domingo, 11 de novembro de 2012

(Im) Possível retorno do vovô Anshel


Dois momentos do livro "Ver: Amor" de David Grossman, onde o garotinho Momik expressa seu grande desejo de resgatar o ser que acreditava existir ainda no velhinho que ele chamava de vovô Anshel (um sequelado vindo de campo de concentração ). Me emociona muito, porque tantas vezes eu me sinto como  Momik nos últimos tempos ...


"Esses números realmente o deixavam doido, porque não estavam escritos com caneta e não saiam com água ou cuspe. Momik tentou de tudo quando lavava os braços do avô, mas o número permanecia e, por causa disto, Momik começou a pensar que talvez fosse um número escrito não por fora, mas  por dentro; por isto ficou até mais convencido de que  talvez existisse mesmo alguém dentro do vovô (...) e teve uma sensação realmente forte de que a qualquer momento vovô abriria totalmente, se abriria no meio e ao comprido como uma vagem  de ervilha amarelada e se fenderia assim em dois, uma espécie de vovô pintinho, um avô pequeno, sorridente e de bom coração e que gostava de criança saltaria dali, isto não aconteceu, mas de repente Momik sentiu um aperto no coração e uma tristeza estranha, levantou-se, aproximou-se  deste seu avô, abraçou-o com força, e sentiu  como ele era quente, exatamente como um forno, então vovô parou de falar sozinho, e durante talvez meio minuto ele se calou, as mãos e o rosto repousaram, e ele pareceu prestar atenção a  todas as coisas que havia dentro de si, mas, como se sabe, era-lhe proibido deixar de falar por muito tempo.  " p. 17-18


"Então Momik pode jogar a mochila, despir o vovô do casaco grande e velho de papai, cheirá-lo um pouco bem rápido, sentá-lo à mesa e esquentar a comida para os dois. Para a vovó Heni era preciso trazer a comida na hora do almoço até o quarto dela, porque sozinha ela não descia da cama, mas vovô come com ele, e isto lhe é agradável, como se ele fosse um avô  verdadeiro com o qual é possível conversar e tudo mais." P.33

sábado, 10 de novembro de 2012

Regulamentação da profissão de Historiador levanta polêmica...

 
Tirem suas conclusões, eu já tenho a minha...Na Folha de São Paulo, de autoria de Fernando Rodrigues, foi publicado o seguinte texto:
"Historiador? Só com diploma
BRASÍLIA - Poucos notaram, mas o Senado aprovou um projeto de lei estapafúrdio na última quarta-feira. Eis o essencial: "O exercício da profissão de historiador, em todo o território nacional, é privativo dos portadores de diploma de curso superior em história, expedido por instituição regular de ensino".
Em resumo, se vier a ser aprovada pela Câmara e depois sancionada pela presidente da República, a nova lei impedirá que pessoas sem diploma de história possam dar aulas dessa disciplina.
A proposta é de um maniqueísmo atroz. Ignora que médicos, sociólogos, economistas, engenheiros, juristas, jornalistas ou cidadãos sem diploma possam acumular conhecimentos históricos sobre suas áreas de atuação. Terão todos de guardar para si o que aprenderem.
Há sempre a esperança de alguém levantar a mão e interromper essa marcha da insensatez na Câmara. Mas mesmo que seja abortado, o episódio não perderá a sua gravidade. Trata-se de um alerta sobre a obsolescência e a falta de lógica do processo legislativo brasileiro.
A ideia nasceu em 2009. Era um projeto do senador Paulo Paim, do PT gaúcho. Em três meses, o senador Cristovam Buarque, do PDT de Brasília, deu um parecer favorável. Ouviu um chiste de José Sarney: "Você quer me impedir de escrever sobre a história do Maranhão".
Cristovam parece arrependido do seu protagonismo. Indica ter deixado tudo para assessores, sem supervisioná-los como deveria. Erros acontecem. Só que o senador defensor da educação não quis reconhecer o equívoco na quarta-feira. Preferiu se ausentar do plenário.
O Senado tem 81 integrantes. Só dois votaram contra o diploma obrigatório para historiadores: Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e Pedro Taques (PDT-MT). É muito pouco para impedir que o país se transforme, de lambança em lambança, numa pátria das corporações."
 
