domingo, 13 de fevereiro de 2022

Feminino de anjo é Anja: Nem sinal de asas, de Marcela Dantés

Capa de Leonardo Loft, 
Com indicações de prêmios



Como um ponto de partida para explorar a que pé anda a literatura contemporânea, gosto de explorar,  um pouco, a lista de romances indicados ao Jabuti, nem todos os livros me interessam, tem os que eu já li, tem os que gostaria de ler, mas sempre vou dar uma olhadinha nas resenhas deles, eles podem me abrir para outras publicações, é bem interessante. No caso da lista de 2021, só tinha lido , e amado, o maravilhoso "O avesso da pele", que acabou vencendo a competição, dos outros, apenas "Nem sinal de asas" me interessou. Portanto, eu quis muito ler essa ficção desde o ano passado, mas tinha longas leituras sobre figuras femininas em curso (biografia da Elza  e Tereza Batista cansada de guerra),ele entrou para a lista de 2022 e não me arrependi mesmo. 
Foi especial desde quando o  comprei na loja da Editora Patuá, e sabia que ele ia demorar para chegar, mas estava imersa na heroína do Jorge Amado, não teve problema, o mais importante foi que  aproveitei a promoção do dia do leitor, ganhei de presente o livro de contos "O sêmen do rinoceronte branco", de Cintia Kriemler, outro livro e a compra possibilitou que um livro fosse doado a uma biblioteca pública, muito bom !
O romance e os contos 

IMPRESSÕES DE LEITURA 

Foi uma leitura rápida, mas bastante registrada em postagens nas redes sociais, em pelo menos quatro  momentos , começando com primeiras impressões no dia 1 de fevereiro:
 

Dias depois, um recorte imagético do romance e meu interesse por outras linguagens no romance :

Dias depois, já ambientada com o contexto soturno da história de Anja, até me emocionei com o romance:
Enfim, o baque  da proximidade do fim do romance e o contato com as questões que ele aborda, numa postagem sofrida:

Me trouxe tão forte sensações de Torto Arado. Dureza.

                                                    

INTERPRETAÇÕES E IDENTIFICAÇÕES: 

DULCE : Contando a história de Anja, filha de um Francisco, um homem negro que morre na infância da menina, e Dulce, uma mãe branca amorosa e difícil, com quem ela convive até a morte, que no romance parece ser sempre um ponto de questionamentos. Dulce ama a filha, depende dela (física e emocionalmente), mas nunca a aceitou como era. Nunca aceitou sua negritude. Quando bebê, tentou clarear a pele da menina, queimando sua pele com suco de limão e expondo-a ao sol, causando feridas rosadas no corpo todo, marcando-a para sempre como a preta manchada, como "rosas cálidas", e gerando culpa infinita pelo que fez com sua filha. Quanta dor! Mas também os "cabelos de Anja", crespos e negros eram para Dulce uma afronta, como percebemos nesse belo e terrível  trecho lido . A minha sorte é que, não sei como, acabei construindo uma opinião própria sobre mim mesma, que pode passar como arrogância, mas eu gosto de mim, mesmo tendo ouvindo o contrário, toda a vida. Na leitura do romance, devo pontuar que Marcela Dantés até usa de um humor cinza em alguns momentos, mas não consegui rir muito, mesmo sabendo que é , é possível enfraquecer a importância desses ataques, transformar em piada, que se minha existência ofende alguns,  sempre tem quem vai gostar de mim, mas até ter força para ressignificar isso o tempo, é preciso bastante tempo de prática. Uma coisa que cansa e muito.

A SOLIDÃO: Para uma mulher preta, convivendo toda vida com a inadequação, é claro que o tema solidão pontua toda a vida. Como já comentei, Anja é uma personagem ficcional, então na sua história permite-se alguns exageros. Anja não gosta de gente, não gosta dela mesma, na trama percebemos como seu isolamento social é detalhadamente construído durante a vida toda, a menina preta de cabelos crespos; a menina com manchas que não frequentou a escola na infância como todas as crianças, porque tinha que  esconder o que ela era do resto do mundo para não ofendê-lo. Ninguém é obrigado a olhar a cara da rejeição o tempo todo, entendo tanto as tentativas de Anja de se isolar, o medo do abandono, a dúvida sobre se ela merece contato, como as outras pessoas. Deu certo. Ela simplesmente foi esquecida, em vida e depois de morta. Como eu? Muito triste isso. Se comecei achando a leitura de boa, confesso que fiquei bem mal quando cheguei no final do romance, me sentindo menos que nada, talvez como Anja tenha se sentido na vida e na morte. Tenso.

