quinta-feira, 7 de junho de 2012

Flicts: O coração da cor

 

Flicts: O CORAÇAO DA COR

Carlos Drummond de Andrade
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 de agosto de
1969.
O mundo não é uma coleção de objetos naturais com suas formas respectivas, testemunhadas pela evidência ou pela ciência, o mundo é cor.A vida não é uma série de funções da substância organizada, desde a mais humilde até a de maior requinte, a vida são coresTudo é cor. O que existe, existe na cor e pela cor. A cor ama, brinca, exalta, repele, dá sentido e expressão ao sítio ou à aparência onde ela pousa.
Cores são seres individualizados e super-poderosos, que se servem de nosso veículo óptico para proclamar sua verdade.
Nossas verdadinhas concretas empalidecem ao sol múltiplo que elas concentram.
Aprendo isso, tão tarde! Com Ziraldo. Ou mais propriamente com Flicts, criação de Ziraldo, que se torna independente do criador, e vive e vibra por si.
Que é Flicts? Não digo, não quero dizer.
Cada um que trave contato pessoal com Flicts, e sinta o que eu sinto ao conhecê-la um deslumbramento, um pasmo radiante, a felicidade de renascer diante do espetáculo das coisas em estado puro.
Flicts faz a gente voltar ao ponto de partida, que, paradoxalmente, é ponto de chegada. No princípio era cor, e no fim será cor, alegria da percepção. Ou nem haverá fim, se concebermos a cor em si, flutuando no possível, desinteressada de pouso e tempo.
Flicts já flutua no bôjo desta idéia. Mais um passo, e não precisará de ponto de referência, ela que rodou por toda a parte para afirmar-se, e acabou se encontrando… onde, não digo, não quero dizer. Você é que tem que chegar lá para vê-la. O conto contado por Ziraldo só merece um adjetivo, infelizmente desmoralizado: maravilhoso. Não há outro, e sinto a pobreza do meu cartuchame verbal, para definir Flicts: não carece de definição. É.
Mestre do traço desmitificador ou generoso (Supermãe, Jeremias), Ziraldo abriu mão de suas artimanhas todas para revelar Flicts com absoluta economia de meios, ou, antes, sem meio algum. E dá-nos a festa da cor como realidade profunda, e não mera impressão da luz no olho. Sua revelação é fulgurante. Faz explodir a carga emocional e mental que as cores trazem consigo.
Disse que me faltam palavras: entretanto, o próprio Ziraldo, monstro inventor de Caratinga, soube encontrá-las, compondo com elas não uma explicação de Flicts, mas um guia lacônico de viagem, para acompanharmos o giro ancoso de Flicts pelo universo. Este guia saiu um poema exato. Do resto, que é Flicts senão poesia formulada de outra maneira por Ziraldo? E o consórcio das duas poesias forma uma terceira, dom maior deste livro.
Flicts é a iluminação – afinal, brotou a palavra – mais fascinante de um achado: a cor, muito além de fenômeno visual, é estado de ser, e é a própria imagem. Desprende-se da faculdade de simbolizar, e revela-se aquilo em torno do qual os símbolos circulam, voejam, volitam, esvoaçam – fly, flit, fling – no desejo de encarnar-se. Mas para que símbolos se captamos o coração da cor? Ziraldo realizou a façanha em seu livro.

ANDRADE, Carlos Drummond de. In: “Flicts: o coração da cor”. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1969.


É assim deste jeito (ou de uma forma muito parecida com essa) que as crianças percebem as cores? Suponho que sim!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Um Caminho feito para não haver chão - Mia Couto


Entre o autor e o seu texto existem caminhos, existem tempos. O caminho que separava  Rosa do texto rosiano foi o  da poesia. Os tempos foram os do Sertão. João Guimarães Rosa trilhou o caminho da poesia para poder sair de todos os existentes  caminhos. Os tempos do sertão fizeram com que ele escapasse do tempo. Porque esse sertão, construído com poesia, não era da ordem da geografia.

Cada escritor procura, nessa ausência de lugar, o seu universo único. Essa procura faz-se para além daquilo que ele próprio pode entender. Porque essa criação se furta ao território da racionalidade. A maior parte das vezes, os escritores escrevem exatamente  porque não sabem. E quando sabem eles escrevem para deixarem de saber.

Certa vez, José Saramago me confessou que, já depois de muito livro escrito, ele se encontrou numa espécie de encruzilhada existencial no que respeita à adoção de um estilo que, sendo inovador,   fosse a marca da sua individualidade. Para definir essa hesitação, Saramago fez uso do célebre verso drummondiano ‘e agora José?’. Por muito que explicasse Saramago sabia que não dava nenhuma explicação. Na verdade, o modo de operar de cada escritor pertence ao domínio que está para além daquilo que ele pode racionalizar.

Tal como acontece com Rosa, não parece haver nos primeiros textos de Saramago algo que faça adivinhar o estilo já maduro e que, depois, ficou consagrado como marca pessoal do autor. E, no entanto, já há qualquer coisa nas primeiras criações que indiciam uma inquietação, e atuam como a forja do que seria não exatamente em ‘estilo’ mas um idioma particular. O edifício que daí resulta é uma escrita que se deixa apropriar pela oralidade, uma escrita plural que se deixa inundar pela Vida. Uma escrita que não pode ser apenas lida. Mas precisa ser escrutada. Porque ela é feita de vozes, de margens, de veredas.

Um dos segredos da maturação de Rosa está no quanto ele tornou a página permeável a falas e sotaques que não são exatamente apenas do Brasil, mas surgem como um Brasil pessoal, o Brasil de Rosa, uma nação encantada que só pode ser dita por palavra que por inventar.

A viagem que, após a sua chegada de Paris, Rosa empreende pelos sertões de Mina Gerais é, afinal, uma deslocação interior, um revoltear do seu chão mais íntimo. Terá sido aí que Rosa descobriu a sua linguagem causadora, a um tempo, de proximidade e estranhamente? Não sei. Duvido. Porque em todo escritor há um percurso lento e cego que não se tanto de revelações como de esquecimentos. É verdade que o próprio JGR defende que a inspiração  é uma espécie de transe. Mas esse transe serve mais para calar e ocultar o que é certo e sabido.

Rosa não escreveu sobre o universo sertanejo. Ele inventou esse universo. E usou essa invenção contra aquilo que ele sentia como ameaça: a invasão de um território uniformizado, modernizado, à custa da anulação do espaço mítico. Onde o mundo sugere a diluição de afetos o escritor propõe um clã, onde a modernidade impõe a uniformidade, o escritor contrapõe a soberania da intimidade. Onde  os novos tempos sugerem uma aldeia global, o escritor ergue uma casa, uma residência  para a alma, uma raiz para a individualidade.

  Mia Couto

(texto de apresentação do livro “Antes das Primeiras Estórias”, de João Guimarães Rosa)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Lápis de cor fazendo arte!


O artista colombiano Federico Uribe amplia as possibilidades de usar o lápis de cor para fazer arte... confira o site dele aqui.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Encontro Internacional "Depois de Babel" na Colombia

Desde o meu mestrado (quando ou não tinha ou não conhecia tradução para o português), seguindo recomendação meu orientador, leio e acho soberbo, interessante demais aquele que ele chama de capítulo sobre "futuridade da linguagem" neste livro. Sempre quis ler mais e melhor este livro, acho que ele merece um grupo de estudos, para que suas complexidades sejam identificadas e discutidas, porque a simples leitura solitária talvez seja pouco. Talvez este meu desejo não seja todo depropositado ou inverídico: em março de 2013 a Universidade Nacional da Colombia vai realizar um Encontro Internacional para discutir as questões de linguagem e tradução (inclusive de significados) postas por George Steiner neste livro (ENCONTRO). Vontade (e até oportunidade) de participar eu tenho, pena que parece que só eu me interesso por esse tema e teria que ir sozinha ao vamos ter um Congresso. O que vocês acham ?

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ler ficção para narrar melhor a realidade

 "O erro do jornalista brasileiro é que lê pouca ficção.Daí narra a realidade da forma mais inverossímil possível." Xico Sá  via Facebook em 29 de maio de 2012


Isso também não pode valer para o historiador? Sempre achei que sim, claro!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Hermenêutica do cotidiano


"A temporalidade e a linguagem são possibilidades de acesso à significação. Para Heidegger, a linguagem é parte do ser e constitui a única porta de acesso a um sentido ou significação. Acesso parcial, na medida em que na elaboração da linguagem como morada do ser está a única possibilidade de desvendamento do sentido oculto do todo ou do outro. O ser da linguagem ou a morada do ser,  trabalhado pela sensibilidade do historiador, chega a momentos  de revelação, 'eventos  de compreensão'.
Assim, o todo nunca se revela de forma definitiva e acabada. Nos momentos de revelção, os intérpretes atingem o que se convenciona indicar como uma metáfora da dobra na linha do horizonte, espaço este que separa o ôntico (contingência da finitude do homem) do ontológico, ou seja, a dobra ou fissura indicaria um momento do processo de compreensão ou devendamento do conhecimento . Heidegger retomaria a metáfora da dobra para indicar as dificuldades de superar as forças da finitude do homem e a necessidade do ser de se relacionar com a facticidade, sua dispersão, sua descontinuidade, sua falta de sentido." (DIAS, Maria Odila. Hermenêutica do cotidiano. nov. 1998. p. 247) 

TENHO QUE LER ISSO MIL VEZES ATÉ COMPREENDER DE VERDADE!

domingo, 20 de maio de 2012

Festa no Covil - Juan Pablo Villalobos


             ’Às vezes o México é um país nefasto, mas às vezes também é um país magnífico.’ A frase é quase um bordão deste livro e resume muito de seu clima mental: palavras rebuscadas que, com maniqueísmo naïf, tentam dar sentido às absurdas contradições da realidade ‘patética e sórdida.’ Quem as diz é o pequeno Tochtli (coelho, na língua asteca), garoto curioso que vive entocado na fortaleza de um cartel da droga. Seu pai-chefão, Yolcault (serpente-cascavel), parece hesitar entre a vontade de preservá-lo do mundo cruel e a necessidade de adestrá-lo como herdeiro, jogando de esconde-aparece com o indícios e o sentido da violência. Faz questão de que o filho seja educado por um professor ‘que é dos cultos’, egresso da esquerda esclarecida, mas por outro lado decreta que, se ele chorar, não será mais macho; não quer que veja certas cenas fortes do noticiário, mas assiste com ele aos sanguinários filmes B e lhe mostra as reais e brutais surras aos ‘maricas traidores’; oculta-lhe seu imenso arsenal de guerra, mas brinca de ensiná-lo a atirar nas zonas mais vulneráveis do corpo humano; é coruja e mandão, mas não quer que o chame de pai.

                Não à toa o garoto passa o tempo tentando desvendar os mistérios que envolvem sua vida. Entre uma sessão de Playstation e um sermão anti-imperialista do preceptor, examina incansavelmente sua gaiola de ouro para construir e testar uma cosmovisão que dê conta de tudo o o que vê e ouve. Mas só quando Yolcault decide que é hora de sumir por um tempo, tirando-o desse mundo fechado, é que Tochtli vive sua reviravolta existencial: embarca numa viagem delirante que, na volta, completará  todo um ciclo de revelações iniciáticas.

                Festa no covil concentra em suas poucas páginas um panorama impactante e sem moralismos da violência do narcotráfico em meio a outras violências, pelos olhos límpidos e pela  voz  surpreendente de uma criança à beira do abismo de seu destino.”

(Texto da orelha do romance “Festa no Covil”, de Juan Pablo Villalobos. São Paulo: Cia das Letras.2012)