a trilha sonora eu achei irretocável, maravilhosa, somada à imagem dos atores, a gente realmente se ambienta numa cidade "mestiça" (a ideia mestra de Jorge Amado, de sua época, e do livro) dos anos 20/30 (Salvador).

Só alguns comentários...

Sobre o filme (1977) de Nelson Pereira dos Santos,
ele é mais fiel à história original, começa com a redescoberta de Pedro Arcanjo, Ana Mercedes, namorada do Fauto Pena , no papel que lhe é devido, e ao redor do professor James Dean Leverson. Mas é bem ambientado nos anos 70, mostra o conflito sugerido no livro de Amado, mas no filme aparecem outras coisas como comícios, onde Arcanjo morre, inclusive. discute-o, mas a questão teórica fica à parte e nisso é bem ao contrário da adaptação da Globo, que é esteticamente mais bonita. No filme eu destaco apenas lindíssima cena (no livro está na p.200-2) na qual o professor Fraga Neto e Pedro Arcanjo discutem sobre a legitimidade de um cientista frequentar o Candomblé e Pedro argumenta que é possível para ele, que é mestiço e tem o objetivo compreender a cultura do Brasil, nem de branco nem de negro, mas mestiça, para a qual não basta apenas ser materialista, é preciso conciliar teoria e vida para o bem do povo e a clareza e confiança de Arcanjo vai golpeando o professor amigo com palavras, que ao final conclui que ele tem razão e deveria estar em uma cátedra na Universidade e Pedro responde que não quer subir, que anda é para frente, no filme a cena vai de (1 hora :44 minutos a 1 hora : 48 minutos).esta peleja, que sintetiza a obra, vale pelo filme todo.

Neste vídeo, a partir de 3' 25", é dito que a obra de Jorge sofreu processo de simplificação, muito devido às adaptações para TV e cinema, que acabam apagando parte das discussões colocadas nos romances, como eu coloco acima.

domingo, 10 de outubro de 2021

A Garota do Moletom Amarelo, Uganda | 2020, dir. Loukman Ali

 


Sinopse: À medida que se espalha a notícia de que há um serial killer à solta que continua a cometer assassinatos, um policial fora de serviço deve levar de volta à cidade uma testemunha idosa que mora em uma parte remota de Uganda. Ao longo do caminho, o policial dá carona a um homem ferido. No trajeto para a cidade, o carona conta ao policial os acontecimentos que o levaram a acabar ferido no meio da estrada. Mas enquanto viajamos com esses personagens misteriosos no carro, o diretor Loukman Ali nos mostra que as histórias que eles contam são apenas versões fragmentadas e parciais dos eventos que aconteceram e que talvez haja verdades enterradas sob cada uma de suas palavras.

Filme muito divertido, um suspense que começa se colocando como verdadeiro, baseado em fatos reais, sério, aos poucos vai quebrando o gelo, com uso de outras linguagens como  TV, rádio, desenhos e narrativas que nos levam do terror ao absurdo, a ponto de que o próprio filme nos alerta: LEMBRE QUE TUDO ISSO ACONTECEU ! (rs)

Adoro a disputa de referências entre o policial motorista e seu carona de moletom amarelo: tendo como pano de fundo a presença do serial killer "maníaco das bitucas de cigarro", acontece a guerra de narrativas fantásticas jogo infantil popular na África Oriental nos anos 1980 chamado Bladda, a história  um cartunista perseguido e o mundo do humor, neurociência, a fábula do sapo e do escorpião,  e o recém lançado livro "Um lugar feliz".  A cada momento você confia menos em cada um ...  e no fim acha que acabou se divertindo pra valer. AGORA EU QUERO UM MOLETOM AMARELO DESSES!
As fotos 
A garota do moletom amarelo

Amuleto

Desenho ilustrativo da Bladda: personagens
 com as roupas do policial e do carona

Vou matar o cartunista sem graça

Preso pela garota do moletom amarelo 

Infância do policial nos anos 80

Esse cara aparece às vezes, explicando referências


Enterrando vivo


Pedindo carona

Uganda

Cartunista

Vista de quem está sendo enterrado vivo

História da África colonial 

Refém



Mulher brava

Esse moletom amarelo

Desenho ofensivo do cartunista

Se desmontando

Briga física

Neurocientista, autor de "Um lugar feliz"

Policial parou para comprar peixes? 

Pausa na disputa?