A MORTE : Para quem vive uma vida assim como a de Anja, a morte sempre foi uma saída, cansativo é viver. Eu sei disso porque eu sempre dizia que ia viver até os quarenta anos (não aguentaria mais do que isso) , estou resistindo à previsão. Mas muito porque eu tentei demais pertencer ao grupo VIDA,  dei muitas bananas para a morte, mesmo que isso me causasse exaustão. Na pandemia, especialmente, o cansaço veio de forma física e emocional, ai voltei ao contato com pessoas na academia (diferentes de mim, mas de quem eu posso gostar, e elas também podem gostar de mim, essas sutilezas que oxigenam a vida, mas que Anja não viveu). Não quero a morte, não quero me acostumar com o cheiro de morte na vida, por isso reajo, reajo o quanto posso. 

Enfim, não consigo mais escrever sobre esse livro, mas aos corajosos (especialmente às corajosas) , recomendo demais esse grande livro de Marcela Dantés,

sábado, 12 de fevereiro de 2022

"Vou rifar meu coração" (2011), dir Ana Rieper


 Por indicação de um grande amigo, assisti ao documentário  Eu vou rifar meu coração, de Ana Rieper e adorei! 

É tão verdadeiro, coloca questões tão importantes: na hora que dói o coração, todo mundo sofre, seja rico ou seja pobre. Quem discrimina, fica separando MPB de brega está apostando no preconceito, seria uma bobagem, se não fosse um absurdo.

Ouvindo os depoimentos de pessoas "normais",  casados infiéis, amantes, gays, travestis, ciumentos, etc... ninguém escapa dessa!

Tem frases impagáveis:

"Você chama de música brega, mas pense se não é tudinho a vida da gente "

"Uma pessoa quando tá apaixonada, ela fica ridícula."

" Como você falou de música brega. Tem umas músicas brega que passam, tem umas da peste que é igualzinho a vida da gente
E é qual?
Pra mim? São todas! Porque é cada uma diferente da outra e cada uma toca num ponto fravo meu, eu acabo de me matar"

"O amor não é um encontro de orgasmos, é um encontro de almas" 

"Homem é pra gente gostar só na hora da transa (...) Eu li num livro que a paixão é a coisa mais brega do mundo, consome o ser humano!" 

"Seu eu fosse rica ei queria tomar um bom vinho na frente de uma lareira, beijando gostoso na boca, e fazendo tudo que Deus permitisse que eu fizesse e muito mais, porque o beijo bom é aquele beijo gostoso, com gosto de vinho, com gostinho de cigarro, com gostinho de lareira, ai como é bom. E a gente beija em cima e acende embaixo, isso é tudo de bom. Ontem a noite passei a noite todinha fazendo isso, só faltou a lareira"  


Eu, que adoro esse tipo de música, sei que vou ficar revendo toda hora, mesmo que for só para ouvir a trilha sonora!  Recomendo demais esse filme! 



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Semana de 1922: cem anos depois

 



Caixa comemorativa do Modernismo


Interior da caixa

                              

"... A única arte excelente - a que fixa a realidade em função transcendental."
(Oswald de Andrade
❤️
"Escolas e ideias", 1922)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Lendo as "notas para uma definição de leitor ideal", de Alberto Mangel

"Notas para uma definição do leitor ideal"
Alberto Manguel

Presente de aniversário que ainda não tinha parado pra ler. A ideia nunca foi ler de cabo a rabo, mas uma nota por vez, eventualmente, em meio a outras leituras. Hoje comecei pela última nota, com o mesmo título do livro, e que na verdade é um esquema comentado sobre leitores e leituras, dentre as páginas 163 e 166.
Tem pontos que me identifiquei muito como "escrever às margens é marca de um leitor ideal". Claro! Acrescento: marginalias são a memória de uma leitura concluída, quantas vezes achei que nem tinha lido o livro, mas ele está todo marcado e a lembrança floresce, pois estava capsulada em algum lugar. Ainda sobre esse ponto, a nota :"leitores ideais mudam com os anos...a experiência embaça o brilho de certas coisas". Ou não. Li Guimarães Rosa muito nova, me apaixonei pelo som, e ele nunca deixou de brilhar para mim, mesmo que minha leitura tenha se modificado drasticamente.
Dentre as notas, tem as com as quais não me identifico, como "o leitor ideal é alguém com quem o autor gostaria de varar a noite bebendo vinho". Cada vez mais acho que os autores me odeiam como leitora, mesmo com os que eu amo e admiro, acho que  há sempre uma tensão forte, às vezes fujo dos autores, talvez porque "o leitor ideal é (ou parece ser) mais inteligente que o autor e não joga isso na sua cara" . Especialmente porque sou o tipo de leitora que " não acompanha a história: participo dela" (sem isso não tem como), porque eu sou a leitora que "sabe escutar", mas também coloco minha voz,  recrio junto com o autor o tempo todo, é uma disputa de poder, ou por quem vai gozar mais. Adoro. Sendo assim, sou o tipo de leitora que "é o personagem principal do romance" e que  é "capaz de se apaixonar  apaixonar por pelo menos um  personagem do livro" , Mas o fato é que se "o leitor ideal é, para um livro, a promessa da ressurreição", mantenho as obras comigo, mesmo as que eu não gostei.  em outro momento, quando serei outra, o livro também não será o mesmo e minha avaliação pode mudar. Adoro isso.
Mais do que o livro ou o autor, importante mesmo é o leitor, que dá vida e recria constantemente a obra de arte. Acredito muito nisso.❤️



