Não estava mais indo ao Instrumental todas as semanas, só a cada duas , depois da terapia, porque me dava preguiça de vir de casa. mas achei uma postagem TBT no Facebook, do começo do fim da quarentena:
E como estava relendo "Pele negra, máscaras brancas", de Frantz Fanon, senti de novo toda aquela dor do colonizado, que pode pirar a gente, se não lutarmos contra, então resolvi ir fazer o que eu mais amo, ouvir música ao vivo.
Antes me arrumei toda de africana, porque era um grupo África-Brasil e eu estava curiosa. Eu tinha começado uma paquera com um negro lindo, mandei fotos para ele, até a mandando beijinho, pois é preciso ir atrás do que a gente quer, dar uma ajudinha pro destino, né?
Claro que minha mãe qui botar água no meu chopp e perguntou se eu ia a um baile de carnaval toda de vermelho. Ignorei. Quando cheguei no Teatro Anchieta, amei que o palco estava todo de vermelho, como eu ! Sintonia!
No site do instrumental explicam sobre o show :
O show foi ótimo, surpreendente, musicalidades diversas, simplesmente amei! Uma mistura África Brasil, indo do Senegal e também que flerta com samba, funk, jazz e ritmos de nações que não ouvimos tanto, Mali, Burkina Faso, Nigéria (tipo Fela Cuti) ... Como sempre no Instrumental: coisa muito fina, como pode conferir aqui:
Fiquei tão feliz que logo fiz um reel, que está circulando no Instagram
E foi isso! Até o próximo show, até o próximo love 🥰
Gosto muito de "Contos Novos",do Mario de Andrade, acho até difícil escolher um conto só, mas quando tive que escolher um para um trabalho no curso de Literatura Brasileira Modernismo primeira geração, escolhi "Frederico Paciência", um texto belíssimo, possivelmente com traços biográficos de Mário. O fato é que ele retrata as dificuldades de relação e afetividade entre dois garotos na primeira metade do século XX. Infelizmente eu perdi esse trabalho,mas sei que tirei nota máxima A, me apaixonei pelo conto.
Umtrecho:
"Agora falávamos intensamente de nossa "amizade eterna",projetos de nós vermos diariamente a vida inteira, juramentos de um fechar os olhos do que morresse primeiro. Comentando às claras o nosso amor de amigo, como que procurássemos nos provar que daí não podia vir nenhum mal, principalmente nenhuma realização condenada pelo mundo. Condenação que aprovávamos com assanhamento. Era um jogo de cabeças unidas quando sentávamos para estudar juntos, de mãos unidas sempre, e alguma vez mais rara , corpos entrelaçados nos passeios noturnos. E foi aquele beijo que lhe dei no nariz depois, depois não, de repente no meio de uma discussão rancorosa sobre se Bonaparte era gênio , eu jurando que não, ele que sim. - Besta! -Besta é você! Dei o beijo, nem sei! parecíamos estar afastados léguas um do outro nos odiando. Frederico Paciência recuou, derrubando a cadeira. O barulho facilitou nosso pavor interno, ele avançou, me abraçou, me abraçou com ansiedade, me beijou com amargura,me beijou na cara em cheio dolorosamente. Mas logo nos assustou a sensação de condenados que explodiu, nos separamos conscientes. Nos olhamos no olho e saiu o riso que nos acalmou. Estávamos nos amando de amigo outra vez : estávamos nos desejando, exaltantes no ardor, mas decididos, fortíssimos, sadios."
Muito lindo, né? Se possível eu recomendo muito a leitura do texto na íntegra, disponível aqui!
ANDRADE, Mario de. "Frederico Paciência"(1924-1942) , in "Contos novos", São Paulo:Klick,1997, p. 105)
Mais uma terça feira grande, terapia mais instrumental.
Sai bem simples, jeans e camiseta, mas até bonitinha ...
Com Lygia e batom nude: lábios roxos
Teve o jantar, bem gostoso
O show sensacional você pode conferir aqui
Sobre terapia e show fiz um comentário geral nas redes:
MORGANA E MARCELO: Como sempre o instrumental de hoje foi sublime. Uma dupla de baianos, uma flautista e um violinista fazendo um som autoral danado de bonito. No começo, eu ainda muito mexida pela sessão de terapia (hoje foi cirúrgica! 😌), chorei como uma criança, mesmo com o convidado , o baixista excepcional Michael Pipoquinha...eu sentia que o som limpo e bonito ia limpando minhas feridas devagar. Aí eles mudaram o repertório, e começou a tocar Choro, Jacó do Bandolim e uma alegria brilhou em mim, até que o meu primeiro presente veio lindo: a segunda convidada foi ninguém mais, ninguém menos que a Xêina Barros! Ai que emoção! Aí que o choro correu solto e eu redescobri porque assisto ao Instrumental! Mas no final ainda tinha mais um presente pra mim :as perguntas presenciais voltaram e como sempre tem musicistas na plateia, é minha chance de aprender mais. Uma das perguntas pra Morgana foi sobre a técnica da respiração em composições de notas tão juntinhas (juro que ele perguntou assim mesmo ) e ela falou de duas técnicas, uma delas, nas músicas de "notas tão juntinhas", a técnica era dela ir acumulando o ar para usar na hora certa (mais ou menos isso), eu adorei a resposta porque eu ouvia o tempo todo ela tocando, sugando o ar para respirar: fantástico!
Mais uma vez eu só tenho a agradecer ao Instrumental Sesc Brasil, por tanto! 😍
Vi esse meme e achei que fosse um meme,mas uma verdade, que devo seguir,por mais que doa. Vida que segue .
Aí comecei a ler um conto da Lygia... E cês sabem, agridoce.
Os girassóis murchando : amarelos sobre um fundo amarelo ! Muinga vida...
O DIREITO DE NÃO AMAR : Mais um agridoce conto/rememoria de Lygia, onde ela recorda um amigo/confidente da juventude que sofria por um amor não correspondido, e que achou a vingança amarga no ponto ideal (Lygia, né gente?), ao modo Girassóis de Van Gogh:
"Ele dava murros na parede, Ela não tinha o direito de fazer isto! Esta confidente entrava então com o mesmo arrazoado que era sempre o mesmo, O problema é que ela não te ama, está apaixonada por outro, não te amar é um direito que ela tem,ficou claro?
Não ficou claro não porque ele se levantou feito um raio e jurou matá-la e se matar em seguida,fazer parte da tal fuzilaria. Ainda bem que tive o pressentimento de que ele não ia cumprir as ameaças. Sumiu durante algum tempo,misteriosamente andou sumido até reaparecer sorridente e calmo, Ela foi escolher um cara pobre e manco que vai chateá-la até o fim. (...) Grande solução, a vingança ideal.(...) Restou a lembrança daquela original maneira de se vingar a longo prazo: deixar que o próprio tempo na sua marcha natural vá cometendo todos os desatinos que ele planejou.(...) Ocorre-me hoje a fórmula que hoje me parece ideal e tão mais simples que se resume numa só palavra, renuncia.(...)
Renunciar com o coração limpo, mas tão limpo que mesmo no abandono ele terá forças para ver a amada assim como um girassol na despedida do crepúsculo. E desejar que ao menos ela seja feliz."
(Lygia Fagundes Telles "O direito de não amar". In: "Conspiração de nuvens". Rio de Janeiro: Rocco, 2007, p.109-10)
Um comentário de Saramago sobre Lygia, a grande escritora