Flagra

Era para olhar para outro lado,mas na janela só
víamos a propaganda do livro "Um lugar feliz" 

o Velhinho com a pochete

Mão pregada

Renda-se 

Me pegou 

Só queria ir embora

Memórias dos anos 80

Narrativas em animação

Velhinho só observa

Linda Uganda



sábado, 9 de outubro de 2021

Meu Primo Inglês, Argélia | 2019, dir.Karim Sayad

 


Sinopse : “Meu Primo Inglês” (2019), um documentário do diretor  Karim Sayad, que fala sobre  a vida de seu primo argelino Fahed,  um imigrante  que deseja voltar ao seu país natal após passar duas décadas em uma vida monótona e solitária na Inglaterra, mas que não encontra mais na Argélia atual e nem na família, um lugar onde se sente pertencente.

É um documentário interessante e, nessa Mostra que abordou tanto a presença da mulher africana em diversos contextos, ele se destaca por centra-se na figura de  Fahed, um argelino gente boa, come praticamente o tempo todo e como é cozinheiro (as comidas que ele prepara nos enche a boca de água), mas como é comum nos filmes africanos, Fahed não encontra seu lugar no mundo. Na Inglaterra era casado com uma boa mulher, de quem se tornou um grande amigo, mas na Argélia não conseguiu achar uma esposa do jeito que constaria e contenta-se com a solidão. Por enquanto. Gostei de ver ver o filme, conhecer Fahed e sua Argélia. Tirei fotos 
Uma casa argelina

A tia que diz as verdades que Fahed não quer ouvir

Fahed: gente boa

Dança argelina

Fotos antigas de Fahed

A mãe: mulher para quem voltar

Argélia no celular



Jogando com a família

Foto de postal

Trabalho no restaurando na Inglaterra


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

"Você Morrerá aos 20" , Sudão, 2019, dir. Amjad Abu Alala

 


Sinopse : Depois que um xeque previu para sua mãe, logo após seu nascimento, que ele morreria aos vinte e poucos anos, Muzamil, de 19 anos, deve lidar com todos os eventos e mudanças usuais da transição de jovem para adulto. Mas como alguém se prepara para uma idade adulta que, segundo a profecia, não chegará, ao mesmo tempo que seu povo e sua família se preparam para seu funeral? O diretor Amjad Abu Alala explora essa questão neste cativante filme sudanês.

Primeiro a minha história com esse filme, no dia 8 de outubro eu publiquei:



Eis um dos melhores filmes desta Mostra. Claro que é porque, ao contrário de Fatland, ele satisfaz minhas expectativas como historiadora, expectadora de cinemas africanos, tem negros, tem tradições africanas, tem belezas do Sudão... mas tem mais, Amjad Abu Alala sabe filmar de um jeito cativante, nos mantém cativos ao filme e o tempo todo eu só agradecia a sorte de estar assistindo-o.

A história do jovem Muzamil é bem triste, porque sua morte aos 20 anos foi profetizada desde muito cedo, sua vida foi de um estigmatizado, "filho da morte", vergonha para o pai que fugiu, "fardo da mãe" que cumpre luto com o filho vivo. Torna-se um garoto exemplar, decora o Alcorão, pede perdão pelos pecados (que nunca cometeu), acompanha a construção  do próprio túmulo e acha que o tempo (20 anos ) e o espaço (seu vilarejo) são tudo o que a vida pode lhe oferecer. Por sorte encontrou o amigo Saileiman, que viajou o mundo e veio repousar em sua terra natal.  Saileiman foi, para Muzamil, uma janela para o mundo, mostrou-lhe as filmagens que fez toda a vida, MOSTROU-LHE O CINEMA, foi tão ou muito mais, importante que seus pais, pena que morreu antes de Muzamil e veio a ser enterrado no seu túmulo. Que filme lindo, que gente linda do Sudão! Tirei muitas fotos, mas queria ter tirado mais!



Muzamil encontra consigo mesmo em sonho

Bela sudanesa: amor impossível

Tradições

"Guardei o incenso para meu funeral por anos, pode usar no seu"

Amor é pecado?

Contando os dias até minha morte

Abraço do pai

Cortejo fúnebre

Primeiro beijo

Saleiman: Grande amigo

"Adoro esse lugar, Muzamil"

Pesadelos de Saleiman

Começo: símbolos  fúnebres

Saleiman: janela para o mundo e cinema

Naima, belo amor amor desde a infância

Mãe Sakina: beleza das sudanesas

Close

Rituais

Sakina leva Muzamil para ser abençoado e ele acaba amaldiçoado

Cenas do Sudão

Primeiro contato com cinema

Pietá: mãe enlutada com filho vivo

Mae : Seu pai voltou

Rituais 

Amor inocente: Lindos jovens

Na hora da maldição



Sudão

Amor juvenil

Muzamil: carente de colos 

Pai que retorna à casa

Namoro 

Colo do pai 

Conversas na infância

Cinema

"Quem vai cuidar do cavalo depois que eu morrer?"

Contagem dos dias

Presença do amigo

  

Misericórdia para Muzamil