segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Medo da Eternidade - Clarice Lispector

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

domingo, 26 de setembro de 2010

Verdades sobre a vida?

EU VI ESTE ANÚNCIO NO MURAL DA ECA :
SÓ PUDE PENSAR "VERDADE, NÉ gUIMARÃES ROSA?"
ELE QUE É MAIS QUE UM ESCRITOR, MAS UM SENTIDO PARA MINHA VIDA!

Eu não quero Serra presidente do Brasil

Essa é minha verdade e ela significa mais coisas que isso: Meu grito de "NÃO" não se limita apenas a essa pessoa, ou a esse partido que ela representa nem e seus pensamentos, mas sim a todo esse grupo que alguns (especialmente em São Paulo) julgam pertencer, mas que na verdade não aceita ninguém, pois atua sobre a força da exclusão. Claro que isso aqui é uma espécie de "esquizofrenia coletiva".
Lógico que algumas forças colaboram para esse clima esquizofrêncico, como a Revista Isto é , que fala do avanço da "Onda vermelha", sabendo que a utilização dessa linguagem provoca uma sensação de pânico - que é bastante infundada - porque todos sabemos que a aceitação de Dilma nestas eleições só reafirma uma verdade que sabemos desde 2002,quando Lula foi eleito, depois reelito e agora pode eleger uma prosseguidora: o vermelho do PT só brilha neste céu porque se apresenta bem desbotado, e a cada ano vai ficando mais para rosado.
Pensando esses fluxos, e temendo a eleição de mais um governador do PSDB aqui em São Paulo, sei que cada vez menos pessoas poderão refletir mais profundamente sobre esses fluxos, já que tudo aqui vai se tranasformar em ENSINO TÉCNICO.
Pensar nessas coisas me deixa muito irritada! Por isso não vejo a hora que as eleições passem logo e quero mesmo que o Serra não vá para o segundo turno, e eu não precise ver sua cara todos os dias.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Música de brinquedo

Nem falo nada sobre esse disco, essa idéia, isso tudo! Tudo a ver com meu trabalho! Não é lindo?

ELEIÇÕES 2010: DESCOMPASSOS?

Não queria falar muita coisa sobre as Eleições 2010, mas não aguento perceber e não comentar alguns fluxos acontecendo que eu percebo porque eu consegui fazer um bacharelado em História. O bacharelado é um curso de FORMAÇÃO - não um curso profissionalizante - e seu público alvo não é o aluno que estudou anos com APROVAÇÃO AUTOMÁTICA e formou-se um semi analfabeto. É essa a proposta que o eleitor paulista está elegendo. Em breve ninguém mais vai poder perceber os fluxos acontecendo, como eu estou percebdndo e comentando.Do que eu estou falando?

O sucesso estrondoso dos números de Dilma nos mostra (ou "nos joga na cara" como alguns diriam...) que, apesar de tudo, o brasileiro gosta de ser governado pelo Lula. E gosta muito. Eu li um texto do Mino Carta onde ele afirma que talvez o maior erro da campanha de Serra foi ter dado pouco valor à " mudança que o ex-metalúrgico guindado à Presidência acarretou para o País, acima e além de alguns bons e inegáveis resultados alcançados por seu governo." Neste texto Carta fala sobre a incapacidade das elites de perceberem uma MUDANÇA DE SENSIBILIDADE do eleitor brasileiro, que reage ao fluxo da História, enquanto as elites se ressentem e mostram uma "incapacidade de compreender um Brasil diverso daquele sonhado[pelas elites], esta ignorância, é que confere um toque patético à derrota da minoria privilegiada, dos herdeiros e cultores de um passado que os fez donos do poder." (Mino Carta)
Enquanto o Brasil atende ao fluxo da História, um cenário contrário é observado em seu Estado hegemônico: Em São Paulo o candidato do PSDB parece que vai ganhar por uma diferença tão grande quanto a entre Dilma e Serra.
Eu lamento muito por aquilo que eu comecei este texto falando aqui: Continuar apostando em uma proposta de educação assim (que pouco tem de educação) é, em última análise, tentar ao máximo, impedir que se formem LIVRES PENSADORES como eu, que são pessoas capazes de REFLETIR e TIRAR CONCLUSÕES como eu estou fazendo aqui.
Eu estou em processo de doutoramento em "Teoria da História" e hoje tenho a total noção da importância que isso tem: Sei que a História é bem mais que esse conteudinho que se ensina nas escolas - onde se apresenta o histórico INTRUMENTAL dos poderes - quando a História tem uma infinidade de sentidos e por seu significados em contante movimento devem PRODUZIR SERES CAPAZES DE PRODUZIR CRÍTICA, não ENCICLOPÉDIAS.
Por estar percebendo o descompasso entre a sensibilidade do Brasil e a do Estado de São Paulo e por saber que é em SP que está a maioria do dinheiro, fico alerta para o que pode acontecer, pois sei que nunca esse tipo de momento termina muito bem.
Fiquem atentos...

domingo, 19 de setembro de 2010

Lindeza

Como adoro essa canção, desde menina...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010