terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Walmir Ayala fala sobre infância nas estórias de Rosa

Walmir Ayala, década de 1960


Na íntegra um dos textos mais belos que encontrei no acervo de Rosa, sobre a temática "infância", nas Primeiras Estórias...

Código Arq. IEB JGR R7,100                                                                            

Título  Primeiras Estórias
Autor Walmir Ayala
Data  02 de outubro de 1962
Periódico Jornal do Comércio RJ
Guimarães Rosa volta à praça surpreendentemente. E nos dando a lição de que, com fidelidade à sua linguagem, logo seremos dono dela.  E se é difícil? Difícil é. Pois  não regate-a  o novo em instante nenhum, e cria um “falar” que nos comunica a entonação certa da região onde é falado; restitui-nos aquele viço popular da formação de palavras a partir de outras, fundindo duas numa só, e o faz de forma a passar logo para os dicionários, isto é, certo, científico, inegável. Palavras como: ‘diligentil’, ‘brumava’, se multiplicam, mas todas perdidas (ou achadas) num discurso de alta poesia em rigorosa prosa, num constante depoimento humano que nos conduz ao inevitável  suspiro de concordância e pena:Mas, a mãe, sendo só a alegria de momentos. Soubesse que um dia a mãe tinha de adoecer, então teria ficado sempre junto dela, espiando para ela, com força, sabendo muito que estava e que espiava com tanta força, ah.”  Depois de tanto atravessar suas selvas, seguimos enfim, quase em totalidade, apreciar o frescor das águas que nos derrama. E é assim, como um verídico hausto de amor que nos chega. Saber contar uma história é assunto superado em Guimarães Rosa .  Isto ainda advogar mais a seu favor, no terreno de lhe acusarem de complicado, porque a ‘estória’ sobrenada à experiência, ao laboratório, e nos fica o seu forte incenso humano, seu sangue e sua doçura de flor silvestre, impregnando nosso atribulado instante:“De repente, a velha se desapareceu do braço de Soroco, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. -"Ela não faz nada, seo Agente... – a voz do Sorôco estava muito branda: - Ela não acode quando a gente chama...” A moça, aí, tornou a cantar, virada para, o povo, o ao ar, a cara. dela era um repouso estatelado, não  queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito  antigo - um amor extremoso. E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém  não entendia. Agora elas cantavam junto, não paravam de cantar.”Seus personagens são sempre simples, os que nada leram, nada mais ouviram falar do que de sucedimento espontâneo e  mágico da vida.Geralmente em sertões que são dissimuladas Bagdás. Delicia-se no entrosamento das onomatopeias para discriminar o instante ou o animal. Tem a permanente visão da paisagem, dando-lhe alma, comprometendo a gente com a  verdura e o panorama. Descreve com uma riqueza em que a imaginação vem servida de um caprichoso vocabulário, trançando verdadeiras filigramas plásticas.
“Senhor! Quando avistou o peru, no centro do terreiro, entre a casa e as árvores da mata. O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração. Estalara a cauda, e se entufou, fazendo roda: o rapar das asas no chão brusco, rijo  se proclamara. Grugulejou, sacudindo o        abotoado grosso de bagas rubras; e a cabeça possuía laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços; e ele, completo, torneado, redondoso, todo em esferas  e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto - o peru para sempre. Belo, belo! Tinha qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento. Sua ríspida grandeza tonltriante. Sua colorida empáfia. Satisfazia os olhos, era de se tanger trombeta. Colérico, encachiado, andando, gruzlou outro gluglo. O menino riu, com todo o coração. Mas só bis-viu. Já o chamavam, para o passeio.”O sentido de acesso de Guimarães Rosa ao mundo que o rodeia é de extremada inocência. Pega pelo sentido da criança, toda a matéria de que necessita. Fala preferencialmente de crianças e ao falar delas vai escorrendo um pensamento multifacetado e inventivo, de bom pueril. Faz sua sabedoria do arrepanhado de sensações de quem vê o mundo pela primeira vez, acrescenta a isto uma cultura que apenas sedimenta as impressões e as legaliza. Pesquisa a linguagem infantil (vide o conto “A menina de lá”) ressaltando  a pureza poética dos seus vestígios, fazendo disso acertos para sempre.Sobretudo, em cada conto começado temos uma história perfeita, sem palavra a mais, que nos dá, acima do conflito sempre positivo pelo movimento emocional de rara beleza e humanidade em que se interpreta, uma definição completamente nova de sombra, do raio, do animal, do verdor, da água, e de mil elementos naturais pelos quais passamos cotidianamente e que nossos olhos não mais distinguem sob o pó do hábito e de nossa nublada solidão.  