Mas a  ANPUH de São Paulo já deu sua resposta , a qual concordo plenamente:
 
"PROFISSÃO DE HISTORIADOR:
MARCHA DA INSENSATEZ OU DO DESCONHECIMENTO?

Nós, historiadores profissionais, sabemos que uma das regras básicas do nosso ofício é a elaboração de um discurso de prova, assentado na pesquisa e na crítica dos vestígios do passado, os documentos. Fernando Rodrigues, por não ter essa formação, talvez desconheça essa regra tão elementar e, por isso, não se deu ao trabalho de ler com atenção o documento que deveria balizar a sua análise (sic) publicada no jornal Folha de São Paulo de 10 de novembro de 2012: o Projeto de Regulamentação da Profissão de Historiador, aprovado no Senado Federal na última quarta-feira. Em nenhum momento este projeto veda que pessoas com outras formações, ou sem formação alguma, escrevam sobre o passado e elaborem narrativas históricas. Apenas estabelece que as instituições onde se realiza o ensino e a pesquisa de História contem com historiadores profissionais em seus quadros, por considerar que, ao longo de sua formação, eles desenvolvem habilidades específicas como a crítica documental e historiográfica e a aquisição de conhecimentos teóricos, metodológicos e técnicos imprescindíveis à investigação científica do passado. Da mesma maneira, a regulamentação pode evitar que continuem a se verificar, nos estabelecimentos de diversos níveis de ensino, situações como a de o professor de História ser obrigado a lecionar Geografia, Sociologia, Educação Artística, entre outras disciplinas, sem ter formação específica para isso (e vice-versa).

Temos certeza que o Senador Cristovam Buarque, tão sensível aos problemas da educação brasileira, apóia esta idéia, pois ela possibilita um ensino mais qualificado.

Temos certeza também que o Senador José Sarney, conhecedor do teor do projeto, está tranqüilo, pois sabe que não vai ser impedido, como nenhum cidadão brasileiro, de escrever sobre a história de seu estado, ou de qualquer período, indivíduo, localidade ou processo. Isso atentaria contra as liberdades democráticas, das quais os historiadores profissionais são grandes defensores.

Fique tranqüilo senhor Fernando Rodrigues, o senhor também poderá escrever sobre história. Só sugerimos que leia os documentos necessários antes de o fazer.

Benito Bisso Schmidt

Presidente da Associação Nacional de História – ANPUH-Brasil"
 
 
 
 
 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Mia Couto no Roda Viva




Entrevista interessantíssima! Adoro várias partes, especialmente a que ele fala da plasticidade da língua portuguesa, coisa que Rosa sempre acreditou...

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Fita Verde no Cabelo (Nova velha estória) João Guimarães Rosa


Fita Verde no Cabelo (Nova velha estória)

João Guimarães Rosa


Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos em juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – “Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou”. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeiinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
- “Quem é?”
- “Sou eu…” – e Fita-Verde descansou a voz. – “Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.”
Vai, a vovó, difícil, disse: – “Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençõe.”
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – “Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.”
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
- “Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!”
- É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta…” – a avó murmurou.
- “Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!”
- É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta…” – a avó suspirou.
- “Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido!”
- “É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha…” – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.
Gritou: – “Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…”
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