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

PAZER DO TEXTO, ESCRITURAS, HISTÓRIA COM ROLAND BARTHES E GUIMARÃES ROSA


BARTHES, Roland. O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg.
5a. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010.

Na faculdade falavam (em tom de chacota) em "masturbação com o texto". Mas eu acho que é isso aí. Meu prazer é COM O TEXTO. Por isso o filme nunca é melhor que o livro, etc... Se o texto não for GOSTOSO, pra que deflorá-lo?

O prazer vem da ESCRITURA

Não foi ocasional eu ter falado da ESCRITURA de Guimarães Rosa no subtítulo do meu livro sobre Guimarães Rosa, eu já tinha lido Barthes.

livrinho delicioso 

Em "O grau zero da escritura"[escrito em 1953], Barthes defende :

"Não é dado ao escritor escolher sua escritura numa espécie de arsenal intemporal das formas literárias . É sob a pressão da História e da Tradição que se estabelecem as escrituras possíveis de um determinado escritor : Existe uma História da Escritura; mas essa História é dupla: no exato momento em que a História geral propõe - ou se impõe - uma nova problemática da linguagem literária , a escritura continua ainda cheia da lembrança de seus usos anteriores, porque linguagem nunca é inocente: as palavras têm uma memória segunda que se prolonga misteriosamente em meio às significações novas. A escritura é precisamente esse compromisso entre uma liberdade e uma lembrança; é essa LIBERDADE LEMBRANTE que só é liberdade no gesto da escolha, mas já não é mais na sua duração. " (BARTHES, Roland. O grau zero da escritura. Trad. Anne Arnichand e Álvaro Lorencini. 3a. ed. São Paulo: Cultrix, 1972. p.125)

Lembrando que Guimarães Rosa publicou seus mais afamados volumes na década de 1950.faz todo o sentido que ele estivesse respirando desse oxigênio mental. Não seria a sua escritura (escorada no método de fazer a palavra voltar a significar como era quando nasceu) fruto desse contexto PROFUDAMENTE HISTÓRICO?
É sobre isso que eu pesquisei mais de uma década, é sobre isso que trato no meu livro sobre Guimarães Rosa. 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Tereza Batista : As várias faces da heroína mítica de Jorge Amado

Quando o livro LINDO chegou
                          

Decidi que minha primeira leitura de 2022 seria Tereza Batista cansada de guerra , do Jorge Amado lá em dezembro do ano passado, porque tinha ouvido falar que ele é todo escrito em cordel (amo literatura oral) e sobretudo que Tereza (TB) seria a melhor heroína de Jorge! Quis saber , ainda nos últimos dias do ano passado me chegou essa primorosa edição da Editora Martins (1972). 

Começando pelas epígrafes que nos explicam duas coisas que não podemos esquecer que a vida de TB é uma história de de cordel! Ela, por sua vez, tem a concha muito dura para suportar todas as batalhas, mas sempre preservando  a ternura de seu interior!

Tradução do francês: "que a tua concha é muito dura para te
 permitir estar ali tenro: a ternura é como a água: invencível você gosta de caracóis?"


Sabendo que Tereza é na verdade uma heroína de cordel, o livro é todo construído assim: a cada capítulo um narrador narra uma história  contada em algum cordel  sobre Tereza Batista. O primeiro narrador já começa exaltando a valentia de TB para um interlocutor que dela pergunta, ele diz que ela 

 "carregou fardo penoso, poucos machos aguentariam com o peso; ela aguentou e foi em frente, ninguém a viu se queixando, pedindo piedade" (p. 3-4).  