Então temos em Guimarães Rosa o milagre de ver-o-mundo, nisto reside seu dom efetivamente divino: ele cria inelutavelmente a partir de um material estritamente seu, inimitável. Como contista só lhe encontro paralelo em Clarice Lispector, diferentemente, é claro. Clarice é menos panorâmica, é mais restritiva e febril em sua paixão penumbrosa. Guimarães Rosa faz um exercício rente permanente de saltimbanco e nos transmite lugares inesquecíveis, coloca as pessoas em paisagens certas, reflete costumes tribais de extrema fatalidade, tem muito sol, e uma saudade indefinível em cada alma posta ali em terreiros, matagais, ambientes de intima pobreza. A morte sobrevoa suas histórias-estórias, não podia ser de outra forma em se tratando de um poeta de raro acento. Mas há uma contante para a vida que emoldura seus enredos: para o menino que viajou enquanto a mãe sarava, e que ia perseguido pela ideia dos tucanos, disso tudo criando uma fábula dramática e forte, para este menino ele reserva a frase final do conto assim: “Sorria fechado: sorrisos e enigmas, seus. E vinha a vida”; para o outro menino num simples passeio onde vê tantas coisas, inclusive a estranheza de um peru e sua morte, um menino perplexo diante das coisas inexplicáveis para um menino, para este menino ele  reserva outra frase final, ou seja: “ Era, outra vez em quando, a Alegria”; para Sorôco, acabado de levar a um trem de partida a filha e a mãe, loucas, o contista reserva aquele abrigo:” A gente estava levando agora o Soroco para a casa dele, de verdade. A ,gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.”Assim prossegue, abraçando todos os personagens numa emoção de lágrimas, este grande prosador, sobre o qual é muito perigoso falar com armas de técnica literária, de estilística ou coisas mais. Um prosador para estar nas escolas e na afeição singela do povo, pois o povo as que ele quer comunicar. Difícil, já o dissemos no princípio deste artigo.Mas como atingirmos esta outra facilidade de sua música, se não nos debatermos no difícil de sua cartilha.
E depois, aprendidos em ler, como nos são dadas delícias com seu desenho primitivo e gritante. Quantos revoos para nossa alma vazia, quanta cor para nossa solidão brumosa, quanto amor para o nosso momento de apatia.Prosseguimos o livro: de repente se adensa em considerações sobre o espelho, bem menos eficientes, a meu ver, do que as considerações sobre a vaquinha fugida. Mas é no Espelho que vamos surpreender por um momento a exigentíssima oficina de Guimarães Rosa. Ao confessar-se um perquiridor, surpreendido num determinado ângulo de um espelho, e desconhecendo-se repelindo-se sob esta visão, ele começa a praticar o seu ‘urgir científicos de surpreender outros estágios de fisionomia, então: Operava com toda a sorte de astúcias: o rapidíssimo relance, os golpes de esguelha, a longa obliqüidade apurada, as contra-surpresas, a finta de pálpebras, a tocaia com a luz de-repente acesa, os ângulos variados incessantemente. Sobretudo, uma Inembotável paciência. Mirava-me, também, em marcados momentos - de ira, medo, orgulho abatido ou dilatado, extrema alegria ou tristeza. Sobreabriam-se-me enigmas. Se, por exemplo, em estado de ódio, o senhor enfrenta objetivamente  a sua imagem, o ódio reflui e recrudesce, em tremendas multiplicações: e o senhor vê, então, que, de fato, só se odeia é a si mesmo. Olhos contra os olhos. Soube-o: os olhos da gente não têm fim.”
Eis o homem. Astucioso, incansável, lúcido. Com as palavras o mesmo. Sobretudo sabedor de que os olhos da gente não tem fim. Os olhos de sua inteligência literária são dessa natureza: indefinidos. Mergulhadores incansáveis de um caos enumerável, ordenadores de sequencias latentes de gramática, simplificador de complexidades. Que mais dizer de um alquimista tão inevitável? Nada. Apenas convidar, insistir, impelir, a ler seus contos de “primeiras estórias” onde encontramos os mais belos momentos desse gênero literário no Brasil. E podemos entender melhor o que é o novo. E a quem isso não interessar lhe servirá o eterno, inerente e claro na narrativa de João Guimarães Rosa.
         (Texto retirado da tese RODRIGUES, Camila. Escrevendo a lápis de cor: Infância e história na             escritura de Guimarães Rosa)

