quarta-feira, 22 de julho de 2020
"A História contra os mitos da lusitanidade em José Saramago", Camila Rodrigues
domingo, 19 de julho de 2020
“Ceddo”, Senegal, 1977, direção Ousmane Sembène
As cenas de disputas políticas e brigas são cruas e diretas, dá até uma agonia ao assistir os africanos que, para sobreviverem ou não virarem escravos, tiveram que que se desfazer de suas coisas, de toda a sua simbologia, para se convertem a Alá, que é uma divindade que nem conheciam. Aquelas cenas deles raspando os cabelos, desfazendo-se de deus símbolos, saindo da frente do rei e sentando-se atrás nas reuniões da tribo, pois agora Alá teria tomado o poder do rei e toda a antiga hierarquia estava sendo desconfigurada. No filme aparece um resumo, mas esse processo deve ter durado mais tempo para ocorrer e eu só me lembrava do longo trabalho de tentativa de resgate cultural, inclusive feito aqui no Brasil, pelas religiões afro-brasileiras e outras organizações culturais de negritude. Este retorno pode ser possível, ainda que não se retorne a exatamente a mesma coisa, mas é um processo bem longo. No filme,estranhamos assistir ao início de todo aquele complexo processo histórico de apropriação cultural e colonialismo ocorrido em África onde se iniciaram as diásporas, que no filme aparece sintetizado em personagens alegóricas "a realeza", o mercador", o cristão", o islamita. A sensação é bem estranha, chega a faltar o ar em alguns momentos.
quinta-feira, 16 de julho de 2020
Consulte um historiador
O maluco é que este autor já vinha mexendo comigo como leitora, me fazendo pensar e repensar sobre expectativas, como já comentei aqui , mas não tinha ainda pensado em mim como HISTORIADORA LEITORA, talvez porque a condição de historiadora esteja tão incorporada na imagem que tenho de mim mesma, que não preciso reforçá-la. Talvez, para ele, autor, eu precise. Expectativas!
segunda-feira, 13 de julho de 2020
"Félicité" , Senegal, 2017, direção Alain Gomis
![]() |
| cartaz do filme |
O filme escolhido pelo Senegal a concorrer ao Oscar, conta a história da bela Félicité, uma mulher que ganha a vida como cantora em um bar de Kinshasa, Congo para criar seu filho Samu, de dezesseis anos, que logo no início da trama sofre um acidente e ele precisa recorrer à saídas possíveis e impossíveis para conseguir dinheiro para pagar seu tratamento. Nesta busca, nos leva a passear por locais miseráveis e também de alta classe, nos apresentando um retrato cru da preferiria congolesa, mas sempre através do filtro do seu forte olhar.
![]() |
| Véro Tshanda Mputu interpreta Felicité cantando |
A
protagonista do longa de mais de duas horas é Felicité, interpretada pela atriz
congolesa Véro Tshanda Mputu, que consegue dar vida a personagem inabalável,
que luta pelo que deseja, sem ceder a dramas, mas sempre alcançando uma libertação
através de seu canto capaz de enfeitiçar. As cenas em que aparece cantando,
além do poder libertador da música, primam pelo zoom em seu rosto negro e
sincero, como em alguma espécie de transe. Outra coisa interessante é que de
madrugada, em segredo, ela costuma ir a
floresta se banhar, em cenas pretas, com desenhos de penumbra.
![]() |
| Samu e Felicité |
![]() |
| Felicité se desfaz das tranças |
Em
outro momento, uma passagem muito significativa do filme, depois que seu filho,
enfim, retorna ao lar e as mulheres do
entorno lhe fazem uma visita de cortesia, se compadecendo de seu drama, Felicité
que até então usava longas tranças, corta ela mesma os cabelos, como uma
guerreira, pronta para uma próxima fase na vida.
![]() |
| Periferia de Kinshasa |
Mas embora o filme se centre na história de Felicité, cabe dizer que para contá-la, o filme mostra cruamente uma realidade muito feia e dura da periferia de Kinshasa,muita miséria, justiça com as próprias mãos, golpes... até uma menina pequena e escolhida aleatoriamente na rua, é oferecida para que Félicité a venda e pague a cirurgia do filho! Para contrastar com realidades tão duras, Alain Gomis insere algumas longas cenas líricas, com uma orquestra cantando e e tocando música clássica, . O resultado é intrigante!
Ao final, de alguma forma, ela e Tabu,que são uma mulher e um homem belíssimos, acabam de entendendo, na suas necessidades e limites. A cena mais linda, de um amor puro mesmo, invejável, é quando eles, dormindo na mesma cama, um sobre o outro, apenas se olham, tudo está posto ali, não há necessidade de mais nada.
![]() |
| Félicité e Tabu:Não precisam de mais nada |
Mas ele faz ainda mais: quando ela adormece, ele se levanta, cobre seu corpo, e fica cuidando, como fez o tempo todo, do seu jeito meio torto. Até me emocionei nesse trecho
![]() |
| Félicité e Tabu: se acolhem |
A LIVE COM MARIA ZENUM
![]() |
| As duas na live |
A estudiosa passou um panorama rico dos
fluxos dos festivais de cinema em África, especialmente do
FESPACO, que embora tenha problemas faz concessões para sobreviver. Sobre
o filme Felicité, seria dividido em quatro partes: 1 - a primeira cena
no bar, Felicité cantando muito, depois muito ativa em casa, expressando seus
desejos por palavras, e a primeira cena mostra todo mundo e ninguém, num
ambiente escuro, quer que a gente se sinta naquele bar, ouça aquela música,
veja outras coisas; 2 - a parte do hospital e de toda a busca de Félicité
pelo filho, na qual ela se rasga, mas no fim não consegue;3 -A tristeza e culpa
de Felicité por não ter conseguido ajudar o filho, ela para de cantar, conta as
tranças, vai parando de falar e vai ficando cada vez mais apática e a gente não
aguenta sua tristeza e acha que o filme poderia ser mais curto; 4- O afeto
de família entre ela Tabu e Samu, que de alguma forma se entendem, se
acolhem e é muito bonito . A cena em que ela, Mama, enfim baixa a guarda e
deita a cabeça no ombro de Tabu, Papa, como se o aceitando como ele é, é
maravilhosa!
Eu, na ocasião
domingo, 5 de julho de 2020
Pelas pontas dos dedos : Lendo "A via crucis do corpo", de Clarice Lispector
![]() |
| Clarice Lispector. "A via Crucis do corpo" 1a. ed.. Rio de Janeiro:Artenova Capa Salvio Negreiros, 1974 Naquela grande faxina do começo da quarentena, em março, achei livros que havia esquecido que eu tinha e não achei um (Do Desejo, Hilda Hilst) que tinha certeza que tinha, mas não tenho. Os da Clarice Lispector que tenho, e amo, estão todos aqui. Apenas seleção de favoritos. Mas ter encontrado esse me surpreendeu. Não lembro de ter lido. Ele tem uns sublinhados, mas não fui eu, de olhar eu não reconheço esse texto, ele foi comprado em um sebo e custou R$5.Uma primeira edição de Lispector, com uma capa muito estilo "perto do coração selvagem" da vida , por esse preço?! Quando achei, tirei o pó e guardei de novo na estante e esqueci. Agora, meses depois, pensei em me aproximar deste estranho e ler, por isso o resgatei, agora, depois da juventude, ler (não reler) Clarice, como será? Na nota introdutória achei a velha Clarice: genial, pena que se leve tão a sério. Mas isso tinha uma justificativa que é claramente reiterada ao longo do livro: A obra nasceu da necessidade financeira da autora e foi feita a toque de caixa e para atender uma encomenda: Um livro de textos eróticos. Em 1974 Clarice tinha seus pudores, o maior deles era o medo de que, um dia, seus filhos viessem a ler a obra! Mas a necessidade, muito mais do que a ocasião, faz o ladrão! O fato é que o livro, bem curtinho, falha à proposta encomendada de ser literatura erótica,palmas à ele, não não por não ter muito muito erotismo (talvez fosse bem vindo),mas por se recusar a ser "de encomenda". Eu sei que falha porque sou uma leitora de Hilda Hilst - a diva da literatura erótica nacional - desde menina, sei o que é literatura erótica e sei que os textos de Clarice, nesse livro, passam perto, mas não saem das margens. Interessante é que Hilst também fica à espreita dessa leitura, tanto que comecei o post citando um livro dela, ausente em minha biblioteca. Mas voltando à Clarice, eu me compadeço dela, compreendo seu pudor, e concluo que do jeito que está, muito ao modo Lispector, o livro ficou bom, Nem precisava ser mais erótico, pois todo texto de Clarice, aquela ficção desvela as cascas e armaduras. Porém, em meio aos textos de ficção, insólitos, quase obscenos, dramáticos e até engraçados, ela insere alguns depoimentos muito doídos (para ela e para nós), que em sua maioria, tratam da dor de escrever aquele livro:
Em uma dessas crônicas, senti o primeiro arranhão no meu peito com o seguinte trecho sobre um fracassado :
Todo escritor carece de um bom leitor para si, eu sei que não sou sou boa leitora de alguns grandes autores, como Machado de Assis, mas da Clarice eu acho que sou uma leitora bem razoável. Digo isso, evidentemente, porque ela consegue me dar as porradas que deseja. Mesmo com esse livrinho erótico de açúcar, me roubou uma noite de sono, a qual passei amarguradamente ouvindo Danúbio Azul:
Não sei se o período da pandemia, da quarentena, do isolamento social ao qual estamos submetidos agora é o melhor para se ler Clarice, mas eu li, precisei ler, e precisei ler agora, Nada acontece por acaso. Dizia uma a professora de literatura brasileira na USP de quem fui aluna, Yudith Rosembaun, que a gente não sai da leitura de uma obra de Clarice do mesmo jeito que entrou. A professora repete e amplia essa ideia neste vídeo. Enquanto isso, nesse domingo de inverno, vou continuar a ouvir Danúbio Azul. |
quinta-feira, 2 de julho de 2020
Eu: leitora de Milton Hatoum
![]() |
| 4 livros na estante |
Desde o ano passado eu falo frequentemente deste autor, vocês devem ter
percebido. Foi uma "descoberta" de 2019 e fazia tempo que não me deparava
com um autor desta forma e isso vem modificando minha postura como leitora. Não
foi por querer, mas em um primeiro momento eu encontrei o texto de Hatoum como
uma verdadeira historiadora lê suas fontes : realmente lê, mergulha, aceita ou
rejeita se possível, aprende algo com ela, sem conhecimentos externos, sem
ouvir entrevistas do autor, sem saber quantos livros, quais são os romances, se
há crônicas, se há contos, simplesmente lê.
Eu gosto muito da forma como ele
escreve, isso em todas as obras, de algumas gosto mais do que em outras, mas sei que esta
qualidade de bom escritor está sempre garantida, por isso ele me acompanhou em
momentos difíceis de longas espera em hospital em 2019, dessas coisas a gente
não se esquece. Dele eu li somente os romances, e com eles aprendi muito sobre o que seria
escrever um romance no Brasil contemporâneo através dos seus questionamentos.
Por curiosidade, achei esse depoimento de Ricardo
Ballarine sobre a leitura de algumas obras de Hatoum e apesar de eu já ter
escrito um post sobre minhas primeiras impressões a cada romance lido, agora,
decorridos alguns meses, quis sintetizar
um pouco a minha impressão sobre as quatro primeiras obras.
De todos, o meu favorito é o Relato
de um certo oriente (1989) , primeiro que ele publicou e o segundo dele que
li e sobre o qual comentei aqui.
Mas gostar ou não de um livro tem a ver com muitos fatores, nosso repertório literário ou expectativas de
leitores, por exemplo, o Ricardo Ballarine, no texto comentado acima, disse que
tentou ler por duas vezes, na primeira largou e na segunda, “pelo menos”,
conseguiu terminar, o livro que li e reli tantas vezes e aplaudi sempre. Mas não recomendo começar por ele, fundamental
é provar primeiro o gostinho de Hatoum. Desde
o início percebi que o volume é difícil de ler para leitores mais habituados a uma
narrativa mais fluída, mas talvez por isso mesmo seja um livro imprescindível.
E não é apenas pela ourivesaria (na minha primeira impressão de leitura eu já usava essa mesma palavra) com as palavras que o torna peculiar, mas também a estrutura
do texto que me lembra a de alguns reconhecidos autores estrangeiros,
especialmente os que tratam da narrativa de memórias de refugiados europeus que
li , como W. G. Sebald, cujas obras dialogariam
facilmente com o romance ambientado em Manaus no início do século XX. O
interessante dessa obra é que ela mostra coisas novas , sem mostrar
claramente (ele garante o beneficio da dúvida sobre se é aquilo mesmo, o tempo
todo), muitas que não desejamos enxergar o que eu chamaria de boa literatura,
isso pensando mundialmente.
A terceira leitura foi Cinzas do
Norte (2005) ,
que comentei aqui.
Achei muito diferente dos dois primeiros, muito menos poético ou sensorial, foi
a primeira vez que senti aquele vazio de
esperar algo tão grande quanto o que ele já havia me oferecido, mas não ser
atendida. Também por isso o Cinzas
demorou a chegar até mim, mas chegou, muito mais pela razão do que pela emoção,
como havia sido nos dois primeiros. Estava lendo um escritor, um escritor
brasileiro, foi muito bonito constatar isso. Depois que terminei essa leitura,
comecei a ouvir um pouquinho o que ele
fala e me deliciei ao perceber como ele sabe o que é um romance, o que
significa escrever um romance no Brasil e essa contribuição me fez gostar do Cinzas. Até agora é meu terceiro
favorito.
O quarto livro é o Orfãos do
Eldorado (2008) não é um romance e eu só percebi durante a leitura, e isso me
fez estranhar muito o livro de cara, como comentei aqui
, enquanto lia não sabia o que era, até pensei que pudesse ser um poema, mas o
ouvi explicar que se trata de uma novela encomendada. Lamentei um pouco, porque
ele trata de lendas manauaras, é tão bonito, mas falta mais recheio e se fosse
um romance, não faltaria. O choque da comparação entre os dois primeiros e os
dois últimos livros dele que li me fez ficar um pouco decepcionada e eu
resolvi parar de ler um tempo. Podia ler os contos, as crônicas, mas dei um
tempo mesmo.
Embora eu saiba que Hatoum não
precisa corresponder às minhas expectativas,
não posso calar meu desejo, muito menos o fato de que ele não foi
atendido. A psicanálise já explicou como é difícil, ou até impossível, ao ser humano superar uma frustração. Até
mesmo se ela for de leitor(a) e é preciso falar dela, por isso precisei voltar
ao tema dos primeiros romances de Hatoum, apesar de já ter começado a ler a
trilogia O lugar mais sombrio , acho melhor falar deles só depois de ler os
três, por enquanto ainda preciso tocar nessa ferida, “a perda do meu autor
querido”, e o questionamento sobre a possibilidade ou impossibilidade de gostar
dele, da forma como ele vier.
sábado, 27 de junho de 2020
“Yeelen” ( A Luz), Mali, 1987, direção Souleymane Cissé
Sobre a experiência ímpar de
acompanhar uma mostra de filmes africanos e ter acesso a uma visada totalmente
nova das coisas, da vida, dos lugares e das pessoas, eu sempre falei bastante.
Mas quando li aqui as
palavras de Janína Oliveira (pesquisadora do Instituto Federal do Rio de
Janeiro IFRJ) sobre o que, na verdade, seria
o Cinema Africano, tudo de encaixou: “um
cinema feito por africanos, com temas
africanos, para um público africano”, diferenciando-se de cinemas
apenas rodados em África, ou mesmo uma versão tortamente exterior de africanos
ou mesmo daquele continente. Segundo Oliveira, alguns cineastas se enquadraram
nesse objetivo inicial da cinematografia africana e até conseguiram
assinar uma escola própria de cinema em África, que retratava e propunha
questões políticas do continente no cinema, como é o caso do senegalês Ousmane
Sembène , do
mauritano Med Hondo e até das primeiras obras do maliano Souleymane
Cissé. Como outros cienastas africanos, Cissé também foi estudar cinema fora da
África, na antiga União Soviética, como mandava o contexto da Guerra Fria e
toda a discussão anti colonial
Na
cinematografia de Souleymane Cissé , “Yeelen” marca um momento de
virada de chave, quando ele deixa um pouco de lado as questões político-
sociais e volta-se à temática mais local, filmando a adaptação de uma antiga
lenda oral do século XIII. O filme conta a história do jovem Niankoro,
interpretado pelo belo bailarino Issiaka Kane:
Sua missão é escapar da maldição
lançada pelo seu próprio pai Soma em uma disputa ferrenha, baseada na
cosmologia e nas crenças Bambarra. Na história, Niankoro
também tem poderes visionários e na sua busca pelo enfrentamento o pai,
consegue salvar uma aldeia, na qual ganha do rei uma esposa, Attou, mas
não pode se esconder do enfrentamento final com Soma, o qual resulta um
encerramento, mas também em uma semente de futuro. Na imagem vemos a então
rainha mais jovem Attou sendo tratada pelo Niankoro
por causa de sua infertilidade:
O filme não é tão solar como as aldeias do Senegal de Sembène, até porque ele retrata vários povos e locais, desde regiões mais escuras, como o lugar onde Niankoro vive com a mãe no começo do filme, lugar menos seco, onde sua mãe se banha no leite, conversando em oração com a “grande mãe” em um ritual belíssimo, onde podemos ver algo que acontece em todo o filme: os corpos negros nus, mas sem erotização, em num contextos ritualísticos ou não, aqueles corpos não são objetificados, apenas são eles mesmos apensa sendo:
Além disso, os lugares do filme apresentam pedreiras
douradas, até lugares mais íngremes, como os chãos secos pelos quais viaja até
chegar ao reino. Em uma das mais belas cenas do filme, Em belas cenas de luta é de se observar as
pinturas na pele do rosto em laranja, branco e azul,
tornando a cena mais bonita:
No curto período em que Niankoro viveu no reino que ajudou a salvar, reparei que o rei e a sua esposa mais jovem se vestem de panos laranja, como se essa fosse a vestimenta real. Muito bonito. Esta é Attou, uma bela africana:
Na live com Janaína Oliveira, em 27 de junho, foram
abordadas algumas questões relevantes, como o fato de, até pelo fato de que
Cisé desejava, a partir desta obra, não ser mais visto como cineasta político e
não mais apresentar claramente questões graves como o histórico colonizador, mas
flertar com a possibilidade de contar outras histórias, tentar outras formas de resistência, como apresentar
mais o “o de dentro” , voltar-se para a cultura Bambará e, com isso, tentar descolonizar nossa
percepção. Isso seria uma outra forma de abordar tema político, mas que para os
olhos ocidentais, não trariam questões tão relevantes, afinal ficaria tudo
inserido na categoria exótica: África ancestral e bonita,na qual o ocidental
não vê maiores significados. No entanto o filme é repleto de símbolos e
significados opacos aos olhos de quem não conhece a tradição malinesa, que
nunca é explicada no filme, é apenas sutilmente apresentada, compondo uma história
que rompe com as conexões necessárias na forma de narrar ocidentais. Não deve
ter sido à toa que, desde que comecei a ver o filme, lembrei de Guimarães Rosa:
não importa se não entendeu alguma passagem, porque não vou entender muita
coisa mesmo, o importante é continuar a
assistir, uma hora alguma coisa ou tudo faz sentido.
Com essa montagem que recusa a se explicar, que renega a
transparência ocidental, o filme aborda uma questão de fundamental importância
local : quando o pai não quer abrir mão do seu poder para deixar ao filho
estamos tratando da luta pelo poder entre gerações que, na verdade, significa
uma luta para não extinguir as tradições, mas um esforço pela continuidade daquela
cultura antiquíssima.
Nesse belo e poético filme vemos ser questionado, o tempo todo, nosso olhar estanque sobre a África tradicional e a ancestralidade, pois ele mostra que existem outras formas de se contar histórias, formas que não precisam, necessariamente, passar pelo filtro colonizador.







