 Depois fui lendo com prazer, pelo ritmo gostoso da escritura  de Jorge, mas separando a leitura pelos cinco capítulos/ cordéis. Interessante que todos capítulos apresentam uma gravura, como uma xilogravura, desenhada por Calasans Neto, que. bem ao modo da literatura oral, resume o conteúdo do texto. Aqui vou comentar capítulo por capítulo.  

1.

 

 Neste primeiro capítulo encontramos uma Tereza, que é uma sergipana, contratada como cantora de samba num cabaré de Aracaju, mas que demora um pouco a estrear seu show porque, logo ao entrar no cabaré, meteu-se numa briga com um homem que agredia uma mulher, uma coisa que ela não tolera, e tendo perdido um dente da frente, precisou esperar uns dias até que seu "dente de ouro" (representando aquela luta por uma mulher) ficasse pronto. Também conhecemos alguns personagens que voltarão a aparecer no resto do livro, pois interferirão nas guerras de Tereza, que é uma mulher bem porreta.

2.

Neste segundo capítulo, o maior e o mais difícil de ler, especialmente por uma mulher, pois conta a história de TB, tão  conhecida por todos nós, de menina pobre, que perdeu os pais num acidente ainda criança, vai ser criada por um casal de tios, Felipa e Rosalvo, ambos com segundas intenções na criança, Rosildo, caso tivesse coragem, queria  desejava matar a mulher, deflorar Tereza fugir com ela, já a tia queria vendê-la ao capitão Justiniano Duarte da Rosa, conhecido deflorador de meninas, que levava até um colar de argolas de ouro , mais de quinze, uma para cada defloração! E desse capitão, Tereza foi escrava por anos, sem nunca ter conhecido nada de bom na vida. Até que um dia surge Dan, um mocinho inconsequente, de férias da faculdade, que era amigo do capitão, mas que acaba seduzindo a jovem Tereza e a apresenta o prazer de ser mulher na cama com um homem :

"Dan seduzia Tereza. Sem querer, sem saber por que, à revelia de sua vontade, Tereza responde aos olhares - que olhos mais tristes, mais azuis e funestos, a boca vermelha, os anéis do cabelo, anjo caído do céu. Quando se foram rua afora, conversa de não acabar, Tereza escondeu no peito a flor trazida por ele. Nas costas do capitão, Daniel lhe mostrara a rosa fanada e tendo-a beijado, no balcão a pousou. Para ela a colhera e beijara; no seboso balcão uma rosa vermelha, um beijo de amor" Jorge Amado " (p,157).

  Um dia eles foram pegos em flagrante e Tereza logo percebeu que  Dan era um fraco e ela só podia contar consigo mesma para se livrar da escravidão e do capitão, nasceu a "Tereza medo acabou" (um dos nomes e guerra da TB), que defendeu primeiro a si mesma de seu senhor de escravo .

3.


Ai entramos num dos melhores capítulos do livro, onde TB é mesmo a grande  heroína! Tendo de amigado com um médico enquanto fazia a vida em Aracajú, vai viver com ele numa cidade do interior, pois ele vai assumir um posto de saúde, Mas quando veio a peste de Varíola (das tantas que assolaram o Brasil), que agora já tinha vacina, superfaturada claro, mas o que não tinha era quem tivesse coragem de sair  aplicar e cuidar dos doentes. Todos  morreram de medo de se infectar, inclusive o seu médico, e foi ela, que já tinha se vacinado na capital, a mais valente, que os políticos, os médicos, os enfermeiros, TB, percorreu as ruas miseráveis, entrou no leprosário para vacinar e cuidar. Para isso, chamou suas amigas do bordel e foram elas as heroínas contra a peste: 

Quando veio a peste, TB tinha assumido a chefia das "quengas da rua do Cancro" e a 'bexiga chegou com raiva, tinha gana antiga contra aquela população e o lugar, viera a propósito , determinada a matar, fazendo-o com maestria, frieza e malvadez, morte feia e ruim, bexiga virulenta. (...) Se não fossem a bexiga, o tifo, a malária, o analfabetismo, a lepra, a doença de Chagas, a xistossomose, outras tantas meritórias pragas soltas no campo, como manter e ampliar os limites das fazendas do tamanho de países, como cultivar o medo, impor o respeito e explorar o povo devidamente? Sem a disenteria, o crupe, o tétano, a fome propriamente dita, já se imaginou o mundo de crianças a crescer, a virar adultos, alugados, trabalhadores, meeiros, imensos batalhões de cangaceiros - não esses ralos bandos de jagunços se acabando nas estradas ao som das buzinas dos caminhões - a tomar as terras e a dividi-las? Pestes necessárias e beneméritas, sem elas, como manter a sociedade constituída e conter o povo, de todas as pragas a pior? Imagine, meu velho, essa gente com saúde e sabendo ler, que perigo medonho" (p.199-201)

Esse capítulo é maravilhoso, termina com dois Omolu (um jovem e um velho) louvando a coragem de Tereza. Ao final o capítulo assume contar a história do folheto mais verdadeiro que circula no nordeste sobre TB!  