IN : O Estado de São Paulo de 08/02/1964

A chave do poema - Manuel Bandeira


A Chave do Poema – Manuel Bandeira

A poesia concreta pode que seja uma maluqueira e até que não seja poesia. Mas que está despertando interesse,  está. Vivo assediado de perguntas ‘em forma de cavalo-marinho’, velhos, moços e moças que me pedem que defina o que seja a poesia concreta. O diabo é que ainda não descobri o endereço de Ferreira Gullar para encaminhar toda essa gente para ele. Ora bem, declaro em público e raso que não sei o que é um poema concreto. As três experiências que fiz, inspirado nos processos dos irmãos Campos e de Décio Pignatari, não creio que sejam poemas concretos: serão paraconcretos ou preconcretos, sei lá! Diagramas líricos, dois uma simples modalidade de palavras cruzadas: sempre gostei de palavras cruzadas, os irmãos Pongetti que o digam, sempre adivinhei um conteúdo poético nos seus problemas.

 

O meu “Poema de amor”, publicado no último suplemento literário do Jornal do Brasil, é puro diagrama de um grito passional, rojão de lágrimas felizes, portanto a ler-se na direção do vetor, isto é, de baixo para cima. Tradução: Rosa tumultuada te adoro.

 

Puerilidade? Então me deixem ir para junto de Jesus, que disse Sinite parvulos venire ad me.

 

Ora direis: ‘Mas isso não é poesia, é enigma’, Eu vos direi no entanto que toda poesia é enigma. Toda palavra, antes que lhe conheçamos o significado, é um enigma formidável. Claro enigma chamou o poeta Carlos a um de seus livros e no soneto da “Oficina irritada” claro enigma é Acturo, a estrela de primeira grandeza na cauda da Ursa Maior. Que haverá de mais poético (concreto no duro!) que o universo?  Que maior poeta que Deus? (No entanto os seus desígnios , consultem o Corção, são muitas vezes impenetráveis.) Mesmo o Deus feito carne, o Deus  feito homem se exprimiria por poesia enigma. Hoje todos sabemos o que o Cristo queria dizer quando falou : ‘Quem come a minha carne e bebe o meu sangue pertence a mim e eu nele. Porque a  minha carne verdadeiramente é comida e o meu sangue verdadeiramente é bebida .’ Mas o tempo, para os seus discípulos, isso soava a enigma e muitos deles, ouvindo-os, se puseram a dizer : ‘ Duro é este discurso;quem o pode entender?’

 

Os enigmas da poesia concreta têm isto de bom: é que são todos decifráveis, porque todos resultam de um esforço consciente da inteligência. Não era assim com os do surrealismo, que nasciam feitos, do subconsciente, recesso tão tenebroso quanto aquele porão do conto de Otto Lara Resende. Porque é decifrável, o poema  concreto convence, uma vez explicado; o leitor comum deseja é compreender, porque o que ele mais teme é ser empulhado. Uma senhora que não tinha entendido o meu poema de domingo telefonou-me pedindo a tradução. Disse-lha e ouvi-a  sorrir do outro lado, encantada. ‘Ah, é!’ Por pouco que não me chamou ‘o  maior’.  3/4/1957

domingo, 28 de outubro de 2012

Mais Partimpim Tlês, agora com os dedos sujos de tinta ...




Como vocês puderam ver no post abaixo, na  foto da capa do disco Partimpim tlês, não parecem as duas mãos da criancinha, mas eu achei esta foto no site do disco esta foto onde a outra mãozinha dela aparece DEVIDAMENTE SUJA DE TINTA, para reforçar que o lema do Partimpim 2 já 
era verdade desde antes : ‘“O amor roeu minha infância de dedos sujos de tinta”, verso de João Cabral de Melo Neto, é a epígrafe do Partimpim

DOIS. Por que?
Partimpim vive com os dedos sujos de tinta e acha que ser roído pelo amor é tudo o que se quer, em qualquer idade. Quanto antes se for roído por João
Cabral também, melhor.’ RELEASE DE Partimpim2



Acho lindíssimo este projeto e lamento tanto que quando eu era criança não tivesse nada desse tipo, até trocaram o Sítio do pica Pau Amarelo pelo Xou da Xuxa ! Mesmo assim vou curtindo a Partimpim sempre...