domingo, 23 de dezembro de 2018

Salve São Jorge

Porque 2019 será regido por São Jorge/Ogum , começamos com ESSA MÚSICA LINDA

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

RELEMBRANDO 2018 3: Retrospectiva do blog


A tradicional retrospectiva do blog Pequenidades, embora eu tenha escrito pouco aqui esse ano e  a vontade de rever esse ano duro seja quase zero, vamos lá:

JANEIRO – Estava confiante de que ia achar algum trabalho e procurando muito, mas em troca só o grande silêncio. Vi  ouvi Hamilton de Holanda e Armandinho no Sesc Instrumental. Li  a biografia de Van Gogh de David Haziot e amei !
Biografia de Van Gogh

 Neste mês também foi publicado o  meu primeiro artigo sobre meu pós doutorado  sobre  Pedro Bloch e as crianças e eu estava positiva sobre o ano que só começava.
FEVEREIRO – Como quase todo ano, fevereiro é Carnaval... em 2018 foi um desses! Nas escolas de samba cariocas, emocionante foi a Tuiuti e sua crítica social! Mas eu curti demais mesmo foram  os bloquinhos de rua aqui de Sampa. Tentei o pré-carnaval o bloco Pilantragi, mas acho que eles dão certo só para festas e no bloco  não deu muito certo. Diversão mesmo só  nos quatro dias oficiais : começando com meu favorito Tarado ni você! Depois o delicioso Bloco do Sydney Magal e minha estreia no Bloco Lua vai  e a tentativa de diversão no Bloco SP Beats e fez o ano valer a pena!
Elenco de Pantera Negra

Mas fevereiro foi mesmo o mês do filme Pantera Negra! Que sensação! Amei, amei amei!
MARÇO- Embora eu tenha começado bem, ouvindo as sensacionais meninas do grupo Dedo de moça misturarem samba e música erudita  no Instrumental Sesc Brasil e do Red Hot Chili Peppers ter tocado "Menina mulher da pele preta", "esta música linda" no Lollapalooza, março foi o mês marcado por mortes : começando pelo brutal assassinato de Marielle Franco, que ainda não engolimos até agora.  Depois foram mortes na ciência, o físico Steven Hawking e o historiador Hayden White, encerrando uma era da historiografia, na qual eu também fui formada. Sigamos.
ABRILFoi um mês de celebração para mim, fui a dois shows maravilhosos no Sesc Pompéia, o Grooveria, com a minha parceira de rolê Andrea Pereira. 
Eu e Eriane na festa black

Depois  num Baile Black, no qual conheci o Jordan Costa, da banda The Soul Session, sempre louvando Tim Maia, nosso rei! Também em abril eu vi, com a Rosane Pavam, a exposição do fotógrafo Chichico Alckmin sobre Diamantina, coisa linda, lindíssima! 
MAIOFoi o inicio de um período com menos comemorações na  vida,  mas eu comecei a escrever textos sobre a herança africana na canção brasileira, com um texto sobre Jorge Ben, que eu amo! 
JUNHO Se em fevereiro tem carnaval, junho tem Festa Junina, e em 2018 não foi qualquer uma, foi uma Pilantragi, morri de dançar!


Caipirinha pilantra


Divulgação da festa junina
Mas junho foi mesmo um intenso mês de estudos, e  nele consegui escrever sobre canção popular, como este texto sobre o disco Tecnomacumba, da Rita Ribeiro. 
JULHO Foi o mês que curti uma dolorida frustração profissional, por isso postei pouca coisa aqui no blog. Ainda neste mês eu publiquei um texto sobre a herança africana na música de Milton Nascimento, mas o que me salvou mesmo foi a Copa do Mundo, na qual SÓ DEU SENEGAL!Queria todos para mim, mas o mais comentado aqui foi mesmo o técnico Aliou Cissé, que homem maravilhoso!
Um senegalês gentil
 AGOSTO – Em agosto não tinha mais Copa, mas ainda tinha que digerir a frustração de julho, foi  punk, fiquei dias sem forças para sair de casa. Mas aproveitei para ler o livro mais legal do ano, Segredos guardados,  do Reginaldo Prandi, foi maravilhoso. 
Capa do melhor livro do ano
SETEMBRO – Também foi duro. Preocupada com a saúde da minha mãe. Fui a igrejas, a terreiros, a todos os lugares. Logo no começo do mês eu assisti a um show sobre o disco Clube da Esquina 2, muito emocionante. Salvou meu mês. Tive que falar de política no blog, falei bonito, não de forma eleitoreira, mas com propriedade. Mal sabia o terror que seriam as eleições, embora os alertas estivessem sendo dados!
Melhor meme de 2018
OUTUBRO  Eleições, só o terror! Um mês cheio de temor:  #EleNão, fake news, um horror! De bom foi que escrevi mais dois textos, um sobre o primeiro disco dos Afro Sambas, este sobre o lançado na década de 1960, o outro sobre a regravação dele por Baben Powell, coisa muito fina.
Foi meu aniversário de despedida dos "inta" e comemorei lindamente os 39 anos no Memorial da América Latina com as amigas Ana e Karen, depois teve até surpresa de um grupo de samba
a surpresa de aniversário da Ana Matos e da Karen

Amigos que me levaram para um bar para me fazer surpresa
NOVEMBRO – Tudo que temíamos em outubro aconteceu em novembro. #EleNão virou Ele sim e o clima não foi nada tranquilo, novamente. De bom teve o Dia da Consciência Negra, com DJ Hum e tudo mais, e que tive este artigo publicado em uma revista conceituada. Segue o baile.
Baile Soul do DJ Hum 
DEZEMBRO – Inferno astral de Jesus. Imagina, né? Tivemos uma resposta emocionante, sensata e precisa do  historiador Sidney Chalhoub sobre os ataques à história que sofremos no Brasil de 2018, muitos orixás e cansaço deste ano mau. Adeus 2018...

Em breve posto o último da série RELEMBRANDO 2018, e será um balanço  sobre as metas 2018 e as propostas para 2019.



segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

RELEMBRANDO 2018 2: Os 10 Melhores de 2018


Porque 2018 quase só deu ruim, vou tentar tirar leite de pedra e fazer um concurso das 10 melhores coisas  do ano. Tirei muitas coisa e fiquei só com o que quero guardar : 

1 Rolê : Samba do Sol na União Fraterna, uma roda de samba de verdade, nunca me diverti tanto num rolê, voltei cambaleante e sem voz para casa!
A chamada já indicava que a Grande Roda de Samba ia esquentar. Esquentou.

2 Música : "Gostava tanto de você", do Tim Maia, tema do meu ano do desapego de histórias mornas que só me intoxicavam... vida que segue!
Após o exercício do desapego!

3 Livro : Segredos guardados: orixás na alma brasileira, de Reginaldo Prandi, livro libertador e que vale pela melhor citação de 2018, ano em que eu mergulhei fundo na busca da ancestralidade e dos meus submundos de negra brasileira (mestiça) :  
“Mesmo  quando o negro se expressa para afirmar a negritude, a condição africana, não resta a ele fazê-lo senão como um brasileiro. Ainda que o passado ancestral perdido seja a África pluriétnica, multicultural, o passado recuperável  é aquele que o Brasil logrou incorporar  na construção de uma nova civilização, passado que só pode ser reinventado, memória  recriada. Entre o Brasil contemporâneo e a velha África, bem como  entre a antiga Europa e as perdidas civilizações indígenas, situa-se a nossa própria história, que nos impede ou auxilia no reencontro do nosso ponto de partida, nos meandros da civilização que ela mesma engendrou. " p. 172-3 

4 Filme : Pantera Negra, claro! Como toda aquela beleza, toda a ebulição da questão da representatividade, eu também me senti representada, me senti heroína negra descendente de Wakanda como Nakia(personagem de Lupita Nyong'o). Foi lindo ver sempre algum pretinho ou pretinha vestido ao modo do filme! Ele foi indicado ao Oscar de melhor filme, mas aqui já ganhou o prêmio, sem concorrentes! O melhor personagem é o vilão, Erik Killmonger, que disse as melhores frases do filme, como esta: 

Arrepia quando Michael B. Jordan a diz no filme

5 Foto: A solidão fria da estação de trem no Grajaú : muitos caminhos, nenhuma pessoa, só o cinza e o frio, assim como o ano de 2018.
Seetembro de 2018: retrato da solidão


6 Bebida: 51 Ice Limão ou Kiwi, para deixar em 2017 a Catuaba (que não é coisa de Deus) de lado, sem apelar para o Red Label, do MC sapão!

2018 foi ano do ICE!

7 Show
: Tom Zé, Grande Liquidação, novamente grandioso esse espetáculo, onde pude rever Tom, no auge dos seus 82 anos e ouvir de novo o show encerrar com Xique Xique. Depois da decepção com o Zeca Pagodinho, que nem tocou Caviar, voltei ao meu bom e velho ídolo,"bom rapaz, direitinho, desse jeito não tem mais"!



Capa de A Grande Liquidação 1968

8 Roupas e acessórios: A roupa do ano foi esse vestido jeans, bem justinho, que usei com vários lenços e brincos que me deixaram elegante ou divertida com o penteado lateral ou com a juba solta mesmo! Dos acessórios, foi o brinco da "Nó da Nega", "Menina mulher, da pele preta", de Ben, que me serviu como uma Wakanda forever! Até que fiquei bem na foto em 2018.


Brinco de Jorge Ben

Vestido Jeans

9 Conquista: Publiquei numa revista A1 (Topoi UFRJ) ,um artigo que tinha sido recusado por tantas revistas menores, essa era uma das minhas metas para 2018! Depois ele foi citado na Scielo. Sucesso!
Quando achei que nunca...

10 Preto do ano: A lista de concorrentes era enorme, mesmo tirando os que eu não conheço pessoalmente porque, glória a Deux que conheci muito preto esse ano, e meu critério para a escolha era "o que eu senti perto dele", mesmo assim tinha dado empate entre o pizzaiolo de coroa africana das Caldeiras e o "mestre sala" do Samba do Sol, pois os dois me fizeram sentir uma rainha, beijaram minha mão e derreteram meu coração. Escolhi o mestre sala, porque ele não fez isso só comigo, sua presença animou a mulherada da União Fraterna aquela noite. Precisamos de mais pretos assim em 2019!   
Sujeito sabe tratar uma mulher!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

NEREU GARGALO : RESPEITO PELA VIDA DE UM NEGRO DE SUCESSO!

No Gargalo do Samba

Assistindo ao  doc  “No Gargalo do Samba”, de Águeda Amaral, em 6 de dezembro na TV Brasil, sobre o pandeirista Nereu Gargalo, um mito do samba brasileiro filme que  me foi muito bem recomendado pela Rosane Pavam, pensei muitas coisas, mas senti bem mais. Primeiro pensei que é tão lindo quando um artista é homenageado ainda em vida, e num filme tão bem feito, cheio de camadas, planos, som e emoção, a hermenêutica do sujeito em estado puro ali (cinematograficamente eu sou super fã de documentário, como alguns sabem). Nesse doc vemos e ouvimos vários Nereus: o senhor de idade, o jovem migrante rememorado, o menino constantemente presente, as histórias do samba, o pandeiro. Uma vida, contada e tocada.
Um belo senhor, de idade já avançada, mas ainda bonito, altivo e falante, a expressão verdadeira na fé nos orixás sempre margeando cada passo da sua trajetória...tantas coisas conquistadas no ramo da música, o começo do samba roque,  do suingue, o Trio Mocotó que tanto brilhou, o contato com Jorge Ben (claro que tinha que ter esse) que são louvadas no filme e elegantemente filmadas em Preto  Branco... mas orgulhoso mesmo Nereu  ficou quando exibiu a  família, o filho, a nora e, espcialmente, a esposa, numa linda cena em cores, caseira, como fosse o registro do "descanso do guerreiro"... o ninho.Me emocionei tanto!  E mais, desejei aquilo para mim, algum dia.
Lembrei do meu pai, lembrei que surgi na vida dele nessa fase ai, do descanso do guerreiro, quando as fotos e vídeos eram em cores, não mais aqueles retratos em branco e preto , tirados no centro da cidade, de quando ele veio para a capital.Que respeito eu tenho pela vida das pessoas, pelo que elas construíram. 
Em algum momento do filme Zuza Homem de Melo diz que samba rock surgiu quando o suingue atingiu um grau tão elevado que "SÓ NÃO DANÇAVA QUEM NÃO SABIA DANÇAR". Discordo. Não sei dançar Samba rock, mas isso não quer dizer que não danço! :p
Assistam esse filme, dancem samba rock, mesmo sem saber, em homenagem ao Nereu, ele merece! 

sábado, 8 de dezembro de 2018

Oxum e Aparecida: semelhanças


Aqui no sudeste Oxum é sincretizada com Nossa Senhora Aparecida e sou devota das duas desde muito menina. Na última vez que estive numa roça, ia tomar um  banho de ervas, pois estava triste, desesperada e sozinha, olhei o alto do quarto e em cima da porta, lá estava uma imagem de Aparecida, sorri e pensei: até aqui? É mamãe Oxum, me acompanhando.
Hoje, 8 de dezembro, dia de Mamãe Oxum, copio aqui o texto "NOSSA SENHORA APARECIDA E OXUM. O QUE ELAS TÊM O QUE EM COMUM?", Por: Mônica Raouf El Bayeh, disponível neste link:

Você é filho de quem? Qual mãe é a sua? Quem te protege quando o tombo é tão feio que nem do chão você levanta? Esparramado no chão, gemendo, morto pena de si mesmo, a quem você pede colo?
Precisamos de mães. É fato. Porque engatinhamos nas artes da vida. E é muito duro se sentir completamente só nessa caminhada. Mas precisamos de mães que durem mais que as nossas. Perdoem e aceitem mais que as nossas. E, se possível, tenham influência com o gerente lá de cima. Porque tem horas que vou te contar...
Hoje é dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Ou seja, ela é quem dá uma força por aqui. Hoje também é o dia de Oxum. O que elas têm em comum? Tudo!
São mulheres. São negras como a maioria do nosso povo. São mães. Sensíveis se comovem com nosso sofrimento. Se compadecem de nossas dores. São generosas como os rios e as cachoeiras. Nos guiam para a fartura, a vida e a fartura da vida.
A imagem de Nossa Senhora Aparecida foi achada num rio. Primeiro o corpo, depois a cabeça. Depois vieram os peixes que os pescadores precisavam. Tantos que o barco quase afundou.
Oxum é a rainha das águas doces dos rios e das cachoeiras. Oxum é a mãe que chora junto. É orixá dos sentimentos. Coincidentemente, também da generosidade, da capacidade de gerar frutos de várias formas.
É pelos sentimentos que frutificamos ou secamos. Quantas criaturas reclamonas, amargas e secas nós conhecemos? Puxe da memória! Faça sua lista. Quantos trambiqueiros que acham que só conseguem subir usando os outros de escada? Seres que não percebem que é o que brota deles que gera pobreza ou riqueza.
A pior das pobrezas é a do espírito. É não perceber que pode brotar, florir, repartir. É se perceber vazio e ali estagnar. Onde há estagnação, não há vida. Vida é rio, é cachoeira. Vida é soma de afluentes, mistura, tudo junto ganhando força e crescendo.
A capacidade de amar e ser amado. A riqueza de dividir e ver o outro crescer. A ousadia de, mesmo com medo, arriscar. Mergulhar, lançar a rede, insistir. Isso é a vida. E se não der certo, senta e chora. Depois tenta de novo. Isso é Oxum.
Nem sempre conseguimos de primeira. Essa é a mensagem de Nossa Senhora Aparecida. É preciso empenho. E, principalmente, fé. Porque sem fé, os pescadores já teriam desistido de pescar naquele lugar e ido embora.
Eles insistiram. Pediram e ficaram tentando. Ficaram pela fé. É preciso ter fé. Sempre. Mas é preciso mais. Vida exige atitude. Embarcar, Jogar a rede de um lado, jogar do outro. Sem trabalho nada é possível.
Oxum, a orixá chorona, nos ensina que a gente pode chorar. Por que não? Num mundo onde tudo parece tão árido, as lágrimas limpam, regam, hidratam. Oxum chora. Muitos dizem que ela já chega chorando. Por que? Não sei detalhes, perguntem a ela.
Mas me parece que a grande lição que essas mulheres negras e fortes querem nos passar é que, às vezes, a correnteza é forte demais e a gente não dá conta. E tem, sim, o direito de sentar na margem e deixar a alma transbordar pelos olhos. Só não tem o direito é de parar de tentar.
Salve Oxum! Salve Nossa Senhora Aparecida!

RELEMBRANDO 2018 1: Imagens de Camila

Em dezembro vou tentar digerir o que foi o duro ano de 2018 de diversas formas,, a cada semana. 
Começo no  melhor estilo "Já acabou, Jéssica", comprovando, mês a mês, como  2018 veio acabando comigo! Glória Deuxxx!