4. 


Nesse  capítulo sabemos da  história das duas vezes em que Tereza teve a morte nas entranhas. Não foi maior capítulo, mas pelo tema tratado, acho que podia ter sido mais curto. Não me emocionou a história de amor da mocinha Tereza e o usineiro Emiliano, que ao seu modo, foi meio coronel com ela e , pela primeira vez no livro, a força da heroína TB não brilhou,enfim.


5.


Esse último capítulo achei muito bom, logo já consigo ter uma visão geral dessa obra monumental, talvez a maior em tamanho de todas as quatro protagonistas mulheres - e mesmo que a parte inspirada no cordel da "greve do balaio fechado" tenha sido longa, quase interminável, pelo menos nela Tereza aprece brilhando em valentia, ao lado dos encantados e orixás, como eu gosto e comento melhor aqui. Nesse capítulo me reconheci demais, esses orixás, esses encantados eu conheço bem e muitas vezes pensei "por que eu não li isso antes?", sinto que os encantados, os mesmos que me guardam, guardaram esse livro pra que eu lesse na hora certa, sabendo mais coisas sobre mim mesma e também a minha história, e me reconhecesse nas paginas deste romance. Isso é muita coisa. Na verdade, não queria terminar de ler o livro, mergulhei tão fundo na história de mítica Tereza, admirei tanto, gostei dela. Mesmo que Jorge Amado, muito ao modo das narrativas populares (como em Cordéis e até no Grande sertão veredas), antecipe o final em vários momentos da trama e os orixás pedem calma, pois será feliz, o final foi bem surpreendente, com a citação de Caetano, Gil, Caymmi.

Para terminar, embora eu veja a personagem TB construída com base em grandes mitos femininos, em especial as heroínas guerreiras que brilham na literatura oral, especialmente os cordéis, o próprio Jorge Amado amplia a imagem desta grande personagem:

"...lhe digo, meu senhor, que Tereza Batista se parece com o povo e com mais ninguém. Com o povo brasileiro, tão sofrido, nunca derrotado. Quando o pensam morto, ele levanta do caixão" (p. 455)

Para  Lilia Moritz Schwarcz, no artigo "O artista da mestiçagem", publicado no livro  "O universo de Jorge Amado":

"Jorge Amado nunca pretendeu ser intérprete do  Brasil, mas sempre foi"(p. 35) 

E do brasileiro como ninguém, apresentá-lo assim, declaradamente, como uma personagem feminina, bela e  mítica é muito significativo. Talvez Tereza, ao lado do meu querido Pedro Arcajo, de Tenda dos Milagres, seja uma grande personagem da literatura amadiana.

Que grande livro ... amei

Um último comentário: A obra de Jorge Amado, pelo menos a que eu conheço, é muito musical. Na festa de casamento Tereza Batista, a primeira, temos o seguinte trecho:

"Estando de violão em punho, com certeza Dorival Caymmi cantará para a noiva, não lhe compôs uma modinha? Trouxe com ele dois rapazolas, ainda muito jovens, os dois com pinta de músico, um chamado Caetano, o outro chamado Gil" (p.458).

Sim, nos romances de Jorge sempre temos gente inventada e gente real, mas o que eu lamento é que, embora Tereza Batista possa ser a melhor personagem de Jorge Amado, ninguém liga muito para ela, né? Até sua adaptação na Globo (1992) não é muito comentada! E a trilha sonora achei bonita, cheia dos Caymmis, músicos incríveis, como nós gostamos, porém chega a ser bem fraca se comparada às trilhas das adaptações de suas "parentes" para a TV ou cinema, como Gabriela (até a da novela é maravilhosa! Djavan, Tom Jobim, Fafá de Belém, Elomar, João Bosco etc ) e Dona Flor (Chico Buarque , Bituca). Isso sem falar daquele doce deleite que é a trilha de "Tenda dos Milagres" que nunca paro de ouvir (Nela tem Caetano, a voz da Nana está mais amadeirada do que nunca!)
De qualquer jeito, o que eu mais gosto das adaptações dos livros são quase sempre as trilhas sonoras, dá um som, um novo ritmo para